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O Nordeste
Maio de 1923 · 14 trechos transcritos
Manchetes desta página
- A Festa das Árvores A ÁRVORE BENDITA Nota-se, entre nós, muito desamor às árvores, quando são elas tão nossas amigas. Quanto não sofrem, até o seu desenvolvimento completo! Os cuidados dispensados ao seu plantio e aos seus primeiros dias de existência desaparecem depois, sendo deixadas em completo abandono, em desprezo desolador. No começo mandam regá-las, preservam-nas das perseguições; meses depois, começam a viver das chuvas periódicas, não recebem mais benefícios humanos. Outros tantos canais de águas cristalinas que trazem às suas raízes e folhagem alimento e forças com que ela arrosta todos os ataques incessantes, que precipitam sobre ela os seus inimigos atrozes, e as intempéries dos tempos calamitosos que atravessamos. Desde o seu berço que sofre ataques, perseguições e desprezos dos viajores da terra, a quem oferece sempre o frescor das suas sombras protetoras, a seiva tonificante das suas graças, e o calor ardente da sua proteção e do seu amor. Tem sombras infinitas que chegam para abrigar a todos os que transitam neste mundo; tem calor para distribuir com todos os que se deixam levar pela indiferença, e o recato de forças para os fracos: insistência e com desvelo mais carinhoso. Ali a criança encontra amparo para a sua inocência; o moço, sábios conselhos para a sua inexperiência; e o ancião, conforto para a sua velhice: — todas as idades e todas as classes encontram nela felicidade sem fim, ventura eterna. Levemos as crianças todas ao seu tronco, onde aprenderão, sob sua sombra, a obediência aos pais e superiores, o respeito aos direitos alheios, o amor ardente ao próximo, a veneração pela velhice, o hábito da pureza e da humildade e a dedicação franca e resoluta pela Pátria e pelos ideais nobres e elevados da vida. Façamos das nossas crianças e os nossos moços os regadores, os jardineiros da árvore bendita, da árvore frondosa, da árvore fecunda, da árvore secular, da árvore eterna da Religião Católica!
- As árvores urbanas Quem as não conhece? Quem não goza, ao vê-las espalhadas pelas ruas? Elas são o encanto da cidade aqui e ali, nos passeios e praças, graciosamente alinhadas, simbolizam uma reminiscência rural. No verde clorofiliano dos ramos, que se esgalham; na grácil disposição das folhas espalmadas e multiformes; no adulto tronco carunchoso, que se levanta aos céus como uma prece muda, o transeunte sentimental vive a lembrança encantadora dos campos floridos e dos prados bucólicos. Ah! As árvores urbanas! Impassíveis e quedas, elas são dolorosamente tristes. Não gozando a aragem fresca que lhes embale a copa; não sentindo a carícia aveludada dos ninhos; não respirando largamente, a plenos pulmões; não acariciadas pela estonteante luz solar; elas sofrem angustiosamente a nostalgia das florestas e dos pequenos regatos cantantes que, à sua sombra, brincam, a correr. A árvore da rua, ao passeante indiferente, há de parecer uma figura decorativa e inanimada, que, sem encantos e sem alegrias, embeleza, apenas, a arquitetura da cidade. A muitos parece que as árvores urbanas, empoeiradas e tristes, diferentes de suas irmãs dos campos, não hão de ter alma — uma alma vegetal que compreenda e que goze as delícias do espetáculo da vida. Assim julgam erroneamente os que nunca as sentiram gemer. Soprar do bochorno. Enquanto a cidade dorme, o luar que se escoa por entre os seus ramos, a desenhar ao chão exquisitas sombras fantasmagóricas. É, ao palmear do vento forte, elas gemem dolorosamente uma saudade infinda, e parecem compreender e sentir a amargura da vida, longe da alacridade das companheiras livres, nos verdes longínquos. Tristonhas e mudas a carpirem infimamente o desejo dos campos, elas parecem ter a alma dolorosamente magoada, como o homem que sofresse, eternamente, a nostalgia de um ideal. Raimundo de MENEZES
- O ensino no Ceará Não o faz preciso, quando todos o reconhecem e experimentam.
- E a sua função de laboratório natural de oxigênio, tão preciosa à saúde pública? A Capital da França, a cidade dos castanheiros anosos, tem uma predileção pronunciada pelas árvores: podem estar cobertas de neves no inverno, podem na primavera estar revestidas de bastas folhagens e de variegadíssimas flores, merecem sempre os cuidados do público, são tratadas sempre com grande carinho.
- Mas, ah! Caros leitores, há uma árvore preciosa e fecundíssima que, mais que todas, merece o nosso culto e o nosso respeito — a árvore da Religião Católica. Esta árvore nasceu no sagrado terreno da infinita misericórdia de Deus, cresceu ao influxo dos merecimentos infinitos de Jesus Cristo, e viverá sempre do calor da caridade evangélica e dos adubos puríssimos das graças celestiais. O seu tronco multissecular é constituído pelo próprio Cristo.
- A REFORMA DO ENSINO O edifício para a Escola Normal, que se está construindo na praça Filgueira de Mello. Os seus galhos e folhagem, tão mamaram no seu abrigo frio, todo de apóstolos, de mártires, de virgens e de santos de todas as idades, de todas as posições. E esta árvore secular e bem-viçosa que deve ser mostrada ao culto das crianças com maior tranquilidade. Os sete Sacramentos são ou-
- Progresso do ensino estadual nos últimos anos demonstrado pela mesma instituição.
- No Estado de São Paulo, em todas as suas milhares de escolas, desde 1911, realiza-se a FESTA DAS ÁRVORES.
Anúncios, notas e expediente
- Expediente Redação: drs. Andrade Furtado e José Martins Rodrigues Administração: A. Ildefonso de Araújo ANO I Fortaleza — Sábado, 5 de Maio de 1923 NUM. 256
- Telegrama Oração à floresta (Do livro «Saudade», de Thales de Andrade) Mercê de umas lembranças que mantenho, De ingênuo amor que o tempo não consome, Eis-me de novo ao pé do anoso lenho, Onde em pequeno já gravei meu nome. Penetro a catedral sonora da floresta, Em gestos plácidos e graves, E sou, à porta, recebido em festa, Aos gorjeios das aves. Pressinto o palpitar da seiva, nos robustos Troncos de fronde reflorida, Assim como em fragílimos arbustos, Na pletora da vida. Se a brisa sopra, com dulçor, E as árvores hieráticas se movem, Voa, de flor a flor, Uma chuva balsâmica de pólen. Em um deslumbramento, meu olhar se turva, Ante uma tal visão, E, a alma ajoelhada e curva, Levanto-lhe, extasiado, esta oração: «Floresta maternal, Em ti, eu venho procurar abrigo, Numa tortura de ideal, Como nos braços do melhor amigo! A tua sombra é um templo Cheio de música e de prece; Nele quero beber o imorredouro exemplo Da alta piedade e do desinteresse. Tu, faze de tal sorte, Que, nos meus dias mais felizes, Seja modesto e forte, Da modéstia e da força das raízes. À feição dos teus ramos protetores, Preso de anseios absolutos, Quero ofertar, a todos os viajores, Sombra, frescura, flores E o ouro fulvo dos frutos!
- Telegrama REI E O VELHO PLANTADOR Ia o rei por um campo, onde tudo era diversão, numa caçada, quando sucedeu passar por perto de um homem velho, que estava a plantar uma nogueirinha. Então, disse o rei ao seu lado: "Em verdade, bem louco deve ser este homem em estar a plantar esta nogueira, como se estivesse no vigor da mocidade, e contanto como certo rir e guiar os frutos do seu trabalho." O rei perguntou-lhe quantos anos tinha. — Mais de oitenta, respondeu aquele; mas, graças a Deus, sinto-me ainda com tanta força, como se tivesse lá trinta. — Sendo assim, respondeu o rei, quanto pensas tu que ainda hás de viver, nesta idade já adoentada, a plantar uma árvore que, por sua natureza, só dá daqui a largos anos frutos? — Senhor, disse o velho, tenho contentamento em estar plantando, sem procurar saber se serei eu, ou outros depois de mim, quem lhes colherá os frutos. Assim como tantos outros plantaram árvores, que nós hoje desfrutamos, assim é justo que deixemos outras novas, do que nossos filhos e netos venham a utilizar-se e enriquecer-se. E, se bem nos aproveitamos da fruta do seu trabalho, ou forem nossos pais tão cuidadosos do futuro, como haveríamos de retribuir, em desamor aos nossos filhos, o que de nossos pais recebemos em carinho e providência? Assim se planta o pau, para que o filho possa vir a colher. O rei gostou tanto das palavras do camponês que lhe deu uma bolsa cheia de ouro. Então o velho, depois dos agradecimentos, achou, no provento do rei, mais um motivo para reforçar o que havia pouco dissera, e continuou: — Quem poderá agora dizer que não foi bem pago o meu trabalho de hoje, ao eu plantar esta árvore, que eu plantei há pouco, logo no primeiro dia me deu frutos bem maduros e de tanto valor?
- Telegrama Minha palmeira Palmeira augusta, que me viste criança Quando em prantos parti da minha terra, Ficaste com teu verde de Esperança Alegrando esse píncaro de serra. Embevecido te contemplo agora. Contemplas-me também, palmeira amiga: Vejo-te os leques verdes, como outrora, Vês-me no rosto a placidez antiga. Feliz! — te digo — e a mim: feliz! — me dizes, Com o flabelo da tua leve palma. Mas sei eu que te vai pelas raízes?... Palmeira, sabes tu que me vai na alma?...
- Telegrama Árvore da infância Julio MACIEL Ao mesmo vento os galhos embalanças, O mesmo sol a copa em flor te doura, No entanto, árvore anciã!, de outras crianças És hoje amiga, sócia e protetora! Dás-lhes o abrigo palpitante das tranças, E a messe que em teus ramos se enriquece! Mas fruto, e flor, e essas carícias mansas Hão de passar à geração vindoura.
- Telegrama E o bando de hoje há de sentir, disperso Longe de ti, o anseio que me exalta. (O vento, o sol da vida é tão diverso.) Que ao menos, recordando a infância querida, Nunca eu pratique a inominável falha De te esquecer, oh! árvore dileta! Epiphanto LEITE