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O Nordeste
Janeiro de 1963 · 3 trechos transcritos
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- A DISPUTA IDEOLÓGICA ENTRE RUSSOS E CHINESES A aplicação prática do princípio marxista e a realidade do conflito final do comunismo com Mao-Tse-Tung, a posição dos partidários de Mao-Tse-Tung aproxima daqueles que, no Brasil, defendem a guerra armada como único meio de solucionar os problemas nacionais. Tanto os irredentistas do Brasil como os dogmáticos chineses, na sua apologia, da violência como fim em si, merecem largamente a abusada "citação atribuída por Kruschev a êstes últimos: "passam de um grupo de simplistas". Para o dogmatismo chinês não há problema. Por mais que se assuste numa guerra nuclear mundial, haverá sempre milhões de chineses para tomarem conta do que ficar. Sobretudo, porque a China, que não atua ainda como potência nuclear, não estaria envolvida no conflito. Quando se alude ao poder do mundo ocidental, responde Mao-Tse-Tung: "o imperialismo é apenas um tigre de papel", e diz que a balança do poder mundial oscila em vantagem para o comunismo, vem a contestação de que a vitória mundial do comunismo não é previsão de Marx. PONTOS DE VISTA Kruschev, que não ficou no isolamento de Mao-Tse-Tung e visitou o mundo, e entrou em contato com a realidade viva e não apenas com os proféticos de Marx, não é do mesmo aviso. A destruição atômica de milhões de seres humanos e tesouros de civilização, não é preço que se pague por uma vitória hipotética e difícil. "Qualquer um", diz o líder soviético, pode começar uma guerra, mas "terminar com a guerra é como acabar com a guerra um dia". ESPOLIAÇÃO, NO DURO.. Os avantajados nacionalistas brasileiras, que apenas assim se apresentam para camuflar suas ligações com o internacionalismo soviético, estravazam sem horror ao que chamam de "espoliação do capitalismo ianque" em prejuízo da economia brasileira. Seus berros encontram certa ressonância, principalmente nos meios juvenis e proletários, ainda incapazes de compreender assuntos econômicos. No entanto, como provou à sociedade o nosso embaixador em Nova York, o sr. Roberto Campos, se há espoliação no campo das transações comerciais entre Brasil e Estados Unidos são estes os espoliados, que, além de ficarem sem receber os produtos das vendas feitas, ainda têm seus créditos aqui bloqueados, com a monstruosa lei de remessas de lucros, lei tão monstruosa que nem o próprio sr. João Goulart quis sancionar. E, em contrapartida, a espoliação mais desbragada está sendo feita contra os brasileiros pelos ditadores da "linha de Ferro". O seu tão recomendado comércio é apenas um negócio excuso da parte deles, pois estão comprando sem pagar, achando-se já acumulado nos países comunistas saldos consideráveis, que praticamente se tornaram "congelados". E como os negócios são feitos entre governos, fica o nosso obrigado a pagar aos exportadores nacionais as vendas feitas aos russos e seus satélites, sem, no entanto, receber o resultado das transações. Disso resulta mais um fator de emissão de papel moeda, e, portanto, de inflação galopante. Assim, por dois lados os russos nos estão espoliando: primeiro, não pagam o que compram; segundo, concorrem para o crescimento da inflação, o que significa aumento do custo de vida. A propósito do tão falado negócio com o algodão, que estaria interessando ao governo comunista da România, país aflito do ponto de vista cambial, há também o perigo de recebermos moeda hipotecária. Quanto à România irá revender nosso algodão em outra moeda, como o dólar, o franco, o marco ou a libra. Assim, mesmo que o negócio fosse realizado, ficaríamos com a obrigação de comprar apenas na România, quando sabemos que ela não tem o que nos vender. E o resultado seria ficar ali depositado nosso crédito, o que significa espoliação, no duro, pois, enquanto a România irá revender nosso algodão em países de moeda conversível, fazendo ótimos negócios, manterá bloqueado o nosso crédito, que só valerá para negócios com ela mesma. Isso é que é preciso ser explicado aos brasileiros ignorantes da forma de negociar adotada pelos comunistas, verdadeiros espoliadores. L.S. ESMERIL DE REPUTAÇÕES A COFAP acaba de destruir mais um dos seus dirigentes. É a triste e dolorosa sorte de quantos se afogam a aceitar a administração da mais inútil, mais cara e mais perigosa organização estatal já posta em funcionamento no Brasil. Nem um só dos seus presidentes, seja no âmbito federal, seja no estadual, conseguiu escapar das malhas desse polvo de nova espécie sem desgostos, sem arrependimentos e sem trazer arranhada a própria reputação. Como a túnica de Nessus, agarra-se aos que tentam possuí-la e quando querem despi-la veem ir com ela pedaços da pele. Quando o diário crente Max Monteiro aceitou a incumbência de dirigir a COFAP, numa hora trágica para a instituição, às voltas com negociatas e aproveitadores de toda ordem, daqui chamamos a sua atenção para a aventura que ia viver. A experiência já mostrou à sociedade que a COFAP é um esmeril de reputações. Mesmo os caracteres mais impolutos dali saem todos em brasas firmes de uma borja de exploradores contra os quais debalde tentam investir os homens dignos. No final, a derrota lhes serve de paga sendo obrigados a abandonar o posto, apesar de todos os esforços para conseguir o bem do povo. O novo titular, ainda dominado pela inesperada nomeação para o cargo, emprega os mesmos chavões de quem vai dirigir coisa que não conhece. E lá vem: "em defesa das donas de casas e dos interesses dos trabalhadores, serei intransigente no combate aos atravessadores e intermediários". Acrescentando mais: "Vou arregaçar as mangas, não tendo dias! horas e locais de trabalho". Como é fácil falar nessas ocasiões! Com que meios vai contar esse novo Hércules para acabar com a Hidra de Lerna? Max Monteiro que o diga, ao ver todos os seus esforços e sacrifícios redundando inúteis, porque no nosso País ainda há a "força oculta" dos mandões políticos, que protegem os exploradores do povo e deles se servem para satisfação de interesses pessoais. A COFAP é um extorvo para a economia nacional, mas tem servido de ótimo instrumento para os aproveitadores de situações e, o que é pior, de terrível elemento para destruir reputações dos que tentam fazer algo em favor do povo, julgando que podem utilizá-la em vista do bem comum. INCÍPIOS DOGMÁTICOS DA REVOLUÇÃO São incapazes de eficácia do jogo diplomático e na coexistência de Kruschev. Ainda em plena "guerra fria" da revolução chinesa, complexado e rancoroso, qualquer contacto com o mundo ocidental se torna impossível. Mao-Tse-Tung está longe de aceitar que, se algum dia o mundo esteve perto de cair no comunismo, foi pela maliciosa política do líder soviético e jamais por suas "vênuas e ridículas fanfarronadas". DUM Ele, porém, as artes que, contra as suas pretensões de liderança mundial do comunismo, prefere ao redor do Kremlin o caviloso Kruschev. Para a manobra em grande estilo para surgir no próximo Congresso comunista mundial, qual campeão da paz e do "socialismo", ou um dos sentidos da atual política soviética, obtendo um "statu quo" nas Antilhas, reiniciando os entendimentos para o controle nuclear, acenando para Tito com a cooperação atômica, e enviando à Índia "serosos Migs" que não deu à China. De tal forma sairá de tudo isto e do que virá depois (quem sabe), como o "homem que resolveu", que a pretensão de Mao-Tse-Tung, como um balão de brinquedo, a China não tem condições de liderar o bloco oriental, nem participar. E isso mesmo é que não, falta quem afirme que do certo passa a aventura de choques e oposições no bloco oriental, não passa de uma das muitas artimanhas. EXPECTATIVA Todo o sertão está mobilizado numa grande expectativa. O inverno, que quase nunca sai conforme as necessidades, é a grande interrogação deste momento. Caíram as primeiras chuvas: que significarão? Um rápido piscar de nuvens? Chuvas provocadas? Se foram, talvez melhor, pois que, com a repetição das experiências, poder-se-á atingir um grau de perfeição no condicionamento do problema, que logo mais o problema da carência de chuvas talvez seja posto em outros termos bem diversos dos de agora. Bom, não era bem esse o caminho que pretendíamos seguir aqui. Queríamos ver um outro aspecto, a saber, como é que os sertanejos receberão o inverno deste ano. Como se manifestará a reação dos lavradores que, embora tanto esperem por chuvas, recebem-nas quase com um susto e um sobressalto infantil... Se tivéssemos uma economia bem organizada, o fenômeno dessa expectativa teria outro tratamento. Primeiramente, o grande esteio da vida econômica de nossas populações, tanto na lavoura propriamente dita como na pecuária, depende ainda com exclusividade (em alguns casos), da probabilidade das chuvas. Como são aleatórias e incontroláveis, segue-se que a economia fica exposta à extrema debilidade de fatores dessa natureza. O que se pretende, segundo anunciam os teóricos, é implantar, no Nordeste, tipos de atividades menos vulneráveis às consequências dessa oscilação climática. Identificar, porém, para cada área ou subárea da região, tais atividades não será tarefa cômoda e fácil, dada a diversidade e a extrema complexidade dos fatores que se têm que enfrentar. Antes de tudo, o homem. Apesar de ser considerado historicamente um FORTE, e apesar de conseguir viver e reproduzir-se alimentando-se com um terço apenas do que precisaria, o nordestino está corroído, agora, por um desgaste psicológico profundo. As medidas a serem tomadas para promover a renovação dos quadros sociais e econômicos da região se defrontarão, forçosamente, com a imensa barreira da descrença, e a desconfiança, senão cousas piores. A sucessão de promessas e de fracassos erigiram uma camada de resistência difícil de erradicar. No entanto, resta ainda o recurso ao processo educativo que, influindo diretamente sobre as novas gerações, leve seus reflexos benéficos até os homens mais maduros. Com isso, poder-se-á criar novas condições econômicas, saneando o ambiente do fenômeno de expectativa paralisadora que subsiste sempre fortalecida por novas dificuldades.
Anúncios, notas e expediente
- Nota social NORONHA NETO DA COSTA associação, com multa concedido aos o* nú d* A ENCÍCLICA “MATER ET MAGISTRA” Os direitos fun- dos homem de- rerum nova- 21—O DIREITO DE ASSOCIÀÇAO que os operá- los em associa- dicato, sê tor- ta poderosa ar- rios dos agitado- causa de Kib- al. Na verdade. istia como exis- oje- O «proleta- e dar origem aves abusos e o XII referiu-se, so a operários, de ABUSAR le organização, bem temível e pe- do 'a de abusar f0 o capital priva- abuso”, no IbU sempre on- legitimo tflreito. ido de seus dí- Tí sucumbir à ; abúsat desse a por isso o di- de existir, ou- tros meios devém ser usa- dos para qúe patrões e ope- rários, uÈuhdo dê seus dl- rsitos legítimos, não Ve- nham uns a lesar o direito dOS GUI TO. L?àb XIII não 'só defen- deu o direito de patrões e operários — constituírem associações, mas ericofa- jou-03 a fazerem uso desse direito. DesejàVá ó grande pontífice dós operários que estás associações de clas- se se tornassem um ins- trumento de condôTdia e de paz entre as classes em luta, um lugqr onde os conflitos pudessem ser pâ- cificamente resolvidos, as injustiças corrigidas e os direitos legítimos defendi- dos. A natureza concede.u ao homem o direito de se or- ganizar em sociedade ' e de constituir dentro da soci- edade geral, sociedades particulares, desde qúe seus fins sejam honestos, e o Estado não pode negar- lhes existência, pois “o di- reito à existência. foi-lhes outorgado pela própria Aa- tureza e a sociedade clVil foi instituída para prote- ger o direito natural, não para o aniquilar; Nascem da sociabilidade natural do homem. Leão XIII podia consta- tar a existência ao seu tempo, de numerosas asso- ciações de operários. Na maioria tratava-se de as- socíações secretas, com fi- nalidades dúbias e às. vezes más. Não podiam ser, por isso niesmó, aconselhadas aos católicos. A estes só se ofereciam duas possibili- dades: «ou darem os seus nomes a sociedades de que a religião tem tudo a te- mer, oú organizarem-se êleS próprios e unirem as súafc forças pata poderem sacudir den odadamen te úm jugo 'tão injusto e tão in- tolerávél”. Era Istp que Leão x III aconselhava aos operários católicos: fundarem suas associações. Delas esperava o Papa os melhores frutos: “esperamos destas corpora- ções qs mais benéficos fru- tos, . contanto que conti- núem à desenvolver-se e que a prudência presida à sua organização”. Ào Estado compete pro- teger tais associações e nunca controlá-las, inge- rindo-se na ^ua vida ipter- nâ. «Proteja o Estado estás sociedades fundadas se- gundo o direito; mas não se intrometa no seu gover- no interior e não toque nas molas íntimas que lhes dão vida; pois o movimento vi- tal procede essencialmente dum principio interno, e extinguè-se fácilmente sob a ação duma caosa exter- na”. E’ evidente que esta grave advertência do Pa- pa, não vale apenas para o. Estado. São válidas para qúalquér pessoa óu torça que pretenda utilizar-se da fôrça das associações ope- rárias. Para Leão XIII, tais as- apelações devem trabalhar pára o bem de seus mem- como bros, tanto material espiritual. Como comenta o Papa João XXIII; “Aos traba - lhadores, afirma ainda a 1 Encíclica reconhece-se o direito natural de consti- tuírem associações, ou só de operários Ou mistas de operários e patrões; como também o direito de darem às mesmas a estrutura or- gânica que julgarem mais cònveniente; e ainda, o di- reito de agirem, no J^10* delas, de modo anitônòWo e por própria iniciativa 1 assegurarem a obten.a dós seus legítimos interes- sas”.
- Expediente Quinta-feira, 1º de Janeiro de 1963 0 N.O.R D ESTA TERCEIRA pagina ■Mn O Balão de Brinquedo FATO DO DIA (QBS .IW' £tB^ y^ ^ :^S 1» de e