Filho de João Francisco de Oliveira e de D. Maria Izabel de Paiva Oliveira, nasceu a 12 de julho de 1861 em Fortaleza na então rua Amélia, hoje Senador Pompeu, casa n. 162. Estudou no Seminário do Crato e foi alumno da Escola Militar do Rio de Janeiro, que deixou em 1883, já doente de affecção pulmonar a que sucumbiu.
De collaboração cora João Lopes e Antonio Martins escreveu A semana, chronica que o Libertador publicava aos sabbados, assignada por Gil, Pery & C.a.
É o auctor da Zabelinha ou Tacha Maldita, conto em verso, Ceará, Typ. Econômica, rua da Boa-Vista, 85, 1883, offerecido á memoria de Luiz Gama, in-8.o de 40 pp., e de um romance com o titulo A afilhada, que foi publicado no rodapé do Libertador, como foram também uns sonetos seus sob o titulo Sons da viola. Zabelinha é um trabalho de propaganda abolicionista como muitos outros de Oliveira Paiva, entre os quaes o pamphleto intitulado Vinte e cinco de Março, in 8.o, de 25 pp., 1884.
Em 1887, com João Lopes, Antonio Martins, Abel Garcia, José de Barcellos e José Olympio redigiu A Quinzena, propriedade do Club Litterario, publicando nella vários contos como A corda sensível, O velho vovô, O ar do vento Ave Maria, A Paixão, De preto e d”, vermelho, A melhor cartada. No jornal Cruzada, ergam da Escola Militar do Rio de janeiro, escreveu o romance Tal filha, tal esposa e uma serie de sonetos sob a epigraphe Transparencianas.
Falleceu a 29 de Setembro de 1892, tendo desempenhado as funcções de Secretario do Governo e de 1.o official da Secretaria do Ceará.
A Padaria Espiritual publicou a 9 de Outubro uma polyanthéa com seu retrato e traços biographicos por Antonio Salles.
Oliveira Paixa deixou um romance D. Guidinha do Poço, que foi publicado em 1899 na Revista Brasileira, Rio, t, 17.
De Manoel de Oliveira Paiva escreveu o seguinte Araripe Junior no Tempo, do Rio de Janeiro, em artigo sob titulo - Um romancista do norte.
No momento em que as lettras pátrias parecem receber um: poderoso impulso e, com as agitações politicas, todas as forças vivas da nação se levantam para amparar o futuro e consolidar a crença no próprio valor; não extranharão os leitores do Tempo que um amoroso da terra venha lembrar aqui o nome de um escriptor desconhecido, que muito trabalhou para o engrandecimento- das lettras de seu paiz com o amor de um artista e a coragem de um batalhador.
Trata-se de um moço cearense, que dispersou muito talento e esthesia pelos jornaes de sua província, e que estava destinado a representar um papel brilhante entre os romancistas brasileiros. Infelizmente refiro-me a um morto, porque, quando os seus escriptos promettiam a conversão dos projectos em formosa realidade, a eterna inimiga desmoronou os castellos, que se esboçavam numa imaginação já perfeitamente cultivada para as fortes construcções do romance de observação.
Chamava-se Manoel de Oliveira Paiva esse moço, que a 29 de Setembro de 1892 succumbio do mal dos poetas brasileiros, aos 31 annos de sua idade, deixando atraz de si uma saudade immorredoura traduzida no soluço da nova geração do Ceará. Sentimento igual a este pungiu o coração do auctor destas linhas, em 1878, quando se finou Raymundo da Rocha Lima, outro cearense de grandes esperanças, que a fatalidade surprehendeu no amanhecer de gloria, justamente no momento em que no seu cultivado espirito se conjuravam os elementos para a factura de dois monumentos de critica — um sobre a “Revolução” e outro sobre “Jesus”.
Era Oliveira Paiva um observador e um forte, no qual juntavam-se qualidades poéticas que o tornariam um mestre na arte de compor se continuasse a viver.
Pobre, sem protecção teve de luctar com a vida para abrir caminhos ao exercício de suas faculdades. Foi Seminarista no Crato, para obter os primeiros rudimentos de educação, e depois sentou praça, para illustrar-se num curso de guerra. O que fez durante esse periodo de sua existência dizem as tradições da escola Militar, a “Cruzada” onde o poeta ensaiou as suas primeiras armas publicando versos humorísticos e romances, que desde logo aununciaram a sua aptidão para o genero descriptivo e para analyse dos caracteres.
Pouco tempo depois abriu-se a campanha abolicionista-Oliveira Paiva foi um dos incendiados por essa convulsão sentimental, em que o Ceará devia tomar a dianteira e os seus filhos representar o papel de immediatos precursores da Republica. Nessa epocha o propagandista audacioso já era minado pela cruel enfermidade, que o levaria a sepultura.
Obrigado a voltar á sua terra em busca de lenitivo aos males que o atormentavam, longe de achar ah i o repouso de que carecia, encontrou a febre do “Libertador” e a tormenta que João Cordeiro, Amaral, Frederico Borges e outros haviam desencadeado contra os proprietários de escravos.
A jangada do “Dragão do Mar” desfraldara a vela branca da libertação dos captivos nos verdes mares do Mocoripe; e os negreiros aterrados diante da propaganda enérgica capitularam por toda parte, entregando a presa secular aos novos conquistadores *a “Terra da luz”. Nesse tumulto de enthusiasmo, Oliveira Paiva extenuou-se em discursos e versos, e, no auge da excitação, deu á estampa dois poemetos de propaganda, vibrantes de colera e de um lyrismo extranho, quasi desconnexo. “Zabelinha” intitulava-se um desses poemetos, e um dos poetas da nova geração cearense, Antonio Salles, quiz descobrir nelle “certa allure” imprevista, de que dão idéa muito approximada os productos da actual escola “decadista” ou “symbolista”.
Terminada a faina libertadoura, começou então para o poeta uma phase tranquilla, durante a qual, no “Libertador”, órgão litterario, dirigido pelo actual deputado João Lopes, dedicou-se mais calmo aos trabalhos de sua vocação,
Affirmam todos os que conheceram o auctor da “Zabelinha” nesse periodo, que apezar de minado pela enfermidade, elle mostrou na prosa uma fecundidade que de dia a dia tomava maiores proporções.
Foi nesse jornal e na “Quinzena” que tive occasião de apreciar o talento artístico de Oliveira Paiva, que á primeira inspecção se apresentava como um namorado de formas goncourianas.
Logo depois, fui surprehendido com a publicação, em folhetim no “Libertador”, de um romance de fôlego,, intitulado “A afilhada”, no qual não sabia o que mais admirasse, sua habilidade com que o romancista adoptava o naturalismo no meio que descrevia, se as audácias propriamente “cearenses”, que davam ao romance um sainete só apreciável aos filhos da terra.
Esta obra, por motivos secundários, não se editou em livro, o que é uma pena.
Com o advento da Republica nasceu a actividade politica, do poeta. Escolhido para secretario do governo provisório do Estado, foi depois escolhido para 1° official de uma das respectivas secretarias, quando se organisaram os serviços públicos.
A medida da vida desse moço, porem, tinha enchido. A morte, que o namorava havia tantos annos, escolheu; para fulminal-o justamente o momento em que os seus esforços ião ser coroados, não só por uma collocação definitiva na sociedade, mas também pela confirmação do conceito em que os amigos tinham os seus talentos.
Pode-se affirmar que com Oliveira Paiva baixou á sepultura uma das aptidões mais enérgicas, que o Ceará tem produzido para o romance de costumes.
Agora chega-me a noticia de que no espolio litterario do morto encontrou-se o manuscripto de um romance de extenso desenvolvimento, o qual elle tinha prompto para o prelo.
Diz-me um dos seus saudosos amigos, após a leitura em roda competente, que D. Guidinha, tal é o nome do livro, “tem por “motivo” principal um desses dramas sanguinolentos a que serviam de scenario as nossas fazendas,revestidos de circumstancias ao mesmo tempo barbaras e cavalleirescas que davam á vida dos antigos sertanejos um accentuado tom medieval.”
Pela natureza do assumpto vejo que se trata de um livro escripto sob these idêntica a que serviu de arcabouço ao “Sertanejo” de José de Alencar.
Succede, porém, que o auctor do “Guarany”, não conhecendo os sertões do Ceará “de visu”, ficou muito a barlavento da verdade, e no romance deu-nos apenas uma sombra poética da vida do interior e das fazendas.
Se não mentem os meus vaticínios, se é exacto que Oliveira Paiva poz em contribuição todos os processos modernos denotação para compor o livro que se annuncia, não recuso pensar que D. Guidinha virá preencher uma lacuna no gênero romance, offerecendo-nos um quadro violento de situações quentes, no qual se agitam typos os mais curiosos criados pela vida creoula na região central, onde os horrores da secca triumpham periodicamente.