JA

Biografia

João da Cruz Abreu

nasceu em 1866

Este nome aparece em outro verbete do acervo João da Cruz ABREU 1866–1947 · Fortaleza
6 min de leitura 1.186 palavras

Doutor em medicina bela Faculdade da Bahia. Nasceu em Fortaleza á Praça do Garrote, hoje Praça dos Voluntarios, a 24 de Novembro de 1866, sendo seus paes José Bonifacio de Abreu, empregado aposentado da Secretaria do Governo e actualmente negociante em Quixadá, e D.a Florinda Santos de Abreu, fallecida a 6 de Abri! de 1881 de tuberculose pulmonar com 41 aunos. Neto pelo lado paterno de Francisco Lopes de Abreu Lage e D.3 Mari.i Sabina da Cunha Lage e pelo lado materno do Major Joiqiim Francisco dos Santos, Conferente aposentado da Alfandega e 2.o Intendente de Fortaleza, e D.a Antónia Palacio dos Santos.

Estudou as primeiras letras na escola publica de seu tio por afinidade Raymundo Vieira Perdigão, Confronte ao Quartel das foiças Federaes e onde foi a Estação Central do Telegrapho Submarino, e depois passou para o Instituto de Humanidades Cearense, regido pelos Padres João Cordeiro da Cruz Saldanha e Bruno Rodrigues da Silva Figueiredo.

Tão parcos eram os recursos de que dispunha seu pae, modesto empregado da Secretaria do Governo, que o joven estudante esteve ao ponto de abandonar as aulas do collegio particular que frequentava. Scientes do facto, os directores do collegio escolheram-o em bôa hora para utn de seus auxiliares e confiaram-lhe a direcção do curso primário (l.a secção) de que se fez professor. Nestas condições ponde elle completar seu curso de preparatórios, durante o qual, não só no collegio, como em casas particulares, leccionava as primeiras letras e alguns dos preparatórios já estudados.

Em Fevereiro de 1885 tomou passagem para o Rio de Janeiro, em cuja Faculdade de Medicina matriculou-se em Março. Não lhe foi, porém, propicio o clima inconstante do Rio de Janeiro; as variações bruscas da temperatura, a elevação thermica extraordinária dos mezes estivaes abalaram-lhe a saúde, de sorte que, sem se submetter a exame, retirou-se, em Fevereiro de 1886, para a Bahia em cuja Faculdade matriculou-se novamente. Ahi, dispondo de poucos recursos, conseguiu do Revd.0 Provincial do Convento do Carmo permissão de habitar uma das cellas vagas no dito Convento que hospedava naquelle tempo a alguns moços estudantes, dentre os quaes muitos do Ceará que hoje representam papel saliente na politica e nas letras, como Pinto Brandão, Lino da Justa, Antonio Albano, Pires Barroca, Raymundo Arruda e outros.

Por esse tempo estreitaram-se as relações entre Cruz Abreu e Raymundo Bizarria, o emérito professor de Lingua Nacional no Gymnasio da Bahia. Bizarria exercia notável influencia no animo dos seus jovens comprovincianos estudantes; amigo de todos, a todos recebia com extrema bondade, sendo sua casa, á rua do Bispo, pitorescamente denominada a Legação Cearense.

Em 1889 C. Abreu passou a residir com Raymundo Bizarria de quem só se apartou, quando, terminado o curso, teve de retirar-se para S. Paulo.

Durante o tirocínio acadêmico Crtlz Abreu fez parte da Sociedade Beneficência Acadêmica, tendo occupado durante annos o cargo de 1.° Secretario da benemérita associação, que tão relevantes serviços vae ainda hoje prestando aos estudantes sem recursos pecuniários.

Em 1891 fundou com Egas Munir. J. Froes, Antonio Rego e Manoel Moraes a Revista Acadêmica, orgam scienti-fico, literário e critico, cujo primeiro numero foi distribuído a 20 de Abril. Teve a Revista, como todos os jornaes de acadêmicos, vida ephemera, desappareceu no 13.o numero.

A 17 de Março daquelle anno, por proposta do Prof. Frederico de Castro Rabello, foi nomeado interno da Clinica Pediátrica, cargo que exerceu até o dia de sua formatura, sendo a portaria que o nomeou firmada pelo então Director de Faculdade Cons.ro Dr. Ramiro Affonso Monteiro.

A 3 de Dezembro de 1892 recebeu, em sessão sole-mne da Congregação, o grau de Doutor em Sciencias Medico-cirurgicas, tendo sido approvado com distincção nos exames finaes de clinica medica, clinica cirúrgica e clinica obstétrica. Seu nome figura entre os dos alumnos mais distinctos na Memoria Histórica da Faculdade de Medicina da Bahia relativa ao anno de 1891, escripta. pelo Prof. Dr. Anselmo da Fonseca.

A these que apresentou á Faculdade versou sobre um dos assumptos mais interessantes da cirurgia das vias urinarias A endoscopia vesical, Bahia. Litho-typographia V. Oliveira & Ca, 1892. Do merecimento da obra dil-o a nota de distincção, que com calorosos elogios alcançou rio seio da com-missão examinadora.

Em Janeiro de 1893, Cruz Abreu deixou a Bahia em demanda do Sul, onde pretendia exercitar sua actividade de medico clinico. Suas idéas politicas, em franca opposição ás actuaes idéas já então reinantes no paiz, eram sobeijamente conhecidas da mocidade acadêmica comtemporanea e não comportavam as aspirações de uma posição no mundo official. Dedicou-se á sua profissão, elegendo seu domicilio na florescente cidade de S. Carlos do Pinhal, em S. Paulo, chegando a ter notável clinica no Bairro Agua Vermelha, zona agrícola de grande importância.

Em fins de 1895, voltou á Bahia e ahi, a 16 de Janeiro de 1896, em oratório particular, contrahiu casamento com D.a Maria America Froes, filha de Américo Ribeiro de Souza Froes e de D.a Maria Luiza Garcez Froes.

Voltou a S. Carlos a exercer a clinica em Agua Vermelha, e ahi, a 22 de Novembro de 1896 nasceu-lhe seu único filho Mario:

Mais tarde, em data que não me occorre, teve de mudar de residência em virtude de padecimentos physicos. Transportou-se para Pirassununga onde de passagem teve de prestar serviços á causa publica. Manifestara-se a febre ama-iella na visinha cidade de Santa Cruz das Palmeiras, e a terrível epidemia lavrava intensamente, com todo o seu cortejo de horrores, apavorando os espíritos e obrigando a população ao triste espectáculo do êxodo de um povo flagellado.

Foi nestas condições que a Camara Municipal nomeou o Dr. Cruz Abreu Inspector da Hygiene em commissão com poderes discricionários nas medidas de defesa sanitária. Difficil era a commissão, árduos os deveres, immensa a responsabilidade do joven profissional, attentas as condições da cidade infectada, intimamente ligada á cidade visinha por numerosos meios de communicação, mas as medidas tomadas por elle, medidas de ousada energia, salvaram a cidade do temeroso flagello, que tantas vidas lia sacrificado no solo paulista. Foram trancadas todas as vias de communicação, nas estradas de rodagem praças com carabinas embaladas e na gare á chegada do trem o sollicito Inspector de Hygiene em pessoa a impedir a entrada em Pirassununga de pessoas e cargas procedentes de Santa Cruz. Além destas, outras medidas foram tomadas, taes como as visitas aos domicílios feitas pelo Inspector de Hygiene, a remoção do lixo dos quinfaes, a arrecadação das aguas servidas para serem despejadas em logares convenientes, a desinfecção das latrinas, etc, etc. E foram estas medidas que salvaram Pirassununga de mais uma vez sentir-se presa do insidioso morbo. Ao terminar sua com missão, o Dr. Cruz Abreu recebeu mui honroso officio assignado pelo Dr. Vieira de Moraes, presidente da Camara, que em nome do município lhe agradeceu os serviços prestados em tão difficil situação.

De Pirassununga passou o Dr. Cruz Abreu a clinicar cm Belém do Descalvado e ahi notabilisou-se na administração do Hospital e em vários trabalhos da profissão. Nessa cidade fundou o jornal O Descalvadense, cujo I.° n.° é de 21 de Junho de 1908.

Hoje reside na Capital Federal.

Pertence á classe dos membros correspondentes do instituto do Ceará.