Hemeroteca
O Nordeste
Fevereiro de 1923 · 14 trechos transcritos
Manchetes desta página
- O 8º aniversário do “Círculo de Operários e Trabalhadores Católicos S. José” EDITORES DAS OBRAS DO NORDESTE A PROPÓSITO DAS Magnífica sessão comemorativa
- Realizou-se, anteontem, às 19 horas, na sede social do «Círculo de Operários e Trabalhadores Católicos S. José», concorrida e edificante sessão comemorativa do oitavo aniversário da fundação daquela próspera sociedade. A sessão foi presidida pelo excelentíssimo e reverendíssimo senhor Dom Manuel, amado Arcebispo Metropolitano, ladeado do senhor Ildefonso Albano, prefeito desta capital, e padre Guilherme Vaessen, reitor do Seminário Arquidiocesano. O presidente do «Círculo», nosso digno amigo senhor José Agostinho da Silva, procedeu à leitura de substancioso relatório, por onde aquilatou a assistência o florescimento e ótima direção daquele valioso sodalício de operários católicos. Em sua linguagem simples e conceituosa, o distinto amigo expôs os principais feitos ocorridos no ano social findo, que marca uma fase de real prosperidade, repleta de realizações utilíssimas, promovidas por aquela instituição em bem dos seus associados. Falou, em seguida, o excelentíssimo senhor Dom Manuel, que, em frases de paternal afeto, enalteceu os méritos daquela proveitosa obra de ação social católica, a qual representa, sem dúvida, um dos maiores benefícios prestados no Ceará, pelo nosso amado Arcebispo. Sua excelência mostrou-se otimamente impressionado com os triunfos obtidos pelo Círculo, durante os oito anos de sua existência fecunda e benfazeja. Atribuiu a Deus todas as vitórias alcançadas e disse confiar que o futuro de tão benemérita instituição haveria de ser, nada mais, que a continuação do passado, deste passado evidentemente abençoado pela bondade do Altíssimo. Ao terminar o seu brilhante discurso de saudação aos operários católicos, sua excelência declarou inaugurado o belo quadro da Sagrada Família, obra de talentoso artista cearense, associado do «Círculo», o nosso distinto conterrâneo Vicente Leite. É uma linda tela de cores nítidas, representando S. José na oficina do carpinteiro, auxiliado pelo Menino Jesus, tendo ao lado Maria Santíssima, também entregue ao trabalho. Dom Manuel disse que aquele quadro representava uma lição aos operários cristãos, que devem imitar aquela Família modelo e empenhar todo o esforço para que em seus lares sejam praticadas as nobres virtudes domésticas que enalteceram e santificaram a casa de Nazaré. Após o discurso do eminente Prelado, o reverendíssimo padre Guilherme Vaessen leu os nomes da nova diretoria, a quem o excelentíssimo senhor Dom Manuel declarou considerar empossada. Usou da palavra, então, o doutor Alberto Francisco Moreira, que proferiu vibrante discurso de saudação ao «Círculo». Teve frases de enaltecido elogio para com a organização dos operários cearenses, unidos pelo trabalho e pela Fé, na obra patriótica do soerguimento da nossa nacionalidade. Manifestou o seu entusiasmo pelo que viu naquele augusto recinto, onde se preparam as resistências morais da raça para a ação construtora e meritória do desenvolvimento das nossas indústrias, da constituição das nossas riquezas. Disse que no Ceará se realiza um movimento auspicioso, à sombra dos ideais do Catolicismo. Aqui já se tem uma organização operária, de tão incontestável valor, como o «Círculo São José»; já se conta uma organização de elite da nossa sociedade, que é o «Círculo Católico de Fortaleza»; já se possui um diário católico «O Nordeste»; está-se, pois, em condições favoráveis de prosseguir o bom combate, em prol dos ideais de concórdia e de paz que o Evangelho encerra. Terminou o seu discurso almejando novas brilhantes conquistas à conceituada associação dos operários católicos. Todos os oradores foram freneticamente aplaudidos. Em seguida, houve a exibição de interessante fita cinematográfica, que muito agradou à assistência onde se notavam elementos de todas as classes sociais e representantes das associações operárias da nossa terra. «O Nordeste», que se fez representar na festa do 8º aniversário do «Círculo», deseja àquele valoroso centro de atividade benfazeja um futuro de bênçãos e largas prosperidades.
- Em defesa dos industriais?
- Um senhor X, cujo valor se conhece pela máscara do seu anonimato, vem, de há dias, às coluninhas de certo jornal, em charlatanas, procurando defender alguns industriais da terra no dano que pretendem fazer aos parcos recursos de vida da população desta malfadada terra de secas e de quixotescas patrioteadas, como a que quer impingir o aludido articulista. E o mais interessante é o senhor X, que também deve ser bom músico, sem argumento algum contrário às razões do Memorial apresentado pela «Associação dos Merceeiros» ao governo, procurando desviar o fio da questão e, desorientadamente, atirar a pecha de bolchevique à enérgica atitude dos comerciantes retalhistas do Ceará, somente porque, fechando as suas portas, num movimento justo de solidariedade, foram levar os reclamos dos seus direitos ao íntegro Presidente do Estado, numa representação em que bem se demonstrou a vontade popular. Os merceeiros, por intermédio da sua «Associação», não protestam contra o imposto de consumo equitativamente tributado, e, sim, contra a falta de equidade na sua aplicação, o que produz, como consequência condenável, além de outras, a aplicação e cobrança de um selo de 50 réis por cada maço de cigarros ordinários, valor este, aliás, que os industriais não pagam ao Estado, mas cobram integralmente dos consumidores. É este um fato contra o qual não pode subsistir argumento, a não serem os sofismas que obedecem a interesses argenteos. O canto de sereia do articulista não entoa aos nossos ouvidos, como nos seus, provavelmente, assumem proporções de vertigem os sons do seu mundo. Venha às claras e escreva coisas sérias, para merecer cabal refutação. Saiba mais o senhor X que, dentro da ordem e do direito, os merceeiros hão de manter a sua atitude, porque ela representa, não só a vontade coletiva, mas, também, a absoluta decisão do povo, em não se submeter à desumana prepotência do capitalismo. É esta a verdade, senhor anônimo... e vá lamber sabão, com selo de consumo, ou sem ele. Euclides Temóteo Em 15/2/1923.
- ENDEMIAS
- Escoteiros da Instrução Pública ofereceu-nos o número primeiro de “O Escoteiro”, do ano último, revista cuja publicação começa a fazer, agora, a Associação Brasileira de Escoteiros, com sede em São Paulo. A Associação de escoteiros é um congresso de homens patriotas, mas patriotas de ação e de energia, e não só de palavras, que entendeu de começar a sua campanha nacionalista, a sua campanha de alto e nobre civismo, pela educação integral dos moços, procurando formar, para o futuro do país, estadistas que não sejam um produto só da política, dominados pelas ambições pessoais, mas homens de moral rígida, cheios de qualidades cívicas, que ajam sob a inspiração do patriotismo em benefício dos interesses nacionais. O escotismo não é só uma escola de educação física e militar dos jovens que ainda não alcançaram a idade para o serviço militar. É claro que se dedica a esse preparo necessário da mocidade. Mas tem também outros fins muito nobres. Educa o caráter e a virtude inquebrantável, instrui civicamente o menino, tornando-o um cidadão consciente dos seus deveres e cioso dos direitos que a Constituição e as leis lhe asseguram. O movimento do escotismo, iniciado em São Paulo, cuja Associação é presidida pelo doutor José Carlos de Macedo Soares, vai-se alastrando, beneficamente, por todo o País. No Rio de Janeiro, está fundada já, e bem organizada e difundida, a Associação de Escoteiros Católicos, de cujos notáveis progressos tivemos ocasião de dar notícia, há poucos dias, em telegramas da Capital da República. O escotismo vai estendendo sua ação aos demais Estados, sendo de notar o seu desenvolvimento em Alagoas, Amazonas, Goiás, Minas, Pernambuco e Rio Grande do Norte, estado em que a instituição já foi oficializada por decreto do governador, que o pôs sob a fiscalização da instrução pública. De todo esse movimento auspicioso, dá-nos conta a revista «O Escoteiro», de São Paulo. No Ceará, já se iniciou também, graças aos esforços e propaganda do doutor Lourenço Filho, diretor da instrução pública, uma propaganda eficaz do escotismo, de que já se colheram alguns frutos. Foi instalada, já, a comissão estadual de escoteiros, contando com [...] núcleos organizados em Fortaleza, e com mais vários em organização no interior do Estado. A propaganda foi iniciada em boa hora, e felizmente, e Deus queira que sejam sempre abundantes e úteis os frutos por ela colhidos. O «Escoteiro» estampa, no 1º número, nítida gravura em que se veem os escoteiros do Colégio Castelo Branco, deste Estado, filiados à novel comissão estadual que o professor Lourenço Filho fundou. Somos gratos ao distinto educador pela gentileza da oferta.
- A ocorrência do *Barbeiro*, inseto hemíptero [...], transmissor da moléstia de Chagas ou papo, outros hemípteros hematófagos, e dos mosquitos, dípteros Culicidae, transmissores da febre amarela, etc., no Ceará. De barbeiros conhecemos as espécies seguintes: *Triatoma megista* Burm. (*Conorhinus megistus* Burm). *T. maculata* Erich. *T. brasiliensis*, Neiva, e a espécie próxima *Rhodnius nasutus* Stal — todos conhecidos pelos nomes vulgares de bicado, chupão, chupa pinto e procotó. *T. megista*, hematófago assaz vulgar e conhecido no Estado, especialmente, como hóspede assíduo das capoeiras é o flagelo dos pintainhos e frangos. Passando o dia oculto no seu esconderijo, sai à noite à procura de alimento. Pica os pintainhos, de preferência na região anal, produzindo imediatamente enfraquecimento dos membros. Poucos escapam; morrem conforme a idade e robustez, de dois a oito dias depois de picados. Aos frangos pica, quase sempre, na região axilar, e, anemiando-os, retarda-lhes o crescimento, não deixando de causar a morte a muitos. Quanto ao homem, apesar de não poupá-lo, pensamos que só acidentalmente transmite o flagelado *Trypanosoma cruzi*, agente patológico da moléstia de Chagas, porquanto pelos poucos casos que, julgando serem de papo, temos constatado na Capital, com uma população de 80 a 100 mil almas, e os raros casos observados em muitos logradouros do Interior, e, não nos constando ainda que, em nenhuma das localidades do Estado em que tenham aparecido bicudos em quantidade considerável, a sua presença tenha coincidido com casos da moléstia, poderemos, felizmente, julgar o papo como moléstia esporádica entre nós. *T. maculata*. Desta espécie, pela sua raridade, nada podemos dizer. *T. brasiliensis*. Esta é a mais social das três espécies, pois todos os exemplares que temos adquirido, têm sido caçados indistintamente em choupanas, casas rústicas e ricas, não deixando, em muitos casos, de atacar todas ou parte das pessoas que as habitam, não coincidindo, porém, com as suas investidas, o aparecimento de morbidez de espécie alguma. *Rhodnius nasutus*. Os primeiros exemplares que adquirimos, deste hematófago, foram duas ninfas colhidas, na cidade de Maranguape, entre as penas de um periquito ainda frango, que apresentava, no entanto, boa saúde. Algum tempo depois, recebemos, da mesma procedência, um inseto adulto mais duas ninfas, todas já mortas, que tinham sido colhidas alguns dias antes. Ao anoitecer, picando um cabrito doente. Desejosos de fazer o exame do sangue do cabrito, apressamo-nos em pedir que no-lo remetessem, mas, infelizmente, o animal já tinha morrido. *Cimex lectularius* (Percevejo). Hemíptero Cimicidae. Hematófago cosmopolita, conhecido desde o tempo dos romanos, pois Plínio e outros escritores daquele tempo, a ele se referiam em seus trabalhos. Inseto este tão abundante nos colégios, quartéis, hospitais, choupanas, casas habitadas por proletários, e outras mal aceadas, pensamos que seja, talvez, o principal disseminador das diversas epidemias que têm assolado o Ceará, em todos os tempos, especialmente da malária que, de tempos a tempos, se aniquila com tanta intensidade na Capital e em muitas cidades, como ultimamente em 1918, sendo os Culicidae, *Plasmodium malariae* (Laveran), o produtor deste. Entretanto, o percevejo, a reproduzir-se esquecido, como em pousos, dos médicos e autoridades sanitárias, não lhes lamenta, perfeitamente, a ideia que ele possa ser, talvez, um inimigo a quem devam guerrear tréguas. Dos mosquitos temos catalogado até hoje as dez espécies seguintes: *Stegomyia calopus* Meigen (*Aedes fasciata* Laveran). *Culex fatigans* Wiedemann. *Culex confirmatus* Arribálzaga. *Cellia* (*Anopheles*) *argyrotarsus* Desv. *Cellia* (*Anopheles*) *albirrostris* Wied. *Psorophora dilatata*? *Aedomyia squamipenna* Arribálzaga. *Uranotaenia lunata* Theob. *Sabethes longipes* Theob. *Mansonia* (*Taeniorhynchus*) *titillans* Walker. Os Culicidae são aqui geralmente conhecidos por maruim e também, de alguns anos a esta parte, por carapanãs, termo introduzido pelos paraenses. Cearenses que têm voltado da Amazônia, sendo chamados 'rioenses' por pouca gente. Mosquito é o nome pelo qual são conhecidos os pequenos dípteros como o *Ophthalmomya larvipennis* Loew., *Piophila casei* Lin., transmissores das oftalmias, máxime no período invernoso: *Drosophila punctulata* Loew, e outros fedelhos da ordem. *Stegomyia calopus*, mosquito preto. É esta espécie tão comum na Capital que bem se lhe pode dar o qualificativo de mosquito doméstico. De hábitos diurnos, da mesma forma que no Estado do Pará, como verificou Goeldi (que durante o dia procura abrigar-se e assim fazendo, desempenha o papel ignominioso de transmissor do parasita da febre amarela, só o fazendo à noite, em casos excepcionais). Isto ao contrário do que se dá no Rio de Janeiro, onde pica durante a noite, segundo as informações das comissões médicas e sanitárias que ali têm vindo estudar aquela malária e, como diz J. Thuart, 'Os estrangeiros compreendem facilmente, desde logo, que para eles é um grande perigo habitar a cidade do Rio de Janeiro, onde a febre amarela reina, entretanto, de forma endêmica. Basta-lhes, para fugir, não irem ao Rio senão durante o dia e irem passar a noite em Petrópolis.' Ora, sendo a febre amarela também endemia em Fortaleza, o que não se pode contestar, e, tendo, como garantia da sua estabilidade, a abundância do mosquito transmissor do [...], dependendo a sua intensidade, ou antes, o número de vítimas que faz anualmente, da quantidade de estrangeiros aqui aportuguesados, registrando-se até, de uns anos a esta parte, casos de febre [...] esporádicas, em indivíduos de outros Estados e mesmo em [...] habitantes das nossas [...], e muitos [...], que têm [...] ardência para a [...], como a Fortaleza livre deste terrível mal que tem ceifado tantas vidas. [...] poderiam concorrer para o progresso e melhoramento [...]. Quando quebra [...] seus focos principais os bairros proletários. Assim pensamos [...].
Anúncios, notas e expediente
- Expediente Nordeste Redação: Drs. Andrado Furtado e José Martins Rodrigues Administração: A. Ildefonso de Araújo Não há educação sem Moral, do mesmo modo que é impossível a educação moral sem a Religião; LEIBNITZ Fortaleza, Sexta-feira, 16 de fevereiro de 1923 Número 1
- Telegrama Resposta do Ministro da Viação à Associação Comercial
- Telegrama O senhor Alfredo Salgado, vice-presidente da Associação Comercial do Ceará, recebeu o seguinte telegrama: RIO, 15. — Agradeço cordialmente à Associação Comercial as preciosas informações que acaba de dar-me em telegrama anteontem, da visita que uma Comissão de ilustres diretores seus, em companhia do Presidente do Estado, fez aos grandes açudes em construção no Ceará. Essa comunicação é oportuno e eficaz serviço prestado por essa benemérita corporação ao governo, empenhado em fixar para a execução das obras do Nordeste um programa que permita concentrar atividade nas mais necessárias, de modo a assegurar a realização destas, propósito este que poderia ser comprometido pela dispersão de esforço e elevação de despesas além das probabilidades financeiras do país. Tenho prazer em verificar que as sugestões da Associação correspondem ao meu próprio pensamento e continuo a contar com o seu autorizado conselho para a realização do desejo comum nosso, de prosseguir a execução de trabalhos de tão alto interesse para Ceará e Brasil. Pretendo, como o seu telegrama lembra, visitar as obras do Nordeste, o que me permitiria também rever a terra à qual me prendem tantos laços de afeto e gratidão. Serei feliz se múltiplos deveres me pesam me facultarem cumprir esse meu voto. Queiram Vossas Excelências e seus ilustres colegas aceitar meus agradecimentos. Saudações. FRANCISCO SÁ
- Nota social Círculo Católico de Fortaleza
- Nota social A diretoria do «Círculo Católico de Fortaleza» manda celebrar, domingo, às 7 horas, na Matriz do Patrocínio, uma missa em ação de graças pelo restabelecimento de seu digno e esforçado presidente, doutor Raymundo Arruda. A missa será cantada à grande orquestra, sendo oficiante o excelentíssimo reverendíssimo senhor Arcebispo Metropolitano. Em frente à igreja, tocará uma banda de música. A diretoria do Círculo, por nosso intermédio, convida todos os parentes, amigos e correligionários do doutor Raymundo Arruda para essa justa homenagem ao seu distinto presidente.
- Nota social «Tacape»
- Nota social A novidade musical destes dias foi o interessante ragtime «Tacape», da lavra do jovem Miguel Tavares de Lima, o qual vem tendo grande sucesso. Esse ragtime é oferecido ao apreciado Club Caixeiral e ao seu presidente Vicente Roque. A «Ceará Musical» está editando «Tacape», devendo em breves dias aparecer à venda.