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O Nordeste

Outubro de 1922 · 14 trechos transcritos

Manchetes desta página

  • FÉ E PATRIOTISMO Brilhante festa ontem, na Escola de Aprendizes Marinheiros. O público de nossa capital está acostumado a deslumbrar-se com os fulgores das festas patrióticas da Escola de Aprendizes Marinheiros de Fortaleza. Aquele centro de instrução militar foi sempre um viveiro de civismo e um educandário de virtudes democráticas. Em suas sessões magnas ouviam-se lições de amor ao Brasil, incitamentos ao cumprimento do dever, dirigidos aos futuros defensores da integridade das nossas costas e da liberdade dos nossos mares! Daí a correção cívica e o garbo marcial do corpo de marujos cearenses, tantas vezes aplaudido nas marchas ou nas formaturas de forças militares de nossa terra. Em 7 de Setembro, nas festas do Centenário, o nosso peito vibrou de entusiasmo ao ver passar, no grande desfile, após a parada, aquele pugilo de marujos que representa o contingente atual do Ceará à Marinha de Guerra Brasileira. A efetiva dos marinheiros cearenses. Acercaram-se todos da Mesa Eucarística, uniformizados, respeitosos, satisfeitos, e receberam no coração o Senhor dos Exércitos, o Deus forte que jamais desamparou nos grandes passos da nossa vida de nação os destinos da nossa Pátria. Noventa marinheiros, vinte e nove dos quais fizeram a primeira comunhão, tomaram parte no sagrado banquete. À frente, dando o belo exemplo de sua Fé, também lá se achou, ajoelhado diante de Deus, entre os seus marujos, à mesa da comunhão, o digno comandante daquele estabelecimento, capitão-tenente Mário Emílio de Carvalho, oficial competente e ilustre, que, em nossa terra, vive cercado de largo e unânime apreço. Instituições militares que contam em seu seio elementos desta ordem são, sem dúvida, a garantia de uma nacionalidade. Foch, Pétain, Castelnau e tantos outros militares católicos da França, homens sem respeito humano e sem preconceitos ridículos, bem revelaram ao mundo de que valentia moral é capaz um militar de Fé. Ali estava em todo o seu brilho a juventude patrícia que se destina à carreira tão nobre de que são expoentes de bravura e intrepidez Barroso e Tamandaré, Jaceguay e Saldanha. Hoje, temos um motivo a mais de apontar às simpatias do povo de nossa terra os aprendizes marinheiros da Escola de Fortaleza. É que naquele seminário de civismo e de disciplina também se pode denominar uma casa de respeito a Deus, porque ali se praticam os deveres da Religião. Ontem, depois de um retiro que durou três dias, pregado pelo eminente orador sacro Frei França. A missa solene foi celebrada por Frei Marcelino, assistido pelo padre Edgard Saraiva Leão, Professor do Seminário, e capelão da igrejinha de N. Senhora dos Navegantes, padroeira dos marinheiros. Foi uma festa consoladora e de magníficos auspícios para a nossa Pátria, a quem se dirigem, neste momento, os nossos calorosos parabéns.
  • Em defesa dos inquilinos Pondo-se decididamente ao lado dos inquilinos contra as explorações gananciosas de alguns proprietários, que, burlando a lei, queriam impor-lhes os preços excessivos, sob a ameaça de despejo e contratos, em que todos os direitos dos moradores eram alienados aos senhorios, «O Nordeste» fê-lo com a convicção de que defendia o melhor direito, não só o direito natural dos oprimidos, mas o direito que lhes era assegurado, perfeitamente, por lei. Não fazemos campanha contra os senhorios, que têm também os seus direitos, na medida do razoável. Apenas opomo-nos que se abuse da timidez, da ignorância ou da boa fé dos inquilinos, para lhes impor condições desumanas, que eles não podem aceitar. Com os proprietários bons, que não se aproveitem das ocasiões para explorações impiedosas, com os que não excedam a bitola dos seus legítimos direitos, estaremos sempre. Felizmente, em Fortaleza há muitos senhorios neste caso, que não podem deixar de nos merecer francas simpatias. Aliás, essa questão do Inquilinato, tirado o lado de exploração e abuso de muitos locadores, prende-se, também, a circunstâncias econômicas, pela deficiência de habitações, dado o crescimento da população local e adventícia. Daí a necessidade de se desenvolverem as construções em Fortaleza, porque estas são muito raras. Nós temos, em geral, muita reforma de casa, mas quase nenhuma construção nova. O governo, pelo órgão do poder legislativo, deveria dar mais facilidades e vantagens aos construtores, para estimulá-los. Não só a dispensa de impostos e a concessão de vantagens especiais, como o estabelecimento de prêmios aos que maior número de construções fizessem, deviam ser facultadas. A capital precisa, principalmente, de casas simples, pequenas, higiênicas, de aluguel módico, para funcionários e operários. Os proprietários, numa empresa bem organizada, poderiam animar-se e fazê-las, se tivessem vantagens razoáveis dos poderes públicos. Até há um meio de facilitar as habitações: é a criação de uma empresa hipotecária, que emprestasse dinheiro para a construção de casas, sob a garantia da hipoteca das mesmas. Assim, Fortaleza teria os seus prédios na proporção direta do aumento de sua população, e não haveria margem a explorações de senhorios pouco humanitários. A redação do «O Nordeste» tem recebido numerosas cartas de aplausos e solidariedade à sua campanha. Outrossim, temos sido visitados por numerosos inquilinos pobres, vexados por intimações dos senhorios, os quais não só nos pedem esclarecimentos sobre a sua ação (e sempre lhes aconselhamos o que é do seu estrito direito), como nos demonstram seus agradecimentos pela campanha justa em que estamos empenhados. Todas essas demonstrações de simpatia, eloquentes provas de que estamos defendendo os legítimos interesses do povo, animam-nos a prosseguirmos na linha traçada e até agora inflexivelmente seguida.
  • A constituição do governo Bernardes (Do nosso serviço telegráfico) RIO, 25 — O «Rio Jornal» afirma que o ministério Bernardes é o seguinte, o mesmo que ontem enviei: Exterior, Mello Franco; Interior, João Luís Alves; Fazenda, Sampaio Vidal; Agricultura, Miguel Calmon; Guerra, Setembrino de Carvalho; Marinha, Alexandrino; Viação, Francisco Sá; Prefeitura, Sampaio Correia. Corre que o deputado Mello Franco não irá mais para a pasta do Exterior. Assentou-se que o general Silva Pessoa continuará no comando da polícia militar. Fala-se que o general Ribeiro Costa será o chefe do Estado-Maior, e o general Abílio Noronha o comandante da 1ª região militar, que é atualmente exercido pelo general Carneiro Fontoura, sendo confiada a este a chefia de polícia. Diz ainda o «Rio Jornal» que o deputado Otávio Mangabeira romperá em oposição ao presidente Bernardes, caso seja positivada a escolha do dr. Miguel Calmon para a pasta da Agricultura, uma vez que se batera contra a mesma candidatura.
  • O Direito (Do livro «Filosofia Jurídica», em preparo.) VI Linhas Finais. É o direito quem norma o ritmo social, cadencia-lhe e coordena-lhe os movimentos, orienta-os no sentido da felicidade comum. O fenômeno jurídico é uma transfiguração sociológica desse outro fenômeno fundamental — o equilíbrio cósmico. No mundo astronômico, essa equipolência de forças em jogo, essa estabilização de movimentos sinérgicos, tendentes a uma teleologia prefixa, gravitantes em roda de um íon incógnito — nomeia-se gravitação universal. O Direito é essa mesma lei metamorfoseada, sinopse do equilíbrio cosmológico, transcrito na urdidura das sociedades, realizando, nelas, a coexistência dos indivíduos, como realizara a dos astros, gizando as órbitas em que devem circunscrever as suas atividades, sem ultrapassarem jamais as lindes traçadas pelo Jus indefectível e sagrado. O Direito não é, portanto, um mero fenômeno consciencial, efulgindo apenas no firmamento do nosso subjetivismo. É mais do que isso: é um dos aspectos dessa luta universal, — mecânica de desarmonias, — de onde resulta, em suma, a harmonia integral e maravilhosa do Cosmos. Assim, sendo um fenômeno particular no fenômeno geral do Universo, o Direito se inscreve, tal uma fatalidade biopsíquica, nos reflexos que nos constituem o subsolo da alma; dali evolui, em gradações infinitesimais — sensação, percepção, ideia, emoção, instinto, sentimento, raciocínio, vontade, cromatizando dentro de nós, todas as manifestações da atividade individual. Transcende o âmbito limitado da personalidade: transvoa para os núcleos sociais; é o oxigênio indispensável à vitalização de todas as sociedades, o molde em que se plasmam as civilizações e o progresso mesmo, indefinido, da Espécie. Como todos os fatos sociais, o fato jurídico heterogeneizou-se dessa homogeneia fecunda que era a Religião primitiva, perdurável na longa seriação dos evos remotos. Dela guarda ainda e conservará sempre, na sua trama relacional, o vivo simbolismo eloquente que é a mesma alma da arte e que, para o Direito, é um elemento formal imprescindível. Encerra dentro de si todo o ciclo poético da humanidade, todas as encarnações sonhadoras da Lenda, num epítome perfeito. É o Direito, na filosofia do NO — é a poesia do caráter. Antônio Furtado
  • A perspectiva do futuro Que há de ser o Brasil em 2022? São fatos como este que hão de fazer o Brasil cada vez mais firme nos princípios da religião nacional. Nestes tempos de comemoração de um centenário de lutas e de esforços pelo progresso, vale a pena cogitar, embora espiritualmente, de que será o Brasil em 2022. Atualmente temos uma grande potência de possibilidades. Seremos de agora a cem anos, uma potência de realidades? Talvez. No entanto a boa lógica e a análise sincera dos fatos e dos homens indicam que nossa organização política é bastante viciada. Raro é encontrar-se um homem público, destes que se chamam «homens de responsabilidade», que não seja um político profissional, e isto porque dia a dia aumenta-se a tabela das remunerações em dinheiro para pagamento dos representantes do povo. Se nossos pro-homens servissem nas legislaturas por obrigação, por força de um compromisso público, patrioticamente, para tornarem este país independente, creio que haveria muita dificuldade em encontrar candidatos para as eleições, a não ser que fosse aplicada a lei do sorteio, como no caso dos conselheiros do júri. Poucos seriam os políticos que julgassem aceitar as cadeiras de deputado por 3 anos e de senadores por nove. Aí, os altos postos da Nação seriam de verdade, e não por ironia como hoje se chamam, «postos de verdadeiro sacrifício» por nada renderem em dinheiro, uma vez que está provado que com honrarias somente não se paga, em pouco tempo, palacetes e automóveis, a se viajar à Europa e obter com facilidade vestidos e joias. O efetivo que consistirá na educação moral e religiosa de seus representados, na expansão econômica do País, na instrução da mocidade. Nossos pais da Pátria devem tratar de espalhar escolas e hospitais e devem tornar obrigatório em todo país o ensino prático da agricultura, do comércio, das indústrias a par do ensino das primeiras letras. Devem combater o impaludismo, a sífilis, a tuberculose, a ancilostomíase, o alcoolismo e sobretudo em primeiro lugar, devem montar postos de profilaxia contra a devastadora «praga» que é a politicagem. Somente assim teremos em 2022 um país extraordinariamente equilibrado. Somente assim teremos homens dedicados ao regime e indiferentes por princípio às tetas do Tesouro Público, que poderá manter-se recheado, com a mão permanente de um campo favorável às indústrias e ao comércio. De outra maneira a perspectiva do futuro brasileiro será sempre de descrenças e de amargas desilusões. Silvio Perval
  • Embarcou a comissão que vem inspecionar as obras contra as secas (Do nosso serviço telegráfico) RIO, 25 — Seguiram, a bordo do «Almanzora», o dr. Simões Lopes, o engenheiro Moraes Barros, o general Rondon e demais membros da comissão de técnicos que vai visitar, em nome do governo, as obras do Nordeste. A comissão desembarcará no Recife, seguindo para o interior e inaugurando as obras prontas. O ministro da Viação telegrafou ao engenheiro-chefe das obras do Nordeste, avisando-o da partida da comissão e pedindo para providenciar para que seja inaugurado o maior número de melhoramentos possível, incluindo açudes e barragens.

Anúncios, notas e expediente

  • Expediente O Nordeste Redação: Dr. Andrade Furtado e José Martins Rodrigues Administração: A. Ildefonso de Araújo ANO I Fortaleza-Sexta-feira, 27 de Outubro de 1922 NÚM. 101
  • Telegrama Citações [...] 156 [...] 1.000 30.000 [...] e Bel- [...] da Fé Projeto 1.500 35.000 4.000 5.000 2.500 6.000 3.000 alar. (6 v.) liaria, em 1.000 4.000 4.000 1.500 4.000 4.000 2.500 4.000 [...] Izabel, [...] na cruz às Filhas [...] Este é um dos setores que [...] urgente de polícia, a fim de [...] [...] o do leite, diário bem. [...] no Ceará. [...] data a ser custa 28/10 [...] este [...] do 10.000 [...] 25.000 O Cate- 7.000 5.000 3.000 6.000 4.000 2.500 3.000 3.500 1.500 4.500 4.500 4.500 800 5.000 5.000 3.000 12.000 6.000 7.000 3.000 3.500 2.500 2.000 [...] de Deus [...]
  • Nota social OS POETAS CEARENSES NO CENTENÁRIO Princesa do Norte Ela assentada na planície opima, Em frente ao mar, mirando as luas, calmas. Ou brancos leques dos seus enluvados, Mal torcem no ar, se a noite se aproxima. O ocaso em ouro e púrpura se anima, Refletindo nos rios alvacento. Soluça em baio o mar em vãos lamentos. Soluça a luz crepuscular em cima. É a tristeza da alma que soluça, E se forma princesa em manto embuço. Traz saudade e pesar nesta hora extrema. Porém, — noiva do sol se o sol faiscante Volta, a aurora refulge no semblante Da pulcra e loira filha de Iracema. Rodrigues de ANDRADE
  • Expediente Edição de amanhã Oito páginas
  • Telegrama Telegramas DO PAÍS Missão católica a Fernando de Noronha RECIFE, 26 — O arcebispo D. Valverde conferenciou com o Governador Loreto, no sentido de facilitar os meios de enviar uma missão católica a Fernando de Noronha. O Governador prometeu providenciar a respeito. A revisão dos atos do governo anterior RECIFE, 26 — O governador prossegue na revisão dos papéis dos últimos atos do seu antecessor, tendo sido anulados os atos assinados de 1º de julho até 18 do corrente. A atitude do governador tem causado funda impressão. Graves conflitos em Triunfo RECIFE, 26 — Deram-se conflitos em Triunfo. Seguiu, hoje para ali, um [...].
  • Telegrama A nossa atitude Embora não seja prudente dizer sempre a verdade, entretanto, é sempre ilícito faltar à verdade. S. FRANCISCO DE SALES
  • Nota social Um bilhete de bonde vale um real. Guardem-no para os políticos de S. V. de Paulo.
  • Telegrama Moisés e o problema das comunicações. BELO HORIZONTE. Nomeados os dias de sua comissão.