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O Nordeste
Fevereiro de 1923 · 23 trechos transcritos
Manchetes desta página
- Publicação: obra [ilegível] e [ilegível] Entrevista do Sr. Ildefonso Albano sobre as obras de Fortaleza. — Soneto do Júlio Maciel.
- Ação antipatriótica da Maçonaria A atitude nobre da Imprensa e do governo Mussolini (Do nosso serviço telegráfico) RIO, 3. — (Pela Western Telegraph — 8 h. 55) — Telegrama de Roma afirma que a imprensa daquela capital acusa o partido dos Pedreiros Livres, como responsável pelos atos da política que perturbava a vida do país, anteriormente ao advento do fascismo. Agora mesmo, aquela agremiação secreta tomou a ingrata tarefa de difamar, no exterior, o governo patriótico de Mussolini. A imprensa acha que seria um grande serviço prestado à Itália, se o governo resolvesse o problema da Maçonaria, cujos manejos são altamente prejudiciais ao bom andamento dos negócios políticos do Reino.
- A fabricação de "Ladrizaico" O nosso distinto amigo Gervásio Gurgel recebeu do Rio de Janeiro um despacho telefônico do deputado Daniel Carneiro, comunicando que foi concedido o privilégio, por parte do governo federal, aos Srs. Godofredo de Castro e Nasser Romcy, para fabricação de "Ladrizaico", espécie de mosaico hispânico, sem cimento. O laudo foi assinado depois de rigoroso exame, concluindo o mesmo por julgar o produto excelente. É um real melhoramento para o serviço de construções em nossa terra.
- Coube ao 1º promotor de justiça, Dr. José Pires de Carvalho, a distribuição do inquérito instaurado contra Raimundo Aquino, pela morte do Cel. Gustavo Lima. Hoje mesmo foi aberta vista àquela autoridade do citado inquérito.
- CORONEL PINHEIRO LANDIM À última hora, soubemos haver falecido, hoje, à tarde, nesta capital, o nosso distinto amigo Francisco Rodrigues Pinheiro Landim. O seu enterro realiza-se, amanhã, às 8 horas, saindo o féretro da casa do seu digno genro, nosso amigo, Alfredo Pinheiro. Na próxima edição, faremos o necrológio do pranteado amigo.
Anúncios, notas e expediente
- Expediente 2 O NORDESTE, Sábado, 3 de Fevereiro de 1923
- Telegrama RELIGIÃO 5º DOMINGO DEPOIS DA EPIFANIA Epístola (São Paulo aos Colossenses, cap. 3, v. 12). Irmãos, como escolhidos que sois de Deus, santos e amados, revesti-vos de entranhas de misericórdia, de benignidade e de humildade, de modéstia, de paciência, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se algum tem razão de queixa contra o outro; assim como ainda o Senhor vos perdoou a vós, assim também vos. Mas sobre tudo isso revesti-vos de Caridade, que é o vínculo da perfeição, e triunfe em vossos corações a paz de Cristo, na qual também fostes chamados num mesmo corpo, e sede-lhe agradecidos. A palavra de Cristo more em vós outros abundantemente.
- Telegrama em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando com a graça do fundo dos vossos corações louvores a Deus. Tudo quanto quer que fizerdes, seja de palavra ou de obra, farei tudo isso em nome do Senhor Jesus Cristo, dando por ele graças a Deus o Pai. Evangelho (São Mateus, cap. 13, v. 24). Naquele tempo, propôs Jesus ao povo esta parábola: O reino dos Céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo: e enquanto dormiam os homens, veio o seu inimigo e semeou depois o joio no meio do trigo e foi-se. E tendo crescido a erva e dado fruto, apareceu também o joio. E chegando os servos do pai de família, lhe disseram: Senhor, porventura não semeaste tão boa semente no teu campo? Mas de onde lhe veio o joio? E este lhe disse: O homem inimigo é que te fez isto. E os servos tornaram: Queres tu que nós vamos e o arranquemos? E respondeu-lhes: Não, para que talvez não suceda que arrancando o joio arranqueis justamente com ele também o trigo. Deixai crescer uma e outra coisa até a colheita, e no tempo da colheita dizei aos ceifadores: Colhei primeiramente o joio, e atai em molhos para o queimar, mas o trigo recolhei no meu celeiro.
- Anúncio Artigos para homens: acaba de receber a "Casa Esperança": chapéus de palha e massa, gravatas, camisas, bengalas, meias, etc. Preço ao alcance de todos. 5-2
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- Anúncio Ecos DESAPARECEM com o uso SARDAS, ESPINHAS E MANCHAS, com o uso do Leite de Colônia O rosto torna-se macio e claro. 11-2
- Telegrama O momento europeu Bélgica, Liga das Nações e a questão das reparações As medidas contra o Ruhr BRUXELAS, 30 — Anuncia-se que, entre as medidas coercitivas encaradas pela França e Bélgica, no Ruhr, figura a extorsão eventual das minas daquele Estado, com a proibição completa de exportarem carvão as zonas ocupadas. As dificuldades na ocupação BRUXELAS, 31 — A imprensa de todo o país insiste na urgência de medidas enérgicas para pôr fim às dificuldades que os alemães vêm criando no Ruhr, assim como às hostilidades criadas pela propaganda anti-francesa. Os jornais, todavia, acentuam o profundo acordo entre a França e a Bélgica, na execução do plano de ocupação. França PARIS, 31 — A comissão de reparações fixou em 1.876 mil toneladas o carvão que a Alemanha deverá entregar aos aliados, em fevereiro. — O ministro Le Troqueur e o general Weygand prestaram contas ao ministério, ontem, do estado de adiantamento das medidas tomadas pela França e pela Bélgica, no Ruhr. Estabelecer-se-á acordo completo entre os aliados para aplicação das referidas medidas. — Ao norte do Ruhr, os ferroviários franceses substituíram os alemães grevistas. Os trens circularam normalmente. A ação franco-belga PARIS, 31 — A troca de vistas entre generais franceses e belgas, que se acaba de fazer, pôs em evidência a necessidade de coordenarem, os dois países, os seus serviços na zona ocupada. — Anuncia-se que o general Degoutte tomará o controle geral das operações, centralizando as mesmas. Uma comissão constituída de um comissário francês e outro belga assumirá a direção da ação interaliada. O general Weygand terá importante posto. PARIS, 1 — A comissão de reparações, por 3 votos, aprovou, ontem, uma moção, estipulando que a Alemanha entregue, em fevereiro, 8.876 mil toneladas de carvão, em condições semelhantes às que vigoraram nos meses precedentes. Não votou o representante britânico Bradbury. Ao terminar a reunião, a comissão de reparações enviou instruções para Essen, ordenando informar a Alemanha a respeito das estipulações necessárias à realização do programa das entregas de carvão. Para Münster PARIS, 30 — Comunicam de Essen que o arquivo da direção das minas de Recklinghausen foram trasladados para Münster. PARIS, 30 — Fala-se na possibilidade de ser apresentada no conselho da Liga das Nações, cujos trabalhos se inauguraram ontem, uma moção, recordando que a Liga, caso seja necessário, poderá vir a ocupar-se do problema das reparações. Notícias de Düsseldorf PARIS, 30 — Comunicam de Düsseldorf que o ministro Le Troqueur e os generais Weygand e Degoutte e oficiais generais belgas examinaram, ontem, à tarde, o plano de avanço da ocupação do Ruhr. — Por convocação do burgomestre daquela cidade, realizou-se grande reunião, ontem, de todos os sindicatos extremistas. Argentina — Manifestações de desagrado aos franceses BUENOS AIRES, 31 — As manifestações de desagrado à França, que aqui fizeram os germanófilos, por motivo da ocupação do Ruhr, não tiveram importância, limitando-se a ajuntamentos em alguns pontos centrais da cidade. O que houve de grave foi o atentado ao monumento da independência argentino, oferecido pela colônia francesa. O fato ocorreu na madrugada de domingo, e dele somente se ocuparam os vespertinos de anteontem. "La Prensa", em seus comentários, diz que o governo deve esclarecer o assunto, descobrindo os culpados.
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- Anúncio CALÇADO [ilegível] CLÓVIS MONTEIRO Foi classificado em 1º LUGAR, obtendo o MAIOR PRÊMIO do júri de recompensa da Exposição, como se vê no Diário Oficial de 26 de Novembro de 1922. Única recebedora.
- Anúncio Comunica aos interessados que se acha aberto o curso de línguas que dirige, à rua General Sampaio, 255. 7/2
- Anúncio VINHO DE MASTRUÇO e malvarisco: tosses, bronquite e rouquidão. — Carneiro e Pasteur. 3-30
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- Telegrama Suíça LAUSANNE, 1 — Segundo se noticia, o governo francês comunicou aos de Ancara, Londres e Roma que a França não considera a minuta do tratado de paz que vai ser submetida, hoje, à Turquia, como um ultimatum definitivo, acrescentando que podem ser apresentadas ulteriores modificações aos pontos divergentes. A nota francesa deixa perceber que se os turcos desejarem continuar as negociações, a delegação da França ficará aqui. A delegação britânica mostrou-se consternada ao conhecer o fato, declarando não acreditar na sua veracidade, pois violaria o acordo recentemente concluído entre os Aliados. O "Quai d'Orsay" confirma, entretanto, a notícia.
- Anúncio [ilegível] OPTOMETRISTA Com longa prática em consultórios de oculistas notáveis de Nova Iorque, Paris e Barcelona Óptico-oculista DR. GEBERIDO (3º e sáb.) Especialista para corrigir todos os defeitos de refração dos olhos [ilegível] Permanecerá nesta capital até o fim de Fevereiro, impreterivelmente. 3/2 Consultas no HOTEL BUOY, das 8 da manhã às 5 horas da tarde.
- Telegrama Inglaterra Para o Ruhr LONDRES, 30 — Continuam a afluir ao consulado francês muitos engenheiros ingleses, que se oferecem para trabalhar no Ruhr.
- Telegrama Alemanha Notícias da Alemanha BERLIM, 31 — Comunicam de Aachen que se deu, ali, um conflito entre operários alemães e patrulhas belgas, tendo sido desarmados vários soldados. À vista da situação, foi decretado o estado de sítio. Essas notícias não foram confirmadas. — De Düsseldorf dizem correr o boato de que a França enviará, hoje, um ultimatum à Alemanha. — Anuncia-se que foi preso pelos aliados o presidente da companhia ferroviária de Ludwigshafen.
- Nota social Influência benéfica (Tradução especial para "O NORDESTE") — Patrãozinho, a lição de catecismo! — Ainda, Malvina? — E logo! E enquanto a dedicada [ilegível] preparava os legumes, o pequeno Gil, de 9 anos, sentava-se no outro lado da mesa da cozinha e abria seu livro. Mas o estudante não era dos mais atentos. — Que belas cenouras, Malvina! — Ora, patrãozinho, cuide na sua lição! As cebolas, as couves e as outras verduras já estavam bem picadinhas e dentro da caçarola, quando Gil passou o livro a Malvina e começou a lição: — Que é a Graça? A Graça é o sacramento que dá o poder e a graça para curar as fraquezas da alma. — Muito bem. Mas o patrãozinho compreende o que acaba de dizer? Os olhos brilhantes de Gil fixaram-se na criada. — Eu compreendo que é por essas coisas que os padres dizem na missa. Malvina, satisfeita, repete o que lhe tem dito tantas vezes: — Senhor Deus, um padre é o que há de mais augusto na terra! E Gil continua a recitar. • • Alguns dias mais tarde, na manhã do dia 8 de dezembro, Malvina entra no quarto de Gil: — Patrãozinho, acorde! E enquanto desperta a criança, vai lhe dizendo: — Não podemos perder tempo. Foi trabalho obter da senhora a permissão de irmos à festa da Imaculada! A essas palavras, o menino já acordado, fica senhor da situação. O pensamento de celebrar a festa da Santa Virgem o eletriza... Salta do leito e pergunta: — Por que Mamãe não vem também? Malvina poderia responder: "Porque a Mamãe é uma cristã 'à água de rosa' e o Papai não pratica a religião." Mas respeitosa da autoridade, ela traduz seu pensamento por estas palavras: — É porque a Mamãe está fatigada. Dez minutos após, eles atravessam as ruas e estão diante da Catedral. Antes de entrar, Malvina diz ao menino: — Sob tudo, patrãozinho, encomende com fervor o seu futuro à Santa Virgem! • • Os dias se passam. A festa solene da primeira Comunhão chegou. A senhora já não dorme tanto; questões de toalete: seu vestido... o traje de Gil... O fraque do marido — questões de cozinha: conservas — galinha ou peru, creme gelado. Malvina está atarefadíssima. Mas os preparos materiais são, a seu ver, secundários. É a alma do patrãozinho que ela quer bela. E lhe repete: — Uma solenidade de primeira Comunhão só há uma vez na vida! Durante a cerimônia, sempre tão majestosa, o pai, a mãe e Malvina não perdem de vista o Gil. — É o mais bonito de todos, pensa a mãe. — Ele tem garbo! — diz de si para si o pai. — Contanto que seja o mais piedoso! — suspira a piedosa doméstica. À tarde, em vez de ir com os patrões à igreja, Malvina fica em casa por causa do... peru, que do forno exalava um perfume delicioso. — Estão de volta. O Gil vai direitinho à cozinha e se lança nos braços de Malvina. — Então, senhor Gil, está contente? — Parecia que estava no Céu! — E em que pensava então? — Eu pensei, Malvina, que poderia ser padre! • • Anos depois. Gil tem 17 anos. Curso terminado entre louros e afeições. No gabinete, ele discute com seus pais. — Antes de fazer esta "tolice", diz o pai, "reflete". Eu sonhava passar-te os meus negócios... este ano apurei 40 contos... — Desprezas tudo isso? — pergunta a mãe. — Mamãe, minha decisão é irrevogável. Eu quero entrar no Seminário. O pai, colérico: — Isso não passa de ideias incutidas por Malvina! A senhora, vivamente: — Para que a censuras? Não sabes quanto ela nos é dedicada? — Não impede que ela exerça grande influência sobre meu filho! A senhora tenta acalmar o marido: — Sê razoável... Disseste que nunca havias de contrariar o teu Gil. — É ele quem me contraria! Gil compreende que vai ganhando partido, salta ao pescoço do pai. — Quem diria, exclama este, que meu filho único fosse um "padre"! E meio zangados, meio satisfeitos, eles abraçam, demoradamente, o filho. Enquanto se discutia este grave negócio, Malvina orava de joelhos diante da Santa Virgem. • • Mais alguns anos ainda. O senhor, a senhora e Malvina voltam à Catedral, onde acabaram de assistir à solenidade da ordenação de Gil, para receberem sua bênção. Os pais exultam de contentamento. O ter dado o filho único à Igreja, aproximou-os de Deus. Seus pesares de outrora mudaram-se em gratidão, sua indiferença em piedade sólida. Malvina sente-se arrebatada. Os seminaristas começam a desfilar; após eles aparece o padre Gil de São [...]. Adianta-se para seus pais, acompanhado do padre superior que faz questão de ajudá-los, também, como insignes benfeitores que, de há muito, são das obras sacerdotais. O pai e mãe, à vista do filho, lançam-se de joelhos. Malvina, que possui, muito nítida, a ideia da hierarquia, conserva-se de pé: — A primeira bênção é para eles somente, pensa. Os pais e o filho choram. Malvina ajoelha-se, por sua vez. Com um gesto solene, sobre a cabeça desta piedosa doméstica a quem ele deve sua felicidade, o novel padre, marca o sinal da Cruz: — Que a bênção do Pai, do Filho e do Espírito Santo, desça sobre ti, Malvina, e em ti permaneça sempre! A voz do padre e o seu halo tremem de emoção, enquanto que Malvina derrama ondas e lágrimas. E o bom superior, que contempla, muito impressionado, esta cena tocante, pensa consigo: — Que falange de sacerdotes sairiam de nosso belo país, se cada lar possuísse uma só mulher cristã, da têmpera de Malvina! P. M.