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O Nordeste

Janeiro de 1963, página 89 · 4 trechos transcritos

Manchetes desta página

  • Mensagem ao Papa para uso externo Interessante notar, no caso da mensagem de Ano Novo ao Primeiro Ministro da Rússia ao Santo Padre, enquanto as agências internacionais retransmitem notícia dada pela Agência Tass, na União Soviética, não se teve conhecimento desse fato. Anteriormente, o sr. Nikita Kruschev já havia dirigido ao Papa mensagem de congratulações pelo 80° aniversário de Sua Santidade, igualmente guardada no silêncio do nosso país. E' que, como bem diz o órgão noticioso do Vaticano, "Osservatore Romano", o fato de Kruschev, no exercício das suas atividades diplomáticas, manifestar ao Papa a amizade da URSS não pode de modo algum ser interpretado como um enfraquecimento da luta ideológica do comunismo soviético contra a fé. Do jeito, o Premier Kruschev não perde oportunidade para manifestar a todos o seu materialismo. Por outro lado, são conhecidas do mundo inteiro, e ficarão na história como sinal dos tempos em que vivemos, as grosseiras alusões, naturalmente estimuladas e aplaudidas de cima, dos astronautas soviéticos à divindade de Deus nos espaços siderais, como se ali houvesse o Cristianismo, ao contrário de ensinar que Deus é um Puro espírito, o houvesse imaginado como o Velhinho dos dias sentado numa nuvem. Porém, não fica aí o comportamento do Estado soviético em relação ao problema religioso. Há muito tempo foi divulgado na imprensa de São Paulo alguns artigos científicos (mais ou menos, na base da argumentação dos astronautas), frequentemente publicados na Rússia sobre o combate às crenças religiosas. Depois de prescrever os remédios salutares (que, no entanto, não surtiram efeito) contra a "superstição religiosa", o referido artigo termina dizendo que as autoridades deviam exercer maior fiscalização antirreligiosa, porquanto constava como coisa certa que até membros do partido comunista estavam batizando os filhos. A fiscalização religiosa parece ser bem mais perigosa que a fiscalização dos contrabandos de fronteira, do tráfico de valores e da corrupção administrativa, tão comuns atualmente registrados na nova sociedade soviética, naturalmente como sobrevivência de tradições decadentes. E' pelo menos o que se pode deduzir do fato de que a polícia soviética impediu que mais de dezenas de cristãos de uma seita protestante pudessem fugir na embaixada americana, pedindo proteção contra os vexames a que eram submetidos por causa de sua fé, lá no distante interior da Rússia. Daí que o "Osservatore Romano" afirma ao seu comentário sobre a mensagem de Kruschev, que "pelo contrário, as perseguições religiosas se agravaram nos últimos tempos, coisa que Roma não pode deixar passar despercebida". E não é só na Rússia. Também agora mesmo na Polônia, o Cardeal Wyszinski protestou contra um decreto do governo de Gomulka, que pretende submeter ao critério do Estado o ensino religioso e os programas escolares. E, dado que se trata de um regime comunista, cuja rotina é a persuasão pela violência, o Cardeal afirma que "a Igreja não concordará com isso, ainda que corra o risco de pagar um alto preço por sua atitude!". E' que o governo comunista de Varsóvia está decepcionado com o comportamento do episcopado polonês, contrário aos movimentos "católicos progressistas" pró Paz. Está decepcionado e disse não fazer nenhum segredo, ao afirmar que os Bispos poloneses no Concílio Ecumênico se preocuparam apenas em manter a sua autoridade sobre os fiéis num "prudente conservadorismo", "contra o catolicismo franco e contra tudo o que poderia unir a Igreja às exigências do nosso tempo". Provavelmente, o "catolicismo franco" é a permissão aos católicos de participarem dos movimentos pró-paz de aproximação doutrinal e tática dos princípios do marxismo. E o que uniria a igreja às exigências no nosso tempo seria o beneplácito episcopal à pretensão comunista de supervisionar e orientar o ensino religioso. Esse é o "new look", a "bossa nova" do imperialismo comunista. Calcule o estilo antigo. Era o esquecimento puro e simples ou a prisão perpétua, que é um tipo de execução mais demorada, como esta de que vêm sendo vítima nestes dias o Bispo de Xangai, preso em 1955 por atividades "contra-revolucionárias". É por isso mesmo que o "Osservatore Romano" conclui o seu comentário sobre a mensagem de Kruschev com a afirmação de que o Sumo Pontífice, ao responder ao dirigente soviético, "está agindo dentro da linha de conduta, que consiste em tentar melhorar a atmosfera onde quer que seja, sem abandonar nenhuma das posições permanentes da Igreja", sim, sem abandonar as posições. E poderíamos dizer: e sem alimentar ilusões sobre as velhas táticas dos líderes marxistas. Infelizmente o chamado "catolicismo progressista" vai tomando corpo no Brasil. A falta de formação religiosa, a ignorância da doutrina da Igreja ou a vontade de querer mostrar-se dentro do espírito reformista da época estão provocando um abalo profundo na disciplina espiritual dos meios intelectuais, com repercussão, principalmente, na mocidade estudantil, donde ter-se que presenciar atitudes chocantes na mocidade, particularmente no que diz respeito às relações com o comunismo ativista. Essa "nova ordem" tem sido condenada sem discrepância pelas autoridades diocesanas, seja em documentos coletivos, seja em cartas pastorais. No entanto, a deturpação dessas diretrizes está sendo largamente difundida, inclusive com interpretações personalíssimas da "Mater et Magistra", que vem servindo mesmo de carta de alforria para a ideologia bolchevista. Aliás, essa mentalidade vesga está sendo aceita de braços abertos pelos agentes de Moscou, interessados em anular qualquer reação religiosa às suas investidas imperialistas. Ultimamente o jornal comunista da Itália "L'Unità" vem defendendo essa aproximação entre católicos e comunistas. Rebatida sua opinião pelo "Osservatore Romano", órgão oficioso da Santa Sé, voltou o mesmo jornal explicando que "a coexistência pregada pelo comunismo refere-se à política internacional e não às relações com as forças religiosas e morais". Refuta o "Osservatore" que, "devido à inspiração ateia do sistema e à lógica de ferro da sua execução, impostas pelo comunismo, não pode ele encontrar indulgência alguma da parte dos católicos". E isso porque "o comunismo jamais renunciaria ao seu ateismo teórico, o que impedirá a propagação da religião, antes tudo empregando para que ela se apague". Eis aí a última pá de cal nas pretensões dos "católicos progressistas". Enquanto o comunismo constituir-se uma filosofia de vida, com base no mais grosseiro materialismo e fazendo do ateismo o fundamento de sua ideologia, não é possível nenhuma aproximação dos católicos com os que o praticam e o propagam. Diante de tantos esclarecimentos, só muita má fé ou supina ignorância ainda permitem falar em coexistência pacífica entre católicos e comunistas. A Polônia aí está para servir de exemplo. Apesar do catolicismo de sua gente e do desejo que demonstrou de colaborar com os comunistas ali dominantes, nada foi alcançado, antes aumentando dia a dia a perseguição aos fiéis a Roma, desde o Cardeal aos simples leigos. OBS
  • FATO DO DIA Piscicultura e Pesca Nesta reportagem há dúvida de que a piscicultura é uma participação muito importante do problema econômico e alimentar da população, e por isso deve merecer os cuidados das autoridades competentes na fiscalização da Pesca, a fim de que não se veja quase anulado o trabalho do Governo que despende somas vultosas para o incremento da piscicultura. Pois sabemos que há uma série de fontes de riqueza com a manutenção do serviço que, aliás, com justiça, vem cumprindo a sua missão com muita eficiência, o que se evidencia pela quantidade de espécies desconhecidas introduzidas na região e pelo volume do pescado. Mas, quem penetrar o assunto com um pouco de dinheiro, poderá manter em ordem e atividade produtiva o Serviço de Piscicultura com os seus escritórios, laboratórios, viveiros, viaturas, transportes e fiscalização. Tudo isto dá uma despesa muito grande. Daí por que somos levados a concluir que todo este serviço não deverá ser anulado pelos profissionais da pesca, pelo simples fato de virem a ganhar dinheiro com facilidade, pegando justamente as espécies novas na região, antes do seu devido e normal desenvolvimento, como vem acontecendo todos os anos. Nas minhas andanças à margem do Rio Jaguaribe, como aficionado ao esporte da pesca de linha (pescaria de anzol com caniço), tenho observado que toda vez o rio dá vazão às suas águas e fica raso nas correntes, aí são montados currais que são tapumes de varas finas, muito bem feitas, atravessando todo o leito do rio, com duas aberturas cônicas, uma no sentido da descida e outra no sentido da subida, e caindo, cada uma, num curral de ordem. O peixe que entra não sai mais, e entra tanto o pequeno como o grande. E' aqui onde está o crime do atentado contra o Serviço de Piscicultura e a economia da região. Um peixe que deveria ser pego somente quando atingisse o peso de, pelo menos, 3 quilos, é pego quando ainda não pesa mais de 300 gramas. E quantos milhares têm sido apanhados neste tamanho, em numerosos currais armados através do rio, em diversos pontos! O "Dourado" é a maior vítima. E' pena ver a quantidade fantástica desta espécie que é vendida, tipo pequeno, no mercado de Iguatu, na época do fim das águas. Outro atentado também é praticado, no mesmo sentido, com as redes de malha pequena. Ai a maior vítima é o "Branquinho", também pego em grande quantidade, antes do pleno desenvolvimento. Finalmente há ainda o terceiro atentado e, talvez, o mais grave de todos, que é a pesca na época da desova, praticada sem restrição. Um eficiente trabalho de instrução aos pescadores, esclarecendo estes fatos, suponho que daria bom resultado na repressão a estes abusos, contanto que seja feito individualmente. Apelo, portanto, para o Serviço de Fiscalização do Departamento de Caça e Pesca e do Serviço de Piscicultura a fim de que seja evitado tão grande atentado contra a fauna aquática que promete ser um dos esteios da economia nordestina. Estes rabiscos, Senador Redator, estão sendo feitos sob o impulso de numerosas vozes que estão clamando, aqui contra estes fatos. Apenas estou fazendo coro com elas para que os seus ecos vão repercutir em outras paragens mais distantes. n< Antonio Barros de França

Anúncios, notas e expediente

  • Nota social PONTOS DE VISTA D1NTÍEIRO SÈM FINALIDADE Causou alvoroço a distribuição mais uma vez pelo Govêrno Federal, da quota do imposto de renda às prefeituras cearenses. Os dirigentes das municipalidade para aqui vieram aos bandos, a fim de embolsar a gorda maquia. E esperam ainda voltar, dispostos a arranjar mais numerário da União, arrancando do imposto de consumo. Não haveria nada de mais se todo esse dinheiro fosse devidamente aplicado em benefício dos habitantes das comunas sertanejas. Mas, o que se vê e o que se sabe é que pouca ou nenhuma aplicação se lhe dá em obras ou atividades que redundem para o bem geral. Quem viaja pelo interior tem a atenção chamada para o triste mau trato das rodovias nas entradas e saídas das sedes municipais. A estrada é boa, mas nas imediações das cidades fica intransitável. Por que os prefeitos não cuidam, ao menos, desses trechos, ligados tão intimamente à sua administração? Outras coisas mais se notam nas zonas rurais que denotam abandono completo das mesmas pelas prefeituras. Os mercados, por exemplo, lugares frequentados pelos que visitam os centros urbanos, representam o que há de mais primitivo, de mais anti-higiênico, de mais sórdido, mesmo nas cidades de anunciado desenvolvimento. E quando se pergunta a alguém do povo o que fazem os governadores do município com as rendas recebidas, são comuns os risos irônicos e as imputações de menosprezo. O certo é que recebem as municipalidades, agora, grandes quantias, provenientes de quotas federais e mais ainda o imposto de transmissão de propriedades, que pertencia ao Estado. No entanto, continuam as populações sertanejas no mais completo abandono. Parece que quanto mais dinheiro recebem os prefeitos menos se interessam pela sorte dos seus munícipes. Aliás, isso não é para admirar no interior, pois na nossa Capital a coisa é muito pior, guardadas as devidas proporções. Que é que faz a administração municipal de Fortaleza com a renda imensa arrecadada? Não se vêem melhoramentos de vulto, não estão em dia os funcionários, que percebem ordenados mesquinhos, até o matadouro foi destruído, sem se construir outro. E o mercado central, então, é pior do que chiqueiro de porco, especialmente quando chove. . . LS
  • Nota social Fibras, frutas e riqueza NORONHA NETO A quem percorrer as várzeas do Baixo Jaguaribe não passará despercebida a imensa possibilidade agrícola daquela área, salvas as partes de terra ocupadas por carnaubais mais densos, o que se estica à vista da gente são as planícies caprichosamente planas, terra cinza-escura. Aqui e ali, surpreendem-nos algumas ondulações, indicativas de terrenos mais recentes, aluvionais, de côr menos brusca. São terrenos arenosos, porosos, de uma fertilidade, invejável. E por sob tudo isso, dorme o lençol freático dos mais densos no Nordeste, numa profundidade média de quatro a cinco metros. Um insulto de terra, de água, de possibilidades. No entanto, é ainda a carnaubeira o sustentáculo da economia da zona. Malgrado seja a exploração da cêra feita por processos rotineiros que, em última análise, talvez deem, em seu conjunto, um prejuízo de mais de 50% no rendimento global, é ainda a base da vida de muitas populações ali radicadas. Infelizmente, ocorrendo que a tendência das terras de carnaubais é irem parar às mãos dos grandes proprietários, poder-se-ia temer que, se não houver modificação na estrutura da propriedade, os carnaubais terminarão por caracterizar cultura de latifundiários. Agora, porém, subsiste fenômeno contrário: o imenso mosaico verde está fraturado em milhares de minúsculas propriedades, o que permite verificar que os resultados de sua exploração atingem ainda a grande número. A diversificação da agricultura já se impõe, ali, como consequência do crescimento do consumo local, visto que a renda gerada pela cêra já não é suficiente para responder pelas exigências da população, o poder de troca oriundo da carnaúba, exploração estacional, é inadequado, financeiramente, para criar condições satisfatórias de vida para o vale jaguaribano. Daí a alternativa. Mas, o problema não é, apenas, criar um sistema agrícola. Devemos descer mais profundamente, já pensando em determinar, desde logo, que tipos de cultura se apresentem com maiores possibilidades econômicas, além de preencherem, com segurança e rigor, os requisitos de adaptabilidade e produtividade frente à conjugação dos fatores ecológicos locais. Tal preocupação não nos parecerá precoce. Cremos, mesmo, que deverá ser a menina dos olhos de todos os que, por qual
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