Nasceu a 7 de Fevereiro de 1847 em Fortaleza, sendo seus progenitores José Maria de Oliveira, alferes do Exercito Nacional, e sua mulher D.s Anna Francisca de Mello Oliveira, filha do antigo Cirurgião pelo Proto-Medicato, João Francisco Tavares de Mello.
José Maria de Oliveira era natural da cidade Angra do Heroísmo, liba Terceira, Portugal; assentou praça de soldado em 1820 ou 1822 no Regimento de Bragança no Rio de Janeiro sob o nome de José Maria d'Asso e Cante, seguindo como sargento para o Pará na expedição do general Labatut; já Alferes, requereu para assignar-se d'ora avante como José Maria de Oliveira, ignorando-se o motivo desta resolução. Seu pae foi o Senhor do Solarizo do Gales, na Capital da Ilha Terceira. Por occasião de seu casamento já havia mudado de nome.
Em 1857, dons annos depois do fallecimento de seu pae, Francisco Maria de Mello Oliveira transferiu-se com a mãe e irmãos para o Rio de Janeiro.
De 1855 até a data de seu embarque para o Rio de Janeiro, que teve logar em Fevereiro de 1857, frequentou as aulas do professor Espindola na Praça Municipal, aprendendo a 1er, escrever e as quatro operações, passando depois do seu exame em Janeiro de 1857 ao estudo da grammatica portuguesa.
Chegado ao Rio de Janeiro, foi frequentar o Collegio da Sociedade Amante da Instrucção, para meninos pobres, onde deu entrada nas aulas de literatura portuguesa, Francês e Arithmetica, prestando exame na Instrucção Publica, e alcançando approvação plena; deste período até 1860 interrompeu seus estudos por ter entrado como praticante de uma pharmacia; em 1864 foi-lhe permittido frequentar as aulas do Mosteiro de S. Bento, e então concluiu os preparatórios para a matrícula do curso de pharmacia (1865), conservando-se até o anno de 1867 trabalhando na mesma pharmacia, onde dera entrada como praticante em 1860.
Em 1867 matriculou-se no curso pharmaceutico da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, recebendo seu diploma de Pharmaceutico a 21 de Dezembro de 1869.
Motivaram a demora de sua matricula no curso pharmaceutico a necessidade de trabalhar e a negação de seu mestre de pharmacia pratica em lhe permittir que frequentasse os estudos, o que conseguiu deixando a pharmacia e indo servir na pharmacia do Hospital da Santa Casa de Misericórdia do Rio, na qualidade de Aprendiz de 1.a classe, com o ordenado de 30$000.
Em 1870 alistou-se no Corpo de Saúde do Exercito, como pharmaceutico-alferes, indo servir na Escola Militar da Praia Vermelha.
Neste mesmo anno foi nomeado preparador do curso de physica e chimica da dita Escola, ficando encarregado de reorganisar os respectivos gabinetes quasi desapparecidos durante o período da guerra do Paraguay.
Em 1870 foi desligado da Escola Militar e mandado montar uma pharmacia aqui em Fortaleza, onde demorou-se dous mezes, sem conseguir dar cumprimento a tal commissão, visto o presidente Barão de Taquary oppor-se a isso, pela influencia da Mesa Administradora do Hospital de Misericórdia.
Em Fevereiro de 1871, data de seu regresso ao Rio, voltou a occupar os logares de pharmaceutico e preparador de Chimica na Escola Militar.
Em 1873 publicou um livro sobre botânica contendo notas e cálculos sobre as madeiras de construcção, intitulado — “Rudimentos de botânica”.
Em 1873 e 1874 foi-lhe permittido pelo Commando da Escola abrir um curso livre de chimica, a que concorria grande numero de assistentes, muitos dos quaes são hoje altas patentes do exercito.
Em 1874 foi nomeado membro da Commissão de inquérito no Hospital e Pharmacia Central do Exercito, em companhia do Visconde de Beaurepaire Rohan, presidente, Visconde de Souza Fontes, Contador do Thesouro Nacional.
Cons.o Miguel Archanjo Galvão e o medico militar Major Manoel José de Oliveira. Esta commissão durou um anno.
Em Maio de 1875 foi nomeado chefe do serviço pharmaceutico da Pharmacia Central do Exercito, tendo obtido exoneração a seu pedido quatro mezes depois.
Em Maio de 1876 foi convidado para fazer parte da Commissão de Limites com a Bolívia sob a chefia do Visconde de Maracajú (Marechal), tendo como companheiros o Barão de Parima, Barão de Lassance, General João Severiano da Fonseca, General Costa Guimarães e Capitão de Fragata Frederico de Oliveira.
Um anno e meio depois, por doente, obteve dispensa de membro da Commissão, regressando de San Mathias (Bolívia) para o Rio de Janeiro onde chegou em Agosto de 1878, e foi servir na Escola Militar occupando os seus cargos de pharmaceutico e preparador de physica e chimica.
Em 1879 prestou os exames de latim, philosophia, geographia, historia e inglês, e matriculou-se no mesmo anno no curso medico na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, conseguindo em todos os actos approvações plenas e com distincções, inclusive na defesa das Theses.
Em 1879 a 1893 serviu como preparador de chimica inorgânica e analytica da Escola Polytechnica do Rio de Janeiro de que era lente o notável scientista cearense Cons.o Dr. Alvaro Joaquim de Oliveira e foi, na mesma data, cumulativamente preparador de Chimica orgânica do professor Domingos Freire.
Infatigável e muito operoso, de 1882 a 1884, fez particularmente com o professor Wilhelm Meichiler, sábio chimico” o curso de chimica analytica e industrial da Escola Polytechnica do Rio de Janeiro, apresentando vários trabalhos de analyse e sinthese orgânica.
Em 1884, adepto das idéas republicanas interessou-se pela propaganda da abolição, sendo neste anno presidente da Sociedade Abolicionista Cearense do Rio de janeiro, desenvolvendo tal actividade a ponto do governo daquella epocha ter ordenado sua prisão, o que foi obstado pelo imperador, que o conhecia perfeitamente. Este facto foi confessado pelo Cons.o Prisco Paraíso, ministro da justiça, ao próprio Dr. Mello Oliveira e a outros cearenses.
O Imperador sabia avaliar bem dos merecimentos scientificos e dos dotes moraes de seus súbditos fossem quaes fossem as crenças politicas, que externavam.
Aliás, como abolicionista foi esquecido por seus companheiros; não me lembro de ter lido a menor referencia a seu nome.
De 1883 a 1885 entregou-se á clinica medica e de partos, e praticou com os illustres professores Drs. Pedro Paulo de Carvalho e Luiz Feijó.
Em Dezembro de 1885 transferiu sua residência para o interior de S. Paulo até se restabelecer de enfermidade de que soffria, muctando-se em Maio para a Capital. Ahi entregue exclusivamente a seus esforços, sem a menor relação e protecção conseguiu tornar se um clinico dos mais conhecidos em todo o Estado.
Em 1891, sem saber donde partira a lembrança, foi nomeado Lente Cathedratico de physica e chimica do Curso Annexo á Faculdade de Direito de S. Paulo, tendo exercido a cadeira até sua extincção, em 1897. Encerrou sua aula com uma assistência de oitenta aluirmos, recebendo por esta occasião de seus discípulos as maiores provas de estima e consideração.
Como pharmaceutico já era Membro da Academia Nacional de Medicina. Foi benemérito do Instituto Pharmaceutico do Rio de Janeiro, lente de Toxicologia na Escola mantida pêlo mesmo Instituto, e sócio effectivo da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, e por ultimo membro correspondente do Instituto do Ceará.
Exerceu a clinica em São Paulo desde 1885 até seu fallecimento, que occorreu a 23 de Junho de 1907.
É longa a lista dos trabalhos scientificos por elle publicados em varias Revistas. Os mais conhecidos são:
Sobre a matéria medica e therapeutica do “Leonotis Neptefolia” (Cordão do frade) e seu alcalóide: em fascículo.
Enumeração de 500 plantas indígenas brasileiras por ordem de classe, géneros, família e nomes vulgares.
“Batiputá”—na Tribuna Pharmaceutica do Rio de Janeiro.
A electricidade melhorando os vinhos”, idem. “Do ensino livre”, Revistada Escola Polytechnica, 1879. “Da acção chimica do oxydo de magnesia sobre o rhuibarbo”, Revista Medica, 1876.
“Do lequirity”—União Medica.
Descripção da Gruta de Coimbra em Matto-Grosso”, no jornal A Reforma, 1877.
A policia pharmaceutica”, artigos de polemica na Gazeta de Noticias e Jornal do Commercio, 1881.
Dos seus artigos “Policia Pharmaceutica” resultaram o pedido de demissão do Inspector Geral de Hygiene Dr. Baptista de Santos e o do ministro do Império Barão Homem de Mello ; a reforma da Junta Central de Hygiène Publica ; a nomeação do Cons.o Souza Costa para este alto cargo no Império; a criação de logares de fiscaes de pharmacia, sendo o autor dos artigos um dos nomeados como membro da Junta de Hygiene Publica.
Étude sur l'analyse chimique et les propriétés médicales de l'Anda-Assu”—Annuaire de Thérapeutique, par Bouch ut—Paris, 1882.
Analyse spectral e chimica dos vómitos amarello e preto da febre amarella, em collaboração com o professor Dr. Domingos Freire. Recueil des travaux chimiques du Dr. Domingos Freire, 1880—Recife.
Analyses dos fumos do Brazil”—determinação da nicotina.—Archivos de medicina e pharmacia, Rio de Janeiro, 1881.
Nota sobre a commissão de limites com a Bolivia” — 1875, Jornal do Commercio, Rio.
Apontamentos para a historia natural medica brazileira” —Fascículo—Rio de Janeiro, 1878.
A Escola de Pharmacia no Rio de Janeiro”. Artigos na Tribuna Pharmaceutica.
O Instituto Pharmaceutico e seu bibliothecario Ortiz”, Diario do Rio de Janeiro, 1874.
“Pharmacia Militar”. Revista Militar do Exercito. Rio. 1878.
“Do pinhão de purga”—Arch. medicina e pharmacia— Rio, 1881.
Dos Velames”—Idem, idem. “Do Picão da Praia”—Idem, idem. “Um novo anti-thermico brazileiro”—Revista Pharmaceutica, 1883.
Da Cinchona Calisaya”—Memoria para a admissão á Academia de Medicina, 1883.
Vegetaes Tónicos do Brasil”, these inaugural approvada com distincção pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, 1883. Estudo minucioso de materia medica e therapeutica, contendo a classificação botânica, descripção de spécimens, analyse chimica, physiologica e therapeutica. O autor nestes estudos isolou varios alcaloides de plantas brasileiras. Esta These é ¡Ilustrada com estampas lithographadas e xilographadas— Edições esgotadas (2 edições).
“Dos productos cellulares do Brazil—Rio, 1885.
Esse trabalho além de mostrar uma investigação acurada sobre os ditos productos em geral, contem o estudo especial de plantas brazileiras, taes como a Ahnecegueira do Brazil (Ceará), as resinas de batatas de purga, do angico (do Ceará). Elle obteve um assucar da gomma do angico, isómero da arabina ao qual denominou angicina; da gomma do cajueiro um alcool; da resina da almecegueira tres óleos diversos e essências diversas, por seu ponto de fusão inteiramente differente.
Salubridade de S. Paulo”—Causa das febres palustres e typhica. Artigos na Província de S. Paulo e Gazeta da Tarde, S. Paulo, 1889 a 1890.
Sahiam os artigos na “Gazeta da Tarde” sob a redacção do notável philologo Julio Ribeiro.
Observações de Clinica Medica”—Revista da Sociedade de Medicina e Cirurgia. Rio, 1897-1899.
“O Mururé e a Lepra”—Opúsculo—S. Paulo, 1900.
Como se vê, não é pequena a bagagem scientifica deixada pelo Dr. Mello Oliveira.
E homem de tamanho cabedal scientifico e homem tão recommendavel por serviços á pátria e á humanidade desappareceu dentre os vivos, e a imprensa do Ceará nem registou o luctuoso facto.