Hemeroteca
O Nordeste
Janeiro de 1923 · 13 trechos transcritos
Manchetes desta página
- A matrícula nos grupos escolares está muito aquém das esperanças gerais. É um fato lamentável, quando a Direção da Instrução Pública vai dando a esses negócios de importância máxima no seio dos povos civilizados, um cunho de sinceridade que merece respeito e consideração. É verdade que as classes ricas matriculam os seus filhos nos colégios, que as classes paupérrimas procuram as escolas noturnas; mas, ainda assim, está em proporção desanimadora a matrícula dos grupos. Os pais não devem esquecer a obrigação grave que têm de mandar ensinar os seus filhos a ler, conforme as condições em que se encontram. Alguns lutam com sérias dificuldades na vida, condições que temos o dever de respeitar; outros deixam de cumprir dever tão sério porque consomem no jogo e no vício as economias pertencentes ao bem-estar da sua família. Não sei, como nos [...] um pai não [...]. O abandono das crianças à libertinagem das ruas e à perversidade das más companhias vai produzindo em nosso meio estragos que não se repararão jamais. Ver-se os preconceitos mesquinhos e os ensinamentos doentios que se vão inoculando na alma da criança moderna causa calafrios de horror, gera apreensões insuportáveis nas almas dos que se dedicam e estudam a psicologia do [...]. Não é por causa da descrença que tem pelas coisas públicas da nossa terra; mas não tem justificativa a sua atitude presente, dado o esforço admirável do exmo. sr. professor Lourenço Filho na realização, o quanto possível eficaz, da reforma do ensino. Andrade Furtado d'O Nordeste. [...] escreveu artigos e folhetos numerosos sobre a sociologia e a ação social cristã. Nota-se, felizmente, que o entusiasmo pela instrução popular vai despertando alvissareiro, cheio de boas esperanças. Trabalhemos pelo povo, não esqueçamos que a verdadeira grandeza nacional está na cultura das capacidades dos seus habitantes, repousa na educação moral e religiosa da sua gente. Corrijamos, com energia prudente, os maus instintos e inclinações do homem, levantemos os seus sentimentos pelo trabalho inteligente e pelas virtudes cristãs e a nossa Pátria será grande no seu conceito e nas suas instituições, como nos seus mares, nos seus campos e no seu território. Demos combates à ociosidade e à preguiça, lutemos contra a vagabundagem que vai se multiplicando por toda parte, neguemos o apoio aos jogadores profissionais — homens que vivem das desgraças alheias, que trajam as vestes que deviam cobrir a nudez de crianças inocentes e de esposas fidelíssimas e abandonadas no lar por pais desalmados, por esposos sem entranhas.
- Recebemos a carta que a seguir publicamos com muito agrado! «Fortaleza, 29 de janeiro de 1923. Ilmo. sr. dr. m. d. redator O vosso jornal, o primeiro a propagar a feliz ideia que teve o ilustrado conterrâneo sr. João Câmara Filho, de se guardarem, para os nossos pósteros de 2022, todos os documentos referentes à comemoração do primeiro centenário de nossa independência política, venho dar-vos conta dos resultados dos esforços a que se entregou a «Phoenix Caixeiral», para reuni-los na maior quantidade possível, uma vez que nos comprometemos a tomar a iniciativa alvitrada. Aprovada pelo Conselho Administrativo da sociedade a nossa adesão, a secretaria tratou de dirigir circulares aos srs. prefeitos, vigários, associações e jornais de todo o Estado, assim como um ofício ao sr. Presidente do Estado, desde logo avisando-lhes que tais documentos seriam depositados na Coluna do Centenário ao Cristo Redentor, edificada numa das praças de nossa capital pelo «Círculo de Operários e Trabalhadores Católicos S. José». De várias localidades do Ceará, vieram-nos às mãos as contribuições solicitadas, bem como de associações e autoridades de Fortaleza. É pena que a maioria dos municípios não tenha correspondido à insistência do nosso apelo, remetendo à «Phoenix Caixeiral», ainda que fosse a notícia de algum ato extraordinário, por mínimo que lhes parecesse: uma ata de sessão cívica, mudança de denominação de ruas e praças, a íntegra de um discurso, as impressões de um ofício religioso, de um préstito cívico, etc. Contudo, a colheita não foi pequena e já avulta como uma lembrança centenária, pelo que vos peço o grande obséquio de publicar pelas colunas do vosso apreciado e popular vespertino, a seguinte lista dos documentos em poder da sociedade: Remetidos pelo sr. Presidente do Estado, com um ofício, um exemplar da obra do dr. Thomaz Pompeu de Sousa Brasil — «O Ceará no Centenário da Independência do Brasil», e outro do «Almanaque do Ceará», para 1922, publicação do dr. Sófocles Câmara; Remetido pelo dr. Pedro Paulo da Silva Moura, juiz de direito da 2ª vara de Fortaleza, com um ofício, a cópia da ata da sessão cívica da Justiça desta capital, no dia 7 de setembro de 1922; Oferecido pelo dr. Sófocles Câmara, um exemplar do excelente anuário por ele organizado para o ano do Centenário, «Almanaque do Ceará», com uma dedicatória especial; Remetido pela importante sociedade «Deus e Mar», com um ofício, seu programa de festas comemorativas; Idem pelo benemérito «Centro Artístico Cearense», cópia autenticada da ata de sua bela sessão comemorativa, acompanhada de ofício; Idem da «Sociedade Artística Beneficente», cópia da ata de sua sessão magna; Oferecidas pelo sr. prefeito municipal de Baturité, por meio de ofício, três fotografias das festas centenárias, assim como um exemplar do semanário local, «A Verdade»; Idem pela «Phoenix Caixeiral Aracatyense», quatro fotografias e um exemplar do programa, distribuído em boletim, tudo remetido com um ofício; Entregues pelo distinto conterrâneo sr. Raymundo Diogenes Junior, os originais das atas da inauguração das Praças «José Bonifácio» e «Gonçalves Ledo» (novas placas) e de substituição do nome da rua «D. Pedro» para «Pedro I», nesta capital; Remetido pelo sr. prefeito de Pacoti, dois exemplares do jornal «O Echo» (referentes às festas desse município), órgão dos alunos do colégio «S. Luiz»; Oferecidos pela próspera sociedade «Aliança Artística e Proletária de Quixadá», a cópia das atas do lançamento da pedra fundamental da inauguração do «Monumento ao Trabalho», acompanhadas de três belas fotografias do monumento (atas autenticadas na cópia), tudo remetido por ofício; Remetida pelo sr. prefeito municipal de Santana do Cariri, em ofício, cópia do próprio punho do Prefeito, a ata da sessão extraordinária da Câmara Municipal; Idem pelo sr. Prefeito Municipal de Araripe, cópia da ata da sessão extraordinária da Câmara, feita pelo secretário; Idem, pelo sr. Prefeito Municipal de S. Francisco de Uruburetama, programa das festas, em Senador Pompeu; Remetido por intermédio do [...] José Nogueira Sampaio, descrição minuciosa das festas, compreendendo a Caixa Mortuária, Banco Cooperativo Suíço, Imprensa Concórdia, Diário Kodiwadit e Livraria Léon; Oferecida pelo sr. Prefeito de Tauá, fotografia da parada cívica escolar, em frente ao colégio «Independência»; Idem, pelo dr. Euzébio de Sousa, um exemplar de sua publicação «Álbum do Jaguaribe»; Idem, por madame Ruedin Gon-O, diretora do conceituado colégio «La Ruche», fotografia de uma revista cívica-escolar. Além destes documentos, temos diversos números do vosso jornal, do «Correio do Ceará», d'«A Tribuna», e do «Diário do Ceará», desta capital; um exemplar d'«A Pátria», revista literária dos alunos do Colégio Militar, da «Gazeta do Cariri» e d'«A Região», do Crato, oferta da «Associação dos Empregados no Comércio», e do «Santuário de S. Francisco», de Canindé. Faltam-nos, portanto, documentos que ilustrariam muito mais o acervo que acabo de discriminar, tanto da capital, como de circunscrições importantes, quais as de Sobral e Camocim. Agradecido, em nome da «Phoenix Caixeiral», pela notícia que vos aprouver publicar, cientifico-vos de que por estes dias trataremos de dar o devido destino a esses documentos, aos quais ainda poderão juntar-se os que ainda nos sejam oferecidos. Respeitosas saudações. José Joaquim de Oliveira Paiva 2º secretário da «Phoenix Caixeiral»
- A MATRÍCULA NAS ESCOLAS PÚBLICAS Padre TABOSA A Direção da Instrução recomendou, interessadamente, às sras. professoras que prefiram matricular nas suas escolas, as crianças de 7 a 18 anos de idade, e, entre estas, as analfabetas.
- Ceará Fisiográfico A propósito desta notável obra o dr. Thomás Pompeu Sobrinho, recebeu este do eminente historiógrafo cearense, Capistrano de Abreu, a seguinte honrosa carta: «Patrício e amigo Nas Atas do Congresso de Geografia li seu trabalho sobre nossa terra e para ele eu chamei a atenção do Sá, que o não conhecia. Agora recebi a nova edição que muito agradeço. Relendo com redobrado prazer, os meus olhos caíram algumas escamas. Afinal, a imagem do Ceará vai definindo-se e de seu organismo aparecem alguns característicos. A sua idade lhe permitirá continuar com o mesmo carinho e maior experiência na construção do monumento para nós sobre todos sagrado. C. de Abreu»
- Em torno d'«O Diário», de anteontem, noticiando o crime do impressionante [...] vítima o cel. Gustavo Lima, apontou o dr. Fernandes Távora como responsável moral por esse bárbaro atentado. Mas é tão grave uma acusação dessa ordem, pode acarretar tão funestas consequências, que quase não acreditamos na leitura dessa increpação ao chefe oposicionista, feita pelo Diário, com a responsabilidade de órgão oficial do Estado. Infelizmente, porém, o Jornal situacionista, em vez de refletir melhor na sua leviandade e voltar atrás do que dissera, preferiu repetir, hoje, a mesma maldosa indicação da edição de ontem. O Diário, com as suas palavras, não faz menos do que acoroçoar possíveis sentimentos de vingança que nutrem os parentes da lamentada vítima, natural e justamente indignados com o atentado de domingo. Mas é triste que um órgão de responsabilidade desça a esses processos de campanha política para ofender um cidadão adversário e se exceda na rudeza de linguagem, com que o Diário respondeu, hoje, ao artigo de ontem, d'A Tribuna. Demais, está na consciência de todo mundo que o dr. Fernandes Távora é incapaz, pela sua nobreza de caráter e sentimentos cristãos, de incitar alguém à prática de delitos de qualquer natureza, e muito menos de um assassínio perverso. A verdade, que ninguém em consciência pode obscurecer, é que o crime de domingo é uma consequência funesta da impunidade em que se dobraram os autores da sangrenta tragédia de Lavras, em 9 de janeiro do ano passado. Em todos os tempos, as injustiças constituíram sementeiras de crimes, de consequências irreparáveis. Se, na tragédia de Lavras, portanto, tivesse havido um desagravo à sociedade horrorizada com as vidas sacrificadas a paixões e ódios desumanos, por certo, não se teria agora de lamentar o bárbaro e cruel atentado de domingo último.
- Importante Estudo Intitula-se «Os Confederados do Partido da Liberdade» e constitui precioso subsídio para a história da Conjuração Baiana de 1798-1799, quando do governo de D. Fernando José de Portugal, o futuro marquês de Aguiar. Esse movimento de ideias republicanas, do qual foram mentoras Silva Lisboa, Cipriano Barata e padre Agostinho Gomes, custou as vidas de João de Deus do Nascimento, Lucas Dantas do Amorim Torres, Luís Gonzaga das Virgens e Luís [...], o primeiro e o último [...] forçados (na cidade do Salvador).
Anúncios, notas e expediente
- Expediente O Nordeste Redação: drs. Andrade Furtado e José Martins Rodrigues Administração: A. Ildefonso de Araújo
- Expediente Ao conhecer o que se passou no mundo antes de nós é permanecer na infância. Ano I Fortaleza, 31 de janeiro de 1923 Nº 07
- Telegrama (Do nosso serviço telegráfico) ROMA, 28 — Foi dada publicidade à nova encíclica do Papa, recomendando aos jornalistas católicos a seguirem o exemplo de S. Francisco de Sales. Acrescenta que o debate deve ser aliado, simultaneamente, com força e moderação. Os jornalistas nunca se deviam esquecer de falar a verdade, nem deviam dissimulá-la ou modificá-la. A encíclica recomenda aos jornalistas que escrevam com a clareza e beleza do estilo. Ao terminar, nomeia S. Francisco de Sales padroeiro dos jornalistas e escritores.
- Telegrama A arbitragem da questão de Tacna e Arica (Pela 'Western Telegraph') RIO, 31, 9h. — O presidente Harding aceitou a arbitragem do caso de Tacna e Arica.
- Nota social Na cauda, o veneno Um proprietário, duplo de advogado, vem, de há tempos, defendendo ardentemente, pela «A Tribuna», sob a responsabilidade coletiva da redação, os seus sabidíssimos interesses de senhorio. Até vezes até, como um lobo, contra o que advertem os Evangelhos, que se veste com a pele das ovelhas, se tem aparentado muito amigo e muito compadecido da sorte dos inquilinos, na debatida questão das notificações. Ontem ainda, não se podendo ter que não [...] exprimir a sua satisfação, apressou-se em publicar alvissareiramente que os proprietários estavam logrando vitória nas ações de [...] movidas em juízo, em consequência das notificações de [...]. Até aí nada demais senão o alvoroço de uma satisfação muito pouco cristã, que impera com a desventura alheia. Mas, na cauda, o veneno. Lê-se, na notícia a que me refiro, [...] circunstância digna de menção é a seguinte: «O dr. José Martins Rodrigues, redator d'«O Nordeste», aceitou procuração de uma proprietária para uma ação de despejo, já iniciada». Ora, no trecho transcrito, como é ato de ruir, o mundo maldoso e estreito de me colocou mal perante o público, com uma insinuação desleal. Mas a verdade a respeito do que ali se diz é a seguinte: Combinaram os drs. José [...] e Eduardo [...] que, nas procurações que lhes passamos para atos judiciais, fariam [...] bem o meu nome. Foi o que se deu com a procuração de um proprietário, que o dr. [...] recebeu. Mas [...] depois de passada a mesma, o signatário destas linhas a [...] de tal. E é fato ainda que não praticou nenhum ato em contra tradição com a atitude d'«O Nordeste» na questão da [...], visto como não [...] a petição de despejo. [...] nem a [...] deste. Eu devia essas explicações ao público, para que este não viesse a julgar a [...] da [...] que por [...] tão tortuosas, torna [...] com a tua [...] [...]. Fortaleza, 31-1-1923 [...] Assinado: [...]
- Nota social Soneto de Júlio Maciel Resurreição Antigo e aflito eu te chamei, ó coração, E ao teu nome me irrompeu de pronto, O coração sentiu revoamento. Morto o deixasses e melhor farias, Que ele, desperto do ideal repouso, Somente ao teu influxo milagroso, Já se não te abre, festo e em alegrias. Sem o ardor com que bater o ouvias, Mal no peito me pulsa, temeroso: — Não vás tu nessa vida, em vez de gozo, Trazer-lhe as mágoas dos passados dias!... E enquanto aviventado ao teu aceno, Entre o ódio e o amor o coração hesita, Eu, de mim, nem te odeio, nem condeno. Não, eu não posso odiar a mão bendita, Que o antídoto me dá — dando o veneno, A mão que mata, mas que ressuscita!
- Nota social Combatamos o alcoolismo que vai povoando a nossa sociedade de degenerados e infelizes. Unamo-nos todos na grande obra da regeneração social e da salvação da nossa Pátria estremecida. Pais de família da minha terra, despertai dessa espécie de indiferença pela alma dos vossos filhos, atendei-lhes escrupulosamente às necessidades, mandai-os para a escola, encaminhai-os para o trabalho, levai-os à Igreja, às práticas sublimes e fecundíssimas da Santa Religião do Calvário! Salvai os vossos filhos pelo trabalho e pela virtude!