Hemeroteca

O Nordeste

Janeiro de 1963 · 7 trechos transcritos

Manchetes desta página

  • PRESIDENCIALISMO SEM MÁSCARA A leitura de um artigo do deputado gaúcho Raul Pilla sobre o assunto nos leva no momento a tratar do plebiscito de domingo próximo, numa sincera tentativa de esclarecimento dos nossos leitores. Defende o ilustre lider parlamentarista a abstenção pura e simples do dever eleitoral sob a argumentação de que toda a manobra do plebiscito não passa de artimanha política do sr. João Goulart para reter de direito os tais poderes presidenciais que de fato jamais permitiu lhe fossem subtraídos. Diz Raul Pilla que o que temos desde 2 de setembro de 1961 é ainda e sempre presidencialismo... em que padecemos um poder pessoal irrefreado, resguardado por um gabinete de ministros sem autoridade, porque oriundo da confiança pessoal do Presidente, em vez de emanado da confiança política do Congresso. O ilustre deputado chega a afirmar que este tipo de presidencialismo mascarado é ainda pior do que o presidencialismo formal, porque até aquela teórica responsabilidade moral, ligada ao exercício do poder pessoal, se escamoteia pela suposta responsabilidade de ministros, que nenhuma autonomia e autoridade possuem. Está repleto de razão o velho batalhador da causa parlamentarista, o que tivemos no Brasil durante esses 14 meses nunca foi parlamentarismo, de modo que a propaganda paga pelo governo nesta campanha pelo plebiscito é injuriosa tanto aos parlamentaristas brasileiros, como ao próprio regime que vigora nas democracias da Europa Ocidental, e mesmo que o nosso atual regime tivesse sido parlamentarismo, afirma ainda Raul Pilla com razão, que um ano e pouco não seria suficiente para que o povo o julgasse. A conclusão se impõe. Se o presidencialismo parlamentarista foi, no próprio dizer do ilustre deputado Raul Pilla, pior ainda que o presidencialismo sem máscara, urge tirarmos quanto antes da cena o personagem, para que se apresente o verdadeiro herói. Em outras palavras deixemos retirar-se o sr. Hermes Lima, para que fique apenas o sr. João Goulart. Urge voltar o presidencialismo, sim. Para vermos quem será, no próximo fim de ano o responsável pela inflação, pelo custo de vida, pela falta de gasolina, pela falta de autoridade, pela falta de responsabilidade pessoal. Somente neste ponto discordamos do sr. Raul Pilla, que recomenda a abstenção eleitoral no dia 6. Na vida política, como na vida particular de cada um de nós, jamais é permitido preferir o nada. Ficar sem escolher. O que aconteceria se entre dois remédios, igualmente incertos, o doente preferisse ficar sem tratamento? Não se daria o mesmo se todos os eleitores se abstivessem de votar? Porque se trata do interesse de cada cidadão é que é preciso escolher. Existe sempre um mal menor a preferir-se ao nada do silêncio, que é vizinho da morte. Votemos, pois, votemos e escolhamos esse mal menor. Pois aprendamos a lição do dia 6. Em política costuma-se dizer que não existe gratidão, porque não há memória. É verdade que é fácil esquecer o que passou. Mas procuremos guardar nossa memória política. Não nos esqueçamos, eleitores cristãos e democratas sinceros do Ceará, de que daqui a três anos o sr. João Goulart ou as suas esquerdas totalitárias virão mendigando votos, e até provavelmente farão sua mendicância ao lado de muita gente boa, como das outras vezes. Estejamos atentos para a resposta a dar-lhes nesta hora que vem aí num bem próximo futuro. No seu discurso à Nação na entrada do Ano Novo, o Presidente da República afirmou — o que é verdade — que o Brasil ultrapassou a fase do subdesenvolvimento e está agora a passos largos no caminho do pré-desenvolvimento. Preparemo-nos, desde já, para a renovação política que deve acompanhar a grande transformação econômica do país, através de uma democracia de líderes responsáveis e não de totalitários.
  • PONTOS DE VISTA REMÉDIO FEROZ Não é mais mistério para ninguém a situação de miséria total que defronta a China Comunista. Abandonada pela Rússia, depois de haverem tomado caminhos opostos os respectivos dirigentes, no tocante à maneira de impor o marxismo revolucionário, a grande nação amarela não sabe que caminho tomar. Procurando abastecimentos menos duros, lançou suas legiões sobre a Índia, mas, ante a repulsa encontrada nos próprios meios comunistas, recuou a uma trégua que significou uma derrota não só diplomática mas também militar. Abandonou o estribilho do pulo para a frente, com prioridade para as indústrias, voltando às atividades agrícolas, porque a fome tomou conta das multidões. Mas apesar da fome e da miséria, a população chinesa continua a crescer violentamente, já estando a atingir os 700 milhões de habitantes, ou sejam dez vezes a população do Brasil. Essa gente, que se multiplica assustadoramente, quer comer e, por isso, há receios, no próprio meio dominante, de uma revolução mais brutal ainda, de origem popular, do que os morticínios já levados a efeito pela ditadura vermelha. Daí serem o exército e a polícia merecedores de todas as atenções do governo, que lhes dá tratamento privilegiado, boa nutrição, elevados pagamentos e considerações de toda ordem. Mas nem por isso o medo deixa de dominar os dirigentes da China Comunista. Então, procuram reduzir a população por todos os meios. Já deixando milhões morrer de fome, já executando outros milhões, justamente a parte mais culta do país, que não se conforma com tanta miséria. No entanto, a massa humana continua crescendo. E, por isso, o recurso, agora, é o controle da natalidade, já impedindo casamentos, já submetendo pela força as mulheres a operações agenésicas e esterilizadoras. É de ver, porém, que essas medidas violentas, inumanas, cruéis e monstruosas não podem oferecer resultados imediatos. A sua repercussão apenas irá verificar-se dentro de anos, enquanto o problema da fome é urgente e inadiável. Então já se fala na China Vermelha de apelar para os Estados Unidos, a fim de se obter alimento. Assim, mais uma vez, os ditadores têm de curvar-se ante os que cultivam a liberdade. Foram os Estados Unidos que salvaram o mundo, por duas vezes da ferocidade estatal, e da fome na Europa. Outra vez serão chamados a livrar da miséria mais crua o infeliz povo chinês. Infelizmente os outros povos não querem compreender essas atitudes magníficas dos norte-americanos, e porque fecham os olhos a elas, acabam sofrendo os monstruosos efeitos de remédios ferozes impostos pelas ditaduras estatais. LS
  • FATO DO DIA A FOME ESTÁ AÍ Um jornalista italiano, depois de haver passado alguns dias no Brasil, conta numa série de reportagens dadas a lume em La Stampa, de Turim, como fica espantado ao ler nas ruas do Rio de Janeiro, na fase da propaganda eleitoral, a palavra fome, pintada com tinta amarela no asfalto das avenidas cariocas. E, depois, transmite o mesmo espanto dos italianos ao terem tais notícias, pois não podem acreditar ser possível coisa assim no Brasil, país de riquezas fabulosas, de possibilidades sem fim. Na verdade, é quase inacreditável que num território imenso como o nosso, com todas as dádivas da natureza, mares piscosos, rios caudalosos, flores maravilhosas, clima ameníssimo, sem nevadas, sem tempestades, sem terremotos, sem vulcões, sem desertos, não só se fale em fome, como chegue a mesma ela a existir e até a servir de recurso eleitoreiro para candidatos que se dizem nacionalistas e progressistas. No entanto, a fome está infelizmente batendo nas portas da maioria dos brasileiros. Com a elevação vertiginosa dos preços e a queda espetacular do valor da moeda, já não é mais simples figura de retórica a miséria alimentar da nossa gente. Uma pálida ideia dessa desnutrição cada vez maior da população pobre do Brasil pode ser oferecida com uma simples comparação do custo de vida em dezembro de 1961 e dezembro de 1962. Há um ano, apenas um quilo de arroz do Maranhão custava 30 cruzeiros; agora atingiu 100 cruzeiros. O açúcar de baixa qualidade pulou de 30 cruzeiros para 60. A carne de boi, com osso, peles e furto no peso, passou de 120 para 300 cruzeiros, o leite com água e tudo, inclusive misturas perigosas, subiu de 25 para 50 cruzeiros. O pão, furtado no peso de maneira escandalosa, passou a custar de 50 para 75 cruzeiros o falso quilo. Um ovo teve seu custo majorado de 5 para 15 cruzeiros. Isso aí são apenas rápidas amostras. A coisa segue o mesmo diapasão em tudo o que significa utilidade, donde a média alarmante do aumento de cem por cento em todos os preços. Pois bem: nos Estados Unidos, nos últimos DEZ ANOS, o custo de vida, relativamente aos preços de gêneros alimentícios, subiu apenas UM E MEIO POR CENTO. Quer dizer que o que custava 100 cruzeiros há dez anos ainda é adquirido, hoje, por 101 cruzeiros e 50 centavos. No Brasil, em 1952 um quilo de carne que custava 30 cruzeiros hoje sai por 300, ou seja com um aumento de quase mil por cento. Daí a fome que vai pelas classes pobres que não podem atender a essa inflação galopante. OBS
  • F A T O S & PROBLEMAS Quatrocentos e nove (409) candidatos inscreveram-se ao concurso de admissão à 1ª série ginasial do Colégio Militar de Fortaleza. Realizada a primeira prova Matemática — foram eliminados trezentos e oito (308), cifra bastante elevada, principalmente levando-se em conta o teor da prova. O aspecto reprovável dessas críticas, porém, não é a crítica em si, pois ela pode ter o seu bom pilar, ou seja, discutir com franqueza, o que, infelizmente, não parece ser o objetivo de muitos. Trata-se de um homem tão laico e fechado em seus pontos de vista, talvez por estar convencido de sua suficiência e profundidade, o que, evidentemente, não atinge a profundidade e a suficiência dos outros! No entanto, é que muitas dessas críticas são feitas de má-fé, uma espécie de resposta ao fato de a atividade da SUDENE ter passado em certos processos tão ao gosto de grupos. Outras são abordadas de maneira injusta, por antecipação, sem conhecimento completo do âmago da questão. Outras, enfim, descem ao deboché, como uma série que circulou em conhecida cadeia de jornais, atribuída a não menos conhecido jornalista. As críticas que pecam por sugestões imaginosas, antecipadamente armadas para criar efeito desagradável e colocar em situação pouco cômoda o Min. Celso Furtado, se referem, particularmente, ao chamado Plano Trienal encomendado pelo sr. João Goulart. Mal se falou nisso, veio logo meio mundo abaixo, assustadoramente, que seria estatizante, que o plano tinha características ditatoriais que seria esquerdista, etc. Resultado: publicada a síntese do Plano, caiu o castelo de cartas. O destaque dado à participação do setor privado na ataque aos investimentos básicos rechaçou de uma vez com o ponto de apoio dos críticos apressados. Além disso, notou-se tanta moderação no equacionamento das metas que, por certo, as realidades não serão forçadas até a exaustão. A análise poderia revelar coisas de muito valor no Plano Trienal. Por isso, tenhamos crença, mais uma vez, numa das coisas sérias que ainda é capaz de armar este país. Voltaremos noutra oportunidade a comentar outros discursos, aliados de outros concursos.

Anúncios, notas e expediente

  • Nota social COMENTANDO Nossa intenção em comentar este laia, prende-se unicamente em alertar aí pessoas ligadas ao ensino primário no Ceará, a situação verdadeiramente precária do aprendizado. Não desejamos ferir suscetibilidades, muito menos apresentar as resoluções do problema. É bem provável até que dentro de nossas modesta compreensão dos fatos que iremos citar como causas da deficiência do ensino primário em nossa capital, venhamos criar algum descontentamento, no entanto, não é este o nosso desejo. Parece-nos, três grandes fatores pesam para que se concretize a triste realidade. Em primeiro lugar, achamos que grande parte das professoras não estão convenientemente preparadas para a árdua missão do magistério primário. As causas deste fator não podemos nem vamos analisar. Em segundo plano, acreditamos ter grande importância para o aprendizado, o comportamento ou seja a disciplina mantida em sala, durante as aulas. Temos observado, infelizmente, que poucas professoras conseguem manter suas turmas convenientemente em ordem para que o rendimento da aula seja aquele que se desejava. Sem dúvida, muitas vezes, o próprio estabelecimento não lhes auxilia neste particular. Por fim, julgamos que a falta de assistência dos pais ou responsáveis, não só em acompanharem os meninos nos exercícios de casa, como também em proporcionarem averimentos em excesso a garotada. Conhecemos centenas de casos tais que os meninos têm horário para o jogo de futebol, da praia, da T.V., faltando-lhes o tempo livre para o estudo. Este ano, vieram do Rio de Janeiro prestar o concurso de admissão à 1ª série ginasial do Colégio Militar de Fortaleza, cinco alunos, obtendo os seguintes graus na prova de Matemática: 8.7; 8.6; 8.3; 7.9 e 7.6. Isto demonstra, sem sombra de dúvidas, que o ensino primário no Sul do país é realmente mais eficiente que o nosso. Note-se ainda que o ensino público no Rio iguala-se e em muitos casos supera o ensino particular, influindo para isto, em parte, a remuneração dada às professoras. Sobre este fato, aproveitamos o ensejo para lamentarmos o insignificante vencimento que recebem as nossas professoras do Estado e da Municipalidade, muitas vezes ou quase sempre com dois ou três meses atrasados. JACQUES CARTIER
  • Expediente EXPEDIENTE O NORDESTE Fortaleza, Sexta-feira, 4 de Janeiro de 1963 ÍNDICE Presidencialismo Sem Máscara PONTOS DE VISTA FATO DO DIA F A T O S & PROBLEMAS Crença no plano NOFÔNH# NETO FAZ algumas semanas, vimos incrementando as campanhas visando a dar lição comprometedora a auxílio do sr. Celso Furtado. Aliás, a campanha, comandada por senhores facilmente lacanistas da vida política, ao lado de outros que a fazem de boa-fé e revestem de um caráter pessoal deprimente. Ninguém ali que seja o sr. Celso Furtado um inquestionável. Aliás, sujeito a críticas como economista, sua situação não lhe dá privilégios ou que fique imune de críticas. Economia como demais em quase tudo neste mundo as posições são polêmicas não se conhecendo herói infalível. Teorias e processos, têm-se visto, pelo menos das grandes partes — vaticinados — já teriam visto seus próprios problemas econômicos. Que de cada lado cam sistemas absolutos. O Avião SERRARIA MUTA Fabricantes das melhores esquadrias do Ceará. Aceita encomenda para o interior do Estado. Bairro de Otávio Bonfim Fones: 318-05 e 3.18-07 Rua José Bastos, 1037 Fortaleza — Ceará
  • Anúncio UMA FOLHINHA DO CORAÇÃO DE JESUS PARA CADA LAR CRISTÃO PROCURE NA LIVRARIA ASSUNÇÃO OU PEÇA PELO FONE: 1.9917 PREÇOS ESPECIAIS PARA REVENDEDORES LIVRARIA ASSUNÇÃO Rua Pedro Ferreira, 491 FONE: 1.99.17 — Fortaleza-Ce