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Biografia

José Arthur Montenegro

nasceu em 1864

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Nasceu em Arraial, Uruburetama, a 29 de Fevereiro de 1864, sendo seus genitores Antonio Thiago de Mello e D.a Maria Hermelinda Montenegro de Mello.

Orphão desde a edade de 12 annos principiou a sua carreira em Pernambuco no commercio, sentindo, porém, vocação para a vida marítima, viajou até 1880 pela costa do Brasil, estudando pilotagem com seu tio politico José M. de Amorim.

Faltando-lhe recursos para proseguir nos estudos da Escola Naval, resolveu entrar para o exercito a 6 de Janeiro de 1881, no Rio Grande do Sul, e matriculou-se na Escola Militar de Porto Alegre, então dirigida pelo General José Simeão de Oliveira, sendo desligado delia em 1884 por questões politicas de seus companheiros, com os quaes tornou-se solidário, não mais conseguindo alli voltar.

Como militar serviu no 17.o de infantaria, no caracter de simples official inferior, e tomou parte na expedição de Blumenau em S. Catharina (1884), sendo ferido em combate.

Fez parte também da divisão de observação estabelecida na fronteira do Rio Grande, no Caverá, por occasião da revolução Oriental do General Arredondo, que terminou pela batalha do Quebracho em 1885, e das forças que guarneciam a fronteira de Jaguarão, quando rompeu a cholerà morbus no Estado Oriental em 1887.

Voltando ao Rio Grande, foi empregado junto ao cominando da fronteira e guarnição, de cujos chefes mereceu sempre a estima e a confiança.

Desgostoso abandonou a carreira a 16 de Julho de 1889 sendo a 17 nomeado Amanuense e depois Archivista da Estrada de Ferro de Porto Alegre a Uruguayaua, sob a chefia do D . Ayrosa Galvão. O Dr. Piquet Carneiro, successor do Dr. Ayrosa, nomeou-o secretario.

Em 1897 retirou-se para a terra natal sendo aproveitados seus ser/iços como secretario da Estrada de Ferro de Baturité, para cuja direcção fora também removido o dito Dr. Piquet.

Já então minava-lhe as forças a terrível enfermidade, tysica laryngea, a que veio a succumbir. Arrendada a Estrada a uma empresa encorporada pelo engenheiro bahiano Alfredo Novis, voltou elle ao Rio Grande do Sul.

Ahi foi encarregado de arrecadar o material pertencente á Estrada de Ferro de Porto Alegre a Uruguayana, cujos trabalhos haviam parado como medida de economia, e posteriormente occupou o secretariado da Southern Brasiliau Rio Grande do Sul, cargo em que esteve até o seu fallecimento occorrido a 3 de Abril de 1901.

Fazia parte das seguintes sociedades scientificas e literárias; Academia Cearense, Instituto Histórico e Geographico Brasileiro, Sociedade de Geographia do Rio de Janeiro, Sociedade de Geographia de Lisboa, Instituto de Coimbra, Institutos Geographico Histórico da Bahia e Archeologrco Pernambucano, Instituto Geographico Argentino, Atheneu de Buenos Ayres, Centro Litterario do Ceará, Associação dos Guerreiros do Paragnay, de Buenos-Ayres e Associação dos Homens de Lettras de Caracas (Venezula).

É de alto valor o archivo de documentos históricos que deixou; oxalá o Governo Federal faça delle acquisição, salvando do olvido ou talvez da destruição largo e precioso cabedal para a verdade da nossa historia.

Bibliografia1

  1. O Sr. General José Ignacio Garmendia, official argentino, autor de notáveis trabalhos históricos, assim se expressou sobre os méritos de Montenegro:

    “La muerte del ilustre escriptor Arthur Montenegro enluta las letras brasileras; en su noble pluma existia el mas acendrado patriotismo, y la mas recta imparcialidad; es por eso que su verdad era leida con respeto y siempre tuve el major agrado en cultivar su relacion”.

    Em sessão de 26 de Abril a Sociedade de Geographia do Rio de Janeiro rendeu significativa homenagem á sua memoria como se vê da respectiva acta, publicada no Jornal do Commercio, da qual reproduzo as linhas seguintes:

É a seguinte a resenha dos seus trabalhos dados a lume11

  1. Resumo da Ordenança sobre os exercícios e evoluções dos corpos de infantaria do exercito. Parte applicavel á guarda nacional (1 893).
  2. Memorias de M.me Dorothea Duprat de Lasserre, Rio Grande, 1893, 1.” edição (Setembro), 2.a edição (Dezembro). Vertidas do manuscripto original e annotadas pelo traductor.
  3. Monographias históricas por D. Juan Silvano de Godói, Rio Grande, 1895.
  4. Viagem pittoresca pelos rios Paraguay, Paraná, S. Lourenço e Arinos por B. Bossi. Vertida para o idioma vernáculo em 1884 e annotada e publicada em 1893 no Echo do Sul, Rio Grande.
  5. Christovam Colombo e o descobrimento da America. Historia da Geographia do Novo continente e dos processos da Astronomia náutica do século XV e XVI por Alexandre Humboldt. Tradusida em 1884-85 e publicada em 1893-94 na Actualidade (Rio Grande).
  6. Ephemerides das campanhas do Uruguay e Paraguay, publicadas no Diário do Rio Grande e na Republica, de Fortaleza.
  7. Bibliographia da Campanha do Paraguay, publicada no Diário do Rio Grande.
  8. Visconde de Taunay, escorço biographico publicado na Revista da Academia Cearense, anno de 1899.
  9. O Uruguay, poema de José Basilio da Gama, edição feita, a expensas da Bibliotheca Publica de Pelotas para commemorar o 4.o Centenario do descobrimento do Brasil e prefaciado e annotado por elle, 1900, Echenique Irmãos & C.a, editores, Pelotas, Estado do Rio Grande do Sul.
  10. Fragmentos Históricos. Homens e Factos da Guerra do Paraguay, l.a serie, Rio Grande, Typ. da Livraria Rio
  11. Historia da Guerra da tríplice alliança contra o governo do Paraguay. Compõe-se de seis volumes de texto, dois de annexos ou documentos justificativos (inéditos) e um atlas com 75 mappas parciaes do theatro da guerra, cartas de batalhas, combates, perfis de fortificações, etc., etc.

O texto é assim dividido6

  1. Diccionario histórico - geographico do Estado do Rio Grande do Sul. Este trabalho foi iniciado em 1889, durante uma das muitas interrupções, que soffreu a sua obra Guerra da tríplice alliança e continuada sempre que se repetia esta circumstancia.
  2. Diccionario das madeiras do Brazil. Serviu de base a este trabalho o Ensaio de índice Geral das Madeiras do Brasil dos engenheiros André e José Rebouças. O autor ac-cumulava elementos para terminal-a. após a publicação da sua obra sobre a guerrra do Paraguay.
  3. Historia da Guerra. Chileno - Peru - Boliviana 1879-81. Desta obra tem si'do publicados vários trechos na imprensa diária, nomeadamente a parte relativa á “batalha naval de Iquique” no Diário do Rio Grande, de 30 de Maio e 3, 4 e 5 de Junho de 1893, transcripta no Almanack Popular do Rio Grande do Sul, 1894, (pp. 153-59).
  4. As ilhas do Brasil, estudo geographico.
  5. Bibliographia do Rio Grande do Sul nos séculos XVIII e XIX.
  6. Um principio de traducção das Memorias do General van Versen, na parte referente á guerra do Paraguay.

“ O Snr. presidente (marquez de Paranaguá) pede que a Sociedade insira em seus annaes a perda lamentável de José Arthur Montenegro, assíduo cultor das letras, e com especialidade da historia pátria, a cuja indefectível actividade muito deve o Brasil.

Entre os trabalhos desse distincto brasileiro, figura a Historia da guerra do Paraguay, em oito volumes, dos quaes seis de texto e dous de annexos ou documentos justificativos, e um atlas com 75 mappis do theatro da guerra, cartas de batalhas e perfis de fortificações. Esta obra é illustrada com photograpliias. representando as principaes batalhas de terra e mar e com cerca de 2.000 retratos dos officiaes dos quatro exércitos belligerantes, ministros, diplomatas, etc, etc. É o trabalho mais notável e mais completo sobre esse assumpto, e seria o maior serviço prestado á historia patria a sua publicação, pois está inédito, de. par com muitos outros do me;mo autor. É uma perda sensível, irreparável para o Brasil, a morte de tão distincto filho”.

Uma feição característica do espirito desse distincto patricio era o empenho em que vivia de estabelecer relações entre os homens de letras Brasileiros e- os dos outros Paizes Sul-americanos. Eu próprio dou testemunho desse patriótico e alevantado interesse.

Montenegro, espirito muito operoso e de vocação extraordinaria para os estudos históricos, deixou larga copia de trabalhos, que lhe conservarão o nome. Alguns delles foram publicados, outros, infelizmente, ficaram inéditos.

É a historia dos soffrimento; por que passaram cerca <!e 4.500 senhoias e creanças das principaes familias do Paraguay, condemnad s pelo presidente Solano Lopez a degredo perpetuo no deserto do Iguatemi em consequência de terem seus maridos, paes e irmãos tomado parte na pretendida revolução de S. Fernando em 1868, os quaes foram todos fuzilados.

Estas desgracias victimas do feroz dictador, em cujo numero contava-se a auctora das Memorias, foram salvas pela arrojada expedição do Tenente-Coronel Antonio José de Moura.

Foi o primeiro trabalho sahido de penna paraguaya sobre a guerra da tríplice alliança.

O traductor juntou ao texto 156 notas elucidativas e accrescentou, como documento justificativo, o capitulo 8.o da Obra de Benjamin Mossé, D. Pedro II, Paris,, 1889, e o depoimento do General Firmino Isidoro Resquin, Chefe do Estado-Maior do Marechal Lopez, prestado ao Conselho de Guerra em 1870, quando cahiu prisioneiro em Aquidabam.

Grandense (R. Strauch) 1900, 114 pp., com um prologo por R. de Farias Brito.

Além desses, José Arthur Montenegro compoz e escreveu os seguintes trabalhos, ainda inéditos, entre os quaes sobresahe o primeiro citado, incontestavelmente sua obra capital:

1.o volume—Origem da guerra.

2.o volume —Campanha de Matto-Grosso.

3.o volume —ídem do Rio Grande e Corrientes.

4.o volume —Cerco do Quadrilátero.

5.o volume —Campanha de Pikiricy.

6.o volume —Campanha da Cordilheira.

Seria IIlustrada com phototypias representando as principaes batalhas de terra e mar (copias de quadros de Victor Meirelles, Pedro Américo, De Martini), e com cerca de dois mil retratos de officiaes dos quatro exércitos beligerantes, diplomatas, etc.

Iniciada em 1888, tinha sido interrompida muitas vezes, em consequência de faltarem ao auctor os dados necessários; afinal, graças ao auxilio generoso de muitos. particulares dos quatro paizes limitrophes e dos governos do Brasil e Republica Argentina, achava-se o auctor de posse de todos os documentos para a prompta execução de sua importantíssima obra.

O Conselheiro João Nepomuceno Torros em sessão do Instituto Histórico e Geographico da Bahia propoz que essa associação fizesse um appello aos demais Institutos da Republica para que auxiliassem a viuva de Arthur Montenegro na impressão da Historia da guerra do Paraguay; não sei si a proposta teve andamento.

Da dita obra já foram publicados diversos trechos, salientando-se a Monographia do rio Ibicuhy, estampada no Echo do Sul de 10 de Outubro de 1893 e transei ipta no Jornal do Commercio em seu numero de 17 de Janeiro de 1894.

Essa monographia sob o titulo Bacia do Ibicuhy, e mais outras sob os títulos Arroio Tahim, Coordenadas Geographicas, Altitudes foram enfeixadas num volume com o titulo Notas para a Carta Geographica do Rio Grande do Sul e serviram-lhe como titulo de admissão a um dos logares de sócios correspondentes da Academia Cearense.

Depois de concluída foi esta obra submettida á apreciação do Contra-Almirante D. Luiz Uribe e Orrego, que foi commandante da Escola Naval de Valparaiso e posteriormente á do Coronel D. Juan A. Arona.

Em 1904 a Camara Municipal de Arraial mandou pôr com grande solemnidade no seu salão nobre o retrato de José Arthur Montenegro—A noticia circumstanciada dessa justa homenagem dos seus conterrâneos se encontra na Revista da Academia Cearense correspondente áquelle anno.