Segundo Diccionario Bio-bibliographico Cearense
Filho de José Antonio da Costa e Silva e de D.a Maria do Carmo Theophilo e Silva, nasceu a 27 de Setembro de 1836 em Fortaleza na casa n. 66 da rua Formosa, visinha á casa em que hoje funcciona O Cruzeiro do Norte e anteriormente occupada pela Litho-Typographia Cearense, que é de propriedade de D.1 Diva de Alencar Gadelha e substituiu á Lithographia Cearense dos Irmãos Costa Sousa. Neto pelo lado paterno de Albano da Costa dos Anjos e pelo lado materno do português Manoel José Theophilo. Primo pelo lado paterno de Capistrano de Abreu e pelo,, materno de Clóvis Beviláqua.
.Em 1850 por morte do Dr. Ayres, que exercia a medicina no Aracaty, tratou José Teixeira Castro de dar-lhe successor. Teixeira Castro, que foi o sogro do Dr. Thomaz Pompeu Filho e do actual Desembargador Gomes Tavares, era dono de grande pharmacia e pois tinha interesse em que a localidade possuísse um profissional. Sobre Marcos Theophilho, tio de Juvenal, recahiram suas vistas e para lá seguiu o novo medico mediante o partido de dois contos de réis.
Em companhia do parente seguiu Juvenal, que já então estudava latim com o Padre Nogueira Braveza.
A mudança não lhe prejudicava os estudos por quanto em Aracaty havia uma Fscola Publica da mesma disciplina sob a regência de Porphirio Sabóia; nessa escola matriculou-se elle. Foram seus condicípulos Pergentino, Clycerio, Sá Leilão, que depois de Juiz de Direito tomou ordens sacras e Leôncio Chaves, o heróico Padre que succumbiu na epidemia do choleia victima de sua admirável caridade.
Ao tempo em que frequentava o curso publico, ouvia Juvenal egualmente as lições de um seu amigo, que se empregava a desmanchar fardos de fumo e a fazer e vender charutos. Esse charuteiro mais tarde frequentou o Seminário de Olinda, emprehendeu uma viagem á Terra Santa e cingiu com brilho a Mitra Pernambucana; chamou-se D. Manuel de Medeiros.
Destinado por seu pae, que vivia da agricultura, a substituil-o como único filho varão, que era, na direcção dos trabalhos ruraes, conseguiu, todavia, Juvenal a permissão de visitar a Capital do paiz e para o Rio se transportou. Ali ligou-se intimamente a Paula Brito a quem o recommendaram cartas de Rufino José de Almeida, o velho, residente em Recife, um amigo de seu pae que estivera no Ceará.
A casa de Paula Brito era então o rendez-vous dos magnates e também dos homens de letras; ahi travou Juvenal relações com alguns que mais tarde e hoje têm chamado a attenção publica e celebrisado o nome, por exemplo Machado de Assis, então typographo, e Quintino Bocaytíva, pupilo de Saldanha Marinho e que substituiu a Alencar na redacção do Diário do Rio de Janeiro.
Em tal meio as letras seduziam; Juvenal principiou a escrever poesias e a publical-as na Marmota Fluminense, propriedade de Paula Brito, em que collaboravam Macedo, o autor da Moreninha e do Moço Louro, Teixeira e Souza a quem se deve o poema Independência do Brazil, e outros distinctos literatos.
Instado pela família a regressar, Juvenal ajuntou os magros dinheiros, que tinha e que o pae destinara a um passeio pelo interior da província do Rio no propósito de que estudasse de visu o que dizia respeito á cultura caféeira, e enfeixando em livro as suas poesias esparsas publicou os Prelúdios. Na mesma mesa em que tirava as provas na typographia de José Soares Pinho tirava também Mello Moraes Pae as provas da sua Physiologia das Paixões.
De volta ao Ceará sobraçava Juvenal dous exemplares dos Preludios ricamente encadernados. Eram um mimo para o pae e para a mãe extremosa e afim de mais captival-os encerrravam o retrato do joven cultor das Musas. Esse trabalho de photographia, que fora arranjado por intervenção de Insley Pacheco, a quem Mello Moraes Filho dedicou algumas paginas do seu bello estudo intitulado Artistas do meu tempo, foi, talvez, o primeiro que o Brasil conheceu.
Simples prova ou ensaio, mantem-se até hoje perfeitamente esse retrato como verifiquei.
Joaquim José Pacheco, depois Joaquim Insley Pacheco, a quem me referi, chegando de Portugal á Fortaleza foi por annos caixeiro de Antonio Borges e depois de João Antonio Garcia, com cuja filha, D.a Elvira, consorciou-se a 6 de Agosto de 1852, sendo celebrante do acto o Padre José Candido da Guerra Passos e testemunhas Antonio de Oliveira Borges e sua Senhora e o Commendador Francisco Coelho da Fonseca e D.a Maria Ephigenia, irmã mais velha da noiva; depois seguiu para os Estados Unidos, onde aperfeiçoou-se na arte da photographia para a qual tinha decidido pendor, e onde nasceu-lhe a primeira filha, também de nome Elvira.
Tornando ao Ceará após penosíssima viagem, aqui demorou-se por algum tempo, seguindo depois para Pernambuco e dahi para o Rio de Janeiro, onde fixou residencia e vive ainda a trabalhar honrando-se e a profissão em que se fez notável e tão apreciado.
Na sua fazenda da Serra da Aratanha, onde residia até 1886, consorciou-se Juvenal a 19 de Novembro de 1876 com Da Maria do Carmo Cabral e Silva, filha do Commendador Cabral de Mello.
Por occasião da ceremonia, que foi celebrada pek> bispo Dom Luiz Antonio dos Santos, recitou uma poesia encomiástica um dos sacerdotes da comitiva. Terminava ella assim :
Salve festa dies; Juvenalis tu inclyte vates.
Salve; et tu conjux psi caríssima; salve.
O autor da poesia chamava-se Jeronymo Thomé da Silva e é o actual Arcebispo da Bahia.
Mudando de residencia para Fortaleza,- Juvenal exerceu até 1908 o cargo de Bibliothecario Publico, que occupava desde 1889 por nomeação do presidente Caio Prado e em substituição ao Dr. Antonio Augusto de Vasconcellos, nomeado lente da Escola Militar, e, grande desconhecido, vive hoje mergulhado nas trevas de triste cegueira.
Em 1859 tomou assento como deputado supplente pelo circulo do Icó, sendo um dos que recusaram as leis de meio ao Presidente Silveira de Souza. Nessa sessão apresentou e defendeu um projecto de creação de uma escola pratica, escola normal de agricultura, de que se occupou o Sol de Pedro Pereira.
É Cavalheiro da Ordem de Christo.
É a seguinte a lista de suas obras9
- Prelúdios Poéticos, Rio de Janeiro, Typ. Americana de José Soares do Pinho, rua d'Alfandega n.o 210, 1856, com 152 pp.
- A machadada, poema phantastico por..., Ceará, impressa na Typ. Americana de Theotonio Esteves de Almeida, rua do Fogo, 1860, com 26 pp.
Deu causa á Machadada ter Juvenal Galeno, que então era Alferes da Guarda Nacional, preferido comer um appetitoso peru em companhia de Gonçalves Dias, Pompeu e Coutinho a se aehar presente a uma Revista do seu batalhão; dahi seis dias de prisão no Estado Maior por ordem do Commandante Superior João Antonio Machado; dahi a terrível versalhada, para cuja não publicação choveram os pedidos tanto perante o autor como junto a Theotonio Esteves, que resistiu a todas as peitas e seducções.
Celebrou-se o banquete, em que se sacrificou o peru preferido ás manobras e exercícios da velha Guarda Nacional, no edifício construído em Jacarecanga em que então se hospedava parte da Commissão Scientifica e que mais tarde serviu de Lazareto.
- Porangaba, Ceará, Typ. Cearense, impresso por Joaquim José de Oliveira, 1861, 102 pp.
- Quem com ferro fere com ferro será ferido, comedia levada a scena em Fortaleza pela J.a vez a 3 de Novembro de 1861. Não foi impressa.
- Lendas e Canções Populares, Ceará, 1865, Typ. de João Evangelista, 415 pp.
Teve 2.a edição, augmentada com as “Novas lendas e canções” e precedida dos juisos críticos de Pinheiro Chagas, Araripe Júnior, Franklin Távora, José Feliciano de Castilho, Fernandes Pinheiro, Marques Rodrigues e Machado de Assis, Lisboa, 1892, Typ. da Casa editora Antonio Maria Pereira, com 622 pp., edição de 3000 exemplares, editor Guálter R. Silva.
- Scenas Populares, Ceará, Typ. do Commercio, 1871, com 283 pp.
Teve 2.a edição, com uma carta de José de Alencar, editor Louis Cholowiecki, 1902, e 321 pp. notas inclusive.
Sobre asScenas Populares escreveu José de Alencar: “Livro tão original ainda não se escreveu entre nós, e o Ceará deve lisongear-se de ter quem lhe dê na litteratura pátria um logar que não tem outras Províncias mais ricas e adiantadas em progresso material.
- Canções da Escola, obra adoptada pelo Conselho de Instrucção Publica do Ceará para uso das aulas primarias, Ceará, Typ. do Commercio, 1871, á venda na livraria de Joaqnim J. d'Oliveira & Filho á Praça do Ferreira, 34 pp. com 14 canções.
- Lyra Cearense, Ceará, Typ. do Commercio, 1872, com 150 pp.
- Folhetins de Silvanus, Fortaleza, Typ. Universal de Cunha Ferro & C.a, rua Major Formosa n. 33, 1891, 219 pp.
Alem dessas obras tem publicado, mais de uma vez, satyras em verso e prosa e collaborado em revistas e jornaes do Ceará e Rio de Janeiro, como O Peregrino, Revista do Instituto do Ceará, A Quinzena, Republica, Revista Popular e Jornal das Famílias.
No Diccionario Universal de Maximiano Lemos encontram-se a biographia, aliás muito resumida, e um óptimo retrato de Juvenal Galeno, que nelle é qualificado de Beren ger Brasileiro A Penna, Revista Scientifica e Litteraria de Fortaleza sob a redacção de Graccho Cardoso, Marcolino Fagundes e Mattos Guerra, traz também no n. 4.o sua biographia.
No Quadro Synthetico da evolução dos géneros na Litteratura Brasileira por Sylvio Romero é Juvenal o único cearense citado no quadro Poesia, e figura como representante do Periodo Romântico, quarto momento, ao lado de Bittencourt Sampaio, Bruno Seabra, Mello Moraes Filho, etc.
Segundo 1001 Cearenses Notáveis
Grafado como JUVENAL GALENO da Costa e Silva
Nasceu em Fortaleza, 27 de setembro de 1836, filho de José Antônio da Costa e Silva e Maria do Carmo Teófilo e Silva. Morou algum tempo em Aracati, onde estudou com o Professor Porfírio Sabóia e, de volta a Fortaleza, fez parte dos preparatórios no Liceu, interrompendo-os para ir ao Rio de Janeiro, por determinação do pai, colher ensinamentos e subsídios para desenvolver a cultura do café, a que se dedicava em fazenda na serra de Baturité. Aproveitou a oportunidade para achegar-se a Paula Brito e intelectuais ao seu redor, iniciou a publicação de seus poemas na “Marmota Fluminense” e deu a lume os Prelúdios Poéticos (1856), o primeiro livro de autor cearense, cujo custo foi coberto com os recursos que o pai lhe dera para os estudos de que fora incumbido. Retomou ao Ceará e fez amizade com Gonçalves Dias, que integrava a Comissão Científica da Imperial Secretaria de Negócios Interiores encarregada de colher elementos para que se pudesse melhor avaliar o desenvolvimento etnográfico do homem brasileiro. Deputado Provincial pela freguesia de Icó (1859). Alferes da Guarda Nacional, não era bem visto pelo Comandante João Antônio Machado e vingou-se de uma prisão que lhe foi aplicada - escrevendo os versos de A Machadada. Colaborou em “O Cearense”, “Pedro II” e “A Constituição”, jornais de Fortaleza. Em 1861 teve representado o drama Quem com Ferro Fere com Ferro Será Ferido e publicou sua terceira obra poética - Porangaba. Em 1865 apareceram as Lendas e Canções Populares, sua obra-prima, que alcançou êxito invulgar. Publicou, depois: Cenas Populares e Canções da Escola (1871), adotados como livros de aula pelo Conselho de Instrução Pública do Ceará; Lira Cearense 1872); Folhetins de Silvanus (1891); Novas Lendas e Canções (1892), e Medicina Caseira.
Um dos fundadores do Instituto do Ceará, ocupou a direção da Biblioteca Pública do Ceará, aposentando-se em 1908 por ter contraído cegueira que o impedia de continuar trabalhando. Também exerceu por algum tempo a função de Inspetor Escolar. Esquivou-se de participar do movimento da Padaria Espiritual, que, entretanto, lhe concedeu o título de Padeiro honorário. Sócio fundador do Centro Cearense. Patrono das cadeiras n°s 23 da Academia Cearense de Letras e 47 da Academia Cearense de Ciências, Letras e Artes do Rio de Janeiro. Em 1919 foi fundado em sua residência o Salão Juvenal Galeno, posteriormente Casa Juvenal Galeno, sob os auspícios de sua filha e secretária Henriqueta, que se transformou no principal ponto de encontro da intelectualidade cearense. Morreu em Fortaleza, 7 de março de 1931.