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O Nordeste, junho de 1948, página 12
O Nordeste · 28 trechos transcritos
Manchetes desta página
- E dizem que são civilizados.-.. Os noivos são da “maloca”, o enlace não altera o ritmo da vida comum.
- Há, porém, quando são “malocas” diferentes, há festa.
- Um notável acontecimento no Leprosario Antonio Diogo
- Raios de luz bemfazeja vêm penetrando nesta nesga de terra castigada por destino impiedoso, onde impera a dor; não a dor da ferida indelével de uma doença incurável, mas também a dor da saudade!...
- A saudade martiriza centenas de corações de rebentos que brotaram; a saudade do lar desfeito, […] deixado nos confins do sertão querido, lá onde os corações palpitaram de alegria e conheceram a felicidade.
- Para fazer a narração deste acontecimento, desejo mencionar, sem proferir palavras que exprimam lamentos, não é revolta contra a minguada sorte, e só penso demonstrar o valor significativo e os efeitos salutares que produziu, neste “micro-mundo”, a visita honrosa e grata que por dias dignou-se fazer aos sofredores deste martírio lento o revmo. padre Antonio Paixão.
- Do modo como senti, a visita do padre Paixão à cidade dizem intocável constitui para nós, os internados, um ato de prodigalidade do ardoroso pregador da fé, usando o exemplo do inesquecível e zeloso capelão falecido, Padre Henrique Luiten; e, faz o venerando capuchinho, Frei Josué Monza,
- Foi deveras um movimento religioso cheio de fervor sobrenatural e de grata satisfação, para as almas sedentas da palavra divina.
- Foi um acontecimento inédito na vida de um católico. Posso afirmar, à minha alma genuflexa, perante Jesus Sacramentado, que ao ouvir a voz, sentiu emoção e desejos espirituais, em momentos soleníssimos.
- Foram momentos de êxtases e meditações. O pensamento afastava-se da contemplação divina e vagueava no tumulto da rua, sentia uma nuvem de tristeza no coração e abatimento moral na alma, ao imaginar o indiferentismo às manifestações da alma cristã, a realeza de Jesus.
- A cam a cantar e a dançar noites a fio. A dança é modelo para os “civilizados”.
- Bailam homens com homens e mulheres com mulheres. Colocam-se em bicha. Estendem os braços.
- Impressões da Semana: Açâol Católica realizada
- Utiarití é aldeia Mato, a 800 quilômetros norte Cuiabá, rio Papagaio, afluente Tapajós. A aldeia pertence à Prelazia Diamantino, terreno de missões.
- A linha de frente esteve José Ferreira Santos, pertencente à comunidade jesuíta, que trabalham na evangelização dos Nhambiquaras, tribo que a comissão Rondon descobriu em 1907, diz Jônatas Serrano.
- Os selvicolas são numerosos. Ocupam vasta região do rio Tapajós e afluentes, e estendem-se pelas Cordilheiras Parecís e Norte.
- É lamentável o estado em que vivem aqueles bárbaros. Andam nus. Absolutamente nus.
- A vida é vagabundagem eterna. Pela divina Providência recebem os passarinhos dos céus e os formosos lírios dos campos, não trabalham, não semeiam, não tecem.
- É morrer de doenças e fome. Vivem da caça. Na falta, pedem e roubam. Não reconhecem o direito de propriedade.
- E, como sinal de progresso, andam adiantados como os comunistas.
- Desconhecem guisados cozidos. Comem carne crua, assada. Tostada, sapecada, moqueada.
- São excelentes caçadores. E a caça é abundante: tatu, peba, anta, onça, teiú, calangro, mosquito, piolho. Tudo serve.
- Apanham a caça grande, festejam o acontecimento com festas características. Cantam e dançam.
- O canto conhece a caça. Se a presa é a “queixada”, o canto é […]; se é anta, o canto é […]. Verdadeiro ritual de caçador.
- A profissão é tão reputada que, se não for caçador, não encontra quem case.
- Aconteceu que um índio simpatizou com uma moça da “maloca”. Queria casar e o pai queria […], mas o rapaz era cego de um olho.
- Exigiram dele uma prova de fogo: trouxesse caça, em prazo fixo. O selvícola teve pouca sorte e não apanhou. O noivado fracassou.
- Casam-se com cerimônia especial. Entregam-se, simplesmente. A mentalidade chamaria “casamento proletário”.
Como citar
O NORDESTE. Fortaleza, jun. 1948. Imagem 12 da digitalização do mês. Acervo digital do Portal da História do Ceará. Disponível em: https://historiadoceara.com.br/edicao/116497-o-nordeste-junho-1948. Acesso em: data da consulta.