Hemeroteca
O Nordeste
Maio de 1923 · 12 trechos transcritos
Manchetes desta página
- A situação do ensino no Ceará Numa de suas últimas edições, O Nordeste concluiu a publicação dos dados colhidos pela diretoria da instrução pública, no cadastro escolar realizado o ano passado. Aquela repartição organizou, esmiradamente, um quadro geral da situação do ensino, discriminando, em cada município, a população total, a população escolar, o número de escolas estaduais, municipais e particulares, e o quanto de crianças que as frequentam. Daí, tirou a percentagem de crianças em idade escolar que frequentam escolas, ou que não. É essa percentagem que merece os nossos comentários. São algarismos impressionadores, eloquentes, cujo valor não se desmente, e que estão aí de pé a atestar, ao vivo, o mal que iam, entre nós, as coisas da instrução. Antes de tudo, esse trabalho nos demonstra que nem sequer se conheciam as condições exatas do ensino no Ceará; antes do cadastro, tudo sobre instrução, entre nós, eram presunções que não se fundavam em fatos positivos, em fatos verificados. Mas voltemos ao exame da percentagem de crianças, em idade escolar, que frequentam e que não frequentam escolas. Notem-se, desde logo, estes dados: O cadastro verificou a existência de cerca de 161 mil crianças em idade escolar. Mas, destas, estão matriculadas apenas 25 mil nas escolas estaduais, menos de 8 mil nas particulares, e pouco mais de 2 mil, nas municipais. Que significam estes números? Que nós não temos, sequer, um quarto de crianças, em idade escolar que frequentem escolas. Isso é desde logo impressionador. Mas temos mais, e melhor ainda. Há municípios do Estado em que a percentagem de crianças sem escolas ascende a 96%, isto é, 4% da população escolar (de 7 a 12 anos) frequenta escolas, 4% apenas se habilita para ser, no futuro, os cidadãos de que o Brasil precisa para se integrar nos seus gloriosos destinos. Em outros, a percentagem desce para 94, 90, 86, 80, 70, etc., mas, em nenhum, se verifica uma percentagem menor de 60%. E essa, só se encontra em Quixadá e Maranguape. A média geral de percentagem de crianças sem escolas é de 22%, pouco mais ou menos. Isso, bem examinadas as coisas, tem uma significação muito grave, para a qual devem atentar todos os que, na administração pública, ou fora dela, têm a obrigação funcional, ou meramente moral, de concorrerem para o progresso do Ceará. Aqueles dados não querem dizer — veja-se bem que, no Ceará, há, atualmente, 100% de analfabetos, esse número, nós de certo o temos, senão até em proporções maiores. O que, realmente, aquilo significa é que, havendo 78% de crianças, em idade escolar, que não frequentam escolas, nós estamos fadados a ter, daqui a uma dezena ou duas dezenas de anos, um Ceará ainda com 78% de analfabetos, afora os que já o são hoje. Nós estamos, pois, deixando que a geração nova também cresça, como as anteriores têm crescido. Sem a educação necessária, sem, ao menos, o essencial da instrução primária. Depois disso, é ocioso chamar a atenção para a gravidade desse fato, em que se deve enxergar o comprometimento do futuro do Estado. Veja-se bem. Temos 78% de crianças dos 7 aos 12 anos. Mas, não frequentam escolas. Por outro lado, para uma população escolar de 161 mil almas, o Estado dispõe apenas de 595 escolas, que mal chegam para os 25 mil alunos que nelas se matricularam; e, se contarmos as particulares e municipais, esse total não excede de 772, para 36 mil alunos matriculados. Para sanar, em parte, o mal, seria preciso que se criassem, de uma vez, e imediatamente, pelo menos outras tantas 772 escolas. Mas isso é impossível. E, assim, o recurso de minorar a situação é aparelhar as escolas existentes do necessário para a sua absoluta eficiência, de boas professoras, de casas higiênicas adequadas, de material apropriado às exigências da pedagogia moderna. Ainda: é preciso amparar, por todos os modos, as escolas particulares existentes, estimular os que queiram fundar outras, e fazer mais com que os municípios, que são também os mais diretamente interessados, criem o máximo de escolas que lhes permita a sua capacidade financeira. Publicando essas considerações, nós apelamos para todos, particulares e homens de governo, porque encarem seriamente o grave problema que fica evidente com os dados expostos.
- O Exmo. Sr. D. Manuel não irá à Europa Soubemos que o Exmo. e Revmo. Sr. Dom Manuel, amado Arcebispo Metropolitano, não irá à Europa, conforme se mencionava, em vista de ter obtido, por meio do Convento dos Franciscanos da Bahia, os religiosos necessários ao desenvolvimento dos grandes trabalhos da paróquia e do Orfanológico de Canindé.
- O Centro do Comércio do Leite e a alta do resíduo de algodão leiteiros, impunha-se aquela reunião, as ideias ali discutidas, marcando o próximo domingo para uma reunião dos merceeiros em que se tratasse, em ação conjunta dos interesses recíprocos. Cujo fim principal era saber quantos quilos diários de resíduo representa o Centro do Comércio do Leite, a fim de [...]. Realizou-se, domingo passado, a reunião promovida pelo Centro do Comércio do Leite, para tratar da alta do preço de resíduo de algodão. A sessão foi aberta pelo respectivo presidente Sr. Dionísio Torres, que explicou aos presentes os intuitos e objeto da mesma. Começou S. S. dizendo que necessitava do apoio e solidariedade de seus consócios para o triunfo da causa abraçada. Afirmou que o êxito dependia, inteiramente, da ação imperturbável da coletividade. Disse que o Ceará não vem dando exemplos convincentes do que seja a união social, possuindo o povo em geral, o espírito de classe necessário à disciplina das agremiações. Disto eram provas, o Círculo dos Operários, o Centro Artístico, a Associação dos Merceeiros, a «Phoenix Caixeiral», a «Deus e Mar» e outras sociedades que se têm feito valer pela energia de seus esforços coletivos, impondo-se como verdadeiras forças no concerto social. Era preciso, pois, que o «Centro do Comércio do Leite», coeso e forte, reagisse impávido contra o trust açambarcador do resíduo, aliando-se às classes do povo, da pobreza, dos homens do vintém, a quem tão intimamente afeta a carestia da vida. Proclamou ser mais fácil subir o preço do leite que reagir contra o poderoso trust capitalista que vem açambarcando o sabão e resíduo, mas que jamais deveria tal ser consentido, apelando-se antes para a ação conjunta dessas respeitáveis classes no combate sereno e calmo que era preciso travar contra os potentados, ação essa que se traduzia numa aliança fraternal da mais absoluta solidariedade. Disse que medidas legais têm sido criadas contra as organizações de trusts que só em cidades sem civismo podem vingar pela inércia do povo. Entre nós, até pessoas alcançadas por favores oficiais fogem a compromissos e obrigações a que se sujeitaram para se aliarem contra o próprio povo! Explicou que os trusts são originários da ganância do ouro, ou da insubsistência do próprio negócio que os origina. Tanto em um como noutro caso devem ser combatidos pelo povo, que é o maior prejudicado por essas anormalidades. No caso em apreço, os industriais industriais da terra tinham invertido os papéis de modo que em lugar de mostrar que precisam dos consumidores, julgam, ao contrário, que os consumidores é que precisam deles. Continua o orador afirmando que em parte alguma do mundo a indústria impõe-se ao consumidor, que não seja por vantagens no preço ou na qualidade dos produtos. Aqui, ao contrário, pretende-se impor à viva força, cotando-se produtos que não se podem igualar, pelo mesmo preço e condições, para a satisfação exclusiva de interesses de uma indústria gananciosa ou insubsistente que só por força de um trust logra manter-se. Continua o orador explicando que resíduo de algodão não é indústria, e sim, como seu próprio nome indica, o resíduo da indústria do óleo. Em toda parte é como tal considerado e vendido por baixo preço como adubo ou alimento azotado da pecuária. Entre nós, no entanto, o desassombro dos industriais chega ao extremo de dar-lhe um preço quase igual ao da semente em natureza, procurando-se ganhar o óleo, justamente a parte mais valiosa e principal da semente e que em toda a parte do mundo representa o valor integral daquela. Onde quer que haja indústria séria do algodão e subprodutos, quando a semente sobe de preço, quem altera de custo é o sabão, ou demais indústrias conexas e laterais do óleo, e nunca vem afetar, senão de leve, o resíduo, aliás preparado em condições mais próprias para a alimentação do gado e portanto de melhor qualidade que a torta impura que se fabrica entre nós para imensa vantagem de certos industriais que, à custa disso, têm feito fortuna. No Ceará acontece o fato extraordinário do custo do sabão ser altamente defendido pelo preço do resíduo elevado a um limite desarrazoado pelo abuso dos industriais e tolerância dos consumidores. Urge, pois, intensa reação a esse modo de falsa exploração dos subprodutos do algodão, reduzindo-os às suas justas e equitativas proporções. Esse combate, ninguém melhor que o povo poderá intentar, conhecendo os segredos do mister, que são familiares ao orador e que irão sendo desvendados para melhor conhecimento dos interessados. Como medida de urgência, essa sociedade ficar encarregada de sua aquisição, onde lhe parecer mais conveniente, extinguindo-se assim a divisão da compra, que, fracionada como tem sido até hoje, tem servido apenas de sustentáculo de várias prensas da capital, em quantidade de produção superior ao consumo e que ora se associam para impor condições humilhantes aos compradores. Essa associação que se deu de modo sui generis e da maneira mais fácil de se ganhar dinheiro, teve por fim elevar incontinente o preço de resíduo de $140 o quilo para $170, dando à firma açambarcadora $020 às fábricas e ficando com $010 em cada quilo que for vendido por seu intermédio ou pelo das próprias fábricas! Nenhum golpe de inteligência precisou ser posto em prática para conseguir tão proveitosos fins. Isso se fez da noite para o dia, na maior desconsideração da freguesia da véspera, que os tem sustentado e enriquecido! O Centro do Comércio do Leite precisa ser autorizado por todos os sócios a efetuar negócio com uma única fábrica, que trabalhando de noite e dia possa satisfazer as encomendas no valor de cerca de 7.000 quilos diários de resíduo. Que tal contrato jamais poderia ser realizado com a firma açambarcadora, pois, seus sócios, fora, ou isoladamente, ofereciam e vendiam resíduo por menos 20 réis do que o próprio trust, sendo leviano e ingênuo o protesto de desmentido, publicado na imprensa pela firma do trust, pois, como era do conhecimento de todos, havia entre os presentes, consócios que sustentam ter recebido ofertas de uma fábrica, naquelas condições, com o testemunho de pessoas de fé e, na véspera, outra fábrica do trust vendera a um freguês de Bananeiras uma carga de 100 quilos por $16.000, fato esse verificado por dois consócios isoladamente e por um respeitável negociante de nossa praça. Que sendo o negócio fechado pelas próprias fábricas isoladamente, não havia nenhuma vantagem para o Centro de se entender com o trust. Afirmou o orador que se nenhuma fábrica acolhesse o negócio, seria o caso, então, do Centro apelar para as classes pobres, em propaganda inteligente, para a incorporação de uma sociedade por ações de $200.000 entre as classes do povo, para a montagem de uma fábrica de sabão e resíduo, desde que os merceeiros garantissem o consumo do sabão e os leiteiros o do resíduo. Em seguida, pediu à palavra o Major Vieira Costa, presidente da Associação dos Merceeiros, que agradeceu a eleição do Sr. Dionísio Torres e a sua atuação, afirmando que [...] para acautelar os interesses dos [...] conhecimento de seus [...]
- Assim, nos achando em condições de dar perfeito desempenho às mais prezadas ordens, muito agradeço, antecipadamente, o logo de tomar a sua de minha assinatura. Atenciosamente, [...]. Barcadora, pois, seus sócios, fora, ou isoladamente, ofereciam e vendiam resíduo por menos 20 réis do que o próprio trust, sendo leviano e ingênuo o protesto de desmentido, publicado na imprensa.
Anúncios, notas e expediente
- Expediente Nordeste Redação: Dr. Andrade Furtado e José Martins Rodrigues Administração: A. Ildefonso de Araújo ANO I Fortaleza — Quinta-feira, 24 de maio de 1923 Nº 271
- Nota social O aniversário do redator d'A Verdade Decorreu, ontem, a data do aniversário natalício do nosso prezadíssimo amigo, coronel Ananias Arruda, digno redator-chefe da nossa colega A Verdade, de Rururité, e católico dos mais operosos e decididos de nossa terra. Espírito reto e coração boníssimo, o coronel Ananias Arruda vive cercado da alta consideração e inequívoco apreço de quantos privam da sua amizade. Dotado de uma fé inquebrantável e de uma capacidade de trabalho incomum, é, pela sua piedade sólida, corajosa e esclarecida, um dos mais fortes esteios da ação católico social no Ceará. «O Nordeste», que o conta no número dos seus mais sinceros e leais amigos, muito folga em render o tributo da sua profunda admiração e elevada estima ao honrado cearense, em quem reconhece um homem de bem a toda prova. Fazemos ao bom Deus ardentes votos pela constante e inalterável felicidade do prestimoso e caríssimo correligionário.
- Telegrama 24 DE MAIO A data de hoje assinala uma das mais gloriosas efemérides dos nossos fatos militares. Comemora a nossa Pátria, neste dia, a notável Batalha de Tuyuti, a mais encarniçada pugna campal ainda travada no Continente Americano do Sul. O exército brasileiro teve oportunidade de revelar ao mundo a sua disciplina férrea e extraordinária bravura, desbaratando por completo as aguerridas forças paraguaias, muito superiores em número e eficiência militar. Foi uma lição memorável de heroísmo e constituiu a derrota definitiva do ditador inimigo. Desde o fracasso irremediável desta surpresa frustrada, López não mais viu brilhar a ingênua ilusão de uma conquista fácil do nobre Império do Brasil. O preparo bélico de muitos anos esboroou-se, radicalmente, nos campos de Tuiuti, onde ao lado do imortal Osório, cobriu-se de glórias o nosso bravo conterrâneo, general Sampaio, ferido, gravemente, ao findar o combate. [...] Nacional pela passagem desta data inesquecível e que vale como um padrão de honra para todo o militar patriota e digno.
- Nota social Uma conversão Em Roma, na igreja dos jesuítas, com solene abjuração, passou do Protestantismo ao Catolicismo, a jovem baronesa Elsa Clemente von Schole, de uma antiga família luterana da Frísia Oriental (Alemanha). É prima da célebre escritora alemã Isa von Stach, convertida em 1908, em Colônia, pelo Cardeal Rampolla, dedicando desde então o seu belo talento ao bem da causa da única e verdadeira Igreja, escrevendo dramas, romances e estudos históricos.
- Telegrama SENECTUDE Velha árvore a morrer apodrecida Pela seiva que tudo contamina. Nunca mais vibrarás à cavatina Que te animara a fronde reflorida Perscruto-te a ânsia ignota e dolorida. Recordando o teu tempo de menina Vejo-te, aqui, num fio de resina. Toda a saudade vegetal da vida. A mão do tempo desapoderado, Transformou-te a opulenta verde-escura Num espectral Briareu tatuado. Mas ainda assim, cheia de cicatrizes Vives da clorofila da esperança. Palpitando nas sôfregas raízes. Carlos GONDIM
- Telegrama ECOS O Exmo. Sr. Dom Manuel, Arcebispo Metropolitano, incumbiu ao Governador do Arcebispado, Monsenhor Telmo Braga, de mandar fazer uma visita em seu nome a S. Exa. o Sr. Dr. Justiniano de Serpa, Presidente do Estado, apresentando os votos que faz pelo seu restabelecimento. Encarregou ao Monsenhor J. A. Furtado, Cura da Catedral, de fazer a aludida visita, missão de que S. Revma. ontem se desempenhou.
- Anúncio Recebemos a seguinte comunicação: Tenho a satisfação de comunicar a V. S. que nesta data inaugurou-se nesta capital, à rua Liberato Barroso, nº 11, uma empresa de anúncios comerciais, pinturas e serviços anexos, sob a denominação de 'Agenda Mercúrio'. A execução de qualquer trabalho, confiado à sua Agência, será feita com máxima presteza e perfeição.
- Telegrama [...]