JB

Biografia

Jayme Benévolo

1854–1905

T.e C.e1
7 min de leitura 1.306 palavras

Tenente-Coronel do Exercito, Bacharel em Mathematicas, Engenheiro Militar.

Filho do Tenente-Coronel Reginaldo Benévolo Ferreira de Pinho e de D.a Eugenia Correia de Pinho, esta de nacionalidade portuguesa, nasceu a 27 de Agosto de 1854 em Maranguape.

Sentou praça a 17 de Dezembro de 1872, foi nomeado Alferes-alumno a 19 de Fevereiro de 1881, promovido a 2.o Tenente a 17 de Janeiro de 1882, a 1.o Tenente a 21 de Fevereiro de 1885, a Capitão a 7 de Janeiro, a Major, por merecimento, a 17 de Março, tudo de 1890, e fazia parte do quadro especial do corpo do Estado Maior.

Quando 2.o Tenente, exerceu, de 1882 a 1883, no Pará , as funcções do Engenheiro das obras militares; de 1884 a 1885 foi Ajudante do corpo de alumnos da Escola Militar, tendo sido nessa mesma epocha designado para reger nella a cadeira de Arithmetica.

No tempo do Império exerceu o cargo de Secretario do governo em Minas Geraes e em 1890 foi nomeado lente cathedratico da cadeira de Economia Politica e Direito Administrativo da Escola Militar.

Serviu na guerra dos Quebra kilos.

Falleceu a 13 de Maio de 1905 na Capital Federal, no exercício do importante—cargo de Fiscal da ílluminação publica. Victimou-o uma congestão cerebral.

São também militares seus irmãos Francisco Benévolo nascido a 13 de Dezembro de 1856 e que assentou praça a 17 de Dezembro de 1872, e Odilon Benévolo, nascido a 29 de Julho de 1858 (Vide esse nome).

Occupande-se de seu faliecimento assim se manifestou O Paiz, da Capital Federal :

Fomos hontem dolorosamente surprehendidos com a ingrata noticia do fallecimento do distincto official do Exercito e Ilustre servidor da Nação, Dr. Jayme Benévolo, victimado por uma congestão cerebral.

Exercia elle actualmente as funcções de Inspector geral da illuminação desta capital; deve, porém, muito a Republica ao saudoso extincto, por isso que para a proclamação das instituições vigentes concorreu elle intemerato e diligente, ao lado sempre de Deodoro, Benjamin Constant e Quintino Bocayuva, prestando-lhes o valioso auxilio de sua esclarecida intelligencia e do seu fulgurante espirito.

Influiu ardentemente para que o Generalíssimo subscrevesse o Dec. n.o 1 de 15 de Novembro de 1889. banindo do solo brasileiro o regimen Imperial e na noite desse memorável dia assumiu a direcção do telegrapho official, communicando a todos os Estados a proclamação da Republica e dando outras ordens de feição urgente e caracter melindroso.

O Dr. Jayme Benévolo, que fez parte do Conselho Municipal nomeado pelo governo provisorio, deixando luminoso vestigio de sua passagem pela primeira intendencia republicana, prestou ainda á patria relevantes serviços que nem a todos foi dado saber e aferir.

Foi isso quando em grave dissentimento entre o chefe do governo dictatorial e Benjamin Constant, junto deste com trabalho tenaz e reflectido, com o louvável designio de promover a reconciliação, o Dr. layme Benévolo logrou ver coroada de feliz êxito a sua patriótica aspiração.

Os dois beneméritos brasileiros reconciliaram-se e isso se fez em grande parte devido ás judiciosas e convincentes ponderações do illüstre morto de hontem.

Em 1896, quando o Dr. Manoel Victorino occupou interinamente a presidência da Republica, o Dr. Jayme Benévolo foi convidado para titular da pasta da industria, vaga pela demissão do Dr. Antonio Olyntho.

O Dr. Jayme Benévolo declinou do honroso convite, que era inilludivel prova de apreço e de confiança tributada ao seu talento e á sua proverbial dedicação ás instituições consagradas do instituto fundamental de 24 de Fevereiro”.

Destaco com prazer de uma chronica de Arthur Azevedo sobre o Dr. Jayme Benévolo as seguintes linhas, e com ellas fecho os dados biographicos desse honrado patrício:

Chamava-se Jayme Benévolo e era soldado e mestre. Não entretive relações com elle. Apenas uma vez me falou, por motivo de serviço publico. Devo dizer que não me causou precisamente uma impressão de profunda sympathia. Os seus amigos asseguram que na intimidade era um delicioso camarada, mas a sua physionomia tinha alguma coisa de “bull-dog”, que desagradava á primeira vista.

Foi um dos mais denodados propagandistas da Republica, e sem elle talvez não tivesse havido o 15 de Novembro.

Sabe-se que naquella madrugada celebre o Marechal Deodoro estava enfermo, sem animo de se levantar da cama, nem mesmo para fazer uma revolução. Foi Jayme Benévolo quem o obrigou, sabe Deus com que esforço, a deixar o concavo tépido do colchão, fardar-se, montar a cavallo, marchar para o quartel-general e fazer a Republica. Se não fosse elle, Deodoro não teria sahido de casa, e se Deodoro não sahisse de casa.. . Deixo as conjecturas ao espirito do leitor.

Effectivamente, aquelle moço tinha uma influencia extraordinária sobre o animo do velho Marechal, a quem venerava como se fora seu pae.

De uma feita, no tempo do governo provisório, Aristides Lobo, ministro do interior preveniu-o de que se tramava uma falcatrua colossal, sob o pretexto do embellezamento e saneamento desta cidade. O decreto da commissão estava lavrado: só faltava a assignatura do dictador.

Jayme Benévolo tocou a toda para casa de Deodoro, que, illudido, acabava naquelle momento de completar o acto. Fez-lhe ver o que havia por traz daquella concessão de 50.000 contos (se não falham as cifras), e pediu-lhe que rasgasse o decreto.

Deodoro, que estava de bôa fé, resistiu, e essa resistência deu logar a uma scena violenta, tão violenta, que Jayme Benévolo acabou arrancando as dragonas arremessando-as aos pés do Marechal e sahindo cheio de indignação e de cólera.

Deodoro correu ao tope da escada e chamou-o:— Venha cá, ouça, não seja tão assomado, conversemos como bons amigos. --Jayme Benévolo subiu de novo e cinco minutos depois o decreto era rasgado: o thesouro estava salvo.

Como fiscal da illuminação, cargo em que foi surprehendido pela morte, Jayme Benévolo teve uma occasião excepcional de mostrar a energia do seu caracter.

A Companhia do Gaz tinha sido multada por elle tantas vezes e tão successivas, que as multas subiram a cerca de 800 contos de réis.

Está claro que aos interesses da empreza, até então habituada á bonhomia do velho Limpo de Abreu, não convinha um fiscal que só era benévolo no nome e por isso tratou ella, com muita ronha, de attrahir para o seu lado a sympathia piedosa do ministro.

Prevenido contra o funccionario, s. exc. tratou-o mal num dia em que este foi ao gabinete mostrar-lhe um officio que ia dirigir á companhia, em resposta a outro, inconvenientíssimo, que recebera do respectivo gerente.

Bibliografia3

  1. Não o quero ouvir, Sr. Dr. Jayme Benévolo! bradou o ministro, interrompendo a leitura logo ás primeiras linhas.
  2. Perdão, trata-se de serviço publico, e v. exc. ha de ouvir-me!
  3. Já lhe disse que não o quero ouvir!

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  1. Retire-se!

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  1. Sim, retiro-me, e aquella porta vae separar um funccionario honesto, como eu, de um ladrão como v. ex.

    A scena parecerá, talvez, exaggerada, mas ha delia uma testemunha ocular e auricular, que ahi está viva e sã.

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  1. Que é isto, excellentissimo ? Lembre-se da sua posição ! Não dê um escândalo!

    O ministro mandou lavrar decreto, demittindo Jayme Benevolo a bem do serviço publico; um amigo, porém, interveiu, dizendo que não se precipitasse, que estudasse tranquillamente, em casa, a questão suscitada entre a companhia e a fiscalisaçao e depois resolvesse.

Bibliografia1

  1. O Benevolo está com a razão: não devo demittil-o; mas fui atrozmente insultado: não posso continuar a ser ministro; o demittido serei eu.

    E foi a palácio resignar o cargo?