Filho do capitão Antônio Dias Martins e D.a Thereza Dias Martins, nasceu em Trahiry a 4 de Abril de 1868.
Em 1879 veio para Fortaleza a empregar-se como caixeiro e a iniciar os estudos.
Em 1885 embarcou para o Rio de Janeiro e collaborou na “Cidade do Rio”, jornal francamente abolicionista, fundado por José do Patrocínio em Setembro de 1887. No mesmo anno fez parte, como collaborador e repórter, da “Gazeta Nacional”, jornal de feição republicana dirigido por Aristides Lobo, Mathias Carvalho e outros.
Regressando ao Ceará por motivo de moléstia, em Fevereiro de 1888, serviu como secretario dos engenheiros Tristão Franklin e Nogueira Borges em diversas commissões da secca.
Collaborou durante esse período no “Libertador” e outros jornaes e escreveu correspondências para o “Diário de Noticias”, do Rio.
Ainda em 1888 fundou em Fortaleza o Congresso Republicano do qual foi acclamado presidente, e mais tarde com Catunda, Antônio Cruz e outros constituiu o Centro Republicano do Ceará.
Em 1890 foi nomeado para a Alfândega, que deixou para ser nomeado promotor publico de uma comarca do interior e posteriormente, a 1.” de Julho de 1901, professor de Literatura do Lyceu Estadoal.
Publicou em 1895 o seu primeiro livro—Pescadores da Tahyba, Typ. Universal de Cunha, Ferro e C.a, poema em verso, bellissima joia a enaltecer seu nome tão conhecido no circulo dos nossos poetas. Os Pescadores da Tahyba foi editado pelo Centro Literário e forma um vol. em 8.° de 50 pp., com prefacio de Pedro Muniz.
Sobre os Pescadores, que mereceu de Thomaz Ribeiro e Eça de Queiroz palavras effectuosas e encomiasticas, escreveu Valentim Magalhães na Semana Litteraria da “Noticia”, Rio:
O Ceará não pára, o Ceará não cança. Rara é a semana que eu não tenha algo a dizer de um livro ou de um escriptor. Ainda nesta se repete esse facto agradável.
Os Pescadores da Tahyba chama-se um poemeto escripto pelo sr. Álvaro Martins e editado pelo Centro Litterario, outro fecundo núcleo de talentos da capital cearense, emulo da Padaria.
Ha muito tempo não lia eu versos nossos que tanto me agradassem, que tão bellos me parecessem, que me deixassem um sabor tão doce, tão suave—como um maracujá do sertão.
Isso, sim, que é poesia brasileira no sentir, nas imagens, no dizer, no rimar. É simples, cantante, ingênuo, puro.
A acção ao poemeto é velha e quasi nulla: Xiquita, filha de pescadores do logarejo chamado Tahyba, enamora-se de Zé-do Mar, é sua noiva. Mas Zé-do-Mar sae uma madrugada para a pesca e não volta mais, e Xiquita perde a razão.
Mas com que deliciosa naturalidade esse quasi nada é contado e cantado ! Querem conhecer Xiquita? eil-a :
Xiquita—a flor do logar— trigueira do sol do mar! Tem uns olhos namorados, profundos, negros, maguados, como as noites de luar.
Xiquita—que linda flor !
Xiquita... ai, amor!
Lembram as linhas serenas das suas fôrmas suaves O talhe das assucenas, a estranha origem das aves;
e a sua bocca impoluta
tem a frescura dos linhos,
lembra o rubor de uma fructa
picada dos passarinhos...
Garbosa, ao pé das violas, nos festejos do logar, dansa, ao som das castanhólas, bate as palmas ao luar...
E o mar ao vêl-a se agita,
cheio de ancias de amor. -
E é tão mimosa e bonita!
que luz, que graça infinita!
Xiquita !
Que linda flor !
A descripção de Tahyba é um primor de graça e singeleza. Algumas estrophes. Descrevendo a capellinha :
Por entre as ruinas gretadas, onde o cardo nasce e medra, nos toscos degráos de pedra das torresinhas golpeadas,
ha ninhos de tentilhões e frescas vegetações de flores avelludadas.
As andorinhas anciosas Alli, por tardes de agosto, adejam, quando o sol-posto tinge o poente de rosas.
E a Virgem sorri. Parece que de seus lábios em flor vôa também uma prece ao seio do Creador.
Querem conhecer agora Zé-do-Mar ? Aqui o tem :
Zé-do-Mar é o pescador mais novo do povoado ; porte rude, olhar banhado de audacioso fulgor.
Os seus braços, callejados pelos cordames das velas, Como que foram talhados para luctar com procellas.
Traz sempre suspensa a ilharga para as pescas de jangada a lamina aguda e larga de uma catana afiada.
Mas faço ponto nas transcripções para não inundar com ellas a Noticia. Álvaro Martins parece-me um continuador de Juvenal Galeno. É um trovador, que nasceu tal.
Em certos alexandrinos das ultimas paginas pareceu-me vislumbrar vestígios de uma nephelibatismo incipiente. Pelo amor de Deus, meu poeta, fuja, fuja desse abysmo! Não estrague os seus ricos dons naturaes para acompanhar a moda. A verdadeira poesia é a que você faz, naturalmente, sem esforço, deixando a alma exhalar-se dos lábios.
Os primeiros versos do mundo foram cantados. Todo verso que não pode ser cantado não é poesia, porque poesia é musica. Aperfeiçoe a sua fôrma, evite os hiatos e consonnan-cias desagradáveis, varie o seu rimario, e deixe lá os symbolistas com as suas trapalhadas — aquillo passa com a moda, mesmo porque esta só pegou... nelles.
Desta poesia bem natural, bem sentida, bem brasileira é que precisamos; dê-nol-a o joven poeta dos Pescadores da Tahyba, que é dos poucos que podem dal-a".
Publicou também a Capella Milagrosa Notas e Impressões, in 8.° de 47 pp., Typ. Universal, Rua Formosa 33, de Cunha Ferro & C.a, 1898. Nesse opusculo são descriptos o templo de S. Francisco de Canindé, tão conhecido das populações Cearenses, e os milagres operados pelo Santo, que ahi se venera.
Ensaindo o theatro, escreveu em 1898 e fez levar á scena em Fortaleza duas pequenas Revistas sob os títulos O Belecho, e Lopes, Veiga e Companhia.
De sua lavra correm nas paginas dos jornaes innumeras poesias, a maior parte dellas assignadas por Alvarins, o pseu-donymo, que adoptou; algumas o notabilisaram dentro e fora do Paiz, e para prova basta recordar a carta, que de Paris lhe endereçou Eça de Queiroz a propósito de um soneto, que vem publicado na Revista Moderna “O soneto, diz o grande romancista Português, é admirável, e como elegância, plasticidade de forma e força harmoniosa é superior mesmo ao do próprio Heredia.
Seus últimos trabalhos, alem de suas quasi quotidianas Quadrinhos em que não tinha rival, intitulam-se: Agonia Suprema, Episódios da miséria, que sahiu da Typ. Econômica á Praça do Ferreira, Ceará, 1901, in 8.o de 23 pp., e é offerecido aos seus amigos Dr. Eduardo Studart, C.el Casemiro Montenegro e Maurício Graccho Cardoso; Casa mal assombrada, in 8.° de 81 pp., editor Assis Bezerra, Typ. Minerva, 1903; Commemorando o tricentenario do Ceará (sobre a vinda dos primeiros portugueses ao Ceará), poesias de Álvaro Martins e Rodrigues de Carvalho, Ceará, Ateliers Louis 71, Rua Formosa, 1903, e Me ceda... Revista, cheia de verve, feita de collaboração com Octavio Rodrigues e levada á scena no theatro Iracema em Dezembro de 1903. A revista de costumes Me ceda... com musica de Américo Lima e outros foi também publicada pela Typ. Moderna a vapor Ateliers Louis, Fortaleza.
Sobre a Agonia Suprema o “Jornal do Recife”, importante orgam da imprensa pernambucana, disse o seguinte:
Cheio de uma adorável simpleza e de uma naturalidade vibrante é o novo poemeto do talentoso poeta cearense e imaginoso autor dos Pescadores da Tahyba, o sr. Álvaro Martins.
Não se procure através das 23 paginas que compõem esse livro, trabalhado sem nenhuma preoccupação de arte e subtilezas de estylo, mais do que um delicado e expontâneo poeta, cujo verso singelo e brando desenrolando-se por cada nova pagina dá-nos a suave impressão de uma clara e doce lympha serpenteando á sombra das virentes ramagens de um bosque em flor.
Sincera, desinteressada sympathia nos prende á delicada penna de Álvaro Martins e esta confissão torna-se tanto mais verdadeira quanto nos é grato dizer que para nós, que lemos com sympathia e leal preferencia a Utteratura indígena, o delicado autor dos Pescadores da Tahyba é uma das maiores intellectualidades do Norle.
O talentoso poeta não é um novo e o seu livro de estréa, que surgiu no áureo periodo existencial da famosa Padaria Espiritual, abriu em redor do seu nome largamente estendido em todo norte e sul do paiz uma ruidosa e justíssima nomeada.
O assumpto do novo e interessante poemeto do notável escriptor cearense é ainda a pavorosa historia da “secca” alliada a um caso vulgar de ingratidão filial.
Tudo isso, porém, é dito em maravilhosos alexandrinos sadios e sem o enfadonho rebuscamento das phrases torturadas, que tanto caracterisam o nullo enxame dos nossos poetas de hoje.
Apresentando o nosso ligeiro juizo sob a nova obra do sr. Álvaro Martins, agradecemos a fineza do illustre poeta em nos haver distinguido com um exemplar de seu bello trabalho”.
Tinha para dar ao prelo um poema em prosa sob o titulo America com o qual se apresentou á Academia Cearense disputando a cadeira vaga por morte do dr. José Carlos da Costa Ribeiro Júnior, e já em composição o livro de versos O beijo da morte. O beijo da morte!
O fallecimento de Álvaro, occorrido ás 3 horas da madrugada de 30 de Junho de 1906, lançou sobre Fortaleza doloroso, intimo e fundo pasmo; ainda a 28 sua palavra ardente echoava entre applausos pelo âmbito do nosso tribunal do Jury, havia poucos dias todos o viram encher de sym-pathias e admiração seus collegas da imprensa, companheiros na excursão do Presidente Affonso Penna pelos Estados do Norte.
Álvaro Martins, que foi sócio fundador do “Centro Litterario” de Fortaleza e fez parte da commissão redactora do Iracema, seu orgam na imprensa, lega um nome imperecivel.
Sem grande cultura intellectual, sem haver deixado á posteridade uma obra de alto fôlego, conquistou, todavia, o primeiro logar entre os poetas cearenses da actual geração. Alma enamorada das bellezas da terra do berço, tão dotada dos dons da natureza, poeta de uma doçura ineffavel, de um lyrismo extremo a expandir-se com a prodigalidade de um nababo, rico de inspiração, como outro não conheci em meu tempo, terá a memória eternamente guardada pelos amigos da poesia, pelos cultores da arte, que elle adorava e da qual foi ornamento.