O maior philanthropo que o Ceará produziu.
Nasceu em Cauhipe, junto a Soure, a 6 de Novembro de 1831 e falleceu de uma lesão cardíaca em Fortaleza a 4 de Setembro de 1876.
Foram seus progenitores Felisberto Corrêa da Cunha, brasileiro, e D.a Custodia Ribeiro da Cunha, portuguesa.
A 23 de Outubro o Imperador concedeu-lhe a precisa licença para acceitar o titulo com que fora agraciado, e dous annos depois por Dec. de 17 de Abril fêl-o Commendador da Ordem da Rosa. Alvará de 12 de Maio de 1874 fêl-o Moço Fidalgo com exercido na Casa Real de Portugal.
D.a Euphrasia Gouvêa da Cunha, Viscondessa de Cauhipe, com quem casou a 14 de Janeiro de 1860, nasceu em Fortaleza a 16 de Junho de 1836 e falleceu 5 mezes e 5 dias antes do seu esposo. Os restos mortaes de um e outro estão sepultados no cemitério de S.João Baptista, 1.° plano, á mão direita, em monumento erguido pelo amor e piedade de seus filhos que também alií descançam: Luísa da Cunha Studart, nascida a 10 de Dezembro de 1864 e fallecida entre as lagrimas e saudades de seu marido e de seus oito filhos ás 9 horas da noite de 16 de Setembro de 1898, e Luis O. da Cunha, nascido a 12 de Setembro de 1871 e fallecido em Fortaleza a 3 de Julho de 1903, victima de moléstia adquirida no clima inhospito de Manáos, onde exercia o cargo de Guarda-mór da Alfandega.
D.a Euphrasia era filha do Commendador Manoel Caetano de Gouvêa, Cavalleiro de Christo, 1.° Cônsul Português no Ceará, onde falleceu a 21 de Março de 1863, havendo nascido em Lisboa a 8 de Maio de 1791, e de sua esposa D.a Francisca Agrella de Gouvêa.
No N.° 7 do Ceará Illustrado encontram-se o retrato e a biographia do benemérito Visconde de Cauhipe. A biographia diz assim:
Nenhum filho do Ceará tem mais direito a figurar na galeria de seus homens illustres do que o Visconde de Cauhipe, uni dos maiores caracteres que temos conhecido, posto e disposto sempre ao serviço abnegado de um magnânimo coração.
Não se é grande somente pelas armas e pelas lettras; ha uma grandeza superior, é a grandeza moral, grandeza máxima, culminância do aperfeiçoamento social, vértice luminosíssimo da humanidade pura, e por ella, exclusivamente por ella o Visconde de Cauhipe tornou-se digno de si e de todos nós, que ainda recebemos o influxo poderoso de sua acção individual, no conflicto interminável e renhido da existência.
Não pretendemos hoje biographal-o, tal qual exigia a sua vida exhuberante de actos generosos, uma verdadeira torrente ininterrompida de benefícios. A indole e o estreito espaço de uma publicação periódica não toleram matéria tão delicada em seus detalhes e tão vasta no seu conjuncto. Além disso, não faríamos mais do que reproduzir ociosamente o que existe ainda palpitante de realidade na memoria grata e perenne de todos e se repete a cada canto, como uma licção, um ensinamento, que vai tomando as proporções de uma legenda tradicional.
A bocca popular é a verdadeira tuba canora da posteridade, que não mente e não sabe mentir, porque o sopro,, que a faz vibrar, sahe espontaneamente e irresistivelmente do próprio coração; e só aos seus clangores desperta a musa épica da historia, que inspira sine ira et studio, na sua eterna e inviolável virgindade, guarda indefectível da lâmpada sempre accêsa da verdade.
A existência do Visconde de Cauhipe teve um ideal, uma orientação para um alto fim, fim que só podem visar as almas de eleição, como o norte da bússola, que fixa eternamente o polo magnético. Viveu com o sentimento intenso da posse consciente e plena de suas tendências, dominadas pela paixão do bem, nas obras de sympathia, de piedade e de solidariedade humana.
Era o typo completo do fidalgo da alta linhagem do trabalho, da aristocracia da virtude, que podia dizer o que dizia de si Napoleão—A minha nobreza data de mim.
Era politico, de politica generosa, rasgadamente progressiva, que tem por ideal a realisaçãodo direito, por norma e pratica de acção o respeito ás leis, por fim ultimo o engrandecimento moral e econômico dos povos.
Acreditava na sua missão, como um predestinado, e realisou-a, semeando o bem por toda a parte, bem cujos fructos segurados vamos todos os dias colhendo.
Assim como não podemos modificar a substancia de um átomo e nem supprimir um ponto no espaço, assim também não nos é dado alterar a physionomia moral, a expressão de um caracter, imperativamente categórico, cujos motivos de acção servem de fundamento exemplar, como se fosse uma lei.
A memoriado Visconde de Cauhipe não pode perecer, porque não perece o coração humano. Hade perdurar, como uma fonte de estímulos vivazes e de nobres ambições.
O seu nome, que se acha gravado indestructivamente em todas as obras de beneficência, que fazem a cultura de nossos sentimentos affectivos, tem só por si, independente das convenções sociaes, o poder de um lemma de guerra nas lutas da caridade.
Em sua lapide sepulchral o Ceará inteiro ajoelha-se e o bemdiz. É um morto vivo no coração de todos.
Severiano Ribeiro da Cunha, Visconde de Cauhipe, nasceu a 6 de Novembro de 1831 e falleceu a 4 de Setembro de 1876.
Abraçou a tida do commercio, conquistando n'ella, por um labor constante, uma fortuna regular. .
Exerceu diversos cargos políticos, desempenhando-os com a bella e heróica serenidade d'aquelles que sabem cumprir o seu dever, custe o que custar, e se contentam somente com a satisfação da propria consciência.
No exercício d'esses cargos nunca conheceu as múltiplas e polymorphas conveniências do partidarismo, que sahem douradas do interesse egoístico como de um banho voltaico.
O Asylo de S. Vicente de Paulo é producto de sua creação, e sua iniciativa veio do facto de ter contemplado, errante e perseguida, andrajosa e faminta, uma pobre louca nas ruas d'esta cidade.
A Santa Casa de Misericórdia deve-lhe muito e muito, e pode-se dizer, sem hyperbole, que ao seu impulso fecundo elevou-se á altura em que ora a vemos como um completo monumento de caridad”. Foi por alguns annos o seu Vice-Provedor, e durante o tempo de seu mandato considerou-a como um prolongamento do seu lar.
A morte surprehendeu-o quando projectava realisar um dos mais instantes melhoramentos do Ceará, cuja necessidade cada vez mais se torna imperiosa: o do serviço dos esgotos.
Elaborara igualmente o projecto e tinha reunidos todos os elementos para uma estrada de ferro para o norte do Estado.
O que tracejamos largamente neste ligeiro e rápido esquisso, apenas delineado para simples satisfação de um dever imposto pela nossa missão, nada é, se penetrarmos no sanctuario de sua vida intima apanhando-a em plena flagrância.
Ahi, porém, não nos é dado entrar, para trazêl-a á luz do sol da publicidade. Todos sabem pelo coração o que la se passava debaixo do olhar de Deus.
Era o Visconde de Cauhipe Vice-Consul d'Austria e Moço Fidalgo da Casa Real de Portugal. Era Tenente-Coronel da Guarda Nacional e Coinmendador da extincta ordem da Rosa.
Seu nome baptisa um dos mais lindos e opulentos boulevards da cidade.
O Ceará Illustrado presta-lhe assim o seu tributo de analyse civica, ornando-se hoje com o seu retrato, cuja contemplação deve ser e é para todos nós fervoroso estimulo para caminharmos sem vacillações e incertezas na via larga do dever moral, da honra e da dignidade”.
No livro Famílias Titulares e Grandes de Portugal a noticia sobre Severiano Ribeiro da Cunha remata assim;
Visconde—Decreto de 1 de Março de 1873.
Brazão d'Armas—Escudo esquartelado, tendo o superior da direita e o seu alterno interceptados cada um por tres faxas de prata, carregadas cada uma com uma flor de liz purpurina, e dispostas em banda, e aquellas sobre o campo verde: o superior da esquerda e o seu alterno, carregadas cada uma por nove cunhas azues collocadas em tres palas, de tres cada uma sobre campo de ouro, e com orla carmezim, carregada por sete castellos de ouro, sendo tres em chefe, e. os restantes egualmente repartidos pelos lateraes.
Brazão concedido ao Visconde de Cauhipe por Alvará de 16 de Março de 1874 (Regist. no Arch. Nac. da T do T. Mercês de D. Luiz I, Liv. XXIV a fl. 243 v)