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Biografia

Antonio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro

nasceu em 1828

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Nasceu em 1828 em Quixeramobim, onde tinha commercio seu pae Vicente Mendes Maciel. Desgostos domésticos levaram-o a uma vida de ascetismo e de peregrinações a principio pelo interior do Ceará e depois por Sergipe e Bahia. Acompanhado de crescente multidão, subjugada pelo seu modo de viver e pelos discursos que proferia cheios sempre de assumptos religiosos, o Conselheiro percorria as localidades do sertão, levantando egrejas, fazendo cemitérios, creando povoados. D'ahi a enorme ascendência, que exercia sobre o povo, seu extraordinário prestigio entre as classes inferiores.

Os ajuntamentos a que sua presença dava occasião, as theorias religiosas, que pregava, puzeram em sobresalto as autoridades civis e ecclesiasticas, mas não se encontrando em seu procedimento acto algum delictuoso deixaram-no em paz, e assim foi a Republica encontral-o.

Estabelecendo-se no arraial de Canudos, embreve esse logarejo tomava proporções de um grande povoado, tal a affluencia de povo que corria de diversos Estados a ouvir as predicas do santão. Sua influencia ia sendo aproveitada pelos chefes da politica local, que por isso o protegiam, até que em 1896 um rompimento de Antonio Conselheiro com o Commissario de policia de Joaseiro deu inicio a essa triste e miseranda lucta, que custou tanto sangue ao paiz. Conta-se que dito Commissario entrara em negocio com o Conselheiro para fornecer-lhe uma certa quantidade de madeiras precisas para a nova Egreja de Canudos, recebera de antemão a quantia estipulada mas se recusara a entregar a madeira e o dinheiro ; d'ahi questões e perseguições aos habitantes da localidade, que todos se haviam, collocádo ao lado do chefe e director espiritual.

Crescendo os conflictos, interveiu o governo da Bahia que enviou tropas para.alli. Derrotada a tropa policial Bahiana, recorreu o presidente Luiz Vianna ao Governo Federal, que por sua vez enviou tres expedições, a primeira sob o cominando de Febronio de Brito, que se salvou e a sua gente graças a uma boa retirada, a segunda commandada por Moreira Cesar que foi batido e morto a 4 de Março de 1897 e a terceira sob as ordens do general Arthur Oscar, cujas tropas lograram exterminar os habitantes.

Para esse fim houve recurso aos meios mais deshumanos, que não convém registar a bem dos nossos foros de nação civilisada e christã:

O desastre de Moreira Cesar abalou o paiz inteiro, e do Ceará foi transmittido ao deputado, federal Dr. Frederico Borges o seguinte telegramma :

O povo cearense, representado por todas as classes, e reunido na praça publica, pede-vos sejais interprete de seus sentimentos que dominão perfeita communhão dos republicanos brasileiros no momento angustioso da patria, alanceado o coração da Republica trahida, reclamam vingança para as nobres victimas dos sicarios restauradores, O Ceará guarda no fundo da alma o pranto que devera regar o tumulo sagrado de Moreira Cesar. De pleno accordo com o appello da pátria. Affirmai poder publico, classes aranadas da Nação, que nobremente representais, que o peito cearense accende mais vivo o amor ás instituições democráticas quanto mais temeroso é o perigo a affrontar.—João Lopes, deputado federal; José Accioly, secretario do interior; Graccho Cardoso, redactor da Republica ; Waldemiro Cavalcante, deputado estadoal ; João Barreto, alumno militar ; Napoleão, commercianíe; Gonçalo Nascimento, artista; Pedro Rocha, redactor do Ceará”.

Moreira Cesar foi morto por tiro de carabina, carregada com ponta de chifre. Diziam os jagunços, que assim eram chamados os partidários do Conselheiro, que elle tinha mandinga e para tiral-a só bala de chifre. Da semelhança do ferimento com o produzido pelas balas Manulicher concluiu o espirito partidário que o movimento de Canudos era auxiliado e largamente favorecido pelos monarchistas do paiz, o que se verificou ser uma inverdade, uma balela tão somente. Chegou-se a affirmar até a presença de officiaes extrangeiros dirigindo os Canudenses.

Antonio Conselheiro succumbiu á dysenteria, que grassava em Canudos, e a 6 de Outubro de 1897 procedeu-se á exhumação do seu cadáver sendo esse trabalho feito por uma commissão medica, composta dos Drs. Major José Curió, Capitães Mourão e Gouveia Freire, Tenente Jacob Gayoso e sexto annista João Ponde. É este o respectivo auto:

Aos seis dias do mez de Outubro de 1897, os abaixo assignados examinaram, por ordem superior, os escombros da casa denominada Santuário, residência de Antonio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, onde se presumia existirem os seus despojos mortaes, dando como resultado o exame, que se limitou á situação e habito externo, o seguinte:

Na encosta da parede interna, n'uma das tres secções em que se divide a referida parede, encontrou-se uma sepultura guardando um cadáver com os seguintes caracteres : braços cruzados no peito, deitado sobre uma esteira de carnaúba e envolto n'um lençol branco. Vestia longa túnica de panno azul costurado na fímbria; a cintura abotoada d'ahi até a gola, tendo por baixo dessa túnica uma camisa e ceroula de algodão nacional. Calçava alpercatas de sóla.

O cadáver media um metro e sessenta de comprido, era de côr morena e edade presumível de sessenta ou cincoenta e cinco annos. Estava em começo de putrefacção e apresentava cabellos negros, longos e bastos, fronte estreita, rosto largo e magro de maçans salientes, guarnecido de barbas longas, nariz destruído na porção musculosa, a maxilla inferior, como a superior, desprovida de dentes; mãos descarnadas e pés pequenos.

Concluído o exame, que não poude ser levado adiante pela deficencia de meios, reconhecemos pelos signaes descriptos e pelo testemunho de muitos prisioneiros e varias pessoas presentes, entre as quaes o membro presente da commissão acadêmica, João Ponde, ser o corpo de Antonio Vicente Mendes Maciel, conhecido por Antonio Conselheiro, que ahi residia como chefe de um núcleo de fanáticos e aventureiros da povoação de Canudos, no sertão da Bahia. Seguem-se as assignaturas “.

Acerca da lucta de Canudos lêa-se o notável e nunca assás elogiado livro Os Sertões, saído da penna do inolvidável e mallogrado Euclydes Cunha.

O espantoso ascendente, que Antonio Conselheiro exerceu sobre os sertanejos da Bahia e que os levou a se deixaram exterminar, velhos, creanças, mulheres, aos milhares, vinha de longa data. Já em 1879 Sylvio Romero o descrevia assim nos Contos Populares :

Um individuo criminoso do Ceará, escreve o illustre critico, sahiu a fazer penitencia a seu modo e inaugurou predicas publicas... No seu percurso veio ter aos sertões da Bahia e fundou uma egreja" em Rainha dos Anjos. Chamava-se Antonio e o povo o denominava — Conselheiro. Passou por Sergipe, onde fez adeptos.

Pedia esmola e só acceitava o que suppunha necessário para sua subsistência, no que divergia dos nossos mendigos vulgares. Não tinha doutrina sua, e andava munido de um exemplar das Horas Mariannas, donde tirava a sciencia! Era um missionário a seu geito. Com tão poucos recursos fannatisou as populações que visitou, que o tinham por Santo Antonio Apparecido. Pregava contra os pentes de chifre e chalés de lan e as mulheres queimavam estes objectos para o satisfazer.

A musa popular vibrou a seu respeito e exhalou-se cu quadras como estas:

Do céo veio uma luz que Jesus Chrisío mandou , Sant’Antonio Apparecido dos castigos nos livrou.

Quem ouvir e não aprender, quem souber e não ensinar no dia de juizo a sua alma penará”.

Sob o título “Antonio Maciel, o Conselheiro” publicou em 1858 na Bahia Julio Cesar Leal um drama em 4 actos, que foi reproduzido em folhetim no Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, por occasião dos acontecimentos de Canudos.