Filho do Capitão Antonio Raulino Mourão e D.a Anna Raulino Mourão, neto pelo lado paterno do português Carlos João Mourão Pinheiro e D.a Mariana de Hollanda Cavalcante, e pelo materno de José Lopes da Silva Barreira e D.a Maria Izabel de Hollanda, nasceu na villa de Jaguaribe-mirím, freguezia e comarca do mesmo nome, sendo baptisado naquella Matriz, então capella filial da freguezia de S. Antonio da Bôa Vista, pelo Padre Manoel Rodrigues Campos e tendo por padrinhos o pernambucano Luiz Soares de Albuquerque e D.a Idalina Albertina de Moura.
Iniciou os estudos primários em 1870, tendo por professor Aderaldo Alexandrino de Aguiar e Mello, que fora voluntário na guerra do Paraguay e Alferes da 7.a Companhia da Guarda Nacional destacada, e o estudo de preparatórios com Mons.nr Antonio Fernandes da Silva Távora, então Vigário, em 1880, matriculando-se no anno seguinte a 10 de Fevereiro no Seminário da Fortaleza, no qual, desde o 3.o anno de preparatórios até o ultimo occupou o logar de Censor e foi um dos sócios fundadores da sociedade literária Instrucção e Progresso, em 1884 desempenhando nella os logares de secretario, orador officiai e vice-presidente. Fez o discurso de saudação ao Príncipe S. A. Conde d'Eu, quando visitou o Seminário em sua excursão pelo Norte em 1888.
Recebeu Tonsura a 30 de Novembro de 1886, Ordens menores a 4 de Dezembro de 1887, Subdiaconafo a 28 de Outubro de 1888, Diaconato a 25 de Novembro do mesmo anno e Presbyterato a 7 de Julho de 1889, cantando a primeira missa a 14 do dito mez e anuo na Egreja do Coração de Jesus.
Quando estudante foi incumbido pelo Presidente do Conselho Central das Conferencias Vicentinas, pois fazia parte da Conferencia de N. S. do Carmo, de visitar e providenciar sobre a Conferencia de Jaguaribe-mirim, do que apresentou Relatório.
Em 1889, como Diácono, foi nomeado professor de uma cadeira do Seminario em que permaneceu até 8 de Julho de 1891, quando foi nomeado Vigário de S. João do Arraial, cargo de que tomou posse a 12 do mesmo mez.
Por algum tempo fez parte do corpo de redacção da Verdade, hebdomadario Carbólico de Fortaleza, continuando depois como collaborador.
Graças á sua intervenção foi obtida no Governo do C.el Ferraz a restauração da Capellania da Cadeia, de Fortaleza, que fora extincta.
Em Arraial durante sete mezes manteve um Externato de estudo secundario, gratuito, frequentado por 14 moços, sendo elle o único professor: deu grande incremento á instrucção primaria como Inspector Escolar, obtendo dos poderes públicos melhoramento dos predios, utensilios e ao retirar-se deixou um relatório á guisa de Esboço histórico; realisou muitos melhoramentos na Matriz e capellas, provendo-as de paramentos, fez a acquisição de um Harmonium e deixou tambem no Livro do Tombo diversas notas históricas; aformoseou a Praça da Egreja Matriz, e fez um bello jardim ao lado da casa em que residia, para onde transplantou as primeiras palmeiras imperiaes, conduzidas de Fortaleza; fundou uma Escola popular nocturna, tendo por auxiliares o Coronel José Paixão de Salles, Tenente Pedro de Araujo Sampaio e Alferes Francisco Ferreira da Cunha, com os quaes leccionava diariamente 70 alumnos pobres, que não podiam frequentar a Escola publica. Esses alumnos frequentavam as aulas com a roupa do trabalho e descalços. Em poucos mezes muitos delles já sabiam ler e escrever. A escola desappareceu com a retirada do fundador.
Após a proclamação da Republica, foi consultado para acceitar o cargo de Inspector Geral da Instrucção Publica do Estado e não quiz acceital-o.
Por Provisão de 15 de Outubro de 1895 foi transferido de Arraial para Maranguape, tomando posse a 20 do mesmo mez e anno.
Muito lhe deveram as Escolas Publicas d'alli, onde exerceu também o logar de Inspector Escolar.
Fez notáveis melhoramentos na Matriz, mandando abrir arcadas, erigir quatro altares, e fazer outros serviços que tornaram aquelle Templo ventilado, claro e magestoso, dispendendo no período de um anno quantia superior a 13:000$000 rs.; demoliu um sobrado contíguo á Matriz, tendo sido offertadas as partes que nelle possuíam o Coronel Joaquim Correia Sombra e os Herdeiros do Visconde de Cauhipe; dotou o Cemitério de um Regulamento; desenvolveu as Associações das Senhoras de Caridade e Conferencias de S. Vicente de Paulo; restabeleceu o antigo realce das Festas tradiccionaes, especialmente a da Padroeira, que se achava abolida. Deixou na povoação de Jubaia uma capella bem começada e sob sua administração foram feitos melhoramentos na de Tabatinga, erigida a de Trapiá e provida de paramentos a da Cruz.
Resolvido a abraçar a vida Religiosa, na Ordem dos Capuchinhos, pediu exoneração de Vigário e entregou a parochia ao seu successor a 26 de Fevereiro de 1899, e, retirando-se de Maranguape no dia 15 de Março, seguiu para Canindé, onde recebeu o habito a 25 de Março do mesmo anno, tomando o nome de Padre Fr. Fidélis de Jaguaribe-mirim.
Antes de partir de Maranguape consignou no Livro do Tombo um Relatório de sua Administração parochial, fazendo uma exposição clara e minuciosa da parochia e emittindo opinião franca e sincera sobre os melhoramentos a emprehender e difficuldades a vencer.
Em Canindé occupou-se no ensino, e em Fevereiro de 1900 partiu para a capital do Maranhão, onde começou o anno do Noviciado canónico no Convento do Carmo a 11 de Março, fazendo a profissão simples na respectiva Egreja a 25 de Março de 1901 nas mãos do Mestre de noviços Padre Fr. João Pedro de Sexto; e isto, seis dias depois do massacre dos Capuchinhos em Alto-Alegre.
A 1 de Maio de 1901 voltou ao Ceará, como secrerio do Revdm. Visitador Geral dos Capuchinhos, Padre Fr. Thimoteo de Brescia, que numa obra escripta sobre a viagem ao Norte fez-lhe honrosas referencias. Terminada a visita, Fr. Fidélis foi destinado á Casa de Canindé neste Estado, como Director do Internato e Externato, que alli funccionam. Fallecido o pae em 1903, á cuja morte assistiu em Jaguaribe-mirim, Fr. Fidélis regressando a Canindé entendeu-se com o Reverendo Superior Regular então em visita e tomou a resolução de impetrar da Santa Sé o Indulto de Secularisação. Partiu para a capital do Pará em Outubro e lá com autorisação do Superior Regular deixou o habito a 12 de Novembro.
Por Provisão de 16 de Novembro de 1903 foi nomeado Director da Ordem Terceira de S. Francisco da Penitencia e Capellão do respectivo Hospital e por Provisão de 25 de Novembro nomeado professor de Português, Historia do Brasil e Universal do Seminario de Belém, cargo de que obteve exoneração a 7 de Novembro de 1904.
A 15 de Dezembro de 1903 foi-lhe expedido o Rescripto de secularisação por um anno, até serem cumpridas algumas formalidades essenciaes, exigidas em Direito, e no dia 26 de Janeiro de 1906 obteve o Rescripto n.o 189893 de secularisação definitiva, voltando a pertencer ao Clero cearense.
A 30 de Janeiro de 1909 lhe foi concedida a exoneração de Director da Ordem Terceira e Capellão do respectivo Hospital, e regressou definitivamente ao Ceará.
Quando no Pará também occupou por tres mezes o logar de Secretario do Arcebispado, trabalhou na Liga Cearense, como membro da Directoria, desempenhando os cargos de Director, Secretario, Thesoureiro, Presidente e Secretario de Assembléa Geral, pelo que foi distinguido com o titulo de Sócio Honorário.
Em Abril de 1909 acompanhou, na qualidade de Secretario, a D. Joaquim José Vieira, numa excursão até o Estado de S. Paulo.
Actualmente é o parodio da freguezia de Jaguaribe-mirim.
Pertence ás Famílias — Uchôa, descendendo em linha recta do Sargento-mór Ignacio de Souza Uchôa, procurador da Camara de Fortaleza em 1747, Mourão, Hollanda, Queirós e Ribeiro Bessa.
Seu avô paterno, que era filho de Francisco Carvalho Mourão e D.a Florinda Perpetua Aresta Mourão, era afilhado de baptismo do Rei D. João VI (bap. 28—1 — 1794) sendo procurador o Conde da Ega, e da Snr.a D.a Carlota Joaquina, Princeza do Brasil, sendo procurador D. Rodrigo José de Menezes Marialva.
Acaba de ser distinguido com o titulo de Cónego.
É o vigário (o 1.°) da freguezia do Carmo, Fortaleza, recentemente creada pelo bispo D. Manoel.