Filho de José Pacheco Spinosa, português, negociante. Tenente-coronel das Guardas de Aquiraz e fallecido a 20 de Dezembro de 1814, e de D.a Dorothea Maria do Espirito Santo, da família Carneiro, de Aracaty, nasceu em Fortaleza a 19 de Março de 1800.
Acompanhava ao irmão Mathias José Pacheco quando este sedusido pelo Padre Mello Pessoa veio em companhia de Francisco Alves Ponteò revolucionar o Ceará e obter-lhe a adhesão ás idéas republicanas. Tinha então 18 annos e chegara havia pouco a Pernambuco de Angola onde se occupara com negócios.
No interrogatório a que foi submettido pelo Ouvidor Manoel José de Albuquerque em Maio de 1817 declarou que a sua vida he andar embarcado praticando de Piloto.
José Pacheco e os companheiros foram agarrados em Canoa Quebrada pelo presidio do Aracaty e remettidos para Fortaleza.
Serenados os ânimos, estabeleceu-se em Fortaleza com loja de fazendas á rua Cotovello, local hoje occupado pela Avenida Sete de Setembro, mas por não lhe agradar a vida monótona do balcão fretou e comprou navios para transporte de gêneros e de gados, emprezas em que sempre foi infeliz.
De longo tempo muito dado a medições de terras e profundo conhecedor da Província, lembrou-se de fazer uma Carta Topographica do Ceará como já fizera uma da Ilha do Maranhão quando por lá andara.
Reunidos os recursos de que podia dispor e deixando seu filho, o professor Tristão Spinosa, que então cursava aulas no Lyceu, na gerencia da pequena fabrica de chapéus de que era dono, partiu em excursão pela província, começando por percorrer todo littoral, e depois o interior, sempre observando, tomando alturas, medidas, aqui e alli dados e informações, gastando neste afanoso trabalho saúde e dinheiro.
Começaram a faltar-lhe os recursos, pelo que com. os dados, que lhe fora possível obter, se viu obrigado a voltar a Fortaleza onde entregou-se a um novo trabalho de paciência, o de reunir notas, coordenal-as, dispol-as, traçal-as, tpdo combinando com as observações feitas. Muitas vezes impacientando-se. largava o lápis, e parecia abandonar a empresa; mas no dia seguinte a continuava com o mesmo afinco. Depois de muito tempo conseguiu tudo organisar em tamanho de palmo e meio, porem não ficou satisfeito, porque sendo em mauuscripto, as linhas e os nomes em certos logares se confundiam Resolveu passar o trabalho a ponto maior, o que, por conseguinte, demandava novos esforços e fadigas.
Sem instrumentos próprios, tudo fez a medida de compasso, gastando nisso muito tempo. Prompto o mappa, apresentou-o a seus patrícios e teve o dissabor de ver que não se lhe prestava attenção; homem emprehendedor e persistente, não desanimou e tirando duas copias as mandou para o Rio de Janeiro, e decorrido algum tempo resolveu mandar lithographar o trabalho á sua custa.
Já empobrecido e falto de meios, contrahiu dividas e hypothecou o seu possuído (as terras do Pacheco) no intuito de ir ao Rio, mas alquebrado pelos annos, pela lucta em que sempre viveu, os prejuisos e contrariedades por que passou, e finalmente pelo desapreço de seus patrícios, cahiu doente em Janeiro de 1878, para não mais se levantar.
No correr da doença, muitas vezes no delirío da febre animava-se e amparado no braço do filho ia ao logar onde estava seu mappa, pegava delle e dizia: Vamos, meu filho, ao Rio de Janeiro, alli haverá quem dê apreço ao meu trabalho, que os meus conterrâneos menoscabam.
A 25 de Março de 1878 morria José Pacheco Lima em casa de seu filho, o dito prof. Tristão Pacheco Spinosa.
Como eu disse, duas copias do mappa tinham ido para o Rio de Janeiro, ficando o original em poder do filho. Estes, annos depois, resolveu mandar tirar nova copia, por estar o original muito amarrotado, e desejar conserval-o como lembrança.
Para isto falou com um dos desenhistas da terra, e, convencionadas as condições, lhe confiou o mappa.
Aqui dou eu a palavra a um descendente de Pacheco Lima: “Passados mezes um amigo disse ao professor Tristão: Sabes, o Dr. F. está fazendo uma carta do Ceará ou copiando de outros mappas; o de teu pae também lá está; queres ver, vamos.
Chegados a uma casa da Praça José de Alencar, ali estava sobre uma meza um mappa do mesmo tamanho, tendo o littoral as mesmas dimensões do mappa de Pacheco, sendo para notar que e desenhista que estava trabalhando nelle era o mesmo de que acima se tratou. Passaram a outra e lá viram o mappa alludido, e alguns outros em rascunho.
Não restava duvida do fim para que estavam alli aquelles mappas, mormente o de José Pacheco. Seu filho mandou pedir ao desenhista a restituição do mappa que lhe confiara e quatro dias depois o mesmo desenhista o foi entregar, dizendo que delle não se utilisara.
Mas porque, e para que esiava alli aquelle mappa? A resposta é fácil de dar-se.
O professor Tristão Spinosa vendo naquelle mappa o objecto de tantas contrariedades e desgostos por que passou seu pai, desgostos que começavam a reflectir sobre elle, inutilisou-o lançando-o ao fogo”.
Agora continuo eu,
Bibliografia9
- Aos faustos annos de S. A. R. o Príncipe Regente Nosso Senhor. Soneto 1.o Fala o Tejo com Lisboa; Soneto 2.o Mercúrio suscitando prazer nas Cidades Portuguezas Soneto 3o. A prosperidade de Portugal attribuida ao sábio governo de seo Príncipe.
Esses tres sonetos foram recitados no fim do magnifico jantar dado a 13 de Maio de 1814 pelo Governador Manoel Ignacio de Sampaio.
- Aos faustos annos da nossa Sereníssima Princeza. Tres sonetos.
Foram recitados no dia 25 de Abril de 1814 no fim do jantar dado pelo Governador Manoel Ignacio de Sampaio.
- Soneto repetido em 12 de Outubro de 1812, dia em que teve principio a no a Fortaleza.
- Sonetos. Ao chafariz da Villa de Fortaleza, Capital do Ceará Grande, mandado fazer pelo Illm.o e Exm.o Sur. Manoel Ignacio de Sampaio, Coronel do Real Corpo de Engenheiros, debaicbo do seu feliz e Sempre memorável G.o, dirijido pelo Ajudante das suas ordens o Illm.o Snr. Antonio Jozé da Silva Paulet, Tenente-coronel do mesmo Corpo; dado ao bem do Publico em 8 de Setembro de 1813.
Esses dois sonetos foram destinados pelo autor para ser fixados nas pilastras exteriores do Chafariz.
- —Soneto repetido na Sala do Retrato na noite de 8 de Setembro de 1813 a chegada do Exm.o Governador e do Corpo dos Officiaes da tropa e de todas as pessoas de distincção que o acompanharão a ceremonia de soltar pela 1 .a vez as aguas do chafariz.
- Soneto em louvor do Illm.o Snr. Tenente-coronel Antonio Jozé da Silva Paulet, que dirigiu a obra do Chafariz.
- Mote—Da nova Fonte o Arquitecto Decima.
- Em Louvor do Exm.e Snr. Manoel Ignacio de Sampaio Governador do Ceará, no dia que correu na Villa da Fortaleza a primeira Fonte que por sua ordem se fez, recitou na Sala do Retrato o seu mais humilde súbdito José Pacheco Spinosa o seguinte romance heróico.
- Soneto l.o. Soneto 2.o, Soneto 3.o. Ao augmento da Villa da Fortaleza.
O 1.o desses sonetos, que foram recitados no banquete dado pelo Governador a 1 7 de Agosto de 1814 ás pessoas que concorreram á arrematação dos dizimos, canta a victoria dos alliados contra Napoleão, monstro que ficou aniquilado, yrano que hade perpetuamente ser odeado.
Por pessoa fideligna, um dos netos de Pacheco Spinosa sou informado que de grande copia de poesias delle era possuidor o Boticário Ferreira. Ferreira era casado também na familia Carneiro.
Outros poetas do tempo do Governador Sampaio foram o Padre Lino José Gonçalves de Oliveira de quem possuo uma Ode Pindarica; Manoel Correa Leal, que subscrevia as producções declarando-se um curiozo sem Estudos Latinos; o Padre Antonio Castro Silva de quem possuo alguns Sonetos offerecidos a Sampaio e uma Ode Pindarica á Assumpção de Nossa Senhora; Pedro José da Costa Barros Júnior, Sargento-mór do Regimento Miliciano das Marinhas do Ceará e Jaguaribe.
Desse ultimo encontro na minha Collecção uma Ode Pindarica aos Heroes Lus'Anglos, recitada a 17 de Agosto de 1814. É talvez a sua l.a producção poética. Della não fala Sacramento Blake.
José Pacheco Spinosa, em seu tempo um dos principaes negociantes da Fortaleza, sendo dos primeiros que importaram e exportaram directamente mercadorias para Europa visto que até então o commercio de Fortaleza era feito por intermédio de Fernambuco e Maranhão, adheriu á independência do Brasil, foi figura saliente no Ceará e occupou vários cargos.
Casou em Aracaty com D.a Dorothea Maria do Espirito Santo, a 26 de Março de 1786, havendo deste consorcio mais dous filhos alem de José Pacheco Lima. O 1.o, Mathias José Pacheco, foi commerciante em Pernambuco. Envolvendo-se na Revolução de 1817, foi preso e remettido para as cadeias do Limoeiro em Lisboa. Livre, voltou ao Ceará, e entregou-se á criação de gados e á agricultura em terras de sua propriedade, no logar Barra do Ceará, sendo por isto conhecido por Mathias da Barra. Militou sempre no partido liberal, exercendo diversos cargos de nomeação e eleição. Delle tratarei adiante.
O segundo filho, Francisco José Pacheco, homem pacato e manso, pertenceu ao funccionalismo publico, morrendo pobre como acontece á maioria dos que seguem essa carreira.
O trabalho de José Pacheco Lima, a que me referi acima, é assim intitulado: Mappa Oeographico da Provinda do Ceará. Offerecido a S. M. I. o Senhor D. Pedro II por José Pacheco Lima, Piloto Hydrographico e Geographico, approvado pella Academia de Lisboua, cujo trabalho propouse a fazer a sua custa ja a tempos Vindo a concloir em 1853, tirando praticamte em rumo magnético, igoalmente por ter visto as grandes alteraçoens que tem no Mappa do Brazil e outros q’ tem apparecido, q' athe feicha a Serra Grande com a do Per.o e Apodi avendo hua grande distancia e também p.a tirar os meos Pat.os de alguns enganos na Geographia. Cidade da Fortaleza 28 de Julho de 1854. 0m;)86lX0m,604.
Seu filho o professor Tristão Pacheco Spinosa falleceu em Fortaleza a 8 de Maio de 1915 aos 81 annos de edade. Era casado com D.a Isabel Theophilo Spinosa.