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O Nordeste
Abril de 1923, página 53 · 15 trechos transcritos
Manchetes desta página
- Do Vale dos Reis Atualidades A imprensa parisiense, à semelhança do que acontece em Londres, trata ultimamente, com vivo interesse, das descobertas feitas por sábios ingleses no chamado Vale dos Reis, no Egito. «Le Pelerin» publica a respeito sugestivos comentários, no sentido de mostrar que aos cientistas franceses cabe a honra da iniciativa das últimas portentosas conquistas no domínio da egiptologia. Diz aquele conceituado órgão do pensamento gaulês que, desde 5 de novembro último, data da descoberta do túmulo do faraó Tutancâmon, aquele soberano egípcio logrou alcançar no mundo verdadeiro prodígio de atualidade. Os jornais e as revistas ocupam-se e continuam a tratar dias e dias das descobertas da civilização no velho país africano. As riquezas arqueológicas, postas à luz, fazem a alegria dos sábios e o valor artístico dos objetos encontrados não tem sido menos apreciado. Entre os visitantes de maior nota que têm ido admirar de perto, nos túmulos recém-descobertos, todas essas surpreendentes maravilhas, conta-se a Rainha dos belgas que empreendeu a sua viagem em avião. Esperava-se, realmente, chegar em breve ao ponto principal do hipogeu, o sarcófago do faraó; mas, o adiantamento da estação calorosa, provoca uma completa exaustão de forças entre os ousados pesquisadores históricos. O sol ardente que dardeja fogo vivo no limiar do deserto, torna os serviços de exploração, sobremodo, penosos. As escavações devem, pois, recomeçar no outono próximo, em melhores condições. Por mais curiosa que seja a descoberta de Lord Carnarvon (que ultimamente encontrou a morte, vítima da mordidura venenosa de um escorpião) não é de justiça que sejam esquecidos os sábios franceses que abriram o caminho e forneceram elementos seguros aos pesquisadores atuais daquelas antiguidades. Entre eles, figura em primeira plana, Champollion, cujo centenário foi recentemente comemorado em todo o orbe, pois que se trata, de fato de uma glória não somente da França, mas da humanidade. Maspero, eminente sucessor de Mariette, é hoje um dos mestres universalmente autorizados da egiptologia. As escavações empreendidas e executadas sob sua direção, deram em resultado a descoberta de trinta e seis sarcófagos de reis e rainhas da 17ª dinastia. Foram igualmente visitadas mais de vinte pirâmides, inexploradas até então, tendo ele descoberto, em cinco dentre elas, um número considerável de textos. É a ele também que se deve o descobrimento do templo de Luxor, o desenterramento da grande esfinge, a exploração metódica das pirâmides de Mênfis e a exumação de Karnak. Todos esses trabalhos, como é óbvio, contribuíram para manter a influência francesa às margens do Nilo.
- Para as despesas do alistamento militar no Ceará RIO, 10 — O ministro da Guerra solicitou providências ao da Fazenda para a distribuição do crédito de 19:700$, à Delegacia Fiscal no Ceará, para atender às despesas do alistamento e sorteio militar nesse Estado.
- O carnaval em S. Paulo — Segundo as estatísticas, em S. Paulo, no carnaval deste ano, foram gastos 22 mil contos. Só em lança-perfumes foram absorvidos 12 mil contos! Que desperdício censurável!
- VISITA AO GRUPO ESCOLAR BOULEVARD VISCONDE DO RIO BRANCO A diretoria da instrução acaba de franquear a visita da imprensa os grupos escolares desta capital, onde já estão sendo praticados, com o maior êxito, os modernos processos de ensino, aqui introduzidos com a reforma. Atendendo, pois, ao convite da diretoria, visitamos, ontem, em primeiro lugar, o grupo do Boulevard Visconde do Rio Branco, cuja diretora é D. Beatriz Ibiapina Siqueira, e subdiretora D. Carmélia Dutra, de uma e outra das quais conhecemos de perto a competência, esforço e dedicação à causa do ensino. O grupo funciona em prédio alugado, que não possui as necessárias condições de higiene escolar, apesar de que é suficientemente arejado, isolado que está dos demais prédios. Nas salas de aulas, porém, devido à sua disposição, nem sempre a luz penetra por onde mandam as prescrições de higiene das escolas. É, entretanto, pensamento do governo construir prédio próprio para a localização daquele grupo. A matrícula se eleva, já, a 210, na seção feminina, e 186, na masculina. Visitamo-lo durante as aulas da seção feminina, verificando que a frequência, ontem, foi de 149 alunas. Ali tivemos ocasião de assistir a diversas aulas. No 1º ano, série A, cuja professora é D. Aída dos Santos e Silva, presenciamos o ensino da leitura, pelo processo da sentenciação a crianças analfabetas, verificando a habilidade da professora e o notável aproveitamento das meninas, que já leem com facilidade qualquer sentença e escrevem, legivelmente, em caligrafia vertical. Nas séries B e C, dirigidas por D. Aládia Borges Moreira, assistimos a uma aula de trabalhos de tecelagem, vendo numerosos destes feitos pelas alunas: cesteirinhas de papel, estreitas, caixas, etc. O ensino dos trabalhos manuais, nas escolas, que há quem censure, é, entretanto, digno de louvor; não é um fim propriamente, mas um meio de tornar mais hábeis as crianças, adestrando-as, dando-lhes acuidade à visão e até desenvolvendo-lhes o gosto pela arte. No 2º ano, a professora Auna Castro deu uma aula de cálculo; e, no 3º ano, assistimos a outra, de linguagem oral, com recitativos pelas alunas, dirigidas pela substituta efetiva, D. Amália Alves Maia. Por fim, no 4º ano, a professora D. Zilda Ferreira Costa estava ministrando uma aula de geografia do Brasil, quando ali penetramos. A lição versava especialmente sobre climas do Brasil nas suas diversas modificações, e era de ver o interesse, o gosto que punham todas as alunas em responder, com atividade, às arguições da professora, habilmente dirigidos. O estudo, assim, animado, alegre, que desperta o estímulo das alunas, é, não um ensino que aborrece, mas um ensino que encanta. O segredo do bem ensinar está precisamente em interessar na lição a todas as alunas, o que efetivamente verificamos em todas as classes do grupo. É, portanto, excelente a impressão que colhemos da visita àquele grupo, em que, na verdade, as professoras, moças todas de elevado descortino intelectual, estão praticando excelentemente todos os modernos processos que com a reforma da instrução se vieram a realizar entre nós para tornar um fato, e não só uma ficção de orçamentos, o ensino popular no Ceará.
- Apenas é de lamentar que o grupo Rio Branco esteja ainda desprovido do necessário mobiliário escolar, porque, de fato, lhe faltam carteiras modernas, adequadas ao ensino, e até quadros negros, porque os que possui estão quase imprestáveis. Essas falhas, porém, cremos serão breve sanadas pela diretoria da instrução pública.
Anúncios, notas e expediente
- Expediente Nordeste O dever é pai do sacrifício e irmão da felicidade. [...] Redação: Drs. Andrade Furtado e João Martins Rodrigues Administração: A. Ildefonso de Araújo ANO I Fortaleza, Sexta-feira, 20 de Abril de 1923 NÚM. 243
- Telegrama A Suíça e a moda. — As sociedades de seguros de vida, na Suíça, acabam de aumentar de 100% as taxas de seguros das mulheres, que usam vestidos exagerados, com o colo e os braços nus, devido às moléstias provenientes de tão extravagante sistema de trajar.
- Nota social Selos & Cupons Comemorando a data do seu aniversário natalício o interessante e travesso Alexandre, filhinho de D. Alice Pereira Pinto, enviou-nos 1.250 cupons de bonde, para os pobres da benemérita Sociedade Vicentina. A pequena Myrthea Soares, filha do conceituado industrial Sr. José Joaquim Soares, proprietário da «Fábrica São José», ofereceu-nos, em regozijo pelo seu 3º aniversário natalício, 2.800 cupons de bonde para os pobres do Dispensário.
- Nota social ASSOCIAÇÃO DOS ESTUDANTES CEARENSES Pede-nos o secretário da «Associação dos Estudantes Cearenses» levemos ao conhecimento dos seus associados, que, no dia 21, sábado, às 13 horas, no salão nobre do Liceu do Ceará, haverá uma sessão, na qual serão ventilados assuntos de real importância, que bem de perto dizem respeito à vida e ao progresso da sociedade, pelo que se encarece o comparecimento de todos.
- Anúncio Guardai cupons para os pobres das Conferências de São Vicente de Paulo. Um cupom vale um real. [...]
- Nota social CORO TEREZINHA DO MENINO JESUS Por iniciativa de um grupo de gentis e piedosas patrícias nossas, organizou-se nesta Capital, um coro com o nome e sob os auspícios de Terezinha do Menino Jesus, cujo fim é cantar nas nossas Igrejas, mas de um modo especial nas Igrejas em que houver deficiência ou falta completa de cantoras. O coro Terezinha do Menino Jesus fez sua estreia no dia 30 de Setembro do ano passado, dia em que se celebra a morte da admirável Carmelita de Lisieux, e desde então não tem poupado esforços para prestar o seu concurso onde quer que haja necessidade, já tendo feito ouvir durante o retiro e Missa das Senhoras de Caridade, na Igreja do Pequeno Grande, no Rosário, nas Igrejas do Carmo e do Patrocínio, tendo executado nessa última, lindíssima Missa Cantada, no dia 8 de dezembro do ano passado. Fazem parte do coro as irmãs, senhoras D. Maria Luna Freire Albano e Alpha Rabello Albano e as senhorinhas Lídia Freire, Lícita, Lili e Inan Albano, Indiana Vianna e Alice Freire, encarregando-se esta última da parte dos acompanhamentos. Também tomam parte no coro Terezinha do Menino Jesus, prestando-lhe valioso auxílio, o padre Geminiano Beserra e o Sr. Joaquim Antônio Albano.
- Nota social Conferência do padre Natuzzi "Toda a culpa exige uma reparação, que reintegre a harmonia da lei e da justiça" É o resumo de mais uma conferência do padre Natuzzi em Belo Horizonte. Disse o célebre autor das «Minhas prisões», Silvio Pellico, que «o cristianismo é um eterno arrebatamento para o enobrecimento da alma». Este contínuo transporte é sustentado pela participação da vida divina, que a graça comunica. Mas esta vida divina, que nos nobilita a alma, encontra no âmago da nossa natureza um inimigo temeroso: o Mal. Este mal afronta-nos impávido, arrogante, aguerrido, da tumultuosa falange das paixões. Estas, pelo orgulho, pela avareza, pela ambição, pelo ódio, pela luxúria, nos investem, dando-nos o mais temeroso combate... Os golpes são todos mortais, porque atacam a vontade, para se revoltar contra a lei. A lei servia-lhe de norma segura, para se não desviar do seu destino, asilo definitivo da sua paz e da sua felicidade em Deus. Violada esta lei pela culpa consciente e deliberada, a alma já não recebe mais o influxo salutar e forte da vida divina, porque a culpa que é o ódio, deu a morte à graça que é o amor. Esta graça que vivificava a alma e a enchia de amor, uma vez morta pela culpa, se transforma em justiça. Esta justiça por sua vez reclama e impõe uma reparação para reintegrar a harmonia entre o seu direito negado e a lei violada. — Mas qual será este meio sobre-humano, sensível, operativo e eficaz para nos restituir juntamente com a vida divina a graça que é a sua fonte? — É o Sacramento da Penitência. No mundo não há instituição mais admirável, mais confortadora, mais regeneradora, mais nobilitante. A sua beleza e a sua eficácia maravilhosas revelam-se nos fenômenos que se desenrolam no teatro da consciência do homem, logo após ter ele perpetrado o mal. Porque a culpa na consciência não é muda; eleva-se uma voz triste e humilhante de uma perpétua objurgatória. A consciência em vão se esforça por abafar este brado de vingança. A voz íntima, soturna e dolorosa alça-se e rompe no gemido lancinante do remorso. Onde o homem encontrará um bálsamo que não só lhe mitigue os acúleos do remorso, mas lhe espalme na alma dolorida o conforto seguro de um verdadeiro e perpétuo perdão? Somente neste Sacramento da Penitência. Porque ele é a instituição mais venerada, mais amada, e mais eficaz para regenerar e nobilitar a alma, degradada pela culpa. Mas ao mesmo tempo é uma instituição a mais combatida, a mais execrada, a mais caluniada. Necessário é que empreendamos um exame, segundo as regras da justiça e da verdade; tomando por norma os grandes caracteres das Instituições que merecem mais incontestavelmente o nosso respeito e as nossas homenagens. Ora bem, esta instituição é a que possui intrinsecamente autoridade mais alta e produz eficácia a mais benfazeja. A autoridade desse Sacramento é tão alta que ordena a submissão, que seja estabelecido por todos os cantos do universo; conservado nas condições da universalidade e da estabilidade. E o mundo inteiro, desde o Pentecostes do Cenáculo até hoje, durante o lapso de 20 séculos, aceita, venera, pratica, ama esta instituição. Explicai, Senhores — diz o orador — este fenômeno. Ele não pode ser senão divino. A admiração redobra com o respeito, quando se penetra mais a dentro no estudo deste fenômeno. Porque mistério nunca conhecido e nunca visto, homens destinados para serem os depositários de todos os segredos os mais graves, os mais dolorosos, os mais degradantes das consciências. Estes depositários investidos de tamanha elevação de espírito que os seus lábios ficam para sempre como que selados pelo sigilo de uma fidelidade universal e de um silêncio invencível. Explicai, Senhores, este fenômeno! Ele é divino! Que aparece no exercício deste Sacramento? Deus, o sacerdote e a alma. Que revelação espantosa entre eles! Entretanto, o gênero humano o aceita, o procura, o acata até [...] Explicai, Senhores, este fenômeno! Ele é divino! Porque, por entre todas as funções das mais nobres e confidenciais missões humanas nunca aparece este caráter transcendente, os mais nobres e os mais sublimes sentimentos do coração humano. A admiração sobe de ponto. Porque se a Igreja Católica apresenta em todos os tempos este Sacramento com o caráter de sua universal unidade, fazendo dele o objeto de fé, de um mesmo dogma, de um mesmo rito, de um mesmo sacerdócio hierárquico. Ora, não há pujança de gênio humano que possua o poder de tornar universal uma única verdade, fazendo-a aceitar por todas as inteligências e em todos os cantos do universo. Esta unidade universal pertence tão somente ao Senhor do universo. Logo, este Sacramento é divino! Ainda mais convincente se manifesta a nossa admiração, quando consideramos que, apesar de inúmeras, das contradições, das calúnias e das relutâncias as mais renhidas e obstinadas, o Sacramento, sem nunca abdicar dos seus direitos, das suas prerrogativas, perdura e se impõe a despeito das mais cruéis infidelidades e dos mais nobres corações. Explicai, Senhores, este fenômeno! Ele é divino! Mas é
- Nota social este Sacramento está investido da mais alta autoridade que é. Daí, ele espalha a eficácia a mais benfazeja nos corações dos homens. Por aí há doenças na alma humana, que nenhum sábio pode mitigar. Sócrates diria que se acham sempre ligados o prazer e a dor. Nós, pela experiência da vida e pelo grito interno da consciência, podemos asseverar que se acham sempre ligados a culpa e o remorso. O grande poeta inglês Lord Byron, no seu poema «O Corsário», num estudo de profunda psicologia, nos bosqueja o painel mais humilhante de uma alma abocanhada do remorso. As suas investidas dolorosas, lancinantes e perpétuas não lhe dão trégua nem repouso. A lua meridiana lhe acende os ímpetos do sofrimento; as trevas da noite lhe povoam a consciência de visões agoniantes. Pela agitação do remorso o esposo adivinha os segredos da infidelidade conjugal; a esposa, os desmandos do marido à esposa; a mãe, os primeiros desvios de um filho ao educador, os maus hábitos do discípulo. Está na natureza do remorso o anseio por um alívio. Deus, autor da natureza e da consciência, como psicólogo experimentado das misérias humanas, acode aos gritos e ao estertor da alma esmagada pelo remorso. Infunde-lhe o arrependimento e a dor. Mas, se por uma aberração inconcebível, a alma não se submeter ao arrependimento, fatalmente se despenha no baratro desolador e já irremediável do desespero. Mas o remorso, que acompanha o arrependimento, exige e pede um alívio, que é o de poder [...] do [...] ulcerado da [...] todo o veneno da sua culpa numa consciência [...], coadjuvada por uma paterna e inviolável vontade divina.
- Nota social Então começa a habitar nesta alma, outrora toldada de densa cerração, uma claridade suave, meiga, reconfortante que lhe dá a paz, a segurança e a alegria. Foi este Sacramento que Jesus Cristo confiou à sua Igreja como o único meio da regeneração e do perdão de Deus. Desde a idade [...] até hoje, sem nenhuma [...] asseverado pelo testemunho dos Santos, dos Doutores da Igreja e de [...] da tradição.
- Nota social Sonetos de Julio Maciel (Para a Festa das Árvores) Raízes Árvore forte, que outrora Eu vi minada e modesta. Rainha, salve! És agora A Rainha da floresta. O sol te ameiga e namora, A que te busca e requesta; Na tua copa sonora Que fausto! Que pompa e festa! Mas não te cegue a coroa Na glória que tu bem dizes. Sê generosa e sê boa Pelos teus dias felizes, Árvore forte, abençoa A humildade das raízes!..