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O Nordeste
Julho de 1922 · 17 trechos transcritos
Manchetes desta página
- A festa da família Contrato Civil no Asilo de Alienados Uma data gloriosa, como a que marca a nossa autonomia nacional, não deve ser comemorada somente com festejos que passam, com alegrias que rapidamente desaparecem. Deve servir de fundamento a transformações de costumes e à correção de verdadeiros erros, que nos acabrunham e nos amesquinham. Há, entre nós, um erro, um abuso de consequências desastrosíssimas que precisa, sem perda de tempo, ser corrigido. Muitos casais-pais de filhos — ainda não passaram o contrato civil, não se submeteram às exigências das leis do país, no tocante aos direitos materiais da sua família. Não acordaram ainda nas graves consequências que podem resultar da omissão do contrato civil para a família constituída ou a constituir-se proximamente. Gravíssimos desastres temos tido ocasião de lamentar por causa das facilidades dos pais e mães, que não refletem sobre assunto de tão indiscutível importância nos tempos calamitosos que correm. Não raras vezes, pessoas casadas sem efetuar o contrato civil, têm realizado o mesmo contrato com outras, resultando, assim, dolorosa desorganização social. Os pais e as mães devem pensar mais criteriosamente sobre o caso; não abram mão do contrato civil por ocasião do casamento dos seus filhos e das suas filhas. As noivas exijam dos seus noivos, no dia do casamento, a efetivação desta formalidade, para que não tenham de chorar, sem remédio, escândalos e ingratidões perversas no futuro. As mocinhas pobres não confiem nas promessas de posterior contrato, não se deixem iludir com certos desalmados que lhes procuram ilaquear a boa fé; exijam, sempre, exijam absolutamente o contrato civil, no mesmo dia do casamento. Pretextam muitas vezes falta de dinheiro: demore-se a cerimônia por mais alguns dias, contanto que, no mesmo dia do casamento, seja satisfeita a lei do país. Não é prestar uma homenagem verdadeiramente patriótica ao Centenário da nossa independência bater-se por uma causa tão humanitária e justa?! Os ilustres juízes da nossa terra fariam um benefício imenso aos nossos patrícios, se lançassem no seio das classes pobres um apelo convidando a todos que se acham casados sem o contrato civil a afluírem às pretórias para fazê-lo. Seria esta medida de elevadíssimo alcance prático, e não se podia solenizar melhor o Centenário da nossa independência nas comarcas que amparando os direitos materiais das classes menos favorecidas pela fortuna. Os escrivães dos contratos civis bem podem coadjuvar às famílias pobres na realização deste tentame proveitosíssimo. Os reverendíssimos vigários, de acordo com as autoridades civis, prestarão aos pobres relevantíssimos serviços, convidando-os à obediência da lei. Realizou-se, anteontem, às 15 horas, conforme estava anunciado, a inauguração dos melhoramentos do Asilo de Alienados, de Porangaba. Às 14h20 partiu, da Central, um trem especial, conduzindo grande número de famílias desta capital, autoridades e representantes da imprensa. Num dos carros, ia a banda de música do Regimento Militar do Estado. O Asilo de S. Vicente de Paulo apresentava aos visitantes um excelente aspecto de asseio, cuidado e ordem. A entrada, as salas de recepção e todos os compartimentos estavam festivamente engalanados. Visitamos todas as dependências, colhendo de tudo a melhor impressão do cuidado com que aquele estabelecimento é dirigido. Às 15 horas, tendo chegado já o Exmo. Sr. Arcebispo Dom Manuel e o presidente do Estado, com outras autoridades, deu-se início às solenidades da inauguração. Primeiramente, o exmo. sr. Arcebispo deu a bênção a uma bela imagem de S. Vicente de Paulo, aposta ontem ao Asilo. Essa imagem está colocada à entrada do Asilo, em um nicho artisticamente disposto. O sr. Arcebispo, o Presidente do Estado e demais pessoas presentes visitaram, depois, todas as dependências do estabelecimento, dirigindo-se ao pavilhão, recentemente construído, e cuja inauguração se ia fazer. É uma elegante construção, otimamente apropriada às funções a que se destina, quais as de abrigar os asilados indigentes. Mede 37m50 por 11m50 e dispõe de 20 alojamentos. Ao lado deste está um banheiro de forma octangular com dois andares: o de cima para os pensionistas, e o de baixo para os indigentes. O banheiro é bastante vasto e cômodo, servindo otimamente aos seus fins. Ali chegados, S. Excia. Revdma. o sr. Dom Manuel benzeu a nova construção, pronunciando belas palavras alusivas ao ato, cujo elogio fez como uma nobilíssima ação de patriotismo e de humanidade. Declarou que, fazendo justiça ao mérito e à dedicação, apontava à estima do Ceará, os nomes dos srs. Álvaro Weyne, Francisco Barcellos e Edgani Borges, a cujos exaltados sentimentos de caridade se devia a consumação daquela obra, elevada com o produto das esmolas que pediram para os pobres asilados. Depois, na sala nobre do edifício, realizou-se a sessão solene de inauguração. O padre Rodolpho Ferreira da Cunha, capelão do Asilo, em nome da comissão promotora dos melhoramentos, saudou os presentes, fez o elogio de Dom Manuel e do coronel Manuel Albano, cujos retratos se inauguravam como beneméritos do estabelecimento, e pediu ao sr. presidente do Estado declarasse inaugurados os serviços aludidos. O dr. Justiniano de Serpa assim o fez, pronunciando eloquentes palavras sobre a solenidade e enaltecendo a benemerência social da mesa da Beneficente da Santa Casa, a cuja iniciativa se devia a reforma do estabelecimento. Terminou dizendo inaugurados os melhoramentos do prédio. Falou, então, a gentil senhorita Hilda Façanha, Filha de Maria do Asilo, que pronunciou uma comovente e bela alocução sobre a caridade e a religião, saudando ao amado apóstolo da mesma, o Exmo. sr. Arcebispo. Suas palavras foram calorosamente aplaudidas. Findo o seu discurso, as mimosas crianças Maria Luisiana e Maria Licia, filhinhas do sr. Francisco Rodrigues, ofereceram dois lindos ramalhetes de flores naturais ao sr. Arcebispo e ao Presidente do Estado. Ainda usou da palavra, lendo longo discurso sobre o ato, o deputado estadual dr. Odorico de Moraes. Por último, o secretário da Mesa Administrativa da Beneficente leu a ata daquela sessão, a qual foi assinada pelos mordomos, autoridades e pessoas presentes. A direção do Asilo mandou oferecer a todos saboroso copo de cajuína e água mineral.
- O Exmo. Sr. Arcebispo Metropolitano parte hoje para Visita Pastoral Nos alojamentos do Asilo, estão internados, atualmente, 210 loucos, dos quais 134 são do sexo feminino. Impressiona o desvelo e carinho solícito com que são tratados todos, bem como a ordem e direção de todos os serviços do Asilo, a cargo do zelo ardente das Irmãs cujo espírito de caridade cristã é inexcedível. O exmo. sr. Dom Manuel, amado Arcebispo Metropolitano, segue, hoje, no horário da tarde, para a vizinha vila de Soure, onde vai iniciar a Visita Pastoral deste ano. Dali S. Exa. seguirá para Araras, Trairi, Paracuru, Arraial, Itapipoca, S. Francisco de Uruburetama e Pentecoste, de onde regressará a esta capital, em fim do mês vindouro. Acompanharão o exmo. sr. Arcebispo os reverendíssimos sacerdotes padre Joaquim Rosa, que secretariará S. Exa., e os missionários Frei Casimira, franciscano, e Frei Dosotlieu, capuchinho. Desejamos ao nosso querido Pastor uma excursão apostólica frutuosíssima e grandes bênçãos para o povo católico que encontrará ensejo de receber do Céu graças espirituais copiosíssimas durante este tempo de pregações.
- Assembleia Vicentina Reuniu-se, domingo, no seu prédio social, às 13 horas, a Assembleia Geral dos confrades da S. Vicente de Paulo, sob a presidência de honra do exmo. reverendíssimo sr. Dom Manuel, Arcebispo Metropolitano. O vasto salão achava-se repleto da numerosa assistência. Fez elegante discurso o exmo. sr. dr. Barão de Studart presidente geral da Sociedade Vicentina, que se referiu aos principais feitos das conferências do Interior e terminou pela leitura de belíssima carta de Sua Santidade o Papa Pio XI ao chefe da milícia vicentina em Paris. Falou ainda o jovem Ferrando Alves Sobrinho, que fez o elogio do glorioso patrono das Conferências, S. Vicente de Paulo, em cuja honra se reunira a Assembleia. Encerrou a sessão a palavra autorizada de S. Exa. o sr. Dom Manuel, que se mostrou, sobremodo, satisfeito com o muito que os pioneiros da caridade vicentina vêm realizando no Ceará e concitou os confrades a seguirem com ânimo tão benemérita cruzada do bem. Pela manhã, houve missa e comunhão geral dos confrades na Catedral Metropolitana, sendo concorridíssima essa festa de sólida piedade. São os nossos melhores votos de que a Sociedade Vicentina continue a alcançar brilhantes progressos, para glória de Deus e benefício dos pobres da nossa terra.
- Recital Adacto Filho Quinta-feira próxima, o dr. Adacto Filho realizará, no Teatro José de Alencar, o seu anunciado recital. Amanhã, daremos o programa desta festa de arte. A respeito publicamos a seguinte opinião do crítico paraense, Carlos Nascimento, sobre o aplaudido barítono, estampada na «Folha do Norte»: «Adacto Filho é bem um desses predestinados. Nele tudo denuncia, ao primeiro lance de olhos, o artista perfeito, desde a altitude serena e insinuante, desde os movimentos cadenciados, como a obedecer à eurritmia interior das suas sensações, veladas num sorriso característico que não chega a ser de ironia, porque nele fala a sinceridade do seu coração, até essa expressão muito sua ao olhar, em que um mundo misterioso de pensamentos se adensa a «fitar para dentro», cismando umas idealidades estranhas e perfeitas. Ele é o artista vibrátil, mas equilibrado. Ouvi-lo é admirá-lo. Admirá-lo é render homenagem ao espírito da Arte — a soberana dominadora dos homens como dos povos. É digno de registro o timbre de sua voz, sonoro, enérgico, robusto — qualidades que marcam o valor do barítono, cujos recursos vocálicos se prestam, mais do que nenhuns outros, à expressão dos mais desencontrados sentimentos, como de voz que é a mais natural do homem. Ademais, na expressão apreciável de sua voz, o Sr. Adacto sabe com arte tornar imperceptível a respiração, o quilate do «ataque» e da emissão do som. Estávamos, realmente, diante de um grande artista, senhor de uma individualidade inconfundível».
- Do ilustre sr. Rodolpho Theóphilo recebemos a seguinte carta: «Fortaleza, 24 de Julho de 1922. Meu prezado Andrade Furtado. Afetuosas saudações. Na notícia que vocês publicaram no «O Nordeste» sobre o Asilo de Alienados em Porangaba, disseram que o terreno do referido Asilo havia sido doado pelo coronel José Francisco da Silva Albano, depois Barão de Aratanha, o que não é verdade. O terreno foi doado por um irmão do Barão de Aratanha, o coronel Manoel Francisco da Silva Albano. Abrace o confrade amigo e admirador Rodolpho Theóphilo».
- A ação social católica de D. Joaquim, na diocese de Pelotas (Do nosso serviço telegráfico) Pelotas, 24 — A União Pelotense, sociedade católica desta diocese, fundou cursos noturnos para o ensino dos sócios e de seus filhos. — Realizou-se, ontem, sob os auspícios da mesma, a quarta conferência da série — «Comemoração» do centenário, sendo orador o dr. Henrique d'Ávila Gonçalves. — O exmo. sr. D. Joaquim está promovendo a criação de escolas gratuitas, em Monte Bonito e Barbuda e nos arrabaldes Parque da Luz e Arraial. — Domingo próximo, far-se-á o lançamento da pedra fundamental do Asilo dos Menores Desvalidos e da «Escola Popular», com que as senhoras católicas comemoram o Centenário.
- O novo arcebispo de Recife e Olinda O banquete no Círculo Católico O ato da posse RECIFE, 24 — Esteve brilhante o banquete, oferecido ao exmo. sr. Arcebispo, no salão do Círculo Católico. Compareceram todas as autoridades do Estado, o corpo consular, representantes do clero, da Associação Comercial, da Magistratura, da imprensa, etc. O brinde foi erguido pelo dr. Luís Cedro. S. Excia. Revdma. agradeceu erguendo o brinde de honra a Sua Santidade, o Papa Pio XI. — A posse do novo arcebispo realizou-se, ontem, com toda a solenidade. D. Valverde saiu paramentado da igreja de S. Sebastião, acompanhado de numeroso cortejo, até a Catedral, onde foi entoado o Te Deum. O ato da posse realizou-se na sala do Cabido, perante o corpo capitular. Saudou S. Excia. Revdma. o deão Pereira Alves. O Sr. arcebispo agradeceu. Depois da posse, S. Excia. falou ao povo. Em nome da população de Olinda saudou ao novo prelado o acadêmico José Firmo. Continuam as festas em homenagem no novo pastor.
- Estradas de Rodagem Em nossa próxima edição, publicaremos sugestivo artigo do ilustre engenheiro, dr. E. Veloso, subordinado ao título «Estradas de Rodagem». Pedimos a atenção dos leitores para este trabalho de real interesse.
Anúncios, notas e expediente
- Expediente Nordeste Administração: A. Ildefonso de Araújo & Cia. Redação: Drs. Andrade Furtado e José Martins Rodrigues Ano I Fortaleza, Terça-feira, 25 de Julho de 1922 Nº 23
- Nota social CARTA ABERTA Eu, Hite de Colônia Ao ilustríssimo Sr. Deolindo Barreto, redator d'«A Luta», de Sobral. o sabor do ritmo, a exuberância de ideias e a eufônica da forma. É um gênio esse doutor Lauro Meneses. É filho daí mesmo, dize-me? Ou caiu por obra do Acaso, do reino de Apolo? Está a parecer que é um novo Júpiter que baixou do Olimpo para ensinar aos mortais a linguagem maravilhosa dos deuses. Estou deveras assombrado com esse super-homem, semideus, Imperador da Forma e Rei... da Beócia. Uma coisa, meu caro Deolindo: o excelentíssimo semideus, grande poeta, profundo filólogo, doutor Lauro Meneses, certamente, foi um arroubo de inspiração, um dilúvio de ideias que lhe inundou o cérebro, escreveu: «Se não fora esses deleites». Em minha pátria terrena isto é um solecismo daqueles a que o genial Camilo chamava — bestialidades. Acredito, meu caro Deolindo, que o doutor Lauro Meneses tenha errado... distraidamente. Uma coisa, Deolindo: os plágios que me atribui o doutor Lauro Meneses, eu creio, eu concebo na minha cabeça terrena que são lugares comuns e que tais expressões podem ser usadas por todos; não são privilégios de ninguém. E, se aquilo é plágio, se são todas as coisas que se repetem, por mais simples, por mais fúteis, por mais bobas, não é menos plagiário o sr. Lauro Meneses, pois S. Exa. não será tão tolo que pense que é o primeiro Lauro, o primeiro Meneses, que nasceu neste mundo, de que é molécula, perdoe, ele é átomo... obscuro embora, porque é de cima, desceu por descuido para ensinar aos homens a nova regra da gramática e da poética. Eu tenho no meu arquivo a opinião sobre o «Torturado», de Alba Valdez; Lucilo Varejão, Luiz da Câmara Cascudo. Raimundo Magalhães, «O Mundo Literário», do Rio, além do juízo da Imprensa daqui e de outros Estados; mas que vale isso, meu caro Deolindo, diante da opinião fulminante, über alles, do criticíssimo Doutor Meneses? Teu patrício e apreciador que é B. Pontes Em 21/7/1922.
- Nota social Selos & Cupons Por motivo de seu aniversário, ocorrido sábado, enviou-nos 8.500 cupons de bonde para os pobres, de S. Vicente de Paulo, a interessante Maria Madalena, filhinha do nosso amigo dr. Pimentel Júnior.
- Telegrama TELEGRAMAS DO PAÍS Sacadura e Gago farão novo «raid»? RIO, 23 — O «Times», de Londres, informa que Sacadura e Gago pretendem realizar novo raid ao Brasil, empregando um aparelho «Savoia», com 3 motores, o qual poderá fazer três mil milhas sem parar. Espera-se que o aparelho fique pronto em janeiro do próximo ano.
- Telegrama Os pavilhões de Portugal RIO, 23 — Comunicam de Lisboa que zarpou dali, com destino ao Brasil, o transporte «Pedro Nunes», que conduz o material dos pavilhões portugueses do Centenário.
- Telegrama Vai demitir-se do Lloyd O diretor-secretário do [...] declarou que vai apresentar a sua demissão na próxima segunda-feira, na assembleia de acionistas.
- Telegrama Guerra Junqueiro e o Centenário RIO, 23 — Sabe-se que o português Guerra Junqueiro recebeu um convite da Academia Brasileira de Letras, para as festas do Centenário.
- Telegrama Tarifas especiais nas estradas da União RIO, 24 — O governo estuda a [...] Barbosa.
- Telegrama Em estado grave.