Hemeroteca
O Nordeste
Janeiro de 1963 · 13 trechos transcritos
Manchetes desta página
- O DRAMA DOS FAVELADOS NOS BAIRROS E SUBÚRBIOS Vinte e quatro horas após entrar em vigor o novo preço da gasolina, os especuladores aproveitaram-se da circunstância e mais ainda da irresponsabilidade e conivência das autoridades responsáveis, e aumentaram, de forma assustadora, o custo das utilidades essenciais, gêneros e outras mercadorias, antes mesmo que o seu preço viesse a ser onerado com o impacto da majoração do custo da carga transportadora. Assim é que o arroz, que ante-ontem custava 150 cruzeiros, pulou para 160 cruzeiros o quilo; o feijão, que custava 110 e 120 cruzeiros, passou a ser adquirido até a 140 cruzeiros; o leite que, pelo tabelamento copeano custa 60 cruzeiros, já está sendo vendido a 80 e a manteiga (520 cruzeiros) há um mês, atinge à casa dos 80, por quilo. Os proprietários de transportes coletivos já se movimentam também para conseguirem do prefeito uma majoração que venha contrabalançar a alta esmagadora de 70 por cento nos combustíveis. E no mesmo ritmo irão as empresas dos transportes de carga, o que virá refletir-se negativamente e em prejuízo da sacrificada bolsa do povo. Pão, carne e peixe, que são alimentos obrigatórios na mesa diária, estão na pauta para nova subida de preço. O pão, vendido a 80, passará a 100 cruzeiros o quilo. Carne a 400 e o peixe, pleiteando um aumento de 40 por cento. E era porque as coisas iriam melhorar com o Presidencialismo. . . Mas o que é certo mesmo é que a fome está fechando o seu cerco na favela. . . E ela tem cara de herege. . . A estômagos vazios ninguém pre-Para quem, apelar? — Em toda a extensão dos bairros e subúrbios da capital, sente-se o clima de apreensão que vive o proletariado, ante o agravamento da situação econômica e social, com a disparada alarmante dos preços, num mau prenúncio de falência da bolsa popular que atinge ao paroxismo da galopante e irremediável inflação brasileira. Resistem ainda, discutem e aguentam o peso da crise os que podem, os que ganham alguma coisa, os que têm salário. Não falamos da privilegiada minoria dos ricos, muitos deles a dizer “depois de nós que venha o dilúvio”. Preocupamo-nos, porém, a tragédia dos marginais da favela, da imensa multidão dos párias que vegetam no reino da doença e da invalidez, do vício e da promiscuidade, em toda estas “ruas da palha” e em todos estes “lagamares” que se multiplicam, com os deslocados do interior esquecido e igualmente explorado, na capital. Ai, a panela está “emborcada” há muito tempo, não se falando, nem em carne, nem em peixe, nem mesmo em feijão. . . morrendo de fome até os inocentes. . . Enquanto isto, os que se dizem representantes do povo no governo prosseguem na sua orgia empreguista, criando cargos até “de parteiros” para a Assembléia. Um deputado estadual está ganhando (?) centenas de milhares de cruzeiros. . . E quanto irá ganhar o federal. . . O rolo compressor da tremenda carestia esmaga o povo. E para quem apelar?
- Estoques de gasolina — Em Fortaleza, o caso da crise de gasolina vem aguçando ainda mais o sofrimento popular. Em toda a extensão dos bairros e subúrbios, os que trabalham no centro sentem-se, de logo, premidos, no caso dos transportes coletivos, cada vez mais racionados e irregulares nos seus horários. E ninguém espere pela cooperação dos carros particulares e muito menos dos veículos oficiais, que passam, aí, pelo asfalto, na maior insensibilidade deste mundo ao problema daquele operário, daquele velho ou senhora, que, em grupos, se posta nos chamados pontos de parada. Há uma outra coisa preocupando também os habitantes de nossos bairros. E a estocagem de gasolina nas residências. Há vários dias, os donos de postos daquele combustível vêm retirando para as suas casas as provisões restantes de suas bombas para se prevenirem contra a crise, aproveitando-se desta para multiplicarem os lucros que representam um golpe contra o povo. Mas o que muito aflige à população, sem dúvida, é o perigo que correm aquelas residências, transformadas em depósitos de inflamáveis, que podem sofrer explosões realmente catastróficas para a coletividade. As provações se sucedem à entrada deste ano, que anuncia uma parada bem dura. . .
- HOSPITAL PSIQUIÁTRICO: PARANGABA A agência da ON em Parangaba, a cargo do padre Antônio Nunes Gurgel, vigário, tomou conhecimento de que o Hospital Psiquiátrico (Asilo de Alienados), cuja situação financeira é das mais difíceis, receberá, este ano, um auxílio federal de 3 milhões de cruzeiros. Como se sabe, o Hospital é mantido pela Santa Casa de Misericórdia que, todavia, mal pode manter-se a si mesma, necessitando, portanto, de ajuda dos poderes públicos. O auxílio de 3 milhões será concedido como resultado do convênio, firmado entre o Govêrno do Estado através da Secretaria de Saúde, e o Ministério da Saúde. A Provedoria da Santa Casa já foi cientificada do auspicioso fato.
- DIZ o “Estado de São Paulo”: Apoiamos inteiramente a medida corajosa do govêrno, porque é realmente benéfica ao País. Só fazemos uma reserva: ao criticar a manutenção artificial do preço da gasolina, o presidente do Conselho aludiu aos erros dos “governos anteriores” esquecendo-se de que o único govêrno que teve a coragem de adotar essa medida foi o do sr. Jânio Quadros, e que tanto o do sr. Tancredo Neves como o do sr. Hermes Lima, até agora relutaram em tomar uma providência que o último classifica de simples bom senso e um ato de justiça. O aumento a que o govêrno se viu forçado é, certamente, antipopular. Durante anos, na administração do sr. Juscelino Kubitschek, o público foi habituado a receber gasolina por um preço artificialmente baixo, e, consequentemente, a pagar os vários serviços públicos (transporte, energia, etc.) abaixo do seu valor real. O govêrno Jânio Quadros teve a coragem de restabelecer a verdade nesse campo, mas o seu esforço não foi continuado. Tanto assim que, enquanto o Banco do Brasil compra dos exportadores as cambiais à taxa de 460 o dólar, os derivados do petróleo são vendidos na base de 318 cruzeiros. E certo que a medida é das mais benéficas, a despeito de se afigurar impopular e, de aparentemente, acelerar o processo inflacionário. Todavia, visa a corrigir um dos muitos erros da estrutura econômica brasileira. Efetivamente, o restabelecimento da verdade cambial, mesmo que as consequências se evidenciem sobremodo sobre as classes média e operária, tem como escopo um ataque mais sério à inflação, evitando as emissões que aviltam a moeda e ridicularizam, no mercado internacional, a nossa política econômica. Mas examinando-se (muito superficialmente pois a análise mais abalisada não caberia numa coluna política) a política econômica brasileira paralelamente à política partidária, verifica-se que o Plano Trienal representou, antes de tudo, o divórcio de Jango com as forças que o sustentaram. Como planejamento avançado que o dispositivo jangista pedia, o Plano foi um verdadeiro “blefe”, mesmo considerando-se o aspecto positivo que ofereceu e que vem merecendo os mais calorosos aplausos da Imprensa conservadora. Um peso e duas medidas! Observa-se que o Plano Trienal não procurou corrigir o maior pecado econômico nacional, qual seja a política cafeeira, completamente desmoralizada no mercado internacional, mas que favorece a estrutura agrária paulista. Quantos prejuízos não sofre a Nação com o pagamento dos excedentes do café? O artificialismo da política cafeeira é menor do que o do petróleo? Na nossa maneira de entender as coisas, a “versatilidade” de Jango uma vez funcionou, desta feita fazendo-o voltar ao pagamentos de origem. Só que deixou muito vivos os germens que alimentou.
- O deputado José Firmo Aguiar disse, ontem, para o repórter que a maioria dos parlamentares recriminou o comportamento dos jornalistas, ao denunciar o inventário do projeto n. 13. Informação de 13 outros. Os beneficiados foram aqueles mesmos anunciados pela coluna. Assim José Firmo reclamou porque a Imprensa anunciou que nada menos de 40 cargos foram criados naquela tarde, a Casa havia deliberado, anonimamente, a criação. Ora, o primeiro lugar, cumpre destacar que os responsáveis foram obrigados a se louvar em informações que partiram dos próprios deputados. Os responsáveis pela proposição fizeram questão de escondê-lo dos olhos da Imprensa. Mesmo porque quase ninguém sabia da extensão do “inventário”. A desconfiança reinou entre os deputados e os que se bateram pelos seus cargos temiam aparecer num “panamá” de grande proporção. Se houvessem mostrado o projeto à Imprensa, a notícia teria sido dada corretamente, muito embora as críticas aparecessem, como era natural e lógico. Dizia-nos Luís Bezerra da Costa, ontem, na Assembléia Legislativa do Estado, que os responsáveis pelo “inventário” mantiveram entendimentos com o exmo. Sr. Virgílio Ferraz Távora, pondo-o a par do ocorrido. Disse ainda Luís Bezerra da Costa que o governador eleito deu “gostosas gargalhadas” quando soube que se havia anunciado que tomaria enérgicas providências para evitar o abuso. Consequentemente, o sr. Virgílio Távora sacramentou o panamá pelo menos dentro do pensamento do sr. Luís Bezerra da Costa.
- Fonte geralmente bem informada disse ao repórter que a Magistratura vai pedir um novo reajustamento. Isso importa em dizer (se bem que não estejamos nos colocando contra a melhoria reivindicada pelos srs. Juízes) que o círculo vai funcionar, visto que são equiparados aos Magistrados os Conselheiros do CAFM etc. etc. . . Além do quadro isolado da Assembléia Legislativa.
- A partir da próxima terça-feira, Wilson Fernando estará apresentando um novo programa pela Rádio Assunção Cearense, no horário das 20,30 horas. O programa chamar-se-á “Conversando com os Políticos”, no qual procurará manter um contato mais estreito entre os políticos e o povo.
- O GOVERNADOR Parsifal Barroso regressará dos Estados Unidos no próximo dia 25, conforme anunciou fonte oficial do Palácio da Luz. — Segue hoje para o Rio de Janeiro o deputado Figueiredo Correia. Regressará em companhia do governador eleito no próximo dia para a diplomação dos eleitos em 7 de Outubro. — O deputado Ernesto Gurgel Valente vai assistir o encontro dos governadores do Nordeste, a ter lugar em São Paulo. Segue hoje. — O dep. Murilo Botelho está duro no páreo pela presidência da Câmara Municipal de Fortaleza. — José Barros de Alencar contando com um grande “handicap” para a reeleição. — O deputado Paes de Andrade seguirá (com a família) definitivamente no próximo dia 29. Aliás, o prócer<bos> ainda não está completamente recuperado da operação a que se submeteu. — O professor Valdemar de Alencar assumirá a cadeira do Senador Meneses Pimentel. — Fato interessante: os colégios particulares de Fortaleza não recebem bolsas federais, exceto as que lhes são concedidas pelos deputados Adahil Barreto Cavalcante e Pinto Sarmento. — E por hoje é só.
Anúncios, notas e expediente
- Expediente O NORDESTE Expediente Domingo, 20 de Janeiro de 1963
- Nota social CONSELHO VICENTINO São convidados os membros do Conselho Metropolitano Vicentino, para assistirem à sessão mensal de domingo, 20 do corrente, a fim de estarem a par do movimento da sociedade. A reunião será efetuada às 9,30, no Prédio Vicentino.
- Anúncio LIVRARIA FIO Xll Livros em geral — Papelaria — Artigos Escolares — Material de Escritório — Missais — Terços — Imagens — Bíblias — Santinhos e Livrinhos de 1a. Comunhão — Selos para Coleções — Objetos para Presentes — Artigos Filatélicos — Álbuns, Charneiras etc. Atendemos pelo Reembolso postal. Rua Guilherme Rocha, 335 — Fone 1-87-89. Caixa Postal 723 — Fortaleza, Ceará.
- Anúncio C. S. gosta de Presentear? Então, aceite a nossa sugestão: Compre, pelo menos, 5 FOLHINHAS DO CORAÇÃO DE JESUS e presenteie os seus amigos com o mais útil e interessante calendário de parede e que lhe fará lembrado durante 365 dias. À venda nas principais livrarias da cidade. (Campanha do Movimento Familiar Cristão e do Secretariado Arquidiocesano da Defesa da Fé e da Moral).
- Expediente BANCO POPULAR DE FORTALEZA S. A. Aumento de Capital AVISO AOS ACIONISTAS Comunicamos aos srs. acionistas do Banco Popular de Fortaleza S. A., que, de acordo com a decisão da Assembléia Geral Extraordinária realizada a 12 de dezembro de 1962, fica marcada o prazo de 30 dias a contar da 1a. publicação deste aviso, para os srs. acionistas exercerem o direito de preferência a que se refere o artigo 111 § 2o do decreto 2.627 de 26 de setembro de 1940 para subscrição do aumento de capital autorizado pela referida assembléia. Dito aumento, no valor de Cr$ 32.000.000,00 será feito da seguinte forma: a) — Cr$ 1.600.000,00 (hum milhão e seiscentos mil cruzeiros) pela distribuição em ações novas, equivalente a 20% de cada ação, quantia essa retirada do Fundo de Reserva Legal do Banco; b) — Cr$ 10.400.000,00 (dez milhões e quatrocentos mil cruzeiros) integralizáveis em dinheiro, 50% dos quais no ato da subscrição e o restante a critério da Diretoria após a aprovação do aumento pela Superintendência da Moeda e do Crédito; c) — Cr$ 20.000.000,00 (vinte milhões de cruzeiros) em ações preferenciais, às quais são atribuídas, com exceção do direito de voto, todas as vantagens das ações ordinárias e mais o dividendo não cumulativo mínimo de 8%. Tais ações serão integralizadas pela mesma forma determinada para as ações ordinárias. O acionista a quem couber fração de ação na bonificação distribuída e ainda, deixar de exercer o seu direito de subscrição de ações comuns do aumento de capital, terá à sua disposição, para recebimento imediato no Banco a quantia correspondente à fração ficando a cargo do Estabelecimento a subscrição, para o acionista, da parte inteira da bonificação, igualmente, assim se procederá quando ocorrer valor fracionário na importância de cota de direito de subscrição e o acionista somente utilizar a parte inteira, abrindo mão, pois da fração verificada. Fortaleza, 17 de janeiro de 1963. M. A. DE ANDRADE FURTADO. DIRETOR PRESIDENTE