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O Nordeste
Setembro de 1922 · 15 trechos transcritos
Manchetes desta página
- O cangaceirismo e o governo do Estado A população da cidade de Milagres viu-se alarmada, no começo da semana corrente, ante a notícia de que grupos de cangaceiros, chefiados por um filho de José Inácio de Sousa, antigo chefe político do sul do Estado, tencionavam atacar aquela localidade. As populações da fronteira, dada a ausência de força policial para enfrentar uma investida dos bandoleiros, ficaram possuídas de maior sobressalto. Comunicado o fato ao governo, o exmo. sr. dr. Justiniano de Serpa tomou imediatas e acertadas providências, pondo em execução as medidas garantidoras que poderiam ser postas em prática, no momento. Fez concentrar ali alguns contingentes destacados em pontos mais próximos e, sobretudo, cercou do prestígio necessário as autoridades milagrenses. Muito nos compraz reconhecer que o exmo. sr. Presidente do Estado tem dado provas evidentes de que não tolera a política de cangaço dominante em Milagres, até bem pouco tempo. Embaraçado, embora por circunstâncias de ordem meramente partidária, s. exa. teve a energia louvável de quebrar certas resistências políticas à sua ação exemplar e restabelecer o império da lei e da ordem naquele longínquo município do nosso Estado. Restabeleceu a comarca colocando à frente da justiça local um magistrado alheio inteiramente aos interesses de facção. É assim que foram instaurados processos contra numerosos facínoras que andam, hoje, foragidos a vaguear, perseguidos pela justiça, nos sertões dos Estados limítrofes. Essa atitude do governo em relação à questão do banditismo aliviou a zona sul do Ceará do pesadelo horrível de que gente do facão e do rifle pudesse contar apoio dos poderes públicos. Bastou que o governo demonstrasse peremptoriamente a sua decidida oposição aos expedientes sanguinários dos antigos senhores políticos daquela infeliz terra para que um ambiente de ordem e de paz se fizesse sentir no seio da sociedade milagrense. Não se poderia esperar outra atitude do dr. Justiniano de Serpa, homem do direito e da lei, em face do problema negro do banditismo. O certo é que os cangaceiros abandonaram o território do Estado, indo acoutar-se em 'terras estranhas' ante a ação empenhada da força pública do Ceará, em ação conjunta com a polícia da Paraíba e Rio Grande do Norte. O governo deve perfeitamente compreender que o bandido não se [sustenta] sem estar à sombra de seu chefe e que este, sem o amparo da situação, é, regra geral, incapaz de arrostar as iras tão justas do poder público. Agora surgiram boatos de pretendido assalto de cangaceiros à cidade de Milagres. Não se atreverão a tanto as hostes de José Inácio, notável não somente pela sua perversidade, mas sobretudo pela sua reconhecida e comprovada covardia. «O Nordeste» presta inteira solidariedade à ação do governo.
- Mensagem à Assembleia do exmo. sr. presidente do Estado À Assembleia Legislativa dirigiu o exmo. sr. Presidente do Estado, ontem, a seguinte mensagem: «O honrado presidente do Paraná, sr. Munhoz Rocha, tomou ante a Assembleia Legislativa de seu estado a iniciativa patriótica de pedir a revogação das leis que adotaram a bandeira e o hino do Estado. Desta resolução teve a gentileza de me dar ciência, em telegrama de 7 do corrente. Agora, em despacho, me informa que «a ideia tem recebido apoio dos municípios, do Poder Judiciário, da representação federal, da imprensa, dos congregações, das Faculdades Superiores, da classe acadêmica, enfim, de todo o Estado». E conclui, reiterando o apelo que me fez, na sua primeira comunicação, para que me interesse junto a essa douta Assembleia por uma manifestação de apoio e solidariedade à ideia, que constitui evidentemente uma aspiração nacional. Submeto ao exame e criteriosa apreciação dos imediatos representantes do Estado a sugestão do ilustre presidente do Paraná. O Ceará, apesar de se haver associado aos movimentos insurrecionais que, no norte do Brasil, visaram a Independência e a implantação da República, apesar de se haver antecipado a todas as províncias do Império na abolição da escravatura, apesar dos sentimentos de autonomia, que sempre distinguiram o seu povo no extinto e atual regime, o Ceará não adotou nem bandeira nem hino do Estado, senão agora para as festas do Centenário. Determinou esse ato do Poder Legislativo, ao que parece, a ideia de acompanhar o nosso Estado às demais unidades da Federação. Tive, ao sancionar a lei que dispôs sobre a bandeira, grande hesitação, por me parecer também que o Brasil só pode e só deve ter uma bandeira, essa que há um século cobre toda a extensão territorial da nossa Pátria, e que acende em nossos corações, do norte ao sul, o santo entusiasmo que inflamou a alma dos nossos maiores nos dias gloriosos e imperecíveis da Independência. Não quis, porém, às vésperas do Centenário, dissentir da douta Assembleia do Estado em assunto delicado como esse. Felizmente, a iniciativa do ilustre presidente do Paraná dá azo a um novo exame da matéria, e permite, sem os inconvenientes de um dissídio entre a Assembleia Legislativa e o chefe do Executivo do Estado, uma solução imediata, acorde com a nossa cultura e o nosso patriotismo. Deve ser o nosso empenho, o nosso orgulho, a nossa glória. Não pode haver preocupação mais nobre, pensamento mais alto, ambição mais pura. Aderindo, pois, francamente, ao movimento patriótico, de que teve a feliz iniciativa o ilustre presidente do Paraná, acredito que a Assembleia Legislativa cearense se pronunciará a respeito de modo a conservar e robustecer o amor que sempre tivemos à nossa pátria adorada, que é o Brasil».
- O governo federal manda apanhar filmes cinematográficos do Norte do Brasil Visitaram-nos, hoje, os estimáveis cavalheiros sr. L. de Lima Peixoto e Victor Ciacchi, que vieram solicitar nosso apoio à notável empresa de que foram encarregados, em boa hora, pelo governo da União. Os competentes profissionais, diretores da LABOR FILM, empresa Brasileira de Propaganda pela Cinematografia, com sede no Rio de Janeiro, são os únicos encarregados pela Comissão Organizadora da Exposição Internacional do Centenário, de apanhar filmes naturais de todos os Estados do Norte do Brasil, não só dos aspectos que mostrem o adiantamento das suas capitais, com a sua vida laboriosa e intensa, como também das suas indústrias, lavoura, pecuária, costumes, riquezas naturais predominantes de cada Estado. Aqui no Ceará a LABOR FILM encetou os seus trabalhos, tendo já apanhado flagrantes de diversas indústrias, dentre elas a «Usina Gurgel», estabelecimento que muito honra o nosso Estado. É pensamento do Governo, estendido mesmo já e [assentido], que o Brasil, depois da Exposição, terá de adquirir novas cópias de todas as fitas exibidas no recinto da Exposição, a fim de mandar exibi-las na Europa, América do Norte, América Central e do Sul, assim como no Japão etc., como intensificação da propaganda dos nossos produtos industriais, feita durante a Exposição. A LABOR FILM, já tendo feito o trabalho dos Estados de Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco, apresentou ontem na tela do Cinema Moderno um dos seus trabalhos: A cidade do Rio de Janeiro, para que o público avalie da nitidez e perfeição do seu serviço. Foi essa prova prática da sua competência técnica que todos se certificarão do alcance do grande e bem inspirado cometimento. A LABOR FILM é apresentada aos srs. industriais, agricultores etc., etc., pelo exmo. sr. presidente do Estado e pela Associação Comercial de Fortaleza. «O Nordeste», agradecendo a visita dos operosos itinerantes, faz votos por que sejam otimamente sucedidos nos seus trabalhos, em nosso caro Estado.
- O Tríduo Eucarístico do Centenário Começa, hoje, o Tríduo em todas as matrizes e capelas do Arcebispado, em honra da Divina Eucaristia e em agradecimento pelos benefícios concedidos por Deus ao Brasil no seu primeiro século de vida autônoma. Esses exercícios de piedade têm por fim acompanhar os trabalhos do Congresso Eucarístico que se celebra, atualmente, na capital do país. Na Fortaleza, como no Rio de Janeiro, o encerramento destas festas será a grande Procissão no dia 1º de Outubro próximo. Na matriz do Carmo, o Tríduo começa às 18 horas, havendo pregação diária.
- A instalação do Congresso Eucarístico RIO, 27 — Foi inaugurado o primeiro Congresso Eucarístico Nacional. O templo de São Francisco de Paula apresentava aspecto extraordinário, com o altar-mor envolvido num velário carmesim. Em baixo, via-se o estandarte do Congresso, entre bandeiras nacionais. O cardeal Arcoverde, presidente de honra do Congresso, sentou-se entre diversos arcebispos e bispos do Brasil e representantes das dioceses. Na capela-mor sentaram-se os congressistas. O corpo da igreja estava completamente repleto de membros da mais alta sociedade carioca. A mesa era constituída pelo presidente e arcebispo Dom Leme, com os monsenhores Gonzaga e Izauro Medeiros, Conde de Affonso Celso, Felício dos Santos, Moreira Fonseca, cônego Mac Dowell e Carlos de Laet. A convite de Dom Leme, levantaram-se todos e recitaram, em voz alta, o Credo. Depois foi cantado o Hino Nacional. A «Escola Cantorum», sob a regência do cônego Alpheu, entoou cânticos religiosos. O arcebispo coadjutor proferiu a jaculatória inicial — Louvado seja o Coração Eucarístico de Jesus — respondendo todos — Agora e sempre seja louvado. Estiveram presentes ao Congresso o cardeal Arcoverde, Dom Sebastião Leme, Dom Jerônimo Thomé, Dom João Becker, Dom Aquino Correia, Dom Helvécio Gomes, Dom Augusto Assis, Dom Benedito Sousa, Dom Alberto Gonçalves, Dom Antônio Malan, Bispo do registro de Araguaia, Antônio dos Santos Cabral, Dom Maurício Rocha, bispo de Corumbá, Dom João Tavares de Moura, bispo de Garanhuns, Dom Joaquim Mamede, quatro abades beneditinos, o deão Pereira Al[ves], Monsenhor Alves, decano do cabido metropolitano, Monsenhor Moura Guimarães, secretário do Cardeal, Mons. Pedro Massa, prefeito apostólico do Rio Negro, Mons. André Arcoverde, tesoureiro do Congresso, Mons. Rosalvo e Costa Rego, representantes de vários bispados do Brasil, Conde de Affonso Celso, Conde Carlos de Laet, dr. Henrique Tavares Abreu, Mons. Izauro Araújo de Medeiros, dr. Lúcio dos Santos, numerosos sacerdotes e mais de 1.500 pessoas. A mesa ficou constituída do Cardeal Arcoverde, presidente de honra, Monsenhor Gaspani, núncio apostólico, vice-presidente de honra, do arcebispo primaz, de bispos e arcebispos, do presidente do cabido metropolitano, de uma [representação do] povo brasileiro e de um Estado de [...].
- A oração de Dom Leme Dom Leme discursou. Começou dizendo que era seu pensamento a organização de um congresso internacional, mas para isso precisava de autorização especial. Estamos, porém, reunidos no primeiro Congresso Eucarístico, que se realizou na América do Sul, conforme disse S. Santidade. Para demonstrar que é um Congresso Nacional, temos presentes tantos bispos brasileiros, representantes de todas as circunscrições eclesiásticas, representando todas as paróquias, cidades, vilas e aldeias do País. Pelas adesões e número das representações, somos o Congresso Nacional do Centenário. Até aqui, nestas comemorações do Centenário, predominaram os embaixadores estrangeiros. Hoje, no Congresso Eucarístico, chamam-se as embaixadas da vasta família do Brasil. Reverente, inclino-me perante [Vossas Excelências], para, nelas, saudar as embaixadas do Coração do Brasil.
Anúncios, notas e expediente
- Telegrama O NORDESTE Imploremos a assistência divina que preserve do erro e do ódio a gloriosa terra de Santa Cruz, nos conserve a paz e esclareça os governantes a reconhecerem que a única inspiração para que façam a felicidade da Pátria é a "instauração de tudo em Jesus Cristo”. Felício dos Santos
- Expediente Redação: drs. Andrade Furtado e José Martins Rodrigues Administração: A. Ildefonso de Araújo Fortaleza-Quinta-feira, 28 de Setembro de 1922 NUM. 76
- Anúncio DE MELLO VEGETAL (Composto) [...] [...], como sejam: bronquite, asma, coqueluxe, escarros.
- Telegrama AVISO ECLESIÁSTICO De ordem do exmo. e revmo. mons. Vigário Geral, comunico aos vigários e reitores de capelas desta capital que, domingo, às 15h30, momento em que a Procissão Eucarística começa a se mover, todos os sinos deverão repicar, e depois, de espaço a espaço, até que o sagrado cortejo se haja recolhido à Catedral. Padre Raimundo Hermes Secretário do Arcebispado
- Telegrama OS POETAS CEARENSES NO CENTENÁRIO O beijo de dor (Inspirado no quadro de O. Forrlor) Ensanguentado e nu, Cristo em terra deitado, Guarda, mesmo, a expressão de um Deus humano e forte, Fronte pendida, boca aberta, olhar velado, Concentra todo o horror e o mistério da morte. Maria, a Excelsa Mãe, loura de dor, ao lado, — Desvairada nau, sem governo, sem norte — A cabeça lhe toma, e um grande e demorado Beijo, em pranto, lhe dá na face, com transporte. Mas, do ouvido do Cristo, inanimado e quedo, Tão próximo ela deu esse beijo tão doce Que parecia mais murmurar-lhe um segredo, Um segredo de adeus, ensopado de pranto: — Não houve filho algum que tanto amado fosse! — Mãe não houve, como eu, que padecesse tanto! Alt. CASTRO
- Nota social Uma festa na Escola Pio X Realizou-se, ontem, na Escola Pio X, bem organizada festividade em homenagem a frei Marcelino, diretor da mesma, e a frei Roberto, administrador da Prelazia de Grajaú, os quais acabam de chegar do Maranhão. Iniciou-se a festa às 19 horas, com a presença do dr. Manuel Teófilo, secretário da Fazenda, dos homenageados e outros vultos do clero cearense, representantes da imprensa e numerosas famílias. Foi feita, primeiramente, por uma aluna da Escola, uma bela saudação a frei Roberto; seguiu-se outra a frei Marcelino, por um professor do estabelecimento, sendo inaugurado, nessa ocasião, sob salvas de palmas, o retrato do homenageado, o qual se achava envolvido pelas bandeiras do Brasil e da Itália. Antes do referido discurso, porém, um mimoso grupo de alunas da Pio X entoou, ao som de maviosa música, versos de saudação ao seu esforçado diretor, belos versos esses que se devem à inteligência inspirada da distinta professora D. Maria de Lourdes Albano, que também os musicou. Houve ainda: A gulosa, interessante, cançoneta, por uma criança da Escola. Ipiranga, poesia; Em caminho da exposição, comédia em verso de curioso arranjo, por alunas da Escola. Morrer para ter dinheiro e O advogado em apuros, chistosas comédias desempenhadas muito a contento, com gargalhadas constantes do auditório, pelo já apreciado elenco do «Grêmio Dramático Pio X», do qual justo é destacar o talento artístico de Antônio Ribeiro dos Santos. Nos intervalos das representações, ouviam-se belos trechos de música, tocados por bem organizado conjunto de amadores e profissionais. Dando conta da bela festa da Escola Pio X, temos o prazer de felicitar aos seus esforçados organizadores, bem como aos distintos homenageados.
- Telegrama A notícia que ontem publicamos sobre o banquete oferecido ao chefe da firma Norton Griffiths & Co. Ltd., houve o salto de um período em que nos referíamos ao brinde feito pelo nosso ilustre confrade dr. Fernandes Távora a sir John Norton Griffiths.
- Telegrama Coluna ao Cristo Redentor Continuamos a receber donativos para a Coluna ao Cristo Redentor. Hojé temos a registrar o seguinte donativo: Quantia anterior: 797$000 Um anônimo: 5$000 Total: 802$000
- Telegrama Um «cupom» de bonde vale um real. Guardem para os pobres da Sociedade Vicentina.