Segundo Diccionario Bio-bibliographico Cearense
É um cearense que tem adquirido incontestável renome graças á perseverança, aturado estudo e talento revelados na brilhante carreira a que se entregou com verdadeira paixão desde a tenra edade de 8 annos.
Nasceu em Fortaleza a 6 de Julho de 1864 e teve por genitor o maestro Victor Nepomuceno, que todos nós aqui conhecemos e que transportando-se com a familia para Pernambuco foi alli um dos professores mais queridos e procurados e, pode-se dizer, o introductor da musica clássica.
Sob as vistas do pae e obedecendo as próprias inclinações, Alberto Nepomuceno de dia a dia fazia mais accentuada sua personalidade artística e alargado o circulo dos amigos e admiradores, conseguindo até, e na edade de 18 annos, substituir ao maestro Euclides Fonseca como director de concertos do Club Carlos Gomes, quando a morte privou-o e á familia do amparo e amor do chefe dedicado.
As necessidades materiaes, então desmesuradamente maiores, não abateram o espirito do joven musico, antes foram estímulos a apurar-lhe a rara vocação
Eil-o que volta ao torrão natal e aqui entrega-se á vida do professorado, mas o destino o convida a scenario mais vasto.
Deixando mãe e irmã entregues aos cuidados de um thio, seguiu para o Rio de Janeiro sem recommendações e sem recursos; elle sentia, porein, possuir as melhores credenciaes, os melhores titulos de apresentação no valor dos próprios merecimentos como homem e como artista.
No Rio, continuando os estudos e attrahindo a attenção publica, foi acceito no Club Boethoven como virtuoso executante e appareceu em concertos e reuniões musicaes ao lado de Arthur Napoleão e de White, violonista, que, lhe conhecendo o talento e os dotes, serviam-lhe como de guias. Um outro seu admirador e amigo era Bernardelli a quem tanto deve a arte da estatuaria no Brasil.
Animado por esses e outros amigos que se comprometteram a custear-lhe as despezas de viagem e residência, decidido a viajar e a conhecer a musica nos seus centros de maior cultura e aproveitamento, preparou-se Alberto Nepomuceno a atravessar o Oceano, mas antes deliberou fazer algum pecúlio dando concertos pelas províncias do Norte em companhia do distincto violoncellista Frederico do Nascimento.
São desse tempo seus concertos no nosso Club Iracema em que mais de uma vez os laureados artistas foram devidamente applaudidos e saudados pelo que de mais selecto possuía a sociedade Cearense.
Emprehendida a viagem ao extrangeiro, em 1888, Alberto Nepomuceno freqüentou vários Conservatórios, como por exemplo o de S. Cecília em Roma, tendo tido a felicidade e o bom gosto de estudar sob a direcção de mestres da ordem de Sgambatti, Terziani e de Sanctis.
Da Itália concorreu para o concurso do Hymno da Republica Brasileira, obtendo "o 2.° prêmio, que lhe dava direito a Uma pensão de 550 francos mensaes por 4 annos.
O mérito dessa sua composição avulta si se considerar no curto tempo de que dispoz para preparal-a devido á distancia em que então se achava do Rio de Janeiro, donde um amigo lhe transmitiu pelo telegrapho a letrado Hymno.
Coube a Miguez o 1.° prêmio com o donativo de vinte contos, que, aliás, não recebeu, fazendo delles offerta ao Conservatório do Rio de Janeiro sob a forma de um esplendido orgam.
Graças á pensão poude seguir para Zurich afim de estudar o allemão e assistir ás grandes audições do Tonhalle, onde foram executadas peças de sua lavra.
De Zurich partiu para Berlin e ahi foi acceito na Escola dos Mestres sob a direcção de Herzogenberg, seu professor de composição, e depois freqüentou o Conservatório Stern ouvindo as lições de Arno Kleffel.
Prolongada sua pensão por mais 2 annos, seguiu para a Capital de França afim de aperfeiçoar-se em orgam com o professor A. Guilmant, o que conseguiu com pleno successo.
Da volta á pátria em 1896 assumiu o logar de professor de orgam no Instituto Nacional de Musica, honra com que fora distinguido ainda quando na Europa. Desde então datam seus esforços e triumphos na reforma da musica sacra entre nós.
Entre suas muitas composições de verdadeiro mérito e nas quaes se revela a prodigiosa fecundidade de seu cérebro notam-se os “Romances Brasileiros,” alguns delles com palavras do nosso poeta Juvenal Galeno, prelúdios, coros e musica de scena para a Opera “Electra”, assumpto grego traduzido em verso por Chabault, que foi representada em Pariz na saia de Saint-Barbe des Champs,. “Symphonia,” diversos trechos para orchestra e a musica para a Opera em um acto “Artemis”, de Coelho Netto.
Quando Alberto Nepomuceno seguiu para Europa em Dezembro de 1900, levava começada a legenda dramática em 3 actos “Pela Fé”, mais tarde baptisada de “Abul”, da qual ouvi trechos primorosos em minha estada no Rio de Janeiro em 1907, todavia não poude fazer conhecidas naquelle meio as. suas composições por motivo de grave enfermidade, que o accommeteu e que o obrigou a sujeitar-se a duas intervenções cirúrgicas. Tendo convalescido em Christiania depois de haver estado em Vienna e Berlin, regressou á pátria para se ver distinguido com a escolha de Director do Instituto Nacional de Musica em substituição ao fallecido Leopoldo Miguez.
Questão de intransigência de caracter e de amor á classe fel-o resignar essa eminente posição e voltar ao seu posto de professor de composição e de orgam no Instituto, mas mesmo a posse do maestro Henrique Osvaldo, que o substituiu, deu. occasião a uma apotheose aos seus méritos com a inauguração solemne de seu busto no salão Miguez tendo no pedestal riquíssima coroa com os dizeres: Ao sempre grande, ao sempre digno. O busto é uma obra prima devida ao cinzel do insigne Bernardelli.
Em Outubro de 1906 havendo Henrique Osvaldo pedido exoneração do logar, voltou a substituil-o Alberto Nepomuceno, o mais brasileiro de todos os compositores de que se orgulha o Brasil, e nesse posto se mantém com brilho inexcedivel.
Eis a largos traços a vida do notável patrício a quem a fama já está a acclamar como o verdadeiro fundador da escola de musica genuinamente Brasileira, empreza para que elle se sente apparelhado, empreza que levará a effeito a avaliar pelo prelúdio de uma sua partitura tirada do “Garatuja,” romance de José de Alencar.
Da conhecida creação do romancista Cearense conseguiu o maestro Cearense extrahir uma comedia em verso esplendidamente musicada e enthusiasticamente applaudida pelos entendidos.
Ella foi, contamos todos, a risonha manhã de próximo dia brilhante na arte musical, então todo vibrante de sentimentos genuinamente nossos, todo empenhada em traduzir em bellos trechos symphonicos os feitos gloriosos dos nossos vultos históricos, as grandezas naturaes da pátria querida, a alma nacional.
Segundo 1001 Cearenses Notáveis
Grafado como Alberto NEPOMUCENO
Nasceu em Fortaleza, 6 de julho de 1864, filho do Maestro Vítor Nepomuceno, herdou do pai o gosto pela música. Aos 18 anos substituiu o mestre Euclides Fonseca como Diretor de concertos do Clube Carlos Gomes. Professor. No Rio de Janeiro participou do Clube Beethoven e teve a proteção de Artur Napoleão, do violinista White e do escultor Rodolfo Bernardelli. Em companhia do violoncelista Frederico do Nascimento realizou uma série de concertos nas primeiras cidades do norte do país; seguiu para a Europa em 1888, onde freqüentou os melhores conservatórios. Premiado em segundo lugar no concurso para a música do Hino da República, teve como recompensa direito a pensão de 550 francos mensais pelo espaço de 4 anos.
Na Alemanha foi aluno de Herzogenberg e Amo Kleffel; aperfeiçoou-se em órgão em Paris com A. Guilmant.. Professor do Instituto Nacional de Música (Rio de Janeiro), substituiu Leopoldo Miguez na sua direção. Grande divulgador da obra do Padre José Maurício. Foi grandemente influenciado por Wagner. Entre suas composições destacam-se: Artemis (episódio lírico); Abul (ópera, música e libreto da sua autoria); O Garatuja (comédia,, libreto extraído do romance de José de Alencar); Sinfonia em Sol Menor; Séries Brasileiras; Valsas Humorísticas para Piano e Orquestra; Urras; O Milagre da Semente (cantata); música de cena para a versão francesa de Electra, de Sófocles e numerosas canções populares. Patrono da cadeira n° 4 da Academia Cearense de Ciências, Letras e Artes do Rio de. Janeiro. Morreu no Rio de Janeiro, 16 de outubro de 1920.