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O Nordeste
Fevereiro de 1923 · 16 trechos transcritos
Manchetes desta página
- A visita presidencial às grandes obras de açudagem As impressões do açude “Orós” Em prosseguimento à viagem de visita às grandes obras de açudagem, segunda-feira, às 4h45, a comitiva deixou Patu, em demanda do açude “Orós”. Em quase todas as localidades por onde passava o trem presidencial, a comitiva era alvo de carinhosas manifestações. Às 10h40, o trem parava em José de Alencar, tomando, pouco depois, o ramal que se encaminha para “Orós”, a 43 quilômetros de distância. Esse mesmo ramal, ainda em construção, prosseguirá até Itó. Às 13h15, a comitiva desembarcava em Orós. Numerosa quantidade de povo aguardava os visitantes. O superintendente da empresa de Orós, engenheiro Joseph A. Sargent, acompanhado de outros funcionários, recebeu o presidente. Eng. Joseph A. Sargent Superintendente do “Orós” Em diversos automóveis foram todos transportados até o “Staff-house”, residência dos americanos, onde foi oferecido lauto banquete à comitiva. Durante o mesmo foram trocados cordiais brindes: de Mr. Sargent ao presidente Serpa; e deste à firma Dwight P. Robinson, ali representada pelos senhores F. Robottom e J. Sargent. O serviço de copa esteve irrepreensível. Após a refeição, todos visitaram a cavalo as obras em construção. Primeiramente, os itinerantes subiram à pedreira, de onde estão sendo extraídas as pedras para os trabalhos. Um panorama lindíssimo se descortina do alto: um vale verdejante se alonga numa exuberância prodigiosa de vida e a natureza toda parece combinar-se para aumentar o encanto natural. Pontilhando aqui e ali, avistam-se casinhas de operários. Ao longe, vê-se o boqueirão onde vai ser construído o açude, a maior das grandes obras do Nordeste. E além, numa expansão de tons celestes, divulgam-se as serras do Pereiro e do Camará, limítrofes do Ceará com o Rio Grande do Norte. Em seguida, visitaram o túnel, em construção, na rocha viva, que dista da vila um quilômetro, o qual servirá para esgotar um poço existente no local em que vai ser levantada a barragem. Este poço tem 14 metros de profundidade. O túnel, que terá 800 metros de extensão, estará terminado dentro de 3 meses. A comitiva visitou ainda a usina elétrica, onde se veem 4 motores de 1200 cavalos cada um e 6 caldeiras. Após a visita aos trabalhos, na confortável residência do Dr. José Figueiredo de Paula Pessoa, fiscal da Inspetoria, foi oferecido um lanche à comitiva. Para com todos o Dr. Paula Pessoa e senhora foram pródigos em gentilezas. As obras do “Orós” tiveram início em 1 de dezembro de 1921, sendo o prazo provável de sua conclusão 4 anos, a contar de dezembro de 1922. São as seguintes as dimensões que terá a parede do açude: altura da barragem 70 metros, comprimento 320 metros, volume de alvenaria 350.000 metros cúbicos; a produção do concreto é de 600 metros cúbicos por dia. Até agora o estado sanitário é bom, tendo aparecido apenas alguns casos de gripe. O médico é o Dr. Gilberto Lopes Freire. Orós tem uma população de 8.000 habitantes, dos quais 5.000 são operários; existem ainda 30 americanos e 80 barbadianos. Já se acham determinados os locais para a capela e o cemitério. Em Orós existe sempre a melhor ordem, sendo comandante do destacamento o Tenente José Galdino, que com 30 praças vem mantendo com perfeita segurança a tranquilidade pública. Os trabalhos têm tido maiores progressos de agosto para cá, com a chegada do ramal da estrada de ferro. O reservatório, com as modificações por que passou o projeto, terá a capacidade de 5 bilhões e 180 milhões de metros cúbicos, devendo irrigar cerca de 300 mil hectares de terra. De 80 metros é a abertura do boqueirão. As vilas operárias estão muito bem organizadas: existem seções distintas para homens e para mulheres. Aos operários que mostram maior capacidade de trabalho e comportamento melhor, têm direito a casas mais confortáveis, como incentivo. Em todas as residências há luz elétrica, água encanada e esgoto. Encontram-se em construção o hospital e a casa para o médico. O açude de Orós vai ser o maior do mundo, superando, deste modo, o Elephant Butte, no Novo México, EUA, construído pela United States Reclamation Service, atualmente o maior reservatório do orbe, que tem [...] 3.250.000.000 metros cúbicos. Mensalmente são gastos 250 contos com operários e 100 contos com o material, isto aproximadamente. Estão já prontos 95% dos serviços de instalação, findos os quais dentro de um ano, serão atacados os serviços da construção da barragem. A capacidade da força motriz é 1.000 kW, sendo a sua natureza termoelétrica. A média mensal do número de operários em serviço é de 1.951. O açude terá 450 metros de largura na crista, e 50 metros de altura. Segundo informações que colhemos, a Inspetoria de Secas gastou 250 contos unicamente na construção da casa para residência do fiscal daquela repartição. A organização do trabalho em Orós obedece a métodos aperfeiçoados, aumentando assim, em pouco, a quantidade de serviço, devido ao emprego de maquinismo moderno. O açude represará as águas do Jaguaribe. A impressão dos trabalhos, que teve a comitiva, foi muito lisonjeira. Ainda mais vem aumentar as esperanças que se tem do término feliz daqueles trabalhos, o estar à frente dos mesmos um engenheiro de valor, Mr. Sargent, a respeito do qual ouvimos grandes elogios. Mr. Sargent é vice-presidente da Câmara de Engenharia de Nova York.
- AS GRANDES OBRAS DO NORDESTE RUM. 136 Aspecto geral do acampamento de Poço dos Paus e vilas operárias.
- O trem especial deixou Orós às 16h, em rumo de Poço dos Paus, onde chegou às 21h, ali pernoitando.
- Com a Limpeza Pública Os moradores do Parque da Independência, lado do sul, pedem-nos que reclamemos do senhor encarregado da Limpeza Pública e do senhor Prefeito da cidade contra o fato injustificável de há mais de 8 meses não passem por aquele trecho as carroças do lixo. Desta forma os habitantes daquela zona são obrigados a conservarem nos quintais o lixo, que assim amontoado pode ocasionar alguma moléstia. Esperamos as providências que o caso requer.
Anúncios, notas e expediente
- Expediente Nordeste Redação: Dra. Andrade Furtado e José Martins Rodrigues Administração: A. Ildefonso de Araújo ANO I Fortaleza – Sábado, 10 de Fevereiro de 1923
- Nota social A condescendência para com o vício é uma afronta à virtude. BARTHELEMY
- Anúncio Colégio de São Francisco de Canindé Já se acham abertas as aulas deste conceituado estabelecimento, dirigido pelos abnegados Capuchinhos da Casa de São Francisco, de Canindé. Os alunos que se encontram em férias devem voltar àquele colégio sem demora, perdendo os lugares os que não o fizerem antes do fim do mês corrente.
- Nota social OS NOVOS IMPOSTOS Em prol dos interesses do povo Não somente a indústria, mas também o comércio e, sobretudo, a agricultura que é a fonte inesgotável da grandeza econômica dos povos, precisam da assistência dos poderes públicos para o seu indispensável desenvolvimento. Não é, porém, patriótico, nem humano, o Estado favorecer a indústria por todos os meios que as circunstâncias sugerem e aconselham, espezinhando o comércio, abandonando em absoluto a agricultura e extorquindo a miserável bolsa do povo para aquele fim. Porque se advogam os interesses das indústrias locais, esquecendo-se os da agricultura do Estado? É porque a indústria está nas mãos de opulentos cidadãos que podem arranjar deputados para criarem leis imorais de protecionismo absurdo e penas para sua defesa, enquanto a agricultura ainda está nas mãos da maioria de humildes e pobres camponeses sem o mínimo conforto da parte dos governos, que só se lembram deles para cobrar impostos e chamá-los para o serviço militar. Proteger as indústrias como se quer fazer, atualmente, no Ceará, é enriquecer cada vez mais os nossos poucos industriais com sacrifícios de todo o povo cearense, sempre infeliz. O governo que consentir iniquidades dessa ordem não pode fazer jus à bênção do povo, como por escárnio diz alguém, mas, sim à sua maldição. O povo do Ceará não é constituído somente do pequeno número de operários que trabalham nas poucas fábricas existentes nesta capital. Ainda mesmo, que esses operários tirassem proveito dessa proteção, ao governo assiste o dever imperioso de zelar os interesses do povo, em geral, e não de uma partícula mínima da coletividade. As fábricas alimentam muitos operários sim, mas não os protege; os míseros párias tiram daí o pão cotidiano esgotando as suas energias para enriquecerem os seus patrões, condenados a serem dispensados a todo o momento, quando as forças se lhes forem diminuindo. Os que se opõem à ganância dos industriais da terra que querem a execução de um imposto imoralíssimo, com prejuízo para uma população inteira, estão defendendo os legítimos interesses do povo. Haja vista a atitude simpática do comércio retalhista que nada tem a perder com o tal imposto, porque, afinal, quem o paga é o consumidor — a eterna besta de carga que é o povo; no entanto, os comerciantes não querem se constituir intermediário de uma revoltante extorsão em proveito somente de meia dúzia de felizardos. Felizmente, temos à frente do governo um ilustre filho do povo que tem um passado brilhante, consagrado à causa do povo, e, portanto, não há de permitir que este povo, que o tem em tanta estima, seja sacrificado cruelmente para prosperidade de uma pequeníssima parcela da população e gáudio dos seus defensores, que parecem desconhecer o exemplo de Judas, cujo remorso não o deixou aproveitar o produto de sua infâmia, os trinta dinheiros porquanto vendeu um. C. Tupinambá
- Telegrama TELEGRAMAS DO PAÍS O Dr. Estácio Coimbra festivamente recebido em Recife RECIFE, 8 – A bordo do “Bagé”, chegou a esta capital, ontem, o Dr. Estácio Coimbra, vice-presidente da República. A cidade apresentava aspecto anormal, notando-se grande movimento nas ruas, que se achavam engalanadas. Os vapores surtos no porto embandeiraram em arco. Cerca de duas mil pessoas esperavam, no cais, a chegada de S. Exa. que foi cumprimentado, ao desembarcar, pelo prefeito, chefe de polícia, representante do governador, diretor da Higiene, deputados federais e estaduais, senadores estaduais, comandante da Região, oficialidade da guarnição e da força pública, juiz seccional, chefe do distrito telegráfico, administradores das docas, da recebedoria e da alfândega e demais autoridades federais, estaduais e municipais, além de representações de vários grêmios políticos desta capital e do Interior, representantes dos municípios, e grande massa popular. O vice-presidente da Nação tomou lugar na limusine do Estado, em companhia do oficial de gabinete e do ajudante de ordens do governador, organizando-se, então, um cortejo de mais de 200 automóveis, que tomou a direção da residência do Dr. Leopoldo Lins. Ali se realizou um almoço íntimo, que correu no meio da maior cordialidade. Ao passar o cortejo pela praça da Independência, os senhores Oscar Brandão e João Barreto, em nome do Centro Cívico 7 de Setembro, fizeram entusiásticas saudações a S. Exa. No cais, por ocasião do desembarque, uma companhia do exército e outra da polícia prestaram as continências do estilo. O Dr. Estácio tem recebido numerosos telegramas.
- Telegrama Mercado do Algodão RIO, 8 – O mercado do algodão funcionou, hoje, com movimento mais ativo, não só com relação aos negócios, como às entradas. Os preços, porém, permanecem sem alteração de interesse, com tendência para alta.
- Telegrama Faleceu um marechal RIO, 9 – Faleceu, hoje, pela manhã, o Marechal Celestino Bastos. O ilustre militar ocupou vários cargos de responsabilidade. Inclusive o de chefe do Estado-Maior do Exército, no governo Epitácio, em substituição ao Marechal Bento Ribeiro.
- Telegrama DO EXTERIOR O MARECHAL LUDENDORFF MUNIQUE, 7 – O marechal de campo Ludendorff regressa, hoje, da Áustria. O velho militar foi alvo de uma manifestação hostil em Klagenfurt (Áustria), por parte dos trabalhadores reunidos em frente ao hotel em que se hospedara. Ludendorff tentou seguir para Viena, mas os trabalhadores fizeram parar o trem; e, depois, o obrigaram a se esconder por trás de um lavatório, obrigaram-no a regressar à Alemanha.
- Telegrama Os prejuízos de um terremoto HONOLULU, 9 – Segundo os últimos cálculos, os prejuízos sofridos pelo terremoto de 28 de agosto último e pelas inundações em várias ilhas na costa de Kauai se elevam a 700 mil dólares. Afundaram-se 60 embarcações. Ilhas da região sudeste do arquipélago ainda sofrem as consequências da invasão das águas que atingiram a altura de 15 pés.
- Telegrama Bolsa do Rio RIO, 9 – Foi regular o movimento no mercado do açúcar. Cotações: brancos, $860; e jatos, $780.
- Telegrama República de San Marino ROMA, 9 – Telegramas de San Marino, dizendo que a pequena manta cuja extensão é de 60 quilômetros quadrados está completamente cercada por cristais. Ontem, o 83º aniversário da independência. Todos os sinos da cidade repicaram em comemoração.
- Telegrama No Banco do Brasil regularam as seguintes taxas cambiais: Londres, 1 libra, $41500; franco, $154; marco, $030; lira, $421; escudo, $350; dólar, $1000. O mercado do algodão funcionou estável, sem alteração.