Filho de José Pacheco Spinosa, natural da Ilha da Madeira e fallecido a 19 de Dezembro de 1814 e de D. Dorothea Maria do Espirito Santo, Aracatyense, fallecida a 16 de Agosto de 1835, nasceu em Mecejana travessa das Cajaseiras a 26 de Fevereiro de 1790. Foi seu tio Manoel Pacheco, que foi morgado de uma antiga casa, e irmãos Francisco Pacheco nascido em 1797, e josé Pacheco nascido em 1798.
Ensinou-lhe os rudimentos das 1.as. letras Antonio Pereira d'Avila, o único mestre que então havia em Fortaleza.
Até os 19 annos da m.a edade, diz elle numas Memorias, que deixou, meus dois irmãos me acompanhavão na infância. Meu Pae tendo hido a Serra de Uruburetama fazer um carregameuto de algodão voltou com elle no anno seguinte, e embarcou com o mesmo em um navio Português que vinha de Pernambuco com escala por nosso porto e Maranhão com destino a Lisboa, por ali se demorou meu Pai perto de um anno, chegando em nosso porto com um Navio seu, que comprara, carregado com generos e fazendas, de commissão, sendo o primeiro que abriu commercio directo com a metrópole ao Ceará.
O navio de volta a metrópole, depois de quazi descarregado, em um desses ventos de travessia no Tejo, quebrando as amarras, foi ao Caes da pedra, em Lisboa, com outros. Então os correspondentes, com o que tinhão de nossa Casa, e ordem de meu Pai comprarão outro e o mandaião com algum carregamento ao nosso porto. Este Navio trazia o nome de Felicidade a ver se elle concorria ao menos p.a salvar a perda do primeiro, no qual para maior segurança meu Pai sociou na metade com o negociante de Uruburetama Antonio Manoel Alves, ja fallecido. Ainda poude dar uma viajem, mas na segunda não podendo entrarem Lisboa pela invasão dos Francezes, seguiu ao canal de Inglaterra, e ali foi batido por um Corsário Francez e poude ainda avariado entrar em um dos portos do Canal. Havia seguro; mas tudo foi pretextado para se não pagar tão avultadas avarias”.
Estabelecido a principio com uma pequena loja em Fortaleza, emprehendeu viajem á Europa para a venda de algodão de parceiria com o negociante português Luiz Antonio Cordeiro, da família Valladares, e que foi cunhado de Francisco Alves Pontes, e mais tarde para Angola, com escala por Benguela, mas desta vez em commercio de escravos. De todas as vezes foi infeliz sendo que na volta da Africa a varíola disimou-lhe a escravatura. Chegado a Pernambuco a 7 de Março de 1817, foram elle e o citado Pontes feitos officiaes por parte da revolução, mas porque vieram ao Ceará e Sampaio teve noticias deterem elles se apresentado fardados (fardas asues com vivos brancos, estreitas brancas em vez de dragonas, topes brancos no chapeo) ao Governador Republicano do Rio G. do Norte Cel. André de Albuquerque Maranhão, conhecido por Andresinho, os fez prenderem Canoa Quebrada e depois de interrogal-os os fez embarcar para Maranhão acorrentados e ligados com criminosos vulgarei. As averiguações feitas chegaram á conclusão de que realmente os dois eram emissários dos revolucionários de Pernambuco.
Do Maranhão foram remettidos para Lisboa, Pontes na galera Luisa, e Pacheco pouco tempo depois numa outra que levou 85 dias a chegar ao seu destino. Na travessia por occasião de uma forte borrasca Mathias Pacheco escreveu um cântico religioso sob o título Histórico e Deprecatorio. Esse Cântico, como outros versos seus e de seu pae, se encontra no Archivo do Instituto Histórico e Geographico Brasileiro, n. 52, secc. biographias.
Chegado a Lisboa foi mettido nas prisões do Limoeiro, vivendo alli mal passado e comendo tão somente do que lhe obtinha, como aos mais presos, a caridade do convento do Loreto,, e de Lisboa foi enviado para a Bahia. Para a Bahia seguira ao mesmo tempo Pontes, vindo da Torre do Oitão em Setúbal, onde foi companheiro de João Antonio Rodrigues de Carvalho.
Recolhido ás enxovias do Conde dos Arcos, ahi encontrou Pontes e travou conhecimento com varios republicanos e patriotas, éntreos quaes João Alves dé Sousa, o Pe. Venancio Henrique de Resende, que foi Vigário do Sacramento em S. Antonio, de Pernambuco, Camillo José Moreira Jacarecanga e João Souto, irmão do Vigário de Itarnaracá e um dos notáveis alumnos das aulas que mesmo alli nas prisões tinham sido estabelecidas.
Os movimentos políticos occorridos em Portugal e que tanto repercutiram no Brasil abriram a Mathias Pacheco as portas do cárcere a 15 de Fevereiro de 1821. Por 4 annos e 6 mezes jazera em prisão. O destino, porem, não se cançou de perseguil-o. Apenas 15 dias se tinham passado depois de chegar a Pernambuco ja era elle de novo agarrado e levado á prisão do Corpo do Bom. 22 de Algarves aquartelado no Convento de S. Francisco, dahi levado para bordo do brigue “Intriga” com mais 42 deportados, e encarcerado nas prisões do Castello de S. Jorge após 80 dias de ruim travessia. O Governo Português fel-o voltar a Pernambuco após 4 mezes de prisão. De Pernambuco veio Mathias Pacheco para o Ceará onde ainda encontrou sua velha mãe e os irmãos.
Installado a 1 de setembro de 1829 o Conselho da Província, foi Mathias Pacheco escolhido um dos seus membros e nesse cargo permaneceu até Outubro de 1834 e como supplente tomou parte na Assembléa Provincial representando o Crato. Graças aos parentes e amigos de Sobral foi Pontes eleito deputado geral nas 2a e 3a legislaturas.
Fallecida a esposa a 10 de Setembro de 1837, Mathias, Pacheco deixou de residir em Soure e passou-se para suas terras na Barra do Ceará e entregou-se ás pescarias de curraes de peixes e ás plantações de extensos coqueiraes.
Ignoro a data do seu fallecimento.
Mathias Pacheco foi Tte. Coronel da Guarda Nacional por nomeação de Alencar (1841) e Ignacio Correia (1845) e também Juiz de paz de Soure.
O Instituto Histórico e Geographico Brasileiro, Rio de janeiro, possue as Memorias de Mathias José Pacheco. São datadas da Barra do Ceará 15 de Setembro de 1865.
De sua penna possue meu archivo o seguinte Soneto :
Distante, cára Mãi, dos pátrios lares
Onde a fortuna estável me sorria,
A noite horrível, malfadado dia
Passo em tormentos mil, em mil pezares.
Quantos desastres, oh, quantos azares
Forjados pela mão da tirania!
Quantas vezes lutei c'a morte fria
Digão as terras, testemunhão os mares.
Mas debalde o terror me embate a ideia,
Teo amor, cára Mãi, a força inspira
Da minha triste vida á débil teia.
Eu vivo, pois, por ti, meo rosto mira,
O peito reconhece onde fraqueia
Dos homens o rigor, do fado a ira.