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O Nordeste

Janeiro de 1964 · 6 trechos transcritos

Manchetes desta página

  • FORTALEZA — Quinta-feira, 9 de janeiro de 1964 INFLUÊNCIAS MALÉVOLAS Atendendo a ponderações feitas pelo Governador Magalhães Pinto, o Presidente João Goulart sustou a assinatura do Decreto de desapropriação de terras à margem de rodovias e ferrovias federais e de açudes. Teria o Governador mineiro feito advertência quanto aos inconvenientes políticos e econômicos da referida medida, sugerindo uma reunião de Secretários de Agricultura aos Estados, argumentando que aos Estados deve caber uma parcela da execução da reforma agrária. O Presidente teria concordado com a existência dos inconvenientes apresentados e reconhecido a tese defendida pelo Sr. Magalhães Pinto, segundo a qual a reforma agrária deve deixar livre a iniciativa dos governos dos Estados, a fim de que sejam atendidas, na renovação da estrutura agrária dos entes, certas peculiaridades regionais que não podem ser desconhecidas sem risco para o êxito da própria reforma. Por concordar com esses pontos de vista, e, sobretudo, por estar empenhado em somar todas as forças que lhe possam dar uma contribuição positiva na realização das reformas, o Sr. João Goulart decidiu não precipitar a assinatura do decreto. Submeteria assim o seu próximo ato reformista ao crivo prévio da opinião dos que têm interesse na matéria. O certo é que o Presidente tornou expressa a intenção de não assinar o decreto de desapropriação enquanto não esgotar as fontes de consulta a que pretende recorrer para retirar a medida governamental da área de suspeitas e especulações inquietantes, na qual tentam fixá-la, a seu ver, os interessados nas terras improdutivas que margeiam as rodovias, açudes e ferrovias nacionais. Sem dúvida, as palavras do Sr. Magalhães Pinto encerram muito bom senso quando pretende evitar a extrema concentração de poderes nas mãos do Presidente da República no que respeita ao poder de desapropriar. O Governador Magalhães Pinto advoga a reforma agrária descentralizada, executada pelos governos estaduais, como o meio de evitar a centralização de poderes nas mãos do Presidente. Mas se por um lado essa descentralização apresenta a conveniência de adaptação às realidades regionais, motivando melhores resultados tanto em produtividade como em renda criada pela terra, poderá encontrar, por outro lado, entraves à realização da reforma na [...] dos Governos que não são contrários e nas forças latifundiárias que sobre os mesmos atuam. No entanto, o que sobretudo está sendo incompreensível e digno de estudo é mais essa atitude do Sr. João Goulart. O inexplicável Presidente parece mais uma vez haver dado uma demonstração de insegurança. Desejando as reformas para consagrar-se líder reformista e perpetuar-se na simpatia das massas, sofre, no entanto, influências adversas, que o fazem executar marchas e contramarchas que não o levam a parte alguma. A desapropriação por decreto podia ser perigosa, precipitada, impossível mesmo. Então seria o caso de antes de divulgá-la, haver o presidente a estudado em profundidade, esgotando de logo todas as fontes de consulta de que fala agora, ao invés de estribar-se tão somente na opinião dos dirigentes da SUPRA. Atos como esses poderão desmoralizar inteiramente o seu Governo, fazendo perder de todo a confiança dos que mesmo ainda acreditam.
  • A PAZ AO NOSSO ALCANCE A causa da paz universal ganhou a dimensão que lhe faltava em nossos dias: sobre o esforço realizado nas mesas de negociações internacionais, a viagem do Papa Paulo VI à Terra Santa acrescentou a esperança da paz entre os homens, origem e fonte do entendimento verdadeiro entre as nações. No momento em que a paz internacional, depois de quase duas décadas de negociações, experimenta um alívio que se traduz em garantia, pois as injustiças, as desigualdades, a miséria e o atraso ameaçam o esforço universal de entendimento, a Igreja Católica toma em suas mãos a responsabilidade de operar ativamente em favor do alívio nas relações entre os homens, como fundamento para o entendimento entre povos. Não é cedo para medir a projeção dos efeitos que a História reserva para esse passo empreendido pelo Sumo Pontífice. Todas as gerações que se defrontam com os problemas e as esperanças do mundo contemporâneo tiveram o privilégio de assistir a um acontecimento que traz em si a semente de um futuro que somente a paz eterna entre os homens e as nações poderá proteger, resguardando da destruição o tempo em que todos se identificarão num sentimento de justiça e de tolerância. Pois para isso viemos ao mundo e nos dispomos às vicissitudes, sem perder a esperança que nos acompanha. Depois de um período voltado para a fixação das linhas de justiça social e de demarcação do comportamento humano, pautado pelos ensinamentos que dão ao homem a origem divina, em documentos que revitalizaram o espírito cristão, a Igreja se adianta no caminho da participação ativa. A viagem do Papa ao Oriente Médio significa um marco vencido no caminho dos homens na busca da paz universal: pela força do exemplo, Paulo VI levou as sementes da fraternidade e da tolerância à região que é berço de três religiões e onde subsiste uma tensão entre nações que têm em comum uma vertente religiosa na Bíblia. Judeus, maometanos e cristãos têm suas raízes no Velho Testamento, cujo cenário é o Oriente Médio. Não foi uma viagem resguardada de formalidades diplomáticas: a peregrinação papal à Terra Santa não pode ser vista e entendida como um ato político, mas como uma afirmação da fé e uma prova de segurança na força do espírito e na capacidade de concórdia que é latente no ser humano. As provas de respeito e admiração que Paulo VI recolheu ao longo do caminho, refazendo o roteiro do nascimento do Cristianismo, atestam as possibilidades que estão reservadas a todos os povos no convívio da paz. No Oriente Médio, que vive sob uma tensão permanente, a presença do Papa Paulo VI reforçou as aspirações de paz, para que todos os povos e nações confinadas naquele espaço possam consagrar-se às tarefas de construírem a felicidade a que todos têm direito, guiando-se pela inspiração dos sentimentos religiosos identificados na mesma origem e no mesmo cenário. A causa da paz deixa de ser um assunto da competência dos estadistas para se tornar um instrumento de cada homem. Passa às mãos de todos, que são responsáveis pela sua sobrevivência e pela repartição de seus frutos. A paz e a fraternidade são inseparáveis.

Anúncios, notas e expediente

  • Telegrama A VIAGEM E A [...] Washington (IPS) — Uma nova estação de telemetria para rastrear os satélites norte-americanos será instalada em Majunga, República Malgache (Madagascar), segundo os termos de um acordo de cooperação espacial. A Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (NASA) declarou que uma estação móvel, operada pelos Estados Unidos, de acordo com o espírito de uma resolução das Nações Unidas que pede a aplicação dos resultados das pesquisas espaciais em benefício de todos os povos, disse a NASA. Os dados obtidos serão fornecidos à República Malgache e à comunidade científica mundial. Os Estados Unidos estão cooperando com mais de 60 nações, inclusive a União Soviética, de conformidade com acordos espaciais bilaterais. A República Malgache rastreará a fase de "injeção" dos satélites de órbitas polares, como o satélite meteorológico. O primeiro deles será lançado em princípios deste ano. "Injeção" é o momento crucial em que um satélite entra em órbita e começa a funcionar. Madagascar — uma ilha a leste da costa africana — está localizada abaixo do ponto de "injeção" dos satélites de órbitas polares. A República Malgache está cooperando com os Estados Unidos.
  • Nota social NEWTON CARLOS Respondendo à saudação do Rei Hussein, da Jordânia, e na proclamação de Belém, lançou Paulo VI apelos para que "os homens de boa vontade façam reinar a paz universal no seio de uma verdadeira fraternidade". Pensa o novo Papa, como pensava João XXIII, — numa paz de fato e não nessa em que vivemos, fundada no medo e no terror e não na amizade e na confiança. Essa paz dos nossos dias foi assim definida por ele próprio, em sua mensagem de Natal. Percorre Paulo VI, com sua peregrinação à Terra Santa, o caminho indicado pela Encíclica Pacem in Terris? Os diplomatas que se reuniram na Capela Sistina para a passagem do ano ouviram do Papa o pedido para que trabalhem em favor da eliminação dos "muros que separam os povos". Um desses muros está na Cidade de Jerusalém, dividida entre árabes e judeus, que se mantêm frente a frente de armas apontadas uns para os outros. Com o Natal, muitas barreiras de ódio caíram, temporariamente. Embora num sentido, apenas, foi aberto pela primeira vez o muro de Berlim. Em Jerusalém, árabes e judeus ensarilharam as armas para que as caravanas cristãs pudessem chegar a Belém, em peregrinação. E a viagem do Papa fez com que jordanos e israelenses abrissem uma clareira em seu estado de guerra, para que as autoridades de um e outro lado enfrentassem juntas os problemas criados pelo evento extraordinário. Apesar de provisórias, as situações criadas pelo Natal e pela viagem do Papa à Terra Santa mostraram, uma vez mais, que a amizade e a confiança podem substituir o medo e o terror, nas relações entre os homens. Mas a viagem do Papa, particularmente, mostrou um pouco mais. Constatou-se, com ela, que as relações humanas têm implicações que às vezes não chegam à superfície serena das falas pontificais. As partes jordana e israelense se comunicam diretamente através da porta de Mandelbaum. Uma das expectativas, em torno da viagem de Paulo VI, era saber se ele cruzaria essa porta, derrubando, simbolicamente, um dos muros erigidos pelo ódio. O Papa, no entanto, preferiu chegar a território israelense passando a fronteira junto à localidade de Megido, fora de Jerusalém. Que motivos teriam levado Paulo VI a evitar um dos "muros que separam os povos", por ele condenados em sua pregação da Capela Sistina? Mesmo a Igreja da Encíclica Pacem in Terris é obrigada, em alguns casos, a curvar-se a seus interesses políticos. Reivindicando o estatuto de área sob controle internacional para os lugares santos, o Vaticano provavelmente quis evitar que o Chefe da Igreja Católica desse a entender que aceitava Jerusalém como Capital do Estado de Israel. Mesmo pesando esse elemento negativo, a viagem de Paulo VI é uma contribuição efetiva ao entendimento entre os homens e a verdadeira paz mundial. A paz sem os assassinatos políticos, o ódio racial, as ditaduras de todos os tipos — o terror e o medo.
  • Nota social DE RENOVAÇÃO MARIANA (FREMAR) AGNELLO NEGREIROS A sociedade, como tudo o mais que existe sobre a face da terra, sofre, inevitavelmente, a inexorável influência da mutação dos tempos, as transições naturais de cada época. Impõe-se, destarte, a todas as entidades um reajustamento, uma readaptação, um entrosamento periódico com o meio ambiente, com as nuances da atualidade vivente. Todos os organismos que compõem e constituem a vida do homem em sociedade, estão sujeitos a essa lei que os obriga a acompanhar as exigências de tempo e espaço. Como tal, as Congregações Marianas não poderiam fugir a essa regra geral. Não em suas regras ou estrutura, que são permanentemente atualizadas, mas na maneira de atuação e arregimentação de suas hostes, elas sofrem também as influências do tempo. Força de choque, elites especializadas, falanges avançadas na luta pelo bem-estar social, as Congregações Marianas estão a exigir de seus membros aquela adaptação, aquele entrosamento que lhes impõe o mundo moderno, a época atual. Estes devem ser atualizados, como atualizadas são as Congregações. Sim, porque não resta dúvida de que nas fileiras marianas há muitos congregados que ainda não se adaptaram a essas exigências. São eles de mentalidade formada em épocas de antanho, e que, como soi acontecer, em se tratando de elementos humanos, encontram-se superados, incapazes de corresponderem às necessidades da época atual. A esses resta somente um caminho, uma atitude: não obstarem, por nenhum modo, a ação dos que, reajustados, reorganizados, aptos para atuarem no momento atual, querem avançar. Querem projetar o movimento mariano, querem dizer às Congregações Marianas que se encontrem tão atualizados quanto elas. Querem lutar com essa força incontida, com esse ardor edificante que caracteriza os fortes, os corajosos, os intrépidos. Arredem, pois, os que não querem lutar e cedam caminho aos que constituem a “Frente de Renovação do Marianismo”. Deixem que eles desfraldem a bandeira da luta, e, acompanhados por quantos se achem impregnados do verdadeiro espírito às regras, projetem o marianismo ao lugar de destaque que ele exige. Abençoados por Deus, tendo como esteio a Igreja na pessoa de seus legítimos representantes, eles não se conformam com quietude, com marasmo ou comodismo. Venham os que desejam lutar!.... Fiquem os que já cansaram!...
  • Nota social as quintas A ORGANIZAÇÃO JOÃO XXIII JOSÉ VALDIVINO Empenha-se, no momento, o Sr. Arcebispo Dom José em renovar a face da terra cearense, através da Organização João XXIII, cujo objetivo é o de colocar, nas mãos do homem urbano e rurícola, os meios modernos e necessários para ele sair das grandes dificuldades econômicas em que se debate. Essa ajuda, porém, não se caracteriza por uma simples e comum distribuição de víveres, de maneira regular, com roupas usadas, leite Fisi, etc. A Organização olha mais alto e vê mais longe. Visa, antes de tudo, o reerguimento, a valorização do HOMEM, como tal, a dignificação da PESSOA humana, através do trabalho e de uma economia dirigida. Para tal fim, o Sr. Arcebispo, conta com a colaboração valiosíssima do economista Dr. Juarez Coutinho, que, por meio de equipes adestradas, levará ao homem dos nossos arrabaldes e de zona rural todos os meios necessários para que ele se forme, por intermédio do trabalho honesto, útil a si próprio e à comunidade. O processo de cooperativas mistas será a grande arma de que disporão Dom José e o economista Juarez Coutinho. Dom José já veio do Maranhão cheio de experiências, pois fundou lá cooperativas mistas, sem os meios com que conta aqui, com ótimos resultados. Na entrevista que deram arcebispo e economista à nossa TV-Ceará falaram ambos sobre cooperação. Deram a entender que o trabalho deles não é isolado, estanque. A Organização espera o concurso de todos nós, cada um na esfera que lhe couber. Quanto a mim, aqui estou. Se esta crônica chegar às mãos do Sr. Arcebispo Dom José, tome-a como meu alistamento. Sua Excelência, certo.