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O Nordeste

Fevereiro de 1923, página 1 · 18 trechos transcritos

Manchetes desta página

  • Em torno do ensino primário Não são justos os comentários que o «Correio da Manhã», do Rio, inspirado em fontes enjejos, senão de má fé, tem feito a respeito da reforma do ensino primário, no Ceará. Não são justos, e nem foi suficientemente válida a defesa que ao governo do Estado tentou fazer o deputado estadual Francisco Prado, em carta ao matutino carioca. Os ataques do «Correio» são, entre outras coisas, à obrigatoriedade do ensino primário no Ceará, para as crianças dos 6 aos 12 anos. Entende aquele jornal que, enquanto não estiver organizada uma caixa escolar para benefício das crianças pobres, e não houver serviço de assistência médica nos estabelecimentos de ensino, não se pode exigir, obrigatoriamente, frequência às escolas públicas. Mas é preciso atender a que tudo se tem de julgar relativamente. Primeiro, note-se que a obrigatoriedade malsinada vai ser exercida, agora, unicamente com relação ao município de Fortaleza, em que as condições gerais são muito favoráveis para isso. Demais, em Fortaleza, não há ainda, realmente, uma caixa escolar com a perfeita organização necessária; mas há sempre um ensaio para isso. Essas coisas não se improvisam. Quanto à assistência médica, ainda aqui anda mal informado o matutino do Rio, porque a verdade é que essa inspeção já se faz em Fortaleza, nas escolas e grupos, e é natural que se venha a estender, pouco a pouco, pelo sertão adentro. Por último, o «Correio da Manhã» também acha que não temos escolas em número suficiente. De fato, concordamos. Mas foi justamente para se criarem novas escolas, ou se distribuírem melhor as existentes pelos núcleos de maior população escolar, que a diretoria da instrução realizou, em pouco tempo, em todo o Estado, o penoso trabalho do cadastro infantil: Nós não gostamos de elogiar por elogiar. Mas sentimo-nos bem em fazer justiça aos homens públicos, quando os seus atos o mereçam. É o caso com a Instrução. De boa fé ninguém pode fugir à confissão de que as condições do ensino são atualmente outras, que há interesse verdadeiro, e não só para sorrir, em levar a cabo a reforma tão vantajosamente iniciada sob a direção do professor Lourenço Filho. E nem se pode negar o muito já realizado. Quando mais não fosse, aí estaria o critério do merecimento nas nomeações e promoções, o afastamento real da política das coisas do ensino; a remodelação dos grupos da capital; os novos métodos aplicados; o material escolar adquirido; a reunião das escolas em grupos, aqui e em cidades do interior, e a aquisição, nesta capital, e nos municípios do sertão, de numerosos prédios para o funcionamento das aulas. Mais tarde, se tudo isso não tiver o seguimento que desejamos ao progresso do Estado, então nós estaremos também com o jornal carioca em que não tenha passado a reforma do ensino de uma vistosa encenação da administração pública. Mas, pelo menos por enquanto, nós temos fundadas razões e fatos positivos, para julgar, com justiça, da sinceridade do governo.
  • SÍNTESE SOBRE A PRODUÇÃO DO ALGODÃO DO CEARÁ manufatura de tecido e fiação, porquanto as 4 fábricas que já possuímos em Fortaleza, Aracati e Sobral, são de consumo relativamente pequeno, calculado apenas em cerca de 1.350.000 quilos, quando a nossa produção, em tempos normais, é quase sempre hoje em dia de 10.000.000 de quilos em boa média. A indústria do algodão, na acepção lata da palavra, ainda não a temos, infelizmente, aqui no Ceará. A sua manufatura restringe-se à fabricação de fazendas grossas, alguns riscados e fio para tecelagem de redes, sacos, cordados, etc. Aqui no Ceará, segundo nossas indagações e pesquisas, apenas 8 estabelecimentos de beneficiamento de algodão, não contando com as usinas da firma Trajano S. V. de Medeiros, se preocupam, em parte, com a indústria da extração do óleo, três das quais, «Fábrica Proença», «Fábrica Diogo» e «Usina Ourgel», acham-se situadas nesta capital. O restante encontra-se no interior do Estado, assim distribuído: 1 na cidade de Senador Pompeu, «Fábrica São Geraldo», de propriedade do Sr. Abílio Ourgel Guedes, 1 na cidade de Iguatu, «Fábrica São José», da firma Lafayette Teixeira e finalmente 1 na cidade de Baturité, da firma Ramos & Cia. e outra anexa à fábrica de tecido «Santa Tereza», na cidade de Aracati; sendo que estas duas últimas não sabemos se ainda funcionam. Além desses estabelecimentos que acabamos de citar, existem ainda esparsas, algumas prensas de óleo, adicionados a pequenos descaroçadores. Porém, dentre eles somente dois situados nesta capital refinam o óleo — a fábrica «Proença» e usina «Ourgel». O processo para redução do óleo consiste mais ou menos no seguinte: as sementes saídas dos descaroçadores são passadas em primeiro lugar num triturador de ferro de rolos, onde são quebradas mais ou menos, sendo assim reduzidas a uma massa de aparência compacta que logo depois proporcionalmente, é deitada numa caldeira — panela, sendo aquecida por meio de vapor direto ou indireto para facilitar, destarte, a saída do óleo. Em seguida, em fornos de ferro, arrumadas umas abaixo das outras e dispostas na prensa hidráulica, são assim as sementes já anteriormente reduzidas a massa, comprimidas automaticamente por meio do próprio óleo. Restam, pelo, desta operação o óleo chamado bruto e o resíduo em forma de pasta, que é vendido para alimentação de animais, com especialidade para o gado vacum. O rendimento do óleo varia muito, segundo a variedade do algodão, podendo-se, no entanto, tomar-se por base o seguinte: — algodão doente, bichado 59%; herbáceo 10%; quebrado, lixeiro e moído 10 a 20%. Quanto ao óleo bruto passará então para o aparelho denominado refinador, onde sofrerá o processo de retirada das impurezas, restando, por conseguinte, dessa segunda operação óleo refinado e a chamada «borra». Com o óleo bruto e o refinado fabricam sabão de diferentes qualidades e, ainda, lubrificantes, etc. Essas 3 fábricas acima mencionadas, isto é, «Diogo», «Proença» e «Ourgel», beneficiam, anualmente, cerca de 4.500.000 quilos, produzindo por ano: Óleo bruto: 360.000 quilos Refinado: 120.000 quilos Sabão: 1.500.000 quilos Resíduo: 3.100.000 quilos Quase todos esses produtos são consumidos no Estado, havendo deles apenas uma exportação insignificante. José Freire fardos de 70 quilos cada, com as seguintes dimensões 1m x 10 x 70 x 45. No entanto, tivemos ocasião de ver descaroçadores movidos a vapor, tinham por dia mais de 30 fardos com a mesma quantidade aproveitados de quilos acima, dependendo, isso, porém, mais da destreza dos prensadores. No tocante aos subprodutos, são estes melhormente aproveitados. Os seus subprodutos melhormente são aproveitados na produção de óleo bruto e refinado, sabão e resíduo para alimentação de animais, com especialidade para vacas leiteiras. Quanto ao beneficiamento propriamente dito, é o algodão descaroçado em máquinas de serras quase todas do fabricante «Eagle Cotton Gin», americano, cujo número entre nós excede para mais de 400, espalhadas por todos os municípios algodoeiros; sendo de notar que só no município de Lavras existem 32, vindo em seguida Pereiro com 15, Milagres 14, Icó 12, Aurora 10, etc. Por essa razão o nosso algodão tem a sua fibra inteiramente quebrada, picada mesmo, mormente quando certos descaroçadores conservam por muito tempo as suas serras sem serem amolados. Temos aqui certas variedades, como o Mocó, cuja fibra em certas zonas, chega a atingir o comprimento de 45, 50 e até 75 mm. No entanto, depois de descaroçado por esse sistema acima, fica reduzida a menos de um terço. Ao lado desses descaroçadores não temos em todo o Estado um sequer de rolo ou cilindro para favorecer as nossas variedades de fibra longa. O algodão, destarte, antes de ser descaroçado é separado previamente, segundo as qualidades de melhor aparência externa, isto é, o menos sujo e o menos atacado de praga. Depois de assim beneficiado, conforme o critério do dono do descaroçador ou bolandeira, é ele enfardado separadamente ou, então, misturado com lã de inferior qualidade para obter melhor preço em vista da classificação comercial adotada (1ª mediana e 2ª). Enfim, outros métodos são aplicados com o propósito de iludir a vigilância e perspicácia do comprador. Fatos dessa ordem concorrem extraordinariamente para a desvalorização e baixa repentina do valor do nosso principal produto. O algodão é emprensado no interior em prensas de madeira de diversos feitios, fabricadas ali mesmo no sertão, em sistema de parafuso. Por esse motivo o algodão quase sempre é mal embalado, cujos fardos, na maioria atingem a uma densidade excessiva de 0,6 a 0,7 dm³. Apenas em Iguatu, não faltando na usina recentemente instalada pela empresa Trajano de Medeiros, e em Maranguape, existem duas hidráulicas, embora de baixa densidade. A primeira pertence à firma I. A. Benevides e a segunda da fábrica «Maranguape», dos Srs. Oradvohl & Filhos, desses prensadores. Tendo nós a oportunidade de aconselhar alguns donos de descaroçadores, a instalação de prensas desse jaez, disseram, então, não ser isso razoável, em vista do nosso Estado cobrar um imposto de 600$000 anual por prensa: o que não estava correlativo com seus capitais. Então, tivemos de fazer ver aos citados senhores que tal imposto de nada valia, em comparação com o que pagavam por ano de estrada de ferro com os excessos de cubagem. Uma arroba de 15 quilos de algodão em caroço regula produzir de pluma 4 quilos e 500 a 4 quilos e 500 gramas de lã, conforme a melhor ou pior qualidade do produto. Em média, de 10 horas de trabalho por dia, de 8 a 12. Findos esses trabalhos são os fardos transportados por estrada de ferro ou custa de animais. Zonas há, bastante algodoeiras em o nosso Estado, como «Mombaça», compreendendo dois ricos municípios como Pedra Branca e Maria Pereira, ao centro, e São Francisco de Uruburetama, próximo ao litoral, que se acham completamente desprovidas de estrada de ferro para o transporte de seus produtos. Quando se viaja nessas regiões, tem-se a impressão desagradável e triste, observando-se comboios e mais comboios constituídos de mais de trinta animais, fazendo travessias penosas e longínquas, de vinte, trinta e mais léguas, através dos nossos sertões, sobrecarregados estes, às vezes, de pesos excedentes à sua força, quando nossos governos podiam redimir este crime nacional, mandando abrir estradas de ferro, incentivando destarte a principal fonte de produção — a agricultura. Relativamente ao preço do transporte regula de 4$ a 12$ por carga de dois fardos conforme a distância em légua. Pela estrada de ferro é feito de acordo com a cubagem; necessitando que cada quilo ocupe quatro decímetros cúbicos, cobrando-se, então, uma módica taxa de conformidade com a distância em quilômetros. Raro, porém, é o fardo que apresenta a densidade exigida em metro cúbico, pela razão já exposta de que as prensas de madeira adotadas no Interior não podem dar a compressão estabelecida. Os fardos depois de assim comprimidos, bem ou mal, são enrolados em estopa ou algodãozinho (tecido nacional de inferior qualidade) e amarrados com arame ou raramente hoje em dia com cipó. Depois de pesados e marcados são estes transportados. Vindo, assim, o algodão mal enfardado, é aqui em Fortaleza submetido à nova prensagem em prensas hidráulicas de bem regular densidade, e, feita a devida classificação, estabelecida, pelas casas exportadoras das firmas Boris Frères, Salgado, Filho & Cia., Oradvohl & Filhos, Solon & Valente, etc. Todas essas prensas têm capacidade para fazer cada uma 100 fardos diários, pesando em média 140 quilos, com as dimensões seguintes 1m x 0,07 x 0,50, dando de densidade 3 1/2 a 4 dm³. O consumo do algodão pela indústria cearense, isto é, tecelagens e fiação, é relativamente insignificante. Talvez que uma fábrica localizada num dos nossos grandes centros produtores fosse uma solução a calhar no momento, bastante favorável para estimular o levantamento de nossa cultura, de nosso comércio, de nossa indústria do algodão. A indústria propriamente do beneficiamento começou nesses últimos anos a ter um certo incremento e impulso com a instalação de usinas modelos, em centros de convergências algodoeiras, como Iguatu e Sobral, sendo ambas de propriedade da grande firma Trajano Saboya Viriato de Medeiros. Tais usinas já se acham trabalhando regularmente. Brevemente teremos mais uma outra nesta capital, mais ou menos com a técnica daquelas, destinada ao mesmo fim, pertencente à firma Filomeno Gomes & Filho, nesta praça. Precisamos agora intensificar a

Anúncios, notas e expediente

  • Expediente O Nordeste Redação: Drs. Andrade Furtado e José Martins Rodrigues. Administração: A. Ildefonso de Araújo. ANO I Fortaleza, Quinta-feira, 1 de Fevereiro de 1923 NÚM. 178
  • Nota social Derrama o sol no derradeiro alento Prantos de luz nas águas do lago. Os olhos volvo para o firmamento, Na paz do campo, sugestiva e má. O sol morrendo, silencia o vento, A flor se fecha, um pássaro não voa. Penso que a Mãe de Deus neste momento A natureza extática abençoa. Ramos NETTO
  • Telegrama Um cupom de bonde vale um [...] horas de trabalho por dia, de 8 a 12.
  • Telegrama Um cupom de bonde vale um [...] S. V. de Paulo.
  • Nota social Selos & Cupons A pequena Zilmar, filha do Sr. Joaquim O. Barbosa, ofereceu para os pobres do Asilo da Mendicidade 1.000 cupons de bonde, por completar [...] anos hoje.
  • Telegrama TELEGRAMAS DO PAÍS
  • Telegrama Os aviadores no Recife. Saudação ao povo carioca RECIFE, 29 — Realizou-se, na maior cordialidade e entusiasmo, o almoço oferecido ao jornalista norte-americano George Bye, pelos seus colegas pernambucanos. Oferecendo a festa, falou o jornalista Aprígio Faria, respondendo-lhe o homenageado. Os aviadores visitaram a Faculdade de Direito e a Escola de Engenharia, sendo recebidos festivamente. Os aviadores continuam alvo das maiores manifestações de simpatia, por parte das autoridades, da população e da imprensa. Ontem, visitaram eles as redações de todos os jornais, em companhia do cônsul americano. Pinto Martins, em palestra que teve com o diretor da Sucursal da «Americana», pediu-lhe que fosse intérprete desta saudação ao povo carioca: “Ao voar meu coração sobre a grandiosa metrópole da minha Pátria estremecida, dele cairão muitas flores, denunciadoras de meu profundo reconhecimento pelo interesse que o povo carioca tem demonstrado pela vitória do humilde filho do Brasil.”
  • Telegrama Os aviadores na Bahia BAHIA, 20 — O governador do Estado deixará, amanhã, a ilha de Nossa Senhora, onde se acha, para esperar, nesta capital, a chegada dos destemidos aviadores. Estes serão hóspedes do governo, no Palácio da Aclamação.
  • Telegrama Decisões do diretor da Recebedoria RIO, 29 — O diretor da Recebedoria confirmou o seu despacho, taxando com o selo de $030 os vales de hortaliças. Também decidiu a marcação dos preços dos calçados, tendo como objetivo o caráter da aplicação do selo do imposto de consumo e o da taxa respectiva, conforme o valor determinado, o qual pode ser evitada do melhor modo que convenha ao fabricante. Resolveu o diretor que o carimbo do selo seja impresso logo e a data, e ainda impresso na parte da etiqueta, onde, como comumente vem, no calçado, indicação do fabricante.
  • Telegrama Reeleito RIO, 29 — O Dr. Caetano Pinto de Miranda Montenegro foi reeleito presidente da Corte de Apelação.
  • Telegrama O presidente da República visita o forte de Copacabana RIO, 20 — Acompanhado dos ministros da Guerra, Marinha, e do chefe de sua Casa Militar, o presidente da República visitou, hoje, o forte de Copacabana, sendo, ali, recebido com as formalidades do estilo. S. Excia. regressou ao Catete antes do meio-dia.
  • Telegrama Mercado do algodão RIO, 20 — O algodão funcionou ainda hoje sem alteração apreciável nos preços. Mas regulou bem colocado e firme, com movimento ativo nos negócios, e sem maiores entradas. O movimento constou de 220 fardos entrados e 332 saídos. Ficaram em depósito 11.157 fardos.
  • Telegrama Os imigrantes italianos na América do Sul RIO, 29 — Informam de Roma que o general Caviglia realizou, ontem, uma conferência pública tratando de sua viagem à América do Sul. Reafirmou os seus pontos de vista sobre a situação dos italianos na América, sustentando a necessidade de os mesmos terem isentados do serviço militar, por isso que, muitas vezes, são tidos como insubmissos, por não poderem abandonar o trabalho.
  • Telegrama Exames adiados RIO, 29 — O prefeito adiou, por decreto de hoje, para junho, os exames de desenho, pedagogia, higiene e educação cívica na Escola Normal.
  • Telegrama Base de aviação naval em Santa Catarina RIO, 29 — Foi designado o 1º tenente, engenheiro mecânico e aviador Paulino de Azevedo para ceder a instalação.
  • Telegrama Com os colégios militares
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