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Biografia

Raymudo Antonio da Rocha Lima

morreu em 1878

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Foi amanuense da Secretaria do Governo e bibliothecario da Bibliotheca Publica e isso tão somente esse que a critica tem sagrado a mais bella e justificada esperança das letras cearenses do seu tempo.

Falleceu aos 23 annos de edade lia cidade de Maranguape a 1 hora da madrugada de 28 de Julho de 1878.

Foi estrella de primeira grandeza na constellação brilhante de que faziam parte, por aquella epocha, Capistrano de Abreu, Thomaz Pompeu, Xilderico de Farias e outros.

A obra capital de Rocha Lima é a Critica e Litteratura; 182 pp., Maranhão, Typ. do Paiz, Imp. Christine V de Campos, 1878, com um bello prefacio de João Capistrano de Abreu. Ha della uma 2.a edição publicada em Fortaleza em 1913 na Typ. Minerva, de Assis Bezerra, editor.

Conheço delle ainda O Direito de punir, conferencia feita no palacete da Assembléa Provincial a 15 de Agosto de 1877 e o Discurso pronunciado perante o Gabinete Cearense de Leitura na sessão solemne de 2.o anniversario a 2 de Dezembro de 1877. Este ultimo encontra-se publicado com o Relatório do respectivo presidente, o Pharmaceutico João da Rocha Moreira (vide) e sahiu impresso também na 2.a edição da “Critica e Litteratura”.

Rocha Lima foi assíduo collaborador da Fraternidade, jornal maçónico publicado em. Fortaleza em 1873—1875, e um dos fundadores da Escola Popular, escola nocturna destinada a operários.

Foram seus progenitores Miguel Antonio da Rocha Lima e D.a Maria Bezerra, de origem pernambucana. Seu avô, também de nome Miguel Antonio, fez papel importante na Independência, e governou o Ceará como vice-presidente em 1831. Era da família Moreira Silveira (Preá).

Dizendo da trajectória no mundo desse superior talento, tão cedo roubado ao orgulho e á admiração dos conterrâneos, estampou a Gazeta de Noticias, do Rio, em sua edição de 22 de Junho de 1879 os seguintes conceitos:

A moderna critica teve entre nós um grande interprete. Chamou-se Rocha Lima, e foi uma heroicidade modesta, uma consciência immaculada. Viveu ignorado das summidades litterarias do Paiz e só as encontrou no seu caminho com o ar cathedratico dos primeiros occupandos.

Em julho do anno passado deixou de viver, e com elfe perdeu a moderna geração um dos seus mais valentes companheiros e a mais completadas vocações criticas.

O livro posthumo de Rocha Lima—Critica e Litteratura—só incompletamente deixa ver o auctor, conforme a phrase de Capistrano de Abreu, seu illustre conterrâneo e muito idôneo biographo, porque, seu igual pelo talento e pela illustração, teve com elle a mais intima privança.

Não obstante, o livro é um corpo de doutrina athletico e sadio, que abrange a litteratura nas suas tres grandes manifestações, o romance, o drama e o poema, e a sciencia pela historia e a moral politica.

O aço da sua penna era temperado nas forjas inextinguíveis em que temperaram as suas Augusto Cointe, Littré, Spencer, Bournouf, Stuart Mill, os obreiros da renovação moral.e intellectual da humanidade contemporânea.

A sua critica, semelhante á de Véran, tem por base o conhecimento hierarchico das sciencias; serve-se do processo desapaixonado do anatomista, do chimico e do botânico, já dissecando, fibra a fibra, a obra que estuda, já seriando, combinando, classificando os elementos com que o meio contribuiu para tal estructura.

Nenhuma proposição lhe escapa pelo calor do enthusiasmo; o seu raciocinio conclue com um longo final da demonstração de um theorema.

Prova evidente do que affirmamos é o seu estudo da Legenda de um Pariá, drama do dr. Filgueiras, e a proposito do qual traça um parallelo entre o drama e o romance.

Ahi o seu estylc finamente lapidado, de uma sobriedade extrema, mas de um colorido vivo como o de um impressionista, casa-se a uma erudição vastíssima para demonstrar a excellencia do romance na representação inteiriça do homem psychologico.

No romance, como era de esperar de um espirito de eleição, Rocha Lima prefere e pede o realismo, para que o homem não seja mutilado e a arte não degenere na monomanía amorosa. Armado pela sciencia, o jovem cearense não trepidou convidar á lucta o mais brilhante dos nossos romancistas. José de Alencar, e provar-lhe que o estado mental da nossa epocha exigia mais do que os typos convencionaes dos seus romances ; queria os estudos sinceros que deixam á lama a sua repellencia, á estrella o seu brilho, á heroicidade o seu direito ao culto, á miseria a entrada do asylo, á perdição o caminho da policia correccional, ao crime o numero nas galés, á hypocrisia a golilha da historia.

Em politica Rocha Lima era republicano convencido. Não o agitavam os sobresaltos do empirismo e, como não fazia das suas idéas gazúa para abrir as portas das altas posições, limitava-se a provar e a esperar.

Os triumphos republicanos no mundo inspiravam-lhe phrases enthusiasticas acerca do futuro da patria e o seu espirito regosijava-se como os prophetas israelitas ao verem approximar-se o fim do captiveiro.

A historia era para o auctor da Critica e Litteratura um estudo que nada se parece com os nossos cursos officiaes. Discípulo de Augusto Comte, sabia que a sociologia “possue um methodo idêntico ao das sciencias naturaes, um grupo determinado de phenomenos, que são as acções humanas em concurrencia social e uma lei irreductivel, que é a evolução”. Era assim que elle estudava a historia e lhe apreciava o valor scientifico.

Rocha Lima foi homem de trabalho serio, amava a sciencia apaixonadamente e só a ella se sacrificava.

Muito moço para ter interesses partidários, só o que era nobre e puro merecia-lhe respeito.

O seu livro é um testemunho eloquente do seu caracter e, se a sabedoria pode ser julgada em relação á idade, a Critica e Litteratura é um livro escripto por um sábio de vinte e tres annos.

A mocidade brasileira ganhará muito em lêl-o e medital-o”.