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O Nordeste
Janeiro de 1963, página 127 · 2 trechos transcritos
Manchetes desta página
- NÃO COMPREENSÃO DA HORA Cada semana que passa vem sendo assinalada, do lado da cortina de ferro, por um grande acontecimento de repercussão mundial. Do lado comunista, o governo da Alemanha Oriental abriu os trabalhos do Congresso do seu próprio partido comunista com um discurso de nove horas e cinquenta minutos. No resumo publicado na imprensa, o sr. Ulbricht gastou tempo demais para dizer o que todo mundo já sabe, inclusive lá no mundo oriental. Que Berlim deve ser cidade livre e desmilitarizada, que é necessário um tratado de paz com a Alemanha, etc. No que lhe restou depois dessa oratória de Berlim, elogiou a linha dogmática dos chineses e enalteceu a de Kruschev, como campeão da coexistência pacífica. Do lado ocidental, ressoou bem alto o som do gongo de De Gaulle, às pretensões de Kennedy sobre a força nuclear unificada da Aliança Atlântica. O presidente francês recusou a proposta feita à Inglaterra e França pelo chefe do governo norte-americano, no sentido de serem todas as potências ocidentais dotadas da mesma força de foguetes "Polaris" dos Estados Unidos, com o objetivo de evitar a dispersão dos esforços de armamento do Ocidente face ao comunismo. O plano do Presidente norte-americano, embora certamente orientada num sentido de hegemonia e liderança, no entanto inspirada pela decisão realista de formar um dique, e um dique fortificado à avalanche comunista, que se no momento discute e se divide, é, no dizer de Kennedy, quanto ao modo de levar o Ocidente à sepultura. De Gaulle foi claro demais na sua oposição ao plano norte-americano, quando afirmou que, ao defender a integração europeia, o faz pensando em digo propriamente europeu e não numa aliança colossal comandada dos Estados Unidos. Além do mais, o presidente francês, no seu pronunciamento, expressou reservas quanto à entrada da Inglaterra no mercado comum. A resposta dos seus aliados a estas declarações do presidente da França, não se fez esperar, mas fez-se sentir. O governo britânico fez saber imediatamente que a Inglaterra prosseguirá nos seus esforços para o progresso na comunidade econômica européia. E os Estados Unidos, logo depois da entrevista de De Gaulle com Macmillan, o presidente Kennedy pronunciou o mais otimista de todos os seus discursos presidenciais: a sua Mensagem sobre o estado da União. Numa resposta bem clara ao caso de De Gaulle, Kennedy afirmou que as divergências entre os grandes aliados do Ocidente são divergências secundárias e ocasionais, ao passo que o mundo livre permanece unido no essencial, na própria defesa e a vitória da causa democrática no mundo. É natural que haja divergências no campo do mundo livre, mesmo porque este mundo é a aliança de dezenas de países, enquanto o mundo socialista é mais homogêneo.
Anúncios, notas e expediente
- Nota social PONTOS DE VISTA O dr. Gilmário Mourão, que dirige o Serviço de Combate à Tuberculose no Ceará, ao regressar de sua viagem de estudos aos Estados Unidos, declarou que, naquele país, registram-se, apenas, por ano, 7 pessoas que morrem de tuberculose sobre cada 100 mil habitantes. Enquanto isso, numa comparação que alarma e desanima ao mesmo tempo, afirma que no Ceará essa proporção apresenta-se na base de 120 mortos por 100 mil habitantes, ou seja quase vinte vezes mais. Daí porque o obituário de Fortaleza acusa o falecimento, cada ano, de três mil indivíduos vitimados pela chamada "peste branca". Esses números seriam para causar arrepios, se houvesse da nossa parte um pouco de compreensão das responsabilidades que nos assistem no tocante à ajuda aos nossos irmãos doentes. Mas o que se vê, tanto do lado dos particulares como dos governantes é uma revoltante indiferença pelo que diz respeito às instituições incumbidas de atender aos atingidos pela tuberculose e que não dispõem de meios para o tratamento. Em Fortaleza só, a Santa Casa, com toda a sua pobreza, mantém enfermarias para tratar de tuberculosos. E, apesar disso, não recebe ajuda de ninguém. Os senhores deputados, que dispõem de milhões de cruzeiros para distribuição à vontade com organizações assistenciais, não destacam um centavo para aquela Instituição. É uma tristeza ver que são distribuídos, anualmente, pelos congressistas federais, estaduais e municipais cerca de um bilhão de cruzeiros com sociedades muitas vezes fantasmas e não destinam eles qualquer importância à Santa Casa. Agora, então, quando subiu o salário mínimo para 14.700 cruzeiros, é materialmente impossível à Santa Casa manter os 260 servidores que ali trabalham (e que vinham percebendo 8.200 cruzeiros por mês). Não houve um só deputado ou senador que se lembrasse de tirar dos seus milhões para donativos importância por mínima que fosse para ajudar à Santa Casa. Assim, sendo ela a única organização em Fortaleza, que recebe e trata tuberculosos, terá que encerrar essa atividade, pois não dispõe de dinheiro para mantê-la. O mesmo sucede com os doentes de câncer. No entanto, há verbas enormes no Orçamento Federal para terem aplicação no tratamento da tuberculose e do câncer. São porém, gastas misteriosamente, continuando as duas terríveis moléstias a grassar no Ceará ao inteiro desamparo das autoridades, dos congressistas e do povo em geral. OBS FAT0 D0 DIA SINAL DE ABANDONO NORONHA NETO Dia a dia ganha o serviço estatístico cunhos de maior importância. Seus foram as estatísticas o elemento de análise mais valioso para os que se dedicam à interpretação de fenômenos relativos à vida das populações sob qualquer aspecto. As manifestações da oscilação populacional podem ser acompanhadas quase como em vida, desde que o agente de estatística possa transformá-las em números e tabelas adequadas. Os gráficos que é possível levantar sobre esses dados indicam com segurança as tendências das populações, de tal modo que fica relativamente fácil identificar causas e efeitos, pressões demográficas e carências de determinada faixa populacional. A Estatística funciona, enfim, como o cardiograma de um País, de uma região. Há quem levante a acusação de que a Estatística sofreria de um relativismo de análise relacionado com a sua posição de observar os fatos A POSTERIORI, isto é, primeiro acontecem os fatos e depois é que os registra a Estatística. Tal acusação, porém, é hoje descabida, e desde que se deem ao IBGE os instrumentos adequados de trabalho, o pessoal devidamente treinado, conservando-se aquela chama de ardente patriotismo e quase apostolado que caracterizava um Teixeira de Freitas, por exemplo, poderá esse órgão atingir os patamares de um dinamismo exemplar, capacitando-se a tornar-se fator extremamente dinâmico na arte de prever tendências e resultados, situações e consequências. Não se pode deixar de reconhecer, muita culpa do que cabe à Imprensa moderna, sensacionalista, vibrante e atraente até pelos títulos em cores, do desalento geral que domina as massas em todas as suas camadas, a fim de corresponder aos anseios de melhoria que anima todo mundo. Os jornais transformam simples notícias em acontecimentos da mais alta repercussão, pondo em ebulição os sentimentos populares. Acontece, porém, que, por força das circunstâncias ou mesmo porque não havia motivo para tanto estardalhaço, as anunciadas realizações são adiadas ou nem mesmo iniciadas, provocando um desgosto muito grande na confiança das multidões em seus dirigentes. Aqui mesmo no Ceará estamos tendo exemplos diários dessa agitação provocada e de resultados mesquinhos ou nulos. Basta começar pelos açudes Orós e o Banabuiú, dados como concluídos dentro de prazo certo, que já findou há mais de dois anos. Todos se lembram da grande palhaçada que foi a "inauguração" de Orós pelo então presidente Juscelino Kubitschek. E todo mundo está vendo que, até hoje, o açude continua por terminar, apesar mesmo das ameaças do atual ministro de viação de punir severamente os engenheiros que não dessem conta do recado até o fim de 1962. Este ano já terminou e nem Orós foi concluído nem os engenheiros foram castigados. Depois veio a construção do porto. Tocou-se trombeta, fez-se zumbaia, veio gente de alto coturno, a imprensa deu a tudo isso destacada cobertura, com retratos, títulos pomposos, afirmações categóricas. Agora essa mesma imprensa lamenta que nada tenha sido feito de aproveitável, que tudo continua como dantes e que não há esperanças de uma solução nestes dez anos. Mas para manter acesa a chama da esperança geral, vale a história da Fábrica de Asfalto, que vai ser construída em tempo recorde, com trabalho em si-bemol, tudo para terminar num abrir de olhos, numa verdadeira marcha das "mil e uma noites"... No entanto, quem ficar vivendo daqui por diante, terá que notar que as coisas não marcharão com nenhum ritmo acelerado, e talvez até sem ritmo algum, como é de praxe nas obras públicas. Essas promessas pomposas que não se realizam deixam o povo escabreado, desconfiado e mesmo descrente. Mas a imprensa tem muita culpa disso. Por que tanto espalhafato apenas diante de conjecturas que, todo mundo já sabe, não passam muitas vezes de fumaça para incensamento de muito egolatria em busca de mais proveitos pessoais. OBS O mundo inteiro está em transformação essencial e macroscópica. O velho individualismo das Nações independentes e incomunicáveis (de que De Gaulle não deixa de ser um símbolo nesta hora) cede cada vez mais o lugar à verdadeira integração de nações e continentes. O que está acontecendo é novo, e tudo está em processo. Não é novo o que acontece no Brasil, e de modo particular, no Ceará. E’ aqui mesmo que, apesar do generoso esforço de progresso do país, ainda ostentamos, triunfantes, os decadentes sintomas de infantilismo, de prostração histérica e de renúncia à lucidez, caracterizados, por exemplo, nas últimas sessões da Assembléia Legislativa de nosso Estado. Nossos deputados acham que não perdem tempo, e se dispensam, inteiramente, de entender as coisas simples que todo mundo entende. Não entendem que a hora não é mais de inventários, testamentos e compensações. Nunca muito menos o é neste momento. Mas é pena que os senhores deputados não entendam. APROVEITAMENTO DO PETRÓLEO (CNP) Êste está sendo o problema mais sério do Brasil. Levantou-se, com alto, a bandeira do monopólio. Cada brasileiro alimentava a doce ilusão de que íamos ter gasolina barata e franca. Já os poços do recôncavo baiano tinham jorrado 80.037 barris de óleo bruto em 1952. Em 1954, a produção subiu para 851.182 barris de óleo bruto. Em 55, a estatística pulou para 2 milhões, e para 36 milhões, em 56. As rendas, em 1958, segundo Mensagem de Kubitschek, atingiram a CR$ 32.5 milhões. Traduzindo para moeda corrente, a Petrobrás apresenta, em 61, a fabulosa renda de 123 bilhões, 141 milhões e 808 mil Cruzeiros, de janeiro a novembro. Mais fabulosa foi a renda, em igual período, em 1962: 204 bilhões, 165 milhões e 75 mil Cruzeiros. Mas a economia popular sofria. E seu sofrimento aumentava, dia a dia, ano a ano. As nossas esperanças esmoreciam, vendo estes anos cada vez mais descoloridos. Os benefícios fugiam como sombras, como as miragens das várzeas de Aracati. A inflação progredia em ritmo acelerado. O fantasma negro da carestia surgia, mais e mais, assombro. Parece até que as ondas, que arrancaram o petróleo, arrancaram também a carestia. Que miséria é essa? O que parecia ser a redenção econômica do povo brasileiro, redundou em revoltante exploração do mesmo povo. Sentimos, na pele, os tristes resultados do reino da ganância, da ausência de espírito público e delapidação do bem comum. "O tubarão e os peixes pequenos" é um filme inspirado. A ganância dos graúdos está matando os pequenos. Teria faltado ao povo capacidade de renúncia? Eu vejo, no meu povo, esta capacidade de sacrifício pelo bem público, em escala. Quando se lhe faz um apelo, em nome da esperança de dias melhores, cosem a boca e apertam o cinturão. Foi o que vi, no curto reinado de J.K. Numa época em que se processam no Brasil duas grandes revoluções, a saber, a implantação da era industrial e a introdução de novos e corretos métodos na arte de administrar, o trabalho do IBGE se impõe como definitivamente valioso e indispensável. Sem boas estatísticas, vigorosamente atualizadas, operando dentro de uma sistemática que implique, inclusive, na revisão dos convênios municipais em que trabalha o IBGE junto aos Municípios, a fim de se lhes dar mais vivência e entrosamento dinâmico com a administração local, sem boas estatísticas repetimos é impossível governar, é impossível planejar e estabelecer programas de governo corretos. Nessa transição, é sumamente importante e significativo o trabalho do IBGE. SUA MAJESTADE, A GASOLINA PE. ANTONIO DE ALCANTARA Em primeira fase, Mon-ti, sustentando a existência de áreas petrolíferas, especialmente no recôncavo baiano, a indústria fôsse monopólio do Estado. E a Lei 2004 de 1953, sancionada por Getúlio Vargas, autorizava a fundação da Petrobrás. Resolvido este ponto, passamos ao terceiro: A industrialização. Is-samos, assim, à questão. A opinião concordou, que O sarcasmo do tatú: basta furar o bico e deixar cavar. Mas, para apertar o cinturão, para quê? Para depósito assunção de L. Mota & Cia. Mosaico e Marmorites - Materiais de Construções - Cimento - Compensados - Madeiras Rua Edgar Borges, 82 Fone: 1-42-26