Pertencia á antiga familia Feitosa. Nasceu na freguezia de Arneiros, comarca de Inhamuns, sendo seus paes José Custodio de Bizerril e D.a Euphrasia Alves Feitosa, irmã de Leandro Jucá e Manoel Jucá e sobrinha do Coronel Lourenço Alves Feitosa e Castro, e alli aprendeu as primeiras letras.
Muito criança veio para Fortaleza e no antigo Lyceu, onde foram seus condiscípulos Julio Cesar, Symphronio, Daniel de Queiroz e Xilderico, e no Atheneu Cearense, onde o tive por collega, aprendeu o latim, português, francês e geographia.
Sequioso de illustrar a intelligencia, seguiu para a Bahia e matriculou-se no Gymnasio, de propriedade do Dr. Abilio C. Borges, que era então o Collegio preferido das famílias cearenses, mas a morte de seus paes e os prejuisos resultantes da secca cortaram-lhe os meios e impediram-o de seguir o curso de Medicina, corno aspirava; fez-se, então, jornalista e entrou para o Diário de Noticias, que illustrou por quasi 20 annos.
A frente do Diário substituiu-o Américo Barreira, outro cearense de grande merecimento, fallecido em Julho de 1910 em Quixeramobim.
Havendo-se casado e sendo-lhe impossível manter a família com os poucos rendimentos que lhe advinham do officio da imprensa, dedicou-se á vida de professor particular e mais tarde, já mui conhecido pela publicação de alguns trabalhos, inscreveu-se para a cadeira de Português e.Língua Nacional da Escola Normal, sendo aproveitado numa reforma e nomeado lente cathedratico do então Instituto Official e depois Gymnasio da Bahia,
Na sua longa e brilhante vida de jornalista ha um facto que por ser excepcional quero deixar aqui consignado: o Congresso Bahiano ofiereceu-lhe a riquíssima penna de oiro com que foi assignada a Constituinte acompanhando esse mimo um cartão também de oiro com os dizeres: A R. Bizarria, o jornalista que melhores serviços prestou á Constituinte.
Outra distineção de valor não menor e de elevada significação foi a medalha de bronze com que a Libertadora Bahiana galardoou seus inolvidáveis serviços na campanha abolicionista.
Ao retirar-se do Diário de Noticias toda a Imprensa dirigiu-lhe phrases encomiásticas, merecidos elogios, avultando entre os órgãos de publicidade empenhados nesse tributo de justiça o Diário da Bahia, jorna! dos Conselheiros Dantas, Saraiva, Couto e Augusto Guimarães. Todos quantos conheceram, como eu, o valor moral e o prestigio social dos Bahianos cujos nomes vão citados, podem calcular bem a importância do preito rendido aos méritos de Bizarria pela imprensa, que delles recebia inspiração.
Quem tem sentido a embriaguez da vida jornalística, seus triumphos e suas desillusões, difficilmente se sugeita a manter-se delia affastado e mais cedo ou mais tarde volve aos braços dessa amante cheia de caprichos e de promessas seductoras; não admira, pois, que Bizarria jamais deixasse de collaborar ora neste ora naquelle jornal, batalhando sempre pelos bons e sadios ideaes, norteado pelos reclamos da verdade e pelas suggestões do patriotismo.
Na Bahia, sua ultima tenda de trabalho, publicou elle As Novenas, o Hospede, o Pescador e outros muitos escriptos, nos quaes se descobre como característica a nota plangente, o fundo religioso.
Delle conheço também uma lenda muito nossa, o Ninho de soffrer, os perfis de Castro Alves, Capistrano de Abreu e Bellarmino Barreto e estudos críticos sobre Xavier Marqúese sobre o Diccionario de Beaurepaire Rohan.
Havendo perdido a esposa e transferido o seu colle-gio aos Padres Jesuítas, Bizarria veio pedir ao Ceará o chão de sua sepultura e aqui se finou, em Fortaleza, a 2 de Outubro de 1911.
Eis a traços largos a biographia desse patricio que na cathedra, quer como professor do Gymnasio quer como director do Collegio Florencio, e na imprensa, tanto politica como lideraria, tanto honrou o nome cearense.
A' força de caracter, a golpes de vontade inquebrantável Raymundo Bizarria abriu caminho por entre mil tropeços e conseguiu collocar-se em posição prestigiosa e invejável na sociedade brasileira. Eis um que pode servir de modelo aos moços de todos os tempos.