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O Nordeste
Janeiro de 1963 · 4 trechos transcritos
Manchetes desta página
- EXECUÇÃO DO PLANO TRIENAL O grande fato da semana continua sendo a comemoração do governo, em virtude da qual foram cessados os subsídios à aquisição do trigo e dos derivados do petróleo. Esta medida, colocada por todos os analistas da realidade nacional no mesmo nível da que chegou ao lançamento da instrução 204 IMQC ao tempo do sr. Jânio Quadros, é uma das mais importantes mas indispensáveis a qualquer plano de governo interessado em por um termo à inflação desenfreada em que o país se encontra. Em sua conhecida entrevista concedida à imprensa sobre o momento político e econômico nacional, o governador de São Paulo considerou imprescindível a rápida execução de todo o Plano Trienal, para que iniciativas como esta da supressão dos referidos subsídios não venham a cair no vácuo, por falta de medidas complementares, sem as quais não se detém o curso inflacionário. Foi certamente pensando na complementação dos primeiros passos do Plano Trienal, que o sr. Carvalho Pinto considerou indispensável à tarefa de qualquer Ministro da Fazenda a posse do "comando unificado" da política financeira. Como "comando unificado" o governador paulista entende a identidade de pontos de vista entre os Ministérios da Fazenda, do Trabalho, Interior, bem como entre estes e os demais setores de planejamento. Por mais que se tenha motivo para temer a quase onipotência financeira de um super-Ministro da Fazenda, não é possível negar a intima relação entre um ato administrativo grave permitida ou estimulada, pelo Ministério do Trabalho, e a medida governamental que a motivou e que é indispensável, embora temporariamente onerosa para os cofres públicos. Como igualmente entre um ato administrativo e as consequências financeiras que dele advirão para a economia de um plano de economia financiado em grande parte pelo capital estrangeiro. Não é o caso aqui de blaterar contra o imperialismo das potências, porque a única alternativa que se abre para o Brasil é aceitar (não apoiar nem muito menos aplaudir) a realidade cruel (mas provisória) de um mundo de hegemonias, em que, embora por pouco tempo, ainda estamos submetidos aos antagonismos de dominação, é a não menos cruel tática soviética, cujas razões de Estado já pesaram terrivelmente sobre Fidel Castro e começaram a pesar sobre a China Comunista, cujo delegado ao Congresso Alemão Oriental, para ver divulgado o seu discurso, viu-se na contingência de entregá-lo à imprensa sem o seu nome. São, portanto, graves as consequências do pensamento econômico lapidado pelo sr. Carvalho Pinto, e cremos que, ao expressá-lo, o governador paulista dar um aviso prévio ao Brasil, das condições em que aceitaria o ministério da Fazenda. Ainda não se sabe em que medida tem fundamento a informação da retirada do seu nome da lista dos possíveis candidatos à pasta financeira. Mas o importante é que, na opinião do sr. Carvalho Pinto, qualquer Ministro da Fazenda do Brasil, em 1963, cumprirá a sua tarefa se estiver munido das atribuições do "comando unificado". Resta indicar, no plano da ação administrativa, de que maneira pensará o governo em defender o povo brasileiro dos abusos cometidos na especulação dos preços no mercado de consumo. O governo já disse, pela boca do Primeiro Ministro, que nada pode fazer diretamente contra a especulação. Foi atitude sincera e corajosa, e que devia ser tomada, mesmo porque é impossível afirmar o contrário diante dos fracassos da AP. Mas indiretamente? Não é possível adotar uma política tendente a suprimir ao máximo a profissão dos especuladores? O Banco do Brasil não tem idéia do que pode conseguir com uma política de crédito bem orientada e um incremento nacional do cooperativismo? Leve o governo o seu Plano para a frente. Daqui estaremos para dar-lhe o nosso apoio. Mas penso no problema da especulação. Como nos outros problemas levantados pela entrevista do sr. Carvalho Pinto.
- AUMENTOS EM CATADUPA Não é fácil de compreender a decisão do governo federal, desencadeando uma verdadeira catadupa de aumentos nos preços das utilidades, quase de sopetão, com repercussões profundas na economia já combalida da nossa gente. Uma das razões da elevação inopinada do salário-mínimo foi o ajustamento do ganho do trabalhador ao custo de vida. Depois de levado a efeito um inquérito pelos estatísticos do Ministério do Trabalho, chegando-se à conclusão de que a vida sofrera um encarecimento na média de 70 a 80 por cento. Em vista dessa conclusão estabeleceu-se o novo nível de salário mínimo. No entanto, quinze dias após a vigência daquela medida sai-se o governo com uma decisão esdrúxula, que provocou de imediato ascensão inopinada nos preços correntes das mercadorias de primeira necessidade. Sob fundamento de que era impossível continuar a manutenção de um dólar especial para o pagamento do petróleo importado e vendido pela "Petrobrás", deu-se nova cotação artificial à moeda americana, e, com isso, tiveram elevação os derivados do petróleo, que como se sabe, exercem influência profunda na economia nacional. Porque não é só a gasolina que interessa às atividades nacionais, mas o óleo diesel, para movimentar navios, caminhões e usinas, o fuel-oil, que aciona locomotivas e instalações termoelétricas, o gás butano, que faz funcionar as cozinhas de quase todo o país e liberta as florestas das devastação que vinham sofrendo. Assim, o assunto de 70 e 80 por cento, nos preços dos derivados do petróleo repercutiu imediatamente no custo de vida, porque os fretes subiram, a energia elétrica teve os preços elevados, as passagens de ônibus duplicaram, enfim a economia nacional se viu de uma hora para outra atingida fundamentalmente, com isso desaparecendo a melhoria do salário mínimo há pouco aprovado. Muita gente está vendo nessa decisão abrupta do governo uma segunda intenção, que seria provocar mais agitações nos meios classistas, determinar novas reivindicações salariais, o que levaria à falência as empresas particulares, justificando-se, então, a total intervenção estatal na economia privada, que desapareceria praticamente.
Anúncios, notas e expediente
- Nota social PONTOS DE VISTA Baluarte da Fé ALÉM DOS SAPATOS... Tem toda razão o governador Carlos de Lacerda, quando se julga desobrigado de manifestar-se na última consulta popular sobre a ratificação ou recuso do Ato Adicional que estabeleceu o Parlamentarismo. Apesar de haver o Tribunal Superior Eleitoral, excedendo suas atribuições, estipulado, no caso, as mesmas sanções que o Código Eleitoral impõe aos que não comparecem às urnas, quando convocados, não existe nenhum dispositivo legal impondo tais sanções no tocante ao referendo ou plebiscito. E, como, de acordo com a Constituição, ainda em vigor, apesar de mutiladíssima, ninguém é obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa no país, no ano passado. Como o direito não é imposto, podendo ser usado ou não pelo seu possível titular, conclui-se que não incidiu em falta contra a convocação o cidadão que se absteve de votar. Não lhe impõe a lei uma obrigação, como consta do Código Eleitoral para as manifestações comuns do eleitorado. Falou apenas direito, e, desta forma, só votaria no Referendo quem quisesse fazê-lo. Indo mais longe, a referida Lei Complementar n° 2, posta à margem de sua insofismável inconstitucionalidade, pois nada tem de complementar e sim de ato adicional à Constituição, mandou que se aplicasse a Lei Eleitoral tão somente "na apuração e na proclamação dos resultados" na apreciação final do Referendo. Assim, excedeu-se o Tribunal Superior Eleitoral na regulamentação do processo do Referendo. Como aconteceu com o sapateiro da história, foi além do sapato, metendo-se a legislar - ultra petita -, com o fito de alcançar o maior comparecimento possível de votantes, mas procedendo de modo irregular e ilegítimo, o que em nada recomenda uma alta Corte de Justiça. FREI VENANCIO WILLEKE, OFM Terminada em 1651, a guerra e ocupação holandesa, Pernambuco voltava à sua vida normal, refazer-se dos estragos causados durante 24 anos. Ao mesmo tempo, os restauradores da pátria tratavam de cumprir as promessas feitas durante as angústias da "guerra divina". Chamado a erguer templos votivos a Nossa Senhora e a outros santos para lembrarem à posteridade a inabalável fé dos soldados e a sua gratidão pela libertação. Não é o caso aqui de blaterar contra o imperialismo das potências, porque a única alternativa que se abre para o Brasil é aceitar (não apoiar nem muito menos aplaudir) a realidade cruel (mas provisória) de um mundo de hegemonias, em que, embora por pouco tempo, ainda estamos submetidos aos antagonismos de dominação, é a não menos cruel tática soviética, cujas razões de Estado já pesaram terrivelmente sobre Fidel Castro e começaram a pesar sobre a China Comunista, cujo delegado ao Congresso Alemão Oriental, para ver divulgado o seu discurso, viu-se na contingência de entregá-lo à imprensa sem o seu nome. São, portanto, graves as consequências do pensamento econômico lapidado pelo sr. Carvalho Pinto, e cremos que, ao expressá-lo, o governador paulista dar um aviso prévio ao Brasil, das condições em que aceitaria o ministério da Fazenda. Ainda não se sabe em que medida tem fundamento a informação da retirada do seu nome da lista dos possíveis candidatos à pasta financeira. Mas o importante é que, na opinião do sr. Carvalho Pinto, qualquer Ministro da Fazenda do Brasil, em 1963, cumprirá a sua tarefa se estiver munido das atribuições do "comando unificado". Resta indicar, no plano da ação administrativa, de que maneira pensará o governo em defender o povo brasileiro dos abusos cometidos na especulação dos preços no mercado de consumo. O governo já disse, pela boca do Primeiro Ministro, que nada pode fazer diretamente contra a especulação. Foi atitude sincera e corajosa, e que devia ser tomada, mesmo porque é impossível afirmar o contrário diante dos fracassos da AP. Mas indiretamente? Não é possível adotar uma política tendente a suprimir ao máximo a profissão dos especuladores? O Banco do Brasil não tem idéia do que pode conseguir com uma política de crédito bem orientada e um incremento nacional do cooperativismo? Leve o governo o seu Plano para a frente. Daqui estaremos para dar-lhe o nosso apoio. Mas penso no problema da especulação. Como nos outros problemas levantados pela entrevista do sr. Carvalho Pinto. FORÇAS DINÂMICAS E FORÇAS ESTÁTICAS É um fato de suma importância e de apreensão, que nas posições mais importantes da administração pública federal, estadual e municipal, sem que se saiba, estão maçons e que o contingente de católicos que ocupam posições destacadas nestes setores é bastante reduzido. Atribuo o fato ao seguinte: Os maçons, além de serem financeiramente fortes, são unidos, atuantes e visam, antes de tudo, o fortalecimento dos seus companheiros, são pois uma força dinâmica. Aos passos que os católicos, tanto são fracos de finanças como são desunidos. Por isto, os que estão em condições de influir no sentido de colocar às posições importantes elementos das fileiras católicas julgam-se eximidos deste elementar dever de solidariedade cristã, de patriotismo e de auto-defesa e assim pecam por omissão ou egoísmo, o que redunda em manifesta vantagem para os inimigos da Pátria e da Religião Católica. São forças estáticas. Não sou dos que pensam que o catolicismo só deverá se preocupar com o lado espiritual do homem. Porque, se catolicismo é a sociedade dos homens que professam a doutrina e a lei de Deus e os homens se compõem de corpo e alma, está claro que esta sociedade também terá que cuidar de zelar o corpo que é a morada da alma. Foi tanto, mesmo os dirigentes da Igreja católica têm o dever de concorrer com o seu prestígio e a sua força para que os católicos se iam colocados em posições que lhes assegurem estabilidade e prestígio perante a sociedade civil, sob pena de, mesmo o catolicismo, vir a perder muito do seu prestígio, pois os católicos se verão segregados do grande e importante setor da vida pública e administrativa do país, o que é humilhante para uma grande maioria e proporciona grandes vantagens aos adversários da Igreja. É preciso assim dar um alerta às forças católicas, neste sentido, dos de a sua mais alta direção até as camadas mais inferiores. Somos uma força ponderável. E por que não fazermos uso lícito dela? Seremos covardes? Será que estamos pensando que isto não é da nossa alçada, ou que a doutrina cristã nos tolhe os passos neste sentido? Estão não lemos no Evangelho que o próprio Cristo fez os milagres das Bodas de Caná e da multiplicação de pães, promovendo a uns, satisfazendo as necessidades de outros e, mais ainda que expulsou os vendilhões do templo, à peso de corda? Precisamos socorrer os nossos companheiros de luta procurando levá-los ao lado espiritual e materialmente, como fez Cristo. Alerta, católicos! Temos a cobertura do poder de Deus, se formos fiéis a Ele. Temos a mais sublime das doutrinas que o mundo já viu. Somos o mais poderoso contingente de unidade doutrinária da terra. Que teremos, pois, a temer? Vamos! Se partirmos, unidos e irmanados, à procura de Deus, pelos caminhos da vida terrena, nenhuma força será capaz de deter a nossa marcha. Vamos! Já estou de pé no caminho. Quem não estiver paralítico de mentalidade, que se movimente para iniciar a caminhada gloriosa. Só o tropel da nossa marcha fará debandar, espavoridos, todos os vendilhões de templos. Estando certo este modo de pensar, que as autoridades eclesiásticas aceitem esta modesta cooperação. Estando errado, que advirtam para que não tenha curso o que deve ser silenciado. Assim falo porque compreendo a minha fragilidade humana e sei que errar é humano e reconhecer o erro é próprio dos que cultivam a verdade com o desejo de difundi-la. Há, porém, um santuário da mesma época após a guerra, cuja origem não se prende ao cumprimento de algum voto. Ipojuca, aos 17 de junho de 1645, cenário da primeira insurreição vitoriosa dos pernambucanos, merecia as graças especiais do milagroso Crucificado que lá escolheu um templo já existente para seu trono, como querendo premiar a bravura dos guerreiros e os sacrifícios dos franciscanos do convento ipojucano de Santo Antônio. Pois, os religiosos não se deixaram intimidar com a ocupação de seu convento em 1639, nem com a prisão e o desterro de vários confrades pelas tropas batavas, os poucos frades que lograram escapar ao cativeiro continuavam a prestar socorros espirituais à população, que não pudera retirar-se às Alagoas. Vivendo embora em esconderijos, os filhos de São Francisco animavam o povo a perseverar fiel à Igreja Católica e conservar-se livre de qualquer participação no culto calvinista. De fato, a pressão exercida pelos holandeses, em matéria de religião, era constante, pretendendo eles até separar as crianças brasileiras de seus pais e interná-las nos conventos franciscanos de Ipojuca, Igarassu e Paraíba, já então ocupados pelos invasores calvinistas. Quando da entrada triunfal do exército brasileiro no Recife, 1654, marchava à frente das tropas o custódio franciscano frei Daniel de São Francisco, representando os seus confrades que haviam contribuído para a restauração de Pernambuco. Não admira, pois, que aos 4 de novembro de 1663, rente à igreja conventual de Santo Antônio de Ipojuca, tenha surgido um santuário para servir de trono ao milagroso Senhor Santo Cristo, cuja imagem de modo misterioso chegara de Portugal, atraindo desde logo romeiros e devotos de toda a parte. Entre os santuários de Pernambuco, tornou-se o de Ipojuca o mais afamado, não lhe faltando a assistência religiosa dos franciscanos, durante os trezentos anos de existência. A Igreja, por sua vez, tem cumulado os seus cultores de abundantes privilégios, estimulando destarte as piedosas jornadas e promovendo uma das devoções básicas da nossa religião ao divino Crucificado. Ao iniciarmos o tricentenário das romarias ipojucanas, impõe-se-nos o confronto da invasão holandesa do século XVII com a atual invasão comunista, não apenas em Pernambuco, senão em todo o país.
- Expediente EXPEDIENTE Quarta-feira, 23 de Janeiro de 1963 O NORDESTE TERCEIRA PÁGINA OBSERVATÓRIO [...] FATO DO MÊS [...] [...]