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O Nordeste

Janeiro de 1963 · 5 trechos transcritos

Manchetes desta página

  • Em recente choque surgido em Pernambuco entre legisladores rurais e usineiros por causa do 13° salário teve a consequência imediata de 7 mortos e atestaçao de que o pais necessita realmente de esperança. Quem é que desconhece neste país o ímpeto de grande força e de grande novidade com que vem despertando, em todos os recantos, o movimento pela conquista aos direitos do trabalhador? 1961 foi o ano das Ligas camponesas. 1962, o da expansão das sindicalização rural. Em todo o território do Brasil, o Movimento de Educação de Base, da Conferência Nacional dos Bispos, é, sem a menor dúvida, um dos fatores mais determinantes da rápida ascensão política das massas camponesas. Pois bem, No meio disto, legisladores de outro planeta e governos do plebiscito fazem e assinam um decreto que dá um novo mês de salário sem levar em conta o trabalhador rural. Vem o decreto, claro, direcionado para os trabalhadores industriais e comerciais. E para o resto, nada. Nem a regulamentação do decreto se lembrou de estender o benefício aos rurais, que no entanto, tiveram posteriormente o direito reconhecido pelo Ministério do Trabalho. Acontece que, seguros do beneplácito ministerial, os trabalhadores do campo foram reivindicar o seu salário. Quase totalidade dos proprietários rurais se recusa a pagar, pela razão muito simples de que não têm financiamento do Banco do Brasil para as despesas desse pagamento. Não interessa o caso de que todas as propriedades agrícolas do Nordeste estão em condições de pagar o 13° salário sem o apoio do Banco do Brasil. Trata-se apenas de reconhecer que este Banco, financiador de grande parte da produção agrícola, não pode negar empréstimo a nenhuma empresa agrícola, porque esta não tem fobia de pagamento, não contribui para o Instituto. O resultado é este. Cobra-se. Não paga. Apela-se para a Justiça. Resiste. Vem o choque. O tiroteio. 7 mortos. O noticiário das Agências internacionais que, aliás (como não!) tem interesse em denegrir no exterior o Brasil da Petrobrás, da insubordinação ao Fundo Monetário Internacional, da oposição à divisão do mundo em zonas de influência das maquiavélicas potências mundiais — essas Agências lançam aos quatro ventos que está prestes a rebentar em Pernambuco a revolução de camponeses. E tudo isto, por quê? Legisladores demagogos não souberam legislar, são incapazes de estudar as leis. Não têm como objetivo o bem comum, mas a posse de um slogan eleitoral ou o interesse de passar por cima das cabeças. Daqui partem nossos votos que o Manifesto atinja os fins que visou. Mas temos a secreta convicção de que o Manifesto teria, senão muito mais realista se tivesse assinado a relação entre a omissão das elites e as novas aspirações de brasileiros. O nosso povo entendeu de dar o nome de “lero-lero” às conversações, discussões e estudos levados a efeito por gente que se diz competente e, que, afinal, resultou em coisa nenhuma. O “lero-lero” tem sido o maior meio de tapeação impingido aos brasileiros nos últimos tempos, especialmente nos meios governamentais. Quando se quer dar uma satisfação aos reclamos gerais para a solução de problemas urgentes que dizem de perto com a vida nacional, a primeira coisa que se faz é organizar um Grupo de Estudos, e, depois, um Grupo de Trabalho, que apenas trabalham no papel, levantando mapas, organizando esquemas, forjando projetos e, depois de reunir tudo isso em montes de cadernos ou rolos de plantas e mapas; dá por encerrada sua atividade. É lastimável que isso aconteça, mas é o que vem sucedendo de tal modo continuado, que ninguém mais, hoje, acredita nos resultados práticos de tais estudos ou projetos. Ainda há pouco reuniu-se no Recife, patrocinado pela SUDENE, a mais teórica e imprestável organização já formada no Brasil, uma reunião preparatória para a Conferência Latino-Americana de Estudos sobre Zonas Áridas, que se vai realizar em Buenos Aires em setembro de 1963. Se daqui até lá ainda estivermos vivos, deverá o pessoal que examinou a matéria a ser discutida na Argentina, falar sobre coisas estapafúrdias, que podem ser muito bonitas como exposição mas que nada representam de prático e de útil para a população abandonada do Nordeste. Eis alguns tópicos, para se ter uma pálida idéia dos altos assuntos que a comissão de tópicos vai apresentar em nome do Brasil. “Ensino e investigação, ciências básicas (matemática, física, química, biologia e geologia); investigação básica em meteorologia, geomorfologia, edafologia, hidrologia, botânica, zoologia, economia e sociologia; investigação básica em disciplina desértica (geologia, ecologia, economia e sociologia); sumário de termos técnicos ou autóctones... etc., etc.,... Diante disso tudo, quando se chegar ao menos a um centésimo de compreensão de tanta nomenclatura e exotismos, é que se poderá aplicar as conclusões levadas a efeito pelos grandes sábios que estudaram as Zonas Áridas. E, daí até que se comece a trabalhar, quantos anos não terão decorrido? . . O povo, olhando tais coisas diz conformado: “E por isso que esta joça não progride”... De há muito, a política exterior dos povos deixou de ser assunto exclusivo das chancelarias. As guerras eram vistas outrora como “esportes dos reis”. Mas hoje as grandes questões que dividem os Estados figuram constantemente nas manchetes de jornais, ou então são debatidas em estações de televisão e em assembléias estudantis nas quais se julga decidir o destino do mundo. Daí a razão pela qual a demagogia imperante na atualidade está a cada momento agitando perante a opinião pública temas de política internacional. Por outro lado, sabemos que a propaganda comunista procura servir-se da imprensa, do rádio, da televisão, das organizações estudantis e das entidades culturais para criar um estado de espírito favorável à expansão e aceitação do credo marxista-leninista. O que porém nunca se viu, no Brasil, senão nestes dois últimos anos, foi a orquestração demagógica montada e posta a funcionar pelas próprias autoridades, faltando entre estas as responsáveis pela direção da nossa política externa. Já nos últimos tempos do governo do Presidente Juscelino Kubitschek, vimos o Itamarati transformar-se num instrumento a serviço da INTELIGENTZIA brasileira, isto é, dos intelectuais reunidos no ISEB e fazendo deste instituto uma das mais eficientes células de propaganda vermelha no País. Com o sr. Jânio Quadros e suas atitudes espalhafatosas, culminando na condecoração do sr. Che Guevara, a demagogia em matéria de política internacional parecia haver chegado ao auge. E ninguém supunha que o seu sucessor fosse encontrar para a chancelaria um segundo Afonso Arinos de Melo Franco, ou seja, um abalizado jurista e professor de Direito, um homem público de renome e mesmo de tradição, que se prestasse ao triste papel de instrumento dessa demagogia mercê da qual vamos perdendo todo o prestígio perante as nações. Pois o Presidente João Goulart conseguiu uma segunda edição, revista e melhorada, do sr. Afonso Arinos. De sua passagem pelo Ministério das Relações Exteriores, o sr. San Thiago Dantas deixou-nos tão somente a impressão de ter vindo pôr uma pá de cal nas tradições outrora tão louvadas da casa de Rio Branco. Depois dos dois ministros paulistas que tão superiormente souberam compreender o sentido que deve ter a política externa brasileira, o prof. Vicente Rao e o Embaixador Macedo Soares, tivemos com os srs. Arinos e Dantas, a porta aberta para a demagogia na política do Itamarati. Fora do Ministério, o sr. San Thiago Dantas empregou dos mesmos processos que utilizou em Punta del Este. Este é que conclui na 6a. página
  • KRUSCHEV E MAO TSE-TUNG TROCAM INSULTOS ATRAVÉS DA IMPRENSA Por BENJAMIM WEST O manifesto redigido com apurada franqueza, que se fez chegar ao público, não é senão o conflito ideológico, não só o cismo, senão realmente uma cisão no comunismo internacional, o manifesto, contendo 15 mil palavras em forma de editorial foi publicado na edição de 31 de dezembro do “Diário do Povo”, órgão de imprensa da União Soviética. O editorial em questão identifica de todas as maneiras, embora sem citar nominalmente, a Kruschev, como principal adversário de Mao Tse-Tung. O chefe do Partido Comunista Soviético é acusado de traição aberta ao verdadeiro marxismo-leninismo. O editorial em questão é tão comprometedor em suas acusações contra o “revisionismo” de Kruschev que constitui um documento fundamental para os que ainda vacilam entre Moscou e Pequim. Estes encontram-se divididos os partidos comunistas do mundo. É evidente que já nenhum dos lados trata de persuadir o outro. Pelo contrário, Moscou e Pequim se acham em flagrante disputa pela liderança ao comunismo internacional e demonstram a intenção de não retroceder. Aceitariam, entretanto, a divisão do campo comunista no mundo como realidade inevitável, com a qual é necessário transigir. Daí as grandes tensões internas que chegaram ao seu ponto máximo. Falou-se até de intentonas de subversão e de infiltração, que corrompem cada vez mais o ambiente ideológico, já por si viciado. A essência da doutrina de Pequim consiste em que as armas nucleares não alteraram nem poderiam alterar o dogma marxista-leninista referente à inevitabilidade da guerra entre os países comunistas e os não-comunistas. Nem levam em conta o sentido desumano de suas próprias palavras. Mao Tse-Tung declara que a guerra nuclear acabaria a destruição do mundo não-comunista. Quanto a Kruschev, Mao censura-o por capitular e por transigir com os países não-comunistas, prejudicando a “revolução mundial” e a campanha para atrair ao comunismo os novos países independentes. Mao-Tse-Tung opõe-se resolutamente a qualquer transação que contrarie o axioma de Lenine: “Tudo é ilusão, exceto o poder”. Ainda segundo o chefe do Partido Comunista Chinês, a guerra nuclear não acabaria com a humanidade por completo, pois que, de tantos milhões de chineses, sempre sobreviveriam alguns milhões para garantir a procriação da espécie humana. Kruschev é também acusado de exceder-se desaforadamente na questão da “coexistência pacífica”, a qual deveria ser apenas um disfarce para a luta constante contra o mundo não-comunista. Quanto à crise cubana, opôs-se Mao-Tse-Tung, do modo mais enérgico, ao pacto de soberania de uma nação, para se chegar a uma medida conciliatória com os não-comunistas. Refere Mao, seus ataques contra Kruschev, porque “o sofisma não altera a verdade”, acusando-o de alhear-se ao marxismo-leninismo a tal ponto, que a política soviética equivale não apenas à traição, mas também à negação absoluta do que realmente deveria ser comunismo. O líder vermelho chinês manifestou seu propósito de manter o fogo contra Moscou à alta pressão, com artigos subsequentes a serem publicados em periódicos que seguem a orientação da China Comunista. Obviamente, no que se refere a Mao-Tse-Tung, a batalha entre o radicalismo chinês e o revisionismo soviético, iugoslavo e de outros países do bloco, atravessa sua fase da maior intensidade. O resultado da retirada de Kruschev em Cuba e a negativa, mais tarde, de apoiar Pequim em sua aventura indiana, sobre as operações militares chinesas, constitui uma incógnita. Há prova de que a marcha à ré soviética em Cuba influenciou consideravelmente a decisão inesperada e misteriosa de Mao-Tse-Tung, ordenando que suas forças abandonassem as posições já conquistadas dentro do território da Índia, quando ninguém duvidava que, face ao vulto dos preparativos militares por parte da China, tratava-se de algo mais do que simples correção de fronteiras. Os soviéticos, por sua vez, não deixaram o seu editorial em questão sem uma resposta. Em Moscou, a “Pravda” rebateu o ataque, tecendo críticas contra o Partido Comunista (Conclui na 6a. página)

Anúncios, notas e expediente

  • Nota social Numerosos dos nossos leitores nos fazem chegar suas lamentações, com relação aos lapsos de revisão que ultimamente povoam as colunas do nosso jornal. Recordam que, antigamente, havia tanta exatidão gramatical na matéria publicada que até professores de português, como o dr. Martinz Aguiar, recomendavam a leitura de O NORDESTE aos alunos, desejosos de bem escrever. E não há quem não recorde a ação enérgica e indormida de Vasco Furtado, hoje aposentado, o mais acurado e competente revisor que já viu a imprensa do Ceará, que brigava com os linotipistas se estes deixavam de corrigir um simples erro de virgulação por ele apontado, nas provas. Devem convir os senhores que um jornal tanto mais se moderniza tanto mais vai permitindo certos descuidos, por causa da pressa com que é feito. Realmente, nos tempos antigos, a composição levava maior cuidado, tanto porque havia mais tempo como porque os linotipistas, feitos no jornal, a ele dando sua epoperação anos e anos, adaptavam-se ao regime dominante, atendendo às exigências da redação e da revisão, sendo de notar mesmo que havia deles, como Sebastião Pinho, que, de tão hábil e competente, corrigia por ele mesmo, na hora da composição, os erros ortográficos porventura existentes no original. Aliás, tão bem organizada era a revisão, que funcionava como verdadeira escola de português, sendo que muitos dos nossos hoje cultores do bom vernáculo aprenderam n'O NORDESTE a redigir escorreita e graciosamente, quando passaram pelo seu corpo redatorial. Já dizia o filósofo grego pré-socrático, Heráclito, “tudo é mutável”. E é certo que o fazia assentando os fundamentos essenciais do evolucionismo materialista. Mas não se pode deixar de reconhecer que a mudança é um dos fenômenos da existência. Assim, também nas entidades a evolução corre, daí, tantas modificações que, se têm um lado aceitável, apresentam aspectos que desagradam. E certo que se há coisa que mortifique a quem lê são os erros de revisão. Mas devem conformar-se os leitores porque muito mais se molestam os que redigiram a matéria que foi invadida pelos “gatos”. No entanto, o que salva ainda é a desculpa sempre à vista de caberem os deslizes aos linotipistas, e à ressalva de que o bom entendedor facilmente corrigirá os erros encontrados. L.S.
  • Expediente Terça-feira, 15 de Janeiro de 1963 O NORDESTE TERCEIRA pagina Expediente FATO DO DIA (Conclui na 6a. página)
  • Telegrama PONTOS DE VISTA Política Internacional e Demagogia RUI DE ALMADA (Conclui na 6a. página)