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O Nordeste

Outubro de 1922 · 14 trechos transcritos

Manchetes desta página

  • O senador chileno José Tocornal legou, por testamento, 2.500 contos para a imprensa católica.
  • A morte de Antônio Cândido Acaba de finar-se o grande parlamentar lusitano, Antônio Cândido, uma das glórias robustas da mentalidade latina. Nos domínios da eloquência, o nome deste gigante do pensamento ficará imortal. A propósito de Antônio Cândido, reproduzimos em nossas colunas, transcrita de um número da «Revista Moderna», de 1898, a seguinte brilhante página devida à pena de Eduardo Prado, um dos mais ilustres príncipes das letras nacionais. Sejam as palavras do saudoso escritor patrício uma homenagem expressiva e oportuna da intelectualidade brasileira ao inesquecível tribuno português, agora falecido: «Há anos que, sem rivalidades, sem decrescimento de prestígio, sem diminuição de autoridade, Antônio Cândido exerce em Portugal uma verdadeira realeza: a da palavra. Não se é facilmente o primeiro orador de um povo meridional onde todos falam com a facúndia de uma raça viva e ardente. E quão extraordinário não deve ser esse dom maravilhoso, para que, diante dele, todos se curvem, sejam quais forem os vaivéns da popularidade, os desalentos do momento e as desilusões do tempo! O dom de bem falar, quando é a resultante do dom de bem compreender, e quando o falar sempre com elegância é, como em Antônio Cândido, a expressão elevada e instintiva de um sentir sempre nobre — teve, em todos os tempos, e terá, sempre, uma influência avassaladora, enquanto os homens viverem reunidos em sociedade. Essa palavra arrebatará a mocidade, como Antônio Cândido fazia em Coimbra, quando os estudantes estendiam as suas capas pelas ladeiras da cidade, levando-o em triunfo até a sua casa. Ainda muito jovem, em Coimbra, ensinava direito. E, mais do que o conhecimento positivo das leis, ele inculcava aos seus discípulos o amor da justiça, o entusiasmo pelas causas grandes e a aspiração aos nobres ideais. Desejava Sólon que o mais obscuro dos cidadãos tivesse escrito na sua fronte o seu pensamento sobre as coisas do Estado. Como podia Antônio Cândido, elevado já à glória pela admiração das gerações novas, deixar de pensar na pátria que amava, embebido nas grandezas da sua história e na poesia do céu e da paisagem para a qual abrira os olhos ao nascer? E a sua alma, límpida, clara e sonora, não podia ser silenciosa. Antônio Cândido deixou a atmosfera dos entusiasmos de Coimbra e foi para o que se chama a política. Trouxe de Coimbra, como arma, a sua palavra e trouxe também, para nunca mais os perder, os seus grandes ideais de liberdade, de tolerância, de amor e de justiça. O tempo, as injustiças, as invejas, conseguem conturbar corações mais altos, e empanar a visão menos pura e límpida de inteligências menos elevadas. Não assim como Antônio Cândido que, apesar das contrariedades da luta e das decepções da vida, é sempre o paladino do Ideal. E porque conserva ele essa mocidade perene do espírito, este dom de ter sempre um coração sem rugas e uma alma sem tormentos? É que, no domínio das ideias, ele tem sempre a chama deslumbrante da sua inteligência; e que na vida ele é sempre guiado pela bondade. Não a bondade seca e premeditada de certos poetas, que são bons com os amigos, simpatia para os outros, perdão e esquecimento para os inimigos. Essa bondade superior, na esfera elevada do governo dos homens, é por si um programa e talvez a melhor das políticas. Antônio Cândido teve uma vez, num momento angustioso e trágico para o seu país, de aplicar essa política. Quando tudo parecia desabar para Portugal, Antônio Cândido fazia o sacrifício de ser ministro e, quando maiores eram as dificuldades, rebentou a revolta do Porto. Esse movimento militar tomou a feição republicana, expressão de todos os descontentamentos que lavravam no país. A política materialista da força e do ódio aconselhava uma temerosa repressão fora da lei e até da justiça. Apuradas as responsabilidades, a lei foi desafrontada, e ao pânico sucedeu, contra todos os temores de uns e contra todas as esperanças de outros, o restabelecimento da ordem, que, desde então, apesar de tudo, nunca foi alterada. Teria sido este o resultado, se a bondade de Antônio Cândido não lhe tivesse indicado que, ao terror do ataque, não devia suceder o terror da reação? Antônio Cândido soube defender a sua política e os fatos deram-lhe mais tarde razão. Nos tempos de hoje, homens destes merecem veneração. A política, mais do que nunca, é sem entranhas. E, cinicamente utilitária, cética e prática ou mesmo feroz, será ela mais hábil ou mais forte? Hoje as nações da Europa não têm ideias no seu governo, e toda a arte, toda a ciência dos estadistas limita-se ao adiamento sucessivo da solução dos problemas. É um perpétuo desviar de dificuldades no presente e um incessante acumular de catástrofes para o futuro. Há um evidente retrocesso na política. O idealismo, hoje quase ridicularizado, de 1848, cedeu o passo ao interesse mal compreendido dos governos, com sacrifício dos direitos da justiça. Há um Danton que protesta, como havia um Victor Hugo, mas há vozes perdidas no silêncio. Se a sociedade portuguesa deixar um dia, por desgraça sua, de ser tolerante e liberal, não será sem o protesto veemente de Antônio Cândido. A palavra de Antônio Cândido não é das palavras que voam, se com isso se quer dizer que há palavras que passam sem deixar vestígios. Na sua vida parlamentar tem tido Antônio Cândido muitos triunfos. Na Academia Real, as suas esplêndidas orações hão de perdurar como admiráveis modelos de eloquência e da beleza da língua. A sua palavra ficará, como ficará a memória da eloquência de um homem, que os seus contemporâneos admiraram e que mereceu também ter sido bom.»
  • OS POETAS CEARENSES NO CENTENÁRIO
  • Ontem, passou o 11º aniversário da sagração episcopal do excelentíssimo senhor Dom Manuel da Silva Gomes, preclaro Arcebispo de Fortaleza. O eminente Prelado recebeu altas demonstrações de amor filial do Clero e instituições católicas de sua capital. Em todas as missas celebradas na Arquidiocese houve orações especiais pelo Pastor amado e solícito, a cujas luzes e zelo verdadeiramente apostólico tantos benefícios de ordem material e moral deve a nossa querida terra. «O Nordeste», interpretando junto a sua excelência os sentimentos de afeto respeitoso do Ceará e da gratidão dos nossos patrícios, apresenta ao benemérito Chefe da Igreja Cearense reverentes saudações, acompanhadas de ardentes votos à Divina Providência pela constante felicidade de sua excelência.
  • As combinações em torno do ministério RIO, 29 — Os jornais transcrevem, do «Jornal do Comércio», de Recife, uma entrevista que ao correspondente do mesmo concedeu o Dr. Washington Luís, presidente de São Paulo, sobre os trabalhos federais no Nordeste. Sua Excelência manifestou-se francamente favorável à execução das obras contra as secas, aplaudindo a ação do atual governo. Acrescentou que essas obras constituíam, além de larga e frutuosa iniciativa de proveitos econômicos, um dever, em benefício dos nossos irmãos do Norte, constantemente flagelados pelas secas. Seu governo estava de inteiro acordo com o programa de serviços contra as secas.
  • Deputado Cincinato Braga RIO, 28 — Conta que a política paulista impugna o nome do senhor Sampaio Vidal para a pasta da Fazenda, a qual talvez venha a ser ocupada pelo Dr. Cincinato Braga. Ele, entretanto, é certo que foi convidado para a direção do Banco do Brasil, e aceitou. O «Rio Jornal» diz que os senhores Melo Franco, Miguel Calmon, João Luís e Sampaio Vidal estão oscilantes. Os senhores Setembrino, Francisco Sá e Alexandrino estão, porém, firmes, tendo certíssima a sua escolha. O general Carneiro Fontoura está assentado que será o chefe de polícia. O «Correio da Manhã» diz que o deputado Melo Franco não será mais o ministro do Exterior, pasta que será ocupada pelo senhor Miguel Calmon, indo o senhor Lima Brandão para a Agricultura. Acrescenta o «Correio» que o nome do senhor Alberto Faria, para a Prefeitura, foi impugnado pela Aliança Republicana, estando cotados para este cargo os senhores Ataulfo Praia, Antônio Carlos e Cincinato Braga. Acrescenta o «Correio» que o líder da Câmara será o deputado Carlos de Campos, e o do Senado, o senhor Sampaio Correia.
  • O projeto regulador da lei do inquilinato no Senado Está assim redigido o projeto apresentado no Senado, visando regular a lei do inquilinato: «Art. 1º — O parágrafo 1º do art. 1º do decreto legislativo nº 4.403, de 22 de dezembro de 1921, deve ser aplicado de harmonia com o disposto nos arts. 6, 8 e 10, da mesma lei, de modo a não ser permitido, no Distrito Federal, nos casos de locação verbal, nenhuma elevação de aluguel pelo espaço de 3 anos, contados da data em que ela entrou em vigor, nem admitido qualquer despejo senão nos dois casos estabelecidos na citação do artigo 5º. Art. 2º — Fica elevado a um ano o prazo de seis meses regulado no art. 11 da citada lei nº 4.403, permitida ao inquilino a prova de que o senhorio não necessita da casa para sua morada. Art. 3º — Quando o senhorio se recusar a receber o aluguel do primeiro mês devido, o inquilino requererá ao juiz competente o depósito judicial da quantia devida, podendo a petição ser assinada pelo próprio interessado. Parágrafo 1º — O escrivão deduzirá, ao expedir a guia respectiva, as custas judiciais do depósito, sendo depositado em favor do senhorio o saldo líquido. Parágrafo 2º — Nos meses subsequentes, observada a regra antecedente, o depósito será feito mediante simples petição do inquilino, independentemente de intimação do senhorio. Parágrafo 3º — Todas as petições e papéis relativos aos depósitos de aluguéis serão isentos de qualquer selo, taxa ou imposto. Parágrafo 4º — Quando, na ação de despejo, tiver de ser citado qualquer sublocatário, ex-vi do parágrafo 1º do art. 8º da citada lei nº 4.403, será ele admitido a defender-se em todos os termos da ação. Art. 5º — Ficam revogadas as disposições em contrário.
  • ASSOCIAÇÃO DE SÃO MIGUEL Por iniciativa desta benemérita associação existente na Igreja de São G. Jesus, iniciar-se-á no dia 2, a celebração do oitavário das santas almas do Purgatório. Constará dos seguintes atos: Todas as manhãs, às 6 horas, missa acompanhada pelo canto do ofício das almas no altar da santa. Todas as tardes, às 5 e meia, pregação por Frei Almeida que versarão sobre a obrigação e os destinos das almas após a morte e a refutação de erros falsos e sistemas doutrinários errados. Recomenda-se o comparecimento de todos os associados e a irmandade em geral.

Anúncios, notas e expediente

  • Expediente Redação: Dra. Andrade Furtado e José Martins Rodrigues Administração: A. Ildefonso de Araújo
  • Expediente ANO I Fortaleza-Ceará, 30 de Outubro de 1922 NUM. 103
  • Nota social Ecos do Nordeste Dor suprema À minha mão Tenta exprimir, ó mãe, debalde tento tentar a dor nas sílabas de um erro. O amor materno em lágrimas dispensa espera. Pelo interminável mar do sofrimento. Procuro o pranto, o lúgubre lamento. Tudo o que geme no martírio imenso, E minha agonia eterna do universo Não diz o teu sofrer de um só momento. Sendo da noite os tétricos gemidos. Ocultos aos dos corações fendidos, A angústia, a pena e o que me insinuam... E com concerto de almas e queixumes, Capazes de encher milhões de volumes, Mãe... não vale uma lágrima das tuas! Soares BULCÃO
  • Telegrama O senhor Augusto Rocha, funcionário do Telégrafo Nacional, e que fora removido para Recife, recebeu, a respeito, o seguinte telegrama: Rio, 15 — De ordem do senhor presidente da República comunicamos que foi declarada sem efeito vossa remoção para Recife. Saudações. Agenor de Roure Secretário da Presidência.
  • Nota social CARTA Caros confrades: Dizem os moralistas que a verdade é como o sol: nada consegue obscurecê-la, nem as nódoas da calúnia, nem os sortilégios da hipocrisia. Não se reflete, todavia, em que a mentira, por mal considerada e mal combatida, parece, muitas vezes, que altera a ordem natural das coisas, na superfície da terra. Vem isto a propósito de um fato corriqueiro que talvez não interesse senão ao mesmo autor destas linhas. O caso é que dois poetas, os senhores Perdigão Oliveira e B. Ponte, não só por que processos de mágica, pretendem convencer-me de que não sou cearense, embora nascido e criado neste belo torrão. Que fazer? Estou resolvido a procurar meios de defesa em mim própria e também dos amigos — em vocês, por exemplo. O senhor Perdigão, desconfiando de provas palpáveis, tais como o batistério, a certidão do registro civil, etc., apelou para a memória, servindo-se da língua de Cícero, e decidiu contra o pobre de mim: «si mens non levas est». O senhor B. Ponte, sem mais nem menos, achou por bem dar curso à pilhéria, reimprimindo-a no mesmo jornal, com os mesmos tipos e até no mesmo estilo... ou de alguém que há muitos séculos se foi do seio dos vivos e de quem apenas perduram leves vestígios que o tempo não logrou apagar. Sabem vocês, no entanto, que sou de hoje e, com a mercê de Deus, me vou conservando por este «vale de lágrimas». O senhor Perdigão devia igualmente sabê-lo, por isso que se diz historiador e tem por norma colecionar os jornais da terra, nos quais tem colaborado desde a idade de catorze anos. Admira ainda mais que o senhor B. Ponte, presa de dúvida, haja preferido falar «segundo o erudito Perdigão» a informar-se diretamente deste seu servidor, que continua a residir na mesma casa em que ele, por uma gentileza própria de poeta moço, guardou, por espaço de longos meses, os originais de um livro de versos, a que há pouco deu publicidade. Seja, de uma vez por todas, público e notório, que tudo tolero se me faça, menos a injustiça de se me usurpar a glória única a que me posso licitamente apegar nesta vida. Abro mão, facilmente, do título de poeta; não deixo, contudo, de ser cearense, queiram ou não queiram os poetas, como B. Ponte, e os historiadores, como Perdigão Oliveira, que também cultiva as musas. O Ceará nada lucra com a minha atitude, é certo, mas nem por isso hei de renunciar ao meu direito. Antes que apareça um terceiro a sentenciar «segundo o erudito Perdigão», peço a vocês deem espaço do Nordeste a isto que aqui fica, a bem da verdade, que não convém se deturpe impunemente. Abracem o amigo certo e admirador. Clóvis Monteiro. Fortaleza, 27/10/1922. Vê-se que a antologia dos poetas cearenses, organizada por Sales Campos, é por via do seu posto em julgamento, pelo qual veio colocar-me numa situação deveras singular: fala-se de mim, como de uma personagem lendária.
  • Telegrama Estremecimento entre os Estados Unidos e o México (Do nosso serviço telegráfico) RIO, 29 — O governo do México protestou junto aos dos Estados Unidos, com energia, contra o sequestro de fundos mexicanos, feito pelo Supremo Tribunal, a pedido de uma firma ianque. O governo mexicano ordenou a todos os consulados do seu país, instalados nos Estados Unidos, que fechem suas portas. O consulado mexicano em Nova York já fechou as portas, protestando contra o mandato do sequestro dos fundos do governo do seu país, depositados em diversos bancos de Nova York. A firma americana que requereu o sequestro alegou que o México se havia apoderado de locomotivas e material ferroviário pertencente à mesma.