Filho do Tenente-Coronel Antonio Bezerra de Menezes e D. Fabiana de Jesus Maria Bezerra de Menezes, nasceu no Riacho do Sangue em Agosto de 1810.
Formou-se em Direito em 1836 pela Academia de Olinda.
De volta á terra natal, entrando na politica, foi deputado provincial de 1840 a 1843 e de 1870 a 1873, sendo vice-presidente da assembléa no biennio de 1870 a 1871 e presidente em 1842, deputado geral na legislatura de 1845 a 1847, presidente da Camara Municipal de Fortaleza no quatriennio de 1860 a 1863 e 3.o vice-presidente da Provinda. Nesse ultimo posto teve de assumir as rédeas do governo, por alguns dias, em Outubro de 1872.
Foi, também, juiz municipal de Quixeramobim, lente substituto de Geometria e effectivo de Português no Lyceu de Fortaleza, inspector interino, por 3 vezes, da Instrucção Publica, procurador fiscal da Ttiezouraria de fazenda e inspector do Thezouro Provincial, logar em que se aposentou em 1874, Tinha o habito de Christo e por seus relevantíssimos serviços á causa catholica mereceu do Santo Padre Pio 9.o o habito de Gregorio Magno.
Grande cultor do latim e da lingua vernácula, e muito versado em questões de philosophia, deixou vários trabalhos, que lhe recommcidam o nome. Collaborou nos jornaes Pedro II e Tribuna Catholica.
Tendo se casado em 1837 com sua prima D.a Maria Thereza de Albuquerque, teve 18 filhos, entre os quaes Antonio Bezerra e Israel Bezerra.
Falleceu ás 9 horas da manhã de 29 de Novembro de 1888.
Escreveu6
- Compendio de Grammatica Philosophica do Lyceu provincial, Ceará, 1861, in-8° de 128 pp.
- Os Dogmas Políticos do Christão, Ceará, Typographia Social, 1864, in. 8.o de 99 pp:
- O Inferno ou a Refutação do folheto de Alfredo Maury negando a existência do inferno. Fortaleza, Typ. Constitucional 1868, 48 pp. Sem nome do auctor.
- Compendio de grammatica da lingua nacional, Fortaleza, 1877, in-8° de 80 pp.
Sobre o Compendio escreveu na Constituição (1877) uma serie de.artigos críticos José Sombra sob o pseudonymo de Um estudante. O ultimo d'elles é de 4 de Novembro e versou sobre a subjectividade da palavra Se.
- Questão de grammatiea philosophica. Breves reflexões sobre o artigo do Snr. Dr. Castro Lopes acerca da origem, natureza e funcção do Se com os verbos transitivos e intransitivos e com o verbo Ser, São artigos publicados no Cearense em 1881.
- O que é a protestantismo. Escripto por um catholico que se assigna um Suisso do Vaticano e offerecido ás pessoas e familias catholicas em defesa de sua fé. Ceará, Typ. do Libertador, 1884, Folheto de 44 pp. em 2 columnas. Sem nome do autor.
Referindo-se a seu passamento O Ceará de 2 de Dezembro escreveu justo e sentido artigo de fundo, do qual destaco os seguintes trechos;
“A's bordas do sepulcro do crente que se esvahiu num meigo sorriso de anjo, a lagrima symbolisa a saudade e significa a esperança. Prantear o justo, que se desprende das cadeias terrenas e ascende ás mysticas regiões da Eternidade, é-abraçar o viandante que, chamado á Chanaan celeste, mergulha na noite do tumulo, tendo como bordão a Cruz e como guia a fé.
São verdadeiramente felizes os que crêem; são realmente ditosos os que junto ao sarcophago disputam ao nada do século a alma do christão.
Ante o tumulo do justo sentimos ferir-nos o coração o acre-dôce da saudade; deslisa-se-nos pela face a tépida lagrima do amor e da amisade; vemos escancararem-se as fauces da sepultura tétrica e feral, mas o espirito rociado pelo santo orvalho da crença religiosa compraz-se na consoladora certeza da immortalidade de uma existencia sem dores e sem fim.
O crente que some-se pelos desertos do tumulo, em viajem pari a mansão dos eleitos, não é simples mortal que passa ao olvido do nada, porque naufragando no pélago da vida material assoma victorioso e feliz nas plagas da Sião Eterna.
Assím desappareceu de entre nós, finando-se nesta capital no dia 29 do mez de Novembro recentemente passado, o venerando ancião Dr. Manoel Soares da Silva Bezerra, desta provinda, chefe proeminentissimo de distincta familia.
Sua vida publica foi, como a intima, um continuo exercício de virtudes. Chamado a elevados cargos de nomeação do governo geral e do provincial, e a outros de eleição popular o illustre finado ornou-os todos com o brilh de sua inteligencia, illustração e virtudes.
Nosso jornal enluta-se hoje, consagrando á saudosa memoria do finado uma edição especial. Justíssimos e bem poderosos são os motivos desta solemne manifestação, deste derradeiro tributo pago ao boníssimo e virtuoso mestre.
Commungando as mesmas ideias que se albergavam no espirito eminentemente lúcido de preclaro cidadão que choramos hoje, sentimos n'alma a dor da saudade, vendo sumir-se no occaso da vida o batalhador enérgico e invicto que, coroada de cans ostentava um coração de moço na defeza da fé catholica, abrilhantando e enaltecendo grandiloquamente a imprensa desta terra, que lhe deu o beiço e que, ciosa de seus preciosos restos, os guarda no seio da tumba.
Astro de prima grandesa no Céo das lettras pátrias, tinha elle um fulgor mystico que, passando desapercebido aos olhos do mundo material, luzia com a vivacidade de um foco eléctrico na vastidão do mundo intellectual e do moral.
Sua penna, sempre inspirada e feliz, deu as maiores baralhas ao erro e á impiedade; assestada contra os inimigos, ella jamais deixou de bater as inverdades do philosophismo e o absurdo da heresia. Dir-se-hia o ígneo alfange do biblieo paraíso, empunhado sempre contra os apóstolos das trevas.
Em nome da verdeira sciencia elle aprofundou com maestria notável todas as questões que entendiam com a religião catholica, muitas e muitas vezes calumniada na imprensa cearense; escrevia com a energia de mestre e descorria com a proficiência de sábio que o era.
Espirito profundamente adiantado e refractário a todo o sentimento que se não coadunasse com suas arraigadas crenças, elle—o Dr. Soares—nunca assomou na arena jornalística movido pela vaidade, ou pelo prurido de glorias mundanas, não. Atalaia infatigável da cidadella da fé catholica, elle, tão humilde quanto-valente, não consentia que impunemente se desfechasse urre golpe contra a santidade de nossas crenças; uma contradicta immediata, enérgica, fundamentada e peremptória surgia, corre rapidez da flecha disparada pelo indígena, da penna do Dr. Soares, sem embargo de nenhum obstáculo.
As frequentes controvérsias scientificas em que se empenhou na liça do jornalismo catholico são uma verdade que, evidentemente conhecida, dispensa encarecimento.
Quer na imprensa, quer na tribuna o illustrado mestre, cuja erudição era vastíssima e profunda, manifestou sempre a máscula energia de suas convicções, defendendo-as com os recursos da sciencia sem jamais descer á pequenez do vocabulário injurioso. Arrostando valente e modestamente o orgulho do século, elle não permittiu nunca que a mentira e o sophisma, aformozeados com as vestes da sciencia, echoassem sem um brado de indignação, sem um protesto immediato.
O devotado defensor da sciencia e da té, que estudando dia e noite se constituirá o santo anathematisado do ímpio litteratismo, era sempre em toda a parte o mesmo homem de bem, ostentava sempre o mesmo caracter em todas as manifestações de sua vida publica ou particular.
Na escabrosidade da vida official onde, por vezes, foi convidado a cargos de máxima confiança o Dr. Manoel Soares fez attingir seus deveres á altura de uma religião.
Funccionario distinctissimo pela illustração, que enriquecia-lhe a intelligencia fecunda e prompta, elle, como tal, não só honrou a classe, como também deixou compendiados os mais edificantes exemplos de sanissima probidade e de illibada inteireza.
No conchego do lar, onde era uma providencia, suas virtudes duplicavam em realce como estrellas fulgentes em um céo limpido de uma madrugada do outono. Era fortíssima columna em que se arrimou, até os últimos momentos, Uma descendência numerosa, ennobrecida pelas selectos virtudes de seu venerando chefe, e felicitada pelos ensinamentos e exemplos de tão illustre ancião.
Patriarcha virtuoso e sábio, trabalhador e modesto, valente e humilde, o Dr. Soares, que ora pranteamos, teve a suprema felicidade do justo.
Sua agonia extrema foi amenisada pela augusta presença de uma família inteira, por elle educada nos sacrosantos preceitos da religião catholica que, representada naquelles instantes pelos veneráveis levitas do Senhor, derramava sobre sua fronte encanecida e pálida, mas aureolada com o fulgor dá virtude, o santo bálsamo das preces derradeiras.
O Dr. Manoel Soares baixou á tumba sôb o peso de 78 annos de idade, consagrados ás lides da intelligencia, á pratica do bem, ao serviço de Deus e do homem e ao exercício ininterrompido de todas as virtudes religiosas e cívicas-Pezames á igreja, á Sociedade Cearense, á família humana, ás letras pátrias e á província do Ceará.
Eis em ligeiros traços estereotypado quem entre nós chamou-se Manoel Soares da Silva Bezerra, cujas virtudes são-nos um phanal e um estimulo.
O jornal em cujo nome deixamos escriptas estas orações, enluta-se hoje, é certo; mas não se entristece com a tristeza do materialista, vendo desapparecer o venerando mestre e amigo, porque tem a dulcíssima consolação de saber que o pranteado ancião se esvahiu como um anjo e adormeceu como justo, alando-se ás incommensuraveis paragens do Infinito. Beati mortui qui In Domino moriuntur”.
Esse artigo é da penna de Vicente Mendes, um bom coração e um bello espirito.