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O Nordeste

Maio de 1923 · 12 trechos transcritos

Manchetes desta página

  • Medida ineficaz O Governo Federal decretou. Fiquei convencido de que era um [...] no Brasil. A todas as agências de vapores foi determinado que não se vendessem passagens, sem ser exibido o competente atestado de vacina. A nova bastante me alegrou, pois o Estado do Ceará, expurgado da varíola há muito tempo, para sempre ficaria livre. Refletindo sobre a medida, cheguei à conclusão de que não poderia ser levada a efeito, por não ter o Governo vacinogênio nos postos. E o indivíduo precisava sair do estado, por mar, e não se lhe vendia passagem sem atestado de vacina. Procurava vacinar-se e, na melhor hipótese, vacinavam-no com uma linfa preparada em outro Estado e esterilizada pelo tempo. Embarcava vacinado, mas não imunizado. Às vezes, o indivíduo queria embarcar e não podia fazê-lo, porque as repartições que vacinavam não tinham vacina!... Valia-se então da fraude e aparecia o atestado gracioso, não passado pela repartição sanitária federal ou estadual, mas por qualquer doutor em medicina pouco escrupuloso. Nós, brasileiros, pedimos um atestado falso com a maior sem cerimônia, e, se nos negam, ficamos ofendidos. Usamos de estampilhas servidas, naturalmente, como se não fosse isto um crime!... Para que o Governo consiga que os navios não propaguem a varíola pelos Estados, é necessário que em cada porto tenha um instituto vacínico e que o passageiro não possa embarcar sem atestado do mesmo Instituto. Assim, a eficiência da medida seria quase completa, desapareceria o atestado gracioso e o insucesso da vacina inerte. Haveria exceção, porém poucas. Seriam estes indivíduos cabeçudos, representantes da Nação, que, se entendessem não apresentar atestado de vacina, embarcariam sem este, embora o agente, cumprindo o seu dever, não lhes desse passagem. Chegando ao Rio, a vingança seria demitir o agente, etc. Agora mesmo desembarcaram em Fortaleza dois passageiros com varíola, de bordo do vapor «Bahia», contagiados por um tripulante do mesmo navio. O brigue da morte foi deixando variolosos pelos portos por que passou. Ao Piauí, coube um que era soldado do exército, ao Maranhão três e dois ao Pará. O «Bahia» saiu do Rio a 5 de fevereiro e aqui chegou a 12. Os variolosos que vieram para o Ceará saltaram sem sinais de bexiga. Foram eles: Joaquim Moreno, ex-praça da 1ª companhia do estabelecimento acantonado na Capital Federal; e Raymundo Nonato da Silva, ex-praça do Batalhão Naval. O varioloso que coube ao Piauí é também soldado do nosso exército. Como se vê, os contagiados foram justamente os que se presumia livres da varíola por serem das classes armadas. Desembarcados, hospedou-se um à rua de São Pedro e o outro na rua Monte Flor, antiga Prado Velho. Dias depois, foi a Diretoria de Higiene avisada de que o passageiro desembarcado do «Bahia» e hospedado à rua de São Pedro, parecia estar com varíola. Imediatamente foi o Diretor de Higiene, Dr. José Paracampos, [...], e, não podendo fazer diagnóstico, convidou outros médicos que em sua companhia viram o doente e declararam, quando muito, ser um caso suspeito de varíola discreta e muito benigno. Procurei ver o enfermo depois do diagnóstico dos clínicos e foi caso de varíola discreta, benigno. O doente ficou em tratamento em sua casa, em frente ao Prado, lugar muito frequentado aos domingos. Não foi isolado, porque em Fortaleza não há um isolamento. O antigo lazareto da Lagoa Funda, com capacidade para centenas de doentes, próprio nacional, que tão bons serviços prestou na grande epidemia de 1878, foi clandestinamente demolido e vendidos os materiais por um agente do poder público no governo Accioly. Não havendo isolamento, a medida que se impunha era a vacinação e revacinação sistemática de todo o bairro e esta a tomou o Diretor de Higiene; mas, infelizmente, sem resultado, pois a vacina era antiga e portanto estéril. Na própria casa do doente havia pessoas que não eram vacinadas, e o foram, mas sem efeito, sendo atacada de varíola uma criança, que pelos pródromos parecia uma varíola grave e no entanto foi a mais benigna que imaginar-se pode. O outro varioloso, o reservista da Armada, foi encontrado em sua casa no Prado Velho, e removido para o Hospital Oswaldo Cruz, mau lugar, frequentado diariamente por dezenas de pessoas que se iam receitar. Pior ainda teria sido ficar o doente em tratamento em sua residência, em comunicação com toda a vizinhança. O varioloso Joaquim Moreno, como disse, ficou em tratamento em sua casa, recebendo visitas, etc. Um dos que o visitaram foi Bento da Silva, que não era vacinado e nunca havia tido varíola. Adoecendo dias depois com febre alta, cefalalgia intensa, vômitos, raquialgia e tendo a Higiene conhecimento do fato, mandou removê-lo para o Hospital Osvaldo Cruz, onde fui encontrá-lo e tive dúvidas sobre ser varíola. Estava de pé, bem disposto, tendo umas cinquenta vesículas disseminadas pelo corpo, já no período da seca. Achava-se tão bem que fugiu do hospital. Procurando-o, fui encontrá-lo na rua da Cachorra Magra, no Beco da Botija. Interroguei-o. Afirmou-me nunca ter sido vacinado. Acreditei que, se ele não teve varíola e sim catapora, devia ter contraído a varíola, em companhia do varioloso, com quem esteve no mesmo quarto, e procurei imunizá-lo, vacinando-o. Talvez já estivesse com a moléstia incubada e portanto tarde. Não deu resultado. Vacinei-o segunda vez, nada. Enfim: para ter uma prova real, vacinei-o com vacina tirada diretamente do vitelo. A menor reação não teve lugar. Fiquei, então, quase convencido de que Bento tinha tido varíola, porém tão benigna, quase frusta. Observei uma coisa curiosa: os casos de varíola contraídos na convivência de Moreno foram ao extremo benignos. Sabe-se, e eu muitas vezes tive ocasião de ver indivíduos contagiados por doentes de varíola discreta morrerem de varíola confluente ou hemorrágica. A forma da varíola depende do organismo de cada pessoa. Os dois focos extinguiram-se sem mais casos, o que foi um milagre, não da intensa vacinação que se fez agora, que foi sem resultado algum, mas das antigas vacinações naqueles lugares. Quando eu pude colher vacina e fazer a vacinação intensa nas cercanias dos focos, era tempo de terem aparecido novos casos e não apareceram. Estive vigilante, visitando e vacinando os lugares suspeitos, cerca de um mês depois de ter tido alta por curado o último varioloso. A varíola se extinguiu em Fortaleza, mas apareceu em Aracati em um indivíduo que por aqui andou, levou a incubada e lá adoeceu e lá morreu. É um caso este que dá que pensar. A capital não estava empestada. Os dois casos, que havia, eram nos subúrbios, no fundo da cidade, e como este passageiro se contagiou não tendo ido à casa dos doentes? Não teria ele morrido de varicela grave, o que não é comum, porém, possível? Em Fortaleza havia e há muita bexiga doida. Há pouco tempo um parente meu, empregado da Estrada de Ferro de Baturité, quase morreu de catapora!... O Departamento da Saúde, tendo conhecimento dos casos de varíola a bordo do «Bahia», nomeou uma comissão para abrir inquérito e apurar as responsabilidades. A meu ver, o único responsável é o Governo porque não tem nos portos Institutos Vacínicos, o que é uma vergonha. Eu que sou um particular, pobre, posso ter um vacinogênio próprio: o Governo não o pode ter? Em 1921, o deputado Plínio Marques apresentou um projeto criando institutos vacínicos em diversas capitais. Ficou em projeto, porque não mais ouvi falar nisso. Enquanto o Governo não tiver vacinogênios nos portos, não pode exigir do passageiro atestado de vacina, a menos que queira que a farsa continue, e nem tão pouco impedir que os navios continuem a propagar a varíola por onde vão passando. Isso de não embarcar pessoa alguma sem atestado de vacina é uma peta, só crê quem é imbecil ou desconhece o nosso caráter e as noções que temos do cumprimento do dever. Agora mesmo chegaram a esta capital duas famílias embarcadas sem atestados de vacinas, uma do Recife e outra do Rio. A prova que este serviço não está sendo feito como devia é o caso do «Bahia». O ex-soldado Joaquim Moreno me declarou que embarcou sem atestado e que a bordo voluntariamente se vacinou, mas sem resultado. A vacina, já se vê, estava estéril; se não, se teria desenvolvido e imunizado Moreno. O outro, reservista naval, me disse: não ser vacinado, embarcou sem atestado e não foi vacinado a bordo. Já é tempo de os governos federal e estadual criarem um Instituto Vacínico e me aposentarem, mesmo sem vencimentos, como sem vencimentos de espécie alguma trabalho há vinte e três anos!... Estou velho, cansado e sobretudo desiludido. Rodolpho Theophilo Alto da Comarca, 20 de Abril de 1923.
  • O sol e o leite são dois agentes poderosos da nutrição Num de seus apreciados artigos, o cronista médico do «Times» declara que a luz solar e o leite constituem a maior panaceia para todos os males da raça humana nos dias que correm. Disse ele que a mais importante tarefa a que as autoridades sanitárias deverão meter ombros dentro em breve será a de preparar a opinião pública e encaminhá-la no sentido de tornar uma necessidade a campanha de levar a luz solar e o leite às populações urbanas de todo o mundo, pois é sabido que raramente os habitantes das cidades recebem um banho de sol e mais sabido ainda é que o evitam, por amor à pele e para fugir ao calor, sem saberem que fogem a um dos mais importantes elementos de vida. «Esses dois poderosos agentes da nutrição — diz ele — estão intimamente ligados e são complementares um do outro. O nosso aproveitamento de ambos, comparado ao que se faz nos Estados Unidos, por exemplo, é deplorável, quantitativa e qualitativamente. De certo modo, isto tem como causa a irremovível situação geográfica; mas em grande parte também uma causa poderosa é a nossa própria negligência e ignorância.» «Devemos beber a maior quantidade de leite possível» — acrescenta o escritor, dizendo que o povo da Inglaterra está amesquinhado, industrialmente e em todos os sentidos, devido ao fato de beber apenas menos de um terço da quantidade de leite. [...], que é consumida nos Estados Unidos. E então ele afirma: «Existe um monstruoso trabalho subterrâneo destinado a persuadir o público de que deve beber cerveja, para a qual nenhum fisiologista vivo, possuidor da necessária autoridade, já teve uma palavra de recomendação.» E o cientista diz então que ninguém poderá negar a potencialidade da luz solar como um agente da cura de grande número de moléstias, e, nessa altura, faz um apelo às autoridades britânicas no sentido de abrir luta contra o que ele chama «a moléstia da escuridão», para que sejam restauradas na sua pujança as cidades escuras da Inglaterra e os seus empalidecidos cidadãos possam ter também o seu... lugar ao sol.
  • A situação do ensino no Ceará Continuamos a publicar, hoje, os dados colhidos pelo recenseamento escolar, nos diversos municípios, e que demonstram a situação do ensino no Estado: São Francisco População total, 14.587. População escolar, 2.460. Escolas estaduais, 7; Matríc., 272. Escolas municipais, 1; Matríc., 28. Escolas particulares, 1; Matríc., 120. Crianças em escolas, 17%. Crianças sem escolas, 83%. São Gonçalo População total, 17.909. População escolar, 1.120 Escolas estaduais, 10; Matríc., 307. Crianças em escolas, 33% Crianças sem escolas, 67% São João do Uruburetama População total, 11.240 População escolar, 751, Escolas estaduais, 4; Matríc., 178 Crianças em escolas, 21% Crianças sem escolas, 70%. São Mateus População total, 22.477. População escolar, 2.800. Escolas estaduais, 4; Matríc., 207. Crianças em escolas, 7%. Crianças sem escolas, 93%. São Pedro do Cariri População total, 9.845. População escolar, 1.472 Escolas estaduais, 2; Matríc., 92. Escolas municipais, 1; Matríc. Crianças em escolas, 8%. Crianças sem escolas, 92%. Tamboril População total, 10.195. População escolar, 1.104. Escolas estaduais, 7; Matríc. 343. Crianças em escolas, 29% Crianças sem escolas, 71% Senador Pompeu População total, 39.003. População escolar, 1.708. Escolas estaduais, 10; Matríc., 624. Escolas particulares, 11; Matríc., 420. Crianças em escolas, 28% Crianças sem escolas, 72%. Sobral População total, 10.753. População escolar, 2.100 Escolas estaduais, 14; Matríc. 610. Escolas municipais, 5; Matríc. 130. Escolas particulares, 1; Matríc., 18. Crianças em escolas, 35%. Crianças sem escolas, 65% Soure População total, 13.825. População escolar, 1.135. Escolas estaduais, 5; Matríc.

Anúncios, notas e expediente

  • Expediente [...] Redação: Drs. Andrade Furtado e José Martins Rodrigues Administração: A. Ildefonso de Araújo MARTINS FONTES ANO I Fortaleza — Sexta-feira, 4 de Maio de 1923 NÚM. 255
  • Nota social Para a Festa das Árvores A LARANJEIRA No pequeno pomar de Margarida. Fada das plantas, compassiva e boa, A Laranjeira pende emurchecida. Em torno dela um colibri não voa. Tratando a planta exânime, sem vida, A virgem meiga sonha uma [...] Mas nem ao menos na árvore pendida Um sorriso de flor desabrochava! Marca-se o dia do noivado. E, quando Em breve a moça no pomar surgia. Um cortejo de pássaros, cantando, Cerca-lhe o vulto, de surpresa mudo, Branca de flores, no clarão do dia, A Laranjeira perfumava tudo! Ramos NETTO
  • Nota social Selos & Cupons Comemorando o seu segundo aniversário natalício, hoje, o pequeno Edgar César enviou-nos 6.800 cupons para a Santa Casa de Misericórdia. Juntai cupons para os pobres das Conferências de São Vicente de Paulo.
  • Telegrama Os revolucionários em Caçapava PORTO ALEGRE, 2. — Dizem de Caçapava que uma força revolucionária, transpondo o Passo dos Enforcados, penetrou naquele município.
  • Telegrama Em Conceição de Arroio PORTO ALEGRE, 2. — Telegramam para «A Federação», comunicando que os revolucionários dali, após o último combate, se dividiram em dois grupos e estão assaltando os transeuntes.
  • Telegrama As festas do dia do Trabalho RIO, 2. — Realizaram-se, ontem, em comemoração ao dia do trabalho, grandes manifestações operárias. Na Praça Mauá, realizou-se um comício de muitos milhares de pessoas, falando cerca de 30 oradores. O Círculo dos Operários Municipais realizou imponente solenidade, presidindo o ato comemorativo o Dr. Lourival Fontes, representante do presidente. Por ordem do governo, em homenagem à data, a Exposição aberta, grátis, para os operários, soldados e marinheiros, havendo sessões cinematográficas ao ar livre, retreta e muitas diversões. As festas, ali, se prolongaram até alta noite.
  • Telegrama Embaixada do Brasil no Japão RIO, 3. — Foi assinado, ontem, o decreto que eleva a legação do Brasil no Japão à categoria de embaixada. O ato do governo brasileiro foi simultâneo com o do Japão que elevou, ontem, também, a legação à embaixada.
  • Telegrama Telegramas DO PAÍS O movimento gaúcho Para combater a revolta. PORTO ALEGRE, 1. — «A Federação», órgão oficial burguista, publica a seguinte notícia: De Uruguaiana seguiram para a campanha as forças que guarneciam aquela cidade, num total de [...] homens sob o comando de Flores da Cunha, a fim de combater os revoltosos. Espera-se que, dentro em breve, atinjam a fronteira os revoltosos.
  • Telegrama [...]