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O Nordeste
Maio de 1923, página 35 · 6 trechos transcritos
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- INQUÉRITO LITERÁRIO ENTRE OS MODERNOS E CONSAGRADOS ESCRITORES CEARENSES [...] “O Nordeste” entrevista o teatrólogo Carlos Câmara Interessante palestra sobre a arte teatral À semelhança das muitas enquetes literárias, que, nos grandes centros intelectuais, organizam os jornalistas, para saberem o modus vivendi et facta e divulgarem ao público, sempre curioso, dos grandes artistas, “O Nordeste” inicia, hoje, uma série de reportagens entre os modernos escritores cearenses, a fim de conhecer-lhes o pensamento sobre certos problemas e sobre as atuais escolas de arte. —Os personagens do novo vaudeville são reais? Ou são tipos criados pela imaginação? prosseguimos. —Em toda parte, há desses tipos sociais, e em Fortaleza está se desenvolvendo extraordinariamente este esporte, do qual existem verdadeiros profissionais. Para começarmos esta seção, procuramos, em primeiro lugar, o conhecido teatrólogo patrício, Carlos Câmara, que o nosso público conhece e admira, aplaudindo-lhe as magníficas revistas, a fim de que respondesse às nossas curiosas bisbilhotices jornalísticas, justamente por estar sendo ensaiada agora uma nova revista de sua lavra. Carlos Câmara é um esforçado escritor de teatro tendo já meia dúzia de apreciadas vaudevilles, com mais de 30 encenações cada uma: A Bailarina, Casamento da Peraldiana, Zé Fidelis, Calú, Alvorada e por último Os Piratas. Encontramo-lo, terça-feira última, à tarde, na Escola de Aprendizes Artífices, de que é esforçado diretor. Ao nos avistar, correu-nos ao encontro, delicadamente, fazendo-nos sentar, sempre alegre e penhorante, com as suas maneiras distintas. O gabinete do escritor é modesto e sóbrio. Em frente à sua banca, cheia de papéis e livros espalhados, rasga-se uma janela que abre para os lados das praias do mar, mostrando-nos o céu azul, cortado de nuvens, e o trabalho insano dos estivadores, na labuta diária... Carlos Câmara é um gentleman perfeito. Sua conversação animada lembra-nos os seus personagens irrequietos, no tablado do Grêmio Dramático. Delicado sempre, responde-nos às menores perguntas curiosas. Principiando a nossa interview, entramos, logo, no assunto: —O Nordeste mandou-nos para o ouvir em entrevista. —Pois não, eu estou sempre às ordens dos bons amigos e confrades. —Então, você tem em ensaios uma sua nova peça para teatro? —É verdade. Há cerca de vinte dias que a ensaiamos. —É do mesmo gênero das anteriores, que são tão apreciadas pelo nosso público? —É mais ou menos do gênero das cinco que a precederam. —Que título lhe deu? —“OS PIRATAS”. —Por quê? É uma crítica aos nossos costumes? —Dei-lhe esse título por julgar tal epíteto adequado a algumas das principais figuras, que atuam no desenrolar ao entrecho, e que desenvolvem verdadeiras tramas, conhecidas entre nós como atos de piratagem, em matéria de conquistas amorosas. —Onde se desenvolve a ação dos três atos e quando teremos a primeira de “Os Piratas”? —A ação desenvolve-se no Porto das Jangadas, nesta Capital. sionais, cuja indesejabilidade se faz preciso proclamar. São tipos representativos de [...], e resumem características observáveis em [...] diversos do mesmo gênero. —De suas peças anteriores, os tipos são imaginários? —Só podem ser escritas peças regionais do gênero que até hoje adotei, quando baseadas em fatos e tipos, como o Zé-Fidelis, o Candoquinha, o coronel Puxavante, a Peraldiana e vários outros que foram, por assim dizer, copiados do natural, explica-nos o escritor. —De suas peças, qual a que prefere? —Dolorosa interrogação... Não lhe posso dizer, ao certo, qual de minhas peças a que prefiro. Dediquei a todas elas o mesmo esforço mental, e mesmo um pai não deve revelar a qual de suas filhas dá a preferência..., disse-nos a sorrir. —Luta com dificuldades para fazer interpretar pelos amadores do Grêmio Dramático os diversos papéis? —Pouca ou nenhuma dificuldade tenho encontrado para fazer interpretar as minhas peças pelos inteligentes amadores, que constituem o elenco do Grêmio, em sua maioria rapazes e senhoritas de reconhecida propensão para a arte teatral, afirma-nos Carlos Câmara. E, animando-se na palestra, continua: —Além disso, procuro, meu caro, na distribuição dos papéis, aliar as personagens ao gênero e tendência de cada um. Fizemos-lhe, então, uma porção de perguntas, interessados: —Seus trabalhos teatrais são escritos aos poucos, vagarosamente? Quais as horas que prefere para trabalhar? Em que lugar? Quando escreve, auxilia-se e notas diárias, rabiscadas antes? Para imaginar as peças, serve-se de alguém para ensaios? E ele, a sorrir: —São muitas perguntas a um tempo. Vamos por partes. Habituei-me, desde que trabalhei na imprensa, a escrever sempre de afogadilho, e, assim, só escrevo para o teatro às pressas e quando o Grêmio tem absoluta necessidade de encenar uma nova peça. Quase sempre, antes de concluí-la, inicio os ensaios da parte já escrita. Não tenho preferência de horas, nem de lugar para rabiscar os meus trabalhos, dedicando-lhes as minhas poucas horas disponíveis e servindo-me para isso de apontamentos colhidos au jour le jour. Na idealização de determinadas cenas, faz-se mister muitas vezes experimentar-lhes o efeito, pondo à prova, ao mesmo passo, a capacidade das pessoas destinadas à sua interpretação. —Ainda pretende continuar a escrever para o teatro? De todas as modalidades de criações teatrais, qual a que prefere? —Nunca tive veleidades literárias. Escrevi a “Bailarina”, a minha peça de estreia, em 1919, despreocupadamente, sem prever o êxito que ela realmente obteve. A sua criação foi meramente fortuita. Fiz a pedido de rapazes do Grêmio, em oito dias apenas, no auge da precipitação, quando ainda convalescia de uma epidemia. Enquanto o Grêmio existir e tiver necessidade de novas peças, e não aparecer alguém que me substitua neste árduo mister, eu as irei rabiscando. Assim Deus me dê vida e saúde... O gênero de minha predileção é a alta comédia; mas esta, por mais bem arquitetada que seja, não logrará tão cedo, infelizmente, em parte alguma do Brasil, o elevado número de representações que as peças de gênero ligeiro têm conseguido. Não tentei até hoje esse gênero pelas razões acima expostas, e mesmo por não me julgar com as aptidões necessárias para tão altas cavalarias... Ademais, tenho para mim que os esforços que porventura envidasse e o despêndio que fizesse com a montagem de uma peça de gênero diferente, não alcançariam a devida compensação. Isso não deve ser tomado como a ambição de conquistar glória barata, e sim o desejo de proporcionar diversões ao alcance de todas as inteligências e ao sabor do respeitável público, explica-nos delicadamente. —Que acha do movimento teatral no Brasil? Teremos, em breve, um teatro verdadeiramente nacional? —Como otimista que sou, julgo deveras promissor o movimento teatral no Brasil, que se enfronha para ter o seu teatro, verdadeiramente nacional. Quem poderá, porém, prefixar a época em que se veja transformada em realidade tão fagueira aspiração? —Qual o melhor escritor para teatro no Brasil, atualmente? —Não sou autoridade para, de entre tantos escritores de que se orgulha, contemporaneamente, o Brasil teatral, dizer qual o melhor. O pior sei que sou eu... afirmou, sorridente. No entanto, permita-me externar aqui a admiração sem limites que nutro, de há muito, pela figura fulgurante e fidalga de Renato Vianna, cuja ação em prol da nacionalização do nosso teatro há sido uma cruzada titânica, digna dos mais acendrados encômios, e cujas peças podem rivalizar com os mais finos lavores da intelectualidade teatral do mundo inteiro. —E dos já mortos, qual o que mais admira? —Arthur Azevedo é para mim o de maior vulto, por ter sido o mais fino observador dos homens e coisas do nosso país, diz convictamente. —No Ceará existem outros escritores teatrais? indagamos, duvidosos. —Existem no Ceará vários escritores teatrais de merecimento e vocações incontestes. Papi Junior, por exemplo, além do romancista de rija enfibratura que todos admiram e proclamam, é, inquestionavelmente, um profundo conhecedor da literatura e da técnica teatrais, tendo produzido peças como “O Corisco”, que fez época, em nossa terra. Adaucto Fernandes deu-nos o “É no duro...”, representada, no teatro “José de Alencar”, e tem escrita uma outra, intitulada “O Inocente”. Vicente Gondim é autor de duas peças magníficas, e Carlos Severo tem uma grande bagagem de peças do gênero burlesco, algumas das quais fizeram as delícias de nossa plateia. Além desses, temos Aristóteles Bezerra, autor da burleta “Cresça e apareça”, representada com sucesso pelo Grêmio, e Waldemar de Queiroz, que, muito jovem ainda, escreveu uma revista de costumes, levada à cena há dois anos nesta capital; e Aníbal Mascarenhas, autor da peça em 1 ato — “Ninho de beija-flor”, que será encenada brevemente.
- O diretor da Instrução e a festa das árvores Recebemos o seguinte: “Sr. Redator: A maneira pela qual foi recebida a ideia da Festa das Árvores, em todo o Estado, e o brilhantismo de sua realização, reafirmaram no meu espírito a convicção que eu já havia adquirido, desde a efetividade do serviço do Cadastro Escolar e de outras medidas da reforma do ensino: a de que o povo cearense recebe com efusão d'alma, todas as iniciativas boas e generosas e depressa se congrega para pô-las em prática. A explicação dessa facilidade de adaptação social não é difícil a quem, como eu, verifica, dia a dia, a extrema plasticidade intelectual dos alunos das escolas, a sua facilidade de apreensão e de compreensão, quase inacreditável. A soma social é, neste caso, perfeitamente idêntica às parcelas dos indivíduos, considerados em si, o que nem sempre se dá. E, se considerarmos que 80% da população do Estado está abismada no analfabetismo, não tem olhos para os livros nem para os jornais, nem ouvidos para ideias que dependam de maior elevação de vista, verificaremos que o poder de receptividade da pequena porcentagem dos que sabem ler não é tão admirável ainda quanto o seu poder de realização. À inteligência lúcida e penetrante, o cearense junta a ação. [...]
Anúncios, notas e expediente
- Expediente Redação: Dra. Andrade Furtado e Joso Martins Rodrigues Administração: A. Ildefonso de Araújo
- Telegrama PERDER TEMPO É PERDER MUITO; MAS PERDER A CORAGEM É PERDER TUDO
- Expediente ANO I Fortaleza-Sexta-feira, 11 de Maio de 1923 NÚM. 260
- Telegrama Movimento do Dispensário nos meses de Janeiro, Fevereiro, Março e Abril Mensalidades de Janeiro: 3:361$000 Despesas: 1:676$000 FEVEREIRO Mensalidades: 2:573$000 Despesas: 2:008$000 MARÇO Mensalidades: 3:805$000 Despesas: 4:048$000 ABRIL Mensalidades: 4:212$000 Despesas: 4:212$000 Total das mensalidades recebidas de janeiro a abril: 12:307$000 Total das despesas no mesmo espaço de tempo: 12:034$000 O Dispensário socorre atualmente 450 famílias. Pelo que foi exposto, vê-se que as mensalidades não estão chegando para as despesas. Se nos dois primeiros meses deixaram saldo foi porque o número dos socorridos era muito menor e a mendicância ainda não estava extinta. O cálculo da receita e despesa é mais ou menos o seguinte: Mensalidades: 3:500$000, sujeitos a diminuições, por alguns motivos que explicaremos então. Despesas entre gêneros e verbas extraordinárias: 4:300$000 a 4:500$000, dependendo de algumas causas; entre elas, o preço dos gêneros. O ideal seria que as mensalidades chegassem para as despesas ordinárias, ficando algum donativo, subvenções, para os extraordinários, como roupa, habitações, etc. Confiadamente esperamos ainda muitos rasgos generosos da parte de nossos bons patrícios e aproveitamos a ocasião para agradecer a todos aqueles que [...]. acederam ao nosso pedido, aceitando assinaturas por meio de uma circular: seus nomes serão publicados oportunamente. Para melhor esclarecimento de uma certa diferença entre as assinaturas e as receitas, ficou deliberado que não sendo publicados os nomes daqueles que se riscassem, diminuíssem ou se ausentassem. Riscaram-se: Dr. Moreira de Azevedo: 20$000 Plácido Carvalho: 20$000 Manuel Siqueira: 10$000 João do Arruda Câmara: 10$000 Carlos Studart: 10$000 João Gabriel: 5$000 A. R. Ventura: 10$000 Peregrino Monteiro: 10$000 J. Almeida: 10$000 Baixaram de 20$000 para 10$000: Mirtil Lima, Meton Gadelha, Melquíades Maia e Álvaro Weyne. De 10$000 para 5$000: Reis, I. Feijó, J. Nogueira Sampaio, Armando Guilherme, Firmo Caminha, Alberto Eloy da Costa. De 10$000 para 2$000: A. Fernandes. Ausentaram-se: Gerente do Telégrafo Submarino: 20$000 Gerente da Máquina Coala: 20$000 J. Miranda, gerente do Lloyd: 10$000 Dr. Girão: 10$000 Firma Irmãos Jereissati: 3$000 Recusaram-se a assinar, entre o comércio muito poucos, entre estes, algumas casas estrangeiras. Entre os particulares diversos. A todos os que aceitaram e ainda aceitarão para o futuro assinaturas para o “Dispensário”, nossos mais sinceros agradecimentos e a oração dos pobres socorridos pela mesma Instituição. A comissão entendeu-se mais uma vez com o Chefe de Polícia, a fim de que este providenciasse para que os pobres não mendiguem mais pelas ruas. S. S. novamente prometeu agir, como deve, e todos confiam.