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O Nordeste
Março de 1923 · 16 trechos transcritos
Manchetes desta página
- A questão do algodão A manutenção de campos de sementeira no interior do Estado Vamos supor que nada falha ao agrônomo encarregado da direção dos serviços nas fazendas de sementes, e que ali se trabalhe com a atividade de uma propriedade particular bem dirigida, sem empregados impostos pelo filhotismo ou politicagem. Cada campo de sementeira tem em vista selecionar de preferência e distribuir as sementes apropriadas às zonas a que vai servir. Os trabalhos todos, executados pela lavoura mecânica, exclusivamente a força animal, têm o efeito de mostrar aos vizinhos a vantagem prática desse meio, em comparação com o arcaico sistema do plantio em terras com tocos e limpas à enxada. O Ceará nunca tem lavoura rendosa porque os terrenos que se plantam são, na maioria, cheios de tocos, deixados pelo fogo, onde o arado não poderia penetrar. Acontece que a terra, assim bruta, na pujança de um viço natural, reforçado com a cinza da queimada, só no primeiro ano dá algum interesse ao plantador, em face da despesa que ele tem de pagar para três, quatro e mesmo cinco limpas até a colheita. Essas limpas absorvem inteiramente o lucro do agricultor, que abandona aquela terra em busca de outra, onde, em nova queimada, a potassa da cinza lhe compense o sacrifício. No entanto, se o terreno fosse destocado, gradeado e escarificado antes do plantio, apenas uma ou duas limpas seriam necessárias, e essas mesmas mecanicamente, com cultivadores pela quinta parte do valor braçal. Daí a lavoura do Estado estar, quase exclusivamente na mão do caboclo, que pelo gosto íntimo de ter seu roçado, deixa de trabalhar a salário de 2$ por dia em qualquer parte, para cultivar sua roça, de onde, em média, retira 1$400 diários! É por isso que nunca se viu uma organização séria para exploração agrícola entre nós, e, no interior, é o comércio que adianta ao caboclo o que ele precisa para a sua miserável manutenção, liquidando com ele na colheita com tal usura que o deixa em triste e lamentável dependência. Aquele que desenvolve uma plantação e chama assalariados, tem que trabalhar no meio deles, aproveitando-lhes todas as energias, porque o resultado é tão pequeno, que, de qualquer descuido, advirá o desequilíbrio fatal que lhe arruína o negócio. Só fazemos exceção à lavoura de baixios frescos, particularmente a cana, que é das culturas do Estado a mais rendosa e a única que tem dado relativa independência aos agricultores, por isso que disputam a largos preços tais terras privilegiadas. Qualquer outra cultura só se anima e se torna proveitosa, compensando os gastos da rotina, quando o preço do produto atinge limites escandalosos. Antes da guerra europeia, quando não eram irregulares as condições universais, vinha-nos feijão do Sul para ser vendido aqui a 12$ o saco de 60 quilos e até de menos; no entanto, nenhum plantador rotineiro daqui poderia entregar nosso feijão a S. Paulo por menos de 30$! Fala-se de barateza e abundância de gêneros do Cariri; é preciso, porém, não esquecer que ali, até bem pouco tempo, um homem válido ganhava $300 diários, anormalidade fatalmente extinta pela luz da civilização. Se a Argentina e os Estados Unidos fossem plantar trigo em terras com tocos, certamente só milionários poderiam comer pão aqui. É fora de dúvida, pois, que sem lavoura mecânica é impossível haver agricultura, no sentido perfeito da expressão. Feita esta ligeira digressão, temos em vista unicamente frisar que, enquanto não se disseminar a lavoura mecânica entre nós, jamais teremos indústria rural para competir com quem quer que seja. Como se vê, os tais campos de sementeira legam ao Estado o soberbo efeito de provar pelo exemplo a vantagem da prática da lavoura mecânica, sendo esse um serviço incalculável que se presta ao futuro do Ceará, dependente inteiramente de sua generalização, considerando-se no campo o tesouro de nossas riquezas. A localização das fazendas de sementes proposta pela missão Pearse é a melhor possível, e mostra que o assunto foi cuidadosamente observado, tendo-se em vista a melhor divisão geográfica do Estado. É impossível ideia mais prática do que a criação do posto central em Quixadá, e campos, em Juazeiro, União e Sobral. Discordamos apenas de um ponto de vista da missão Pearse: o de que tal serviço seja custeado e mantido pelo Governo Federal. Para isso, temos motivos importantes que vamos expor: A vantagem da instalação de fazendas de sementes é, ao nosso ver, servir de exemplo aos homens do campo, que deverão encontrar ali o amparo e facilidades de meios de que carecem para adaptar-se aos modernos métodos de cultura, deles desconhecidos. Assim é que, ali se devem achar à venda, pelo custo, as máquinas agrícolas necessárias, desinfetantes para expurgo das sementes e combate às pragas, e, tudo enfim de que o agricultor precise para modernizar-se. Esse serviço de proteção e assistência à lavoura deve ser feito pelo Estado, que nenhum prejuízo terá nisso, desde que o entregue a pessoas capazes; e o Estado deve ser o primeiro a não querer entregar a direção ao Governo Federal, cujas coisas não têm bom, e todas as soluções dependendo do Ministério, no Rio, nunca teriam a eficiência nem a pronta ação que é de esperar da direção regional, isenta de nocivo burocratismo. Ademais, o Estado já conta com uma escola de agronomia, e os agrônomos ali formados precisam de qualquer modo ser amparados, aproveitados, ou seja mesmo, valorizados pelo Estado, para maior estímulo da classe, que, devotada ao extremo, e sobretudo patrioticamente interessada no renome regional e particularmente no nosso futuro econômico, só poderia trabalhar com entusiasmo, gosto e carinho que não negamos em colegas de outros Estados, mas que nem por isso devemos desprezar nos nossos. O Sr. Pearse jamais se lembrou do que são as coisas federais, e ignora que um simples papel dependente de solução de um ministério é o mesmo que um atraso. O Estado, para levar a sério o caso, devia ter ciúme do serviço e fazer questão de executar a obra de soerguimento de nossa agricultura, porque está em condições de fazê-lo melhor que o governo federal. O Estado que discuta à parte com a União os favores e vantagens que aquela queira proporcionar, visto que ambos se interessam. Nunca, porém, confiar-lhe a direção que jamais seria vantajosa em confronto com o que o Estado pode e lhe é fácil fazer. Tais fazendas de sementes seriam lentamente convertidas em fazendas-modelos, estações de monta, etc., aproveitando futuramente à pecuária, que precisa ser amparada e assistida. Toda gente sabe o grau de perfeição que o Estado de São Paulo imprimiu à Escola Agrícola de Piracicaba e o quanto se tem esforçado o governo federal para lançar-lhe mão, sem ter conseguido até hoje a fundação de estabelecimento igual! A Escola de Piracicaba é o modelo do ensino agrícola no País que o governo federal jamais conseguiu igualar ou imitar. Se o governo do Estado não tiver bem clara a compreensão de que o algodão é seu sangue e, ao contrário, confiar a um mecanismo defeituoso a obra de sua valorização, que se impõe com urgência, perderá uma excelente oportunidade de prestar o mais relevante serviço ao Ceará. Os governos, até hoje, bem pouco ou nada têm feito em prol dos interesses agropecuários do Estado, entregando a produção, de onde tiram os impostos para o custeio orçamentário, à triste sorte de viver de si mesma, remontando os métodos e processos agrícolas ao tempo de nossos avós, sem modificação digna de nota. - D. T.
- BENEFICENTE DA SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE FORTALEZA Realizou-se no dia 19 do corrente, a posse da Mesa Administrativa da Beneficente da Santa Casa de Misericórdia de Fortaleza, eleita para o ano social de 1923 a 1924, às 13 horas no salão nobre de suas sessões, sob a presidência de S. Exa. Revdma. o Sr. Arcebispo Metropolitano, D. Manuel da Silva Gomes, provedor, ladeado pelos Srs. Coronel Francisco Pires de Holanda e Dr. Manoelito Moreira, achando-se presentes diversas pessoas gradas, que foram recebidos por uma comissão de mordomos, para este fim designada. S. Exa. Revdma. o Sr. Provedor declarou aberta a sessão. Pelo 1º escriturário João Manoel Rodrigues foi lida a ata da sessão da Assembleia Geral dos sócios da Beneficente da S. Casa de Misericórdia, realizada em 4 do corrente, para a eleição de mordomos e suplentes. Prestaram o respectivo compromisso o Sr. Dr. Manoel Antônio de Andrade Furtado como mordomo e os Srs. Dr. João de Deus Cavalcanti, Leandro Pimenta Lyra e Milton Costa Freire, como suplentes de mordomos, os quais assinaram o respectivo termo de conformidade com o art. 34 dos Estatutos e tomaram posse dos seus cargos, deixando de o fazerem os Srs. mordomos, Antônio de Mattos Porto, Dr. Edgard Augusto Borges, Desembargador José Moreira da Rocha, Raimundo da Silva Frota, Francisco Barcellos, João Ferreira da Costa, Dr. José Joaquim de Almeida Filho, Dr. Luís Pacífico Caracas, Álvaro Nunes Weyne, José de Magalhães Porto e Dr. Barão de Studart, e os suplentes de mordomos Srs. João Sobreira de Andrade, farmacêutico Thuríbio Motta, Sr. Pedro Freire Sidrim, Tertuliano de Castro e Silva, Dr. Alberto Eloi da Costa e Pedro Philomeno Ferreira Gomes, por terem sido reeleitos. Em seguida foi lavrada a ata da sessão de posse e assinada por todos presentes.
- Dolorosa notícia RIO, 21. — Causou aqui profunda tristeza a notícia de ser gravíssimo o estado de Dom José Pereira Alves, recentemente eleito Bispo de Natal.
- O aniversário da inauguração da Escola Normal Festeja, hoje, a Escola Normal do Ceará o 39º aniversário de sua inauguração. A Escola tem sido, e é hoje ainda mais, um excelente estabelecimento de ensino, onde as moças se armam cavalheiro para as lidas afanosas do magistério público. Em 39 anos de existência, a Escola Normal tem prestado ao Estado os mais assinalados serviços, dali saindo brilhantes turmas de professoras primárias que nos engrandecem e honram pela sua cultura, competência e dedicação. A Escola, criada pelo regimento expedido por ato de 23 de agosto de 1880, em execução da lei n. 1590, de 28 de dezembro de 1879, foi inaugurada em 22 de março de 1884. Era presidente da província, então, o Dr. Sátiro de Oliveira Dias, o mesmo que, a 25 de março de 1884, declarou o Ceará livre de escravos. Foi seu primeiro diretor o professor José de Barcellos, cearense notável pela sua vasta ilustração em línguas, pedagogia e humanidades em geral, e ao qual deve aquele estabelecimento numerosos anos de uma administração criteriosa e profícua. A Escola Normal é dirigida há já alguns anos pelo Dr. João Hipólito de Azevedo Sá, que lhe tem imprimido muita disciplina e correção. Junto a ela, e subordinada à mesma, funcionam, atualmente, a Escola Modelo e o Curso Complementar, criados pela reforma do ensino. É em consequência também da reforma que se está erigindo, na praça Figueira de Melo, magnífico prédio, nas exigidas condições pedagógicas, para nele funcionar a Escola Normal, devendo o mesmo ser inaugurado ainda este ano. O corpo docente da Escola está, atualmente, assim constituído: Língua vernácula, Padre Clímaco Chaves, de licença, substituído pelo Dr. José Martins Rodrigues; Francês, Júlio de Matos Ibiapina, substituído por D. Alpha Rabello Albano; Geografia, D. Júlia Carneiro Leão de Vasconcelos; História Pátria e Instrução Cívica, Dr. Antônio Teófilo O. de Oliveira; Pedagogia, Dr. Lourenço Filho; Aritmética e Álgebra, D. Luísa M. César G. de Araújo; Física e Química, Dr. João Hipólito; História Natural, Dr. Amâncio Philomeno. Fazem parte também do corpo docente, como mestras de aulas, D. Julieta Sampaio, D. Arma Sâmico Passos e D. Lydia Freire. Na data de hoje, felicitamos os professores e alunas da Escola Normal, desejando ao proveitoso estabelecimento de ensino a continuação de sua vida próspera e profícua.
- O "MEIO FIO" NOS PASSEIOS A prefeitura vem fazendo, de último, um ótimo melhoramento nos passeios das casas da cidade: a colocação dos meios-fios nas calçadas. É esse um beneficiamento de que, há muito, necessitava Fortaleza. Um fato, porém, que chama a atenção de todos é o pouco caso dos proprietários em fazerem logo os reparos devidos nas calçadas, depois de colocados os meios-fios. Assim, muitas casas, há alguns meses, se encontram com os seus passeios intransitáveis, como o prédio em que funciona o Telégrafo Nacional, a rua Senador Pompeu, entre Trincheiras e Guilherme Rocha, a rua Liberato Barroso, entre Senador Pompeu e Barão do Rio Branco, e muitas outras ruas, em que existem casas com calçadas desmanteladas. A Prefeitura concede um prazo para os proprietários consertarem os passeios, findo o qual são multados os infratores. Mas, ao que parece, nem essas medidas da Prefeitura põem mais ativos os donos de casas. Chamamos a atenção do Sr. Prefeito Municipal para a necessidade de serem terminados os aludidos reparos, em benefício dos transeuntes.
- O Ministério da Guerra doa terrenos para uma Igreja RIO, 20. — No Tesouro, foi lavrada a escritura de doação à Mitra Metropolitana desta capital, por intermédio do Ministério da Guerra, de uma área de terreno na Vila Militar, com 75 metros de frente na Avenida Duque de Caxias, e 25 metros na rua Tenente Nepomuceno. Esse terreno é destinado à construção de uma igreja na mesma vila.
Anúncios, notas e expediente
- Expediente O Nordeste V. Andrade Furtado e José Martins Rodrigues Administração: A. Ildefonso de Araújo ANO I | Fortaleza — Quinta-feira, 22 de Março de 1923 Nunca joguei com princípios, nunca os prostituí a interesses. Rub garbosa NÚM. 219
- Nota social Sonetos de Júlio Maciel Gatos-pingados Gatos-pingados! Que fechadas cataduras! Auxiliares da morte, em seu lidar funéreo. Tudo quanto lhes fere o tato às mãos impuras são alças de caixões e pás de cemitério. Exercem sobre mim esses de almas escuras Diabólica influência, prestígio deletério, Tal se a morte os fizera ao pé das sepulturas Depositários fiéis de todo o seu mistério. Vê-los ao longe, apraz: são bonecos de engonço, alardeando galões, em librés ordinários. Mas não lhes sofro a voz de agouro e o olhar esconso, Pois se a voz algo tem de luctuosas árias, De ofício e canto-chão, de réquiem e responso, — O olhar lembra o fulgor das tochas funerárias!
- Telegrama Telegramas DO PAÍS Circular do contador geral da República às contadorias nos Estados RIO, 20. — Pelo contador da República foi expedida a seguinte circular: "O contador geral da República declara às diferentes contadorias seccionais, nos Estados, para seu conhecimento e fins convenientes, que as terceiras vias de empenhos e as segundas das contas a que se referem os artigos 231 e 201 do Reg. aprovado com o Dec. 15.783, de 8 de novembro de 1922, devem ser encaminhadas às respectivas delegacias fiscais, que, nos Estados, superintendem e centralizam o serviço de contabilidade, à vista dos créditos que lhes são distribuídos para as despesas por conta dos diversos ministérios, e confeccionam os respectivos balanços, e assim como, na forma estabelecida pelos artigos 249 e 251 do citado regulamento, organizam a relação geral dos restos a pagar."
- Telegrama O crédito para a Tabela Lyra, no Ministério da Guerra RIO, 20. — O ministro da Guerra enviou ao seu colega da Fazenda as tabelas organizadas pela Diretoria da Contabilidade de Guerra, consignando o crédito de 1.050:550$888, necessário ao pagamento das gratificações da Tabela Lyra, no Ministério da Guerra, no corrente ano.
- Telegrama A Profilaxia do Amazonas acautela-se contra a varíola RIO, 20. — O diretor da Saúde Pública determinou providências junto ao diretor da Defesa Sanitária Marítima e Fluvial e junto à Superintendência de Navegação, no sentido de fazerem parada em Parintins, na fronteira do Amazonas, os navios que sobem os rios e não escalam por Manaus. Essa providência, solicitada pelo chefe da profilaxia rural, no Amazonas, visa acautelar o Estado contra a invasão da varíola, sendo os passageiros inspecionados e vacinados em Parintins, onde se acha um médico incumbido de fazer esse serviço.
- Telegrama Fábrica de tecidos RIO, 20. — Estão tratando de fundar, em Uberaba, uma fábrica de tecidos, com o capital de 1.000 contos. O Senador Francisco Sales subscreveu 600 contos, sendo o capital completado por capitalistas uberabenses.
- Telegrama Empréstimos: motivos de humilhação para o Brasil! RIO, 20. — Comunicam de Londres que, no relatório anual da Associação dos portadores de títulos estrangeiros, foram feitas críticas a diversos Estados e cidades do Brasil, por se atrasarem no pagamento dos juros e amortização dos empréstimos.
- Telegrama Um padre salesiano estuda processos práticos de ensinar as crianças RIO, 20. — O Padre Antônio Atar, salesiano, dedicando-se ao estudo de métodos práticos para o ensino das primeiras letras, tem concluído e breve o porá em prática um processo para ensinar as crianças a ler por meio de brinquedos úteis. Organizou três métodos: o popular, o familiar e o mistral, que, gradativamente, produzirão resultados, e acaba, agora, de elaborar quadros explicativos da leitura, em número de sete, com atrações coloridas a policromia, com interessantes desenhos.
- Telegrama Os planos da oposição BAHIA, 21. — O Diário de Notícias divulgou o plano da oposição de prender os próceres da atual situação política, e prender o jornalista Vanorando Rego às masmorras do Rio, e [...].
- Telegrama RECIFE, 21. — [...]