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O Nordeste

Janeiro de 1963 · 6 trechos transcritos

Manchetes desta página

  • Kruschev e a Grandeza de Adenauer TERCEIRA PAGINA Entre solenidades oficiais e manifestações populares o chanceler da Alemanha Ocidental, Adenauer, completou há poucos dias 88 anos de idade, sendo o mais velho chefe de governo do mundo. O transcurso desta data nos serve de oportunidade para algumas considerações sobre os recentes acontecimentos que transformaram o panorama político daquele grande país. É sabido que, há cerca de dois meses, um jornal alemão levantou contra o ministro da Defesa do governo federal a acusação de que estaria encaminhando o seu país para uma política de militarismo. Foi o suficiente para o desencadear de uma crise de gabinete chefiado por Adenauer, que, depois de entendimentos prolongados, conseguiu reorganizar o seu governo em coalisão com o partido liberal, porém mediante o compromisso de que o seu sucessor seria eleito antes do fim deste ano de 63. Eis, de repente, o homem que governa a Alemanha há 15 anos reduzido à condição de Presidente com prazo fixo para terminar o seu mandato. Todo este ano terá para os partidos políticos alemães, e para o resto da Europa, a especial característica de uma longa expectativa da grande novidade. Só isto será motivo suficiente para um prolongamento da trégua que há cerca de dois meses vem adormecendo, numa certa esperança, as preocupações de todo o mundo. O ano de 1963 poderá ser, em decorrência de tal fato, o ano mais pacífico desses últimos tempos. Quanto ao caso pessoal de Adenauer, era evidente que mais dia menos dia ele seria forçado a retirar-se do governo, pela simples razão de que não é eterno. Porém com que grandeza aceitou antecipar a notícia do seu próximo afastamento, esse homem prodigioso que levantou das cinzas o seu próprio país, no meio de ameaças de fora e de contradições internas, em que poucas vezes, aos inimigos de casa e do exterior, se juntaram, paradoxalmente, até alguns amigos. Adenauer ficará na história contemporânea, não apenas como o grande arquiteto da reconstrução alemã, mas como o destemido defensor da vocação ocidental do seu país, pela barreira intransponível que levantou às ambições do imperialismo soviético e pela fidelidade a toda prova que demonstrou às grandes linhas da diplomacia do Ocidente. Outros governos poderão, depois do seu, chegar até a resolver o problema de Berlim e da reunificação da Alemanha. Mas este resultado só terá sido possível depois da afirmação convicta do velho chanceler que, acima de qualquer compromisso transitório, colocou em alto aquele ideal de adesão à causa democrática como condição inicial de qualquer entendimento.
  • POR INCRÍVEL Todo mundo que faz excursões pelo mundo das artes sabe que são os seguidores do comunismo os mais destacados e ardorosos amantes da chamada “arte moderna”. Na frente da coorte dos “modernistas” figura o excêntrico Salvador Dali, que pinta coisas horrorosas a título de arte avançada. Aqui no Brasil os pioneiros e destacados elementos do “abstracionismo” são comunistas de quatro costados, mesmo alguns cearenses que aparecem nessa constelação de tapeadores da estética. Pois bem, quando menos se esperava, o supremo senhor de todas as Rússias e demais países satélites, o papa da ideologia vermelha no mundo, Nikita Kruschev, resolveu anatematizar a arte abstrata, com palavras até de baixo calão, mandando retirar das mostras de arte soviéticas os trabalhos que seguiam essa forma de expressão estética. Acompanhando a opinião e a vontade do seu senhor, o chefe da Secção Ideológica da Comissão Central do Partido Comunista russo, Leônidas Illitchev, acusou a arte moderna de “patológica e decadente”, em discurso que foi reproduzido no jornal “Pravda”. Nessa algaravia diz, entre outras coisas o papo mandado de Kruschev: “Carente de qualquer sentido, a bagunça dos abstratos não é outra coisa senão um fenômeno patológico, imitação penosa da arte decadente do Ocidente burguês”. Acrescenta que é um abuso de opinião “as teorias dos abstratos”, quando afirmam que “as obras de arte de vanguarda são incompreensíveis para as massas e estão reservadas a uma elite ou a uma minoria de iniciados”. E continua: “O abstracionismo não passa de uma cabeça de ponte dos inimigos da URSS. O partido continuará a fazer frente à ideologia burguesa e a todas as suas manifestações. Continuará a defender o espírito partidário na arte e na literatura”. Agora é o caso de perguntar-se como vão proceder os comunistas que cultivam a arte abstrata. Na certa, o que vai suceder é que todos eles, para manter fidelidade a Moscou, abjurarão publicamente das suas obras e proclamarão em “auto-crítica” seu conformismo com as novas imposições estéticas ditadas por Kruschev. Quem havia de dizer que a arte abstrata, tão do gosto dos nossos comunistas, passaria a ser considerada “imitação penosa da decadente arte do Ocidente burguês”?
  • FATO DO DIA Entre solenidades oficiais e manifestações populares o chanceler da Alemanha Ocidental, Adenauer, completou há poucos dias 88 anos de idade, sendo o mais velho chefe de governo do mundo. O transcurso desta data nos serve de oportunidade para algumas considerações sobre os recentes acontecimentos que transformaram o panorama político daquele grande país. É sabido que, há cerca de dois meses, um jornal alemão levantou contra o ministro da Defesa do governo federal a acusação de que estaria encaminhando o seu país para uma política de militarismo. Foi o suficiente para o desencadear de uma crise de gabinete chefiado por Adenauer, que, depois de entendimentos prolongados, conseguiu reorganizar o seu governo em coalisão com o partido liberal, porém mediante o compromisso de que o seu sucessor seria eleito antes do fim deste ano de 63. Eis, de repente, o homem que governa a Alemanha há 15 anos reduzido à condição de Presidente com prazo fixo para terminar o seu mandato. Todo este ano terá para os partidos políticos alemães, e para o resto da Europa, a especial característica de uma longa expectativa da grande novidade. Só isto será motivo suficiente para um prolongamento da trégua que há cerca de dois meses vem adormecendo, numa certa esperança, as preocupações de todo o mundo. O ano de 1963 poderá ser, em decorrência de tal fato, o ano mais pacífico desses últimos tempos. Quanto ao caso pessoal de Adenauer, era evidente que mais dia menos dia ele seria forçado a retirar-se do governo, pela simples razão de que não é eterno. Porém com que grandeza aceitou antecipar a notícia do seu próximo afastamento, esse homem prodigioso que levantou das cinzas o seu próprio país, no meio de ameaças de fora e de contradições internas, em que poucas vezes, aos inimigos de casa e do exterior, se juntaram, paradoxalmente, até alguns amigos. Adenauer ficará na história contemporânea, não apenas como o grande arquiteto da reconstrução alemã, mas como o destemido defensor da vocação ocidental do seu país, pela barreira intransponível que levantou às ambições do imperialismo soviético e pela fidelidade a toda prova que demonstrou às grandes linhas da diplomacia do Ocidente. Outros governos poderão, depois do seu, chegar até a resolver o problema de Berlim e da reunificação da Alemanha. Mas este resultado só terá sido possível depois da afirmação convicta do velho chanceler que, acima de qualquer compromisso transitório, colocou em alto aquele ideal de adesão à causa democrática como condição inicial de qualquer entendimento.
  • FATOS & PROBLEMAS A greve dos oficiais de náutica, máquinas, carpintaria e comissários da Marinha Mercante trouxe infeliz oportunidade para uma das mais estupefacientes declarações do Chefe da Casa Militar da Presidência da República, general Albino Silva. Para que não se atribua adulteração às palavras pronunciadas pelo referido militar, aí vão elas em toda a sua força de expressão: “O Governo coibirá a greve na Marinha Mercante porque ela serve a grupos reacionários, que montaram um dispositivo para subverter o País no dia 6 de Janeiro”. E empregou depois as seguintes expressões, que até, de chocante, vêm confirmar a intromissão dos poderes públicos nos movimentos paredistas há tempos verificados entre nós: “Quando o governo precisou da greve, vocês nos ajudaram. Agora, época de Natal e plebiscito, não é oportuna, e o governo coibirá a subversão de qualquer modo”. Agora admire-se mais esta passagem ferina e desmoralizadora para o Congresso: “Em fevereiro último, quando a questão da hierarquia salarial foi ventilada, o Presidente da República dependia de uma Câmara de energúmenos”. Francamente, só se acredita no que foi dito pelo general Albino Silva porque suas palavras foram divulgadas na imprensa e não foram contestadas. Mas enfeixam elas um estado de espírito e uma situação política e social das mais críticas. E é pena que, por ter falado de improviso, não se tenha contido a elevada autoridade militar, que se situa mesmo acima do Ministro da Guerra. Dizer alto e bom som que houve greves pedidas e apoiadas pelo Governo da República é não só desmoralizar esse Governo como transformar os sindicatos em elementos políticos, à disposição do Governo para a provocação da desordem social. Depois, chamar publicamente de energúmenos a representantes do povo é desconhecer o sentido da palavra, que, etimologicamente, significa endemoinhados, possuídos pelo demônio, e vulgarmente quer dizer “gritador”, “agitador”, etc. Que os pregoeiros de rua usassem tal expressão, compreende-se, mas que um general do Exército e, por cima, Chefe da Casa Militar da Presidência da República a empregasse é inconcebível. Mas, por incrível que pareça essas coisas ocorreram no Brasil de 1962.
  • O CARIRI PELA TANGENTE Fiquei mal impressionado, o traçado da transnordestina prejudicou a economia cearense. Atraindo o Estado, de norte a sul, afastou-se de Juazeiro e Crato. E Juazeiro e Crato são cidades importantes no sul, as suas riquezas pesam, sensivelmente, na balança econômica do Estado. No entanto, aquela rodovia central passou pela tangente.  Milagres, Brejo Santo e Jati e pelos trechos em Pernambuco, rumo a Salgueiro. A 3 Ciri não tem um lugar de Bostaio pelo ramal, que a via se liga por um ângulo. Não pensou, sequer, no ângulo obtuso ou reto. Por um obtuso partiria de Icó. O reto seria um entroncamento nas alturas. Um ramal para o Cariri partindo este da margem esquerda do rio Salgado, alguns quilômetros além de Milagres deixou-me a triste impressão de menos cabo pelo Cariri. Deitou um olhar um cidadão pelas curvas improvisadas de estradas, buscando o rumo daquilo que não devia ter sido o roteiro de um plano mais patriótico, socialmente certo e economicamente benéfico ao Ceará porque tudo quanto fomentar o desenvolvimento e distribuição das riquezas do Cariri, trará o selo de uma administração inteligente. O erro está patente. Ainda é tempo de corrigi-lo. Haja boa vontade dos poderes públicos, dos representantes do povo, e o mal poderá ser reduzido. Urge dar uma satisfação ao Cariri. Como? João Pessoa tinha perdido o controle de Campina Grande, o eixo Campina Grande-Recife estava forte. O governo reagiu. E saiu aquela pavimentação entendida, que liga Campina com João Pessoa, obrigando Recife a passar por João Pessoa. Ali houve crânio. Recife continua ligado a Campina, mas por João Pessoa. Fortaleza deve reagir também, não com impostos de fronteira, proibindo certas exportações. Mas abrindo estradas, atraindo o comércio e a indústria, dialogando com o Cariri. O plano de asfaltagem deve obedecer a um traçado novo. Deve dizer que vem de Fortaleza ao Crato, ao Juazeiro. Faça esta viagem. Ninguém me diga que isto é impossível. O Governo da União não pode nem deve nos prejudicar. Nós somos riqueza do Brasil, e lembre-se Fortaleza de que o Cariri é cearense. Estado açoitado pelas secas e pelos erros administrativos, o Ceará precisa do Cariri e o Cariri precisa do Ceará, é como as mãos precisam da cabeça e a cabeça, das mãos. Quando Fortaleza estende os braços para Pernambuco antes de estreitá-lo deve estreitar o Cariri. Com o advento da energia de Paulo Afonso, novas perspectivas se abrem para o Cariri e para o Estado. A linha desta energia maravilhosa está seguindo o roteiro, que de via ter seguido, em ordem inversa, a transnordestina. Insensatez seria subestimar estas novas possibilidades, seria persistir no erro. A obrigação de quem reconhece ter tomado um caminho errado, é tornar atrás e buscar o caminho certo, e o caminho certo é o de uma central, que passe pelas regiões mais férteis e ricas do Estado. Fervilham carros de todos os tipos por aqui. Fizeram uma vereda e é por ela que estão andando. Veem de Juazeiro, sobem a escarpa de Caririacú, caracolam pelos tabuleiros do sertão, apitam por Lavras da Mangabeira e alcançam a central a uns 10 quilômetros, na margem direita.
  • NORONHA NEW É comum ouvir-se, de pessoas que moram na Cidade Grande, os piores elogios ao sertão... Chama-se “aquilo”! Tem poeira, tem cabra valente, tem peixeira, aqui e ali, pinta um reluzente e os maus são “justiçados” sumariamente nas portas das Cadeias, fazendo-os alguém engolir em cinco ou seis quentinhas... O sertão é dos analfabetos, e só fica lá quem não tem mesmo nem ambições na vida, e outras cousas assim. Se os detratores do sertão pertencem à região nordestina, lá vai o contrapeso: os homens do sul pensam a mesma cousa de nós todos... Julgam que é perfeitamente impossível que aqui viva pessoa alguma, com a alimentação que temos, com o clima e a temperatura própria de nossa terra. Mas, o problema é que o sertão é duro mesmo de roer! Sertão é para homem, isso não há dúvida. No entanto, basta atentar para a circunstância relacionada com o esforço de quem fica para lá, para se começar a ter quase uma veneração por essa gente. O interior é uma grande caldeira onde se temperam os caracteres, e da qual saem muitos dos que, aqui e ali, se colocam nas posições mais elevadas, graças à tenacidade e à rigidez de sentimento e da capacidade de ação que lhes é própria. Que o sertão é esquecido, isso é. Esquecido dos planos governamentais. Não que fiquem à margem de certas conversas moles erigidas em metas, programas disso ou daquilo. Mas, esquecidos, exatamente, neste ponto crucial: ninguém pensou em dinamizar o sertão, dar aos homens de lá a oportunidade de acenderem centros dinâmicos de suas comunidades, a fim de mais tarde, verem frutificado o seu esforço de auto-superação. Onde isso ocorreu, a comunidade reagiu por conta própria, ou está arranjando seus processos e métodos para realizar o salto decisivo. Haja vista ao caso do Juazeiro, por exemplo: como toda aquela cidade e, consequentemente, toda a zona circunvizinha, se pôs de pé, no mais esplêndido e pujante movimento de renovação industrial. Por isso é que pregamos, sempre, não a utilização de receitas da botica da improvisação administrativa, que descem aos sertões sob a forma de auxílios, ou meizinhas. Só cremos em planos que busquem, na realidade, sem a menor inspiração dos credos e fórmulas obsoletas, que alguns desocupados do asfalto andam pregando como revolucionários, o sentido verdadeiro das cousas, às tendências dos centros do interior. Só assim é que se conseguirá erguer o sertão, integrando-o na comunidade econômica e espiritual da região e do País. Coopere com a Maternidade do Pirambu