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O Nordeste
Junho de 1923 · 14 trechos transcritos
Manchetes desta página
- Finanças da União O "Jornal do Comércio", do Rio, edição de 26 de maio último, publica longo artigo de análise à situação das finanças nacionais, e pelos dados do qual bem se pode avaliar da orientação e critério seguros com que as vai norteando o atual presidente da República. Aliás, esse critério ainda há pouco se demonstrou mais uma vez no fato, hoje não verificado na República, de haver enviado o governo ao Congresso, no prazo legal, até 31 de maio, a proposta orçamentária para 1924. Abrimos espaço, pois, ao comentado artigo do velho jornal brasileiro, com a satisfação de transmitir ao público notícias do novo caminho que tomaram as finanças do País: Temos, hoje, uma boa notícia a dar aos brasileiros, a propósito da gestão de nossas finanças. É esta — nossas receita e despesa federais, no trimestre de janeiro, fevereiro e março últimos, decorreram em equilíbrio, tendendo francamente para saldo ou superávit na terminação do exercício. Há 22 anos que esse fato não ocorria. Nos três aludidos meses, a renda foi esta: Ouro Papel Renda ordinária................. 18.592:474$192 139.678:624$607 Renda extraordinária. . . . 66:602$158 5.483:460$555 Renda com aplicação especial 3.325:980$549 7.034.885$821 Renda a classificar............ _ 31:112$421 30.523:460$321 22.016:160$320 172.770:410$304 E a despesa foi esta: Ouro Papel Ministério da Justiça 8.094:134$791 254$678 Ministério do Exterior 363:409$781 491:322$749 Ministério da Marinha. 10.143.825$783 130:880$979 Ministério da Guerra . 40.710:803$683 46:604$929 Ministério da Viação . 28.937:349$321 608$888 Ministério da Agricultura 2.451:266$017 20:842$037 Ministério da Fazenda 22.676:733$074 14.418:321$232 113.377:522$455 Nestas despesas, cujas contas se encerraram a 31 de março, não poderia ter sido incluída a despesa de pessoal relativa a março, paga nos primeiros dias de abril, e que deve ter importado em 7.209:150$616 ouro, e réis 66.688:761$227 papel. Incluídas estas duas últimas importâncias, verifica-se que o total real do trimestre em exame é: Receita, 22.016:169$320, ouro; e 172.770:440$304, papel. Despesa, 21.627:481$848, ouro, e 170.066:283$682, papel. Saldos, 388:687$472, ouro; e 2.704:156$622, papel. Permitiam agora nossos leitores que lhes recordemos haver o "Jornal do Comércio" feito, em editorial de 6 de janeiro último, publicado ainda antes da promulgação da lei orçamentária para 1923, um condensado estudo da situação orçamentária no atual exercício, e que nesse trabalho se encontra esta previsão: «Pelos nossos cálculos, que estamos longe de supor infalíveis, a arrecadação geral de 1923 deverá exceder de 85 mil contos, ouro, e de 850 mil contos papel.» O primeiro trimestre em análise, veio confirmar nossos cálculos, com vantagem — a renda, ouro, foi de 22 mil contos, em três meses, quer dizer, irá a 88 mil contos nos 12 meses. Nossa expectativa é que ela ascenderá a mais ainda, com a provável melhora do câmbio, facilitando as importações, no segundo semestre do exercício. Não será muito surpreendente que a renda ouro exceda de 95 mil contos nos 12 meses. Antecipamos cálculos que nos fizeram prever a renda papel maior de 850 mil contos, no exercício. Satisfeitos estamos com a confirmação, que nos vêm os fatos trazendo: a renda papel foi, em três meses, de 172 mil contos, o que corresponde a 688 mil contos nos 12 meses. Mas cumpre ler, em atenção, que a elevação da renda papel não apareceu ainda nos três primeiros meses em exame, porque a regulamentação dos impostos novos de selo e de consumo não pôde ser ultimada nesse período. Basta dizer-se que o regulamento do selo de faturas assinadas e de vendas à vista só agora vai entrar em vigor, e que essa renda vai ser extraordinariamente elevada. É bem visto que os meses seguintes vão produzir arrecadação muito maior. Continuamos a pensar que a receita arrecadada vai ser superior à receita orçada nos 12 meses do exercício. A gestão financeira atual provoca um comentário de grande alento — já estamos em maio, no fim do quinto mês do exercício, e no "Diário Oficial" não se encontram, na profusão dos exercícios passados, os decretos de créditos especiais e extraordinários, que vinham constituindo um segundo orçamento quase arbitrário para a despesa pública. A administração financeira da União tem se revelado prudente e severa, renunciando a grandes iniciativas, antes de para elas reunir recursos. Estamos, decididamente, de rumo mudado, nesse particular. Vê-se que a preocupação do equilíbrio orçamentário domina o espírito governamental. Nas dobras desta notícia, se perceberá desde logo um fato novo, para o qual pedimos a atenção dos nossos leitores, tão auspicioso é ele. É que já estamos nos baseando em algarismos fornecidos autenticamente pela Contadoria Central da República, em demonstração feita por partidas dobradas. Nunca aconteceu este fato no Brasil: apurar-se em maio a receita e a despesa de janeiro, fevereiro e março últimos! Aí está o primeiro fruto da obra do dr. Sampaio Vidal, praticada com o auxílio inestimável do seu braço direito, o dr. F. D'Auria, contador geral. O balanço dos três meses é completo em relação ao passivo. O ativo é incompleto, por faltarem alguns dados. Ao encerrar-se o exercício, a Contadoria espera que tais lacunas do ativo estejam preenchidas. Este serviço que o governo atual está levando a feliz execução, através de incríveis embaraços e dificuldades, será dos maiores de que vai poder orgulhar-se a administração do dr. Arthur Bernardes. Num dos mais recentes números do "Le Temps", do ponderado e acreditado órgão da Imprensa francesa, exatamente no número de 1º de abril último, encontramos artigo de fundo, que começa por estas palavras: «Para o dia de Páscoa, é uma boa notícia aquela que os contribuintes britânicos leram nos jornais ingleses de hoje pela manhã! Ela lhes foi anunciada com uma rapidez e uma precisão verdadeiramente admiráveis. O atino financeiro terminou na Grã-Bretanha a 31 de março. Desde a noite desse mesmo dia 31, as receitas e despesas do exercício estavam somadas e comunicadas aos jornais. O Tesouro inglês pode estar orgulhoso desse resultado.» É para atingir resultado igual que estão trabalhando com afinco os órgãos da Contadoria Central do Tesouro. A obra daqui é de construção muitíssimo mais difícil do que a de lá. Basta considerar por um lado o progresso dos meios de comunicação na Inglaterra e no Brasil, e por outro lado a extensão territorial de cada um dos dois países. Tendo essas considerações presentes a nosso espírito, bem se pode compreender quão meritório é o novo serviço e quão avançados já vão sendo seus resultados, para que em maio, no Rio de Janeiro, tenhamos balanço relativo aos três primeiros meses do ano. Felicitamos o Governo pelos resultados que vai colhendo dos seus esforços em benefício das finanças brasileiras.
- O jubileu sacerdotal do padre Vaessen Comemorando, anteontem, o 25º aniversário da ordenação do padre Guilherme Vaessen, operoso reitor do Seminário Arquiepiscopal, o Clero desta Arquidiocese e os alunos e professores daquele estabelecimento realizaram brilhantes festas em homenagem ao virtuoso sacerdote. À noite, às bem organizada sessão literodramática, no Seminário, à qual compareceu crescido número de pessoas graduadas. Falaram: mons. J. A. Furtado, em nome do clero cearense; e o padre Otávio de Castro, pelo Seminário Arquiepiscopal. Foi, depois, executado o programa organizado, que constou, entre outros, dos seguintes números: Hino ao padre Reitor, pelos alunos; Cançoneta - lá, si dó — por F. Josino; Drama - O punhal; O casamento do matuto, por J. Fernandes; O primo da Chica, comédia; O gago, cançoneta, por F. Josino; Ágata, cançoneta cômica, por A. Ribeiro. Nos intervalos dos diversos números, fazia-se ouvir harmoniosa orquestra. "O Nordeste" renova ao padre Vaessen os seus parabéns e votos de constantes prosperidades na sua utilíssima vida sacerdotal.
- PARA AS CRIANÇAS QUE MORREM DE FOME Chegou-nos, ontem, o primeiro donativo para as criancinhas que, na Rússia, na Europa Central e no Extremo Oriente morrem de fome. Começa a atender, logo, assim, a nossa população ao apelo que a Nunciatura Apostólica, fazendo-se eco do bondoso coração do Santo Padre, dirigiu a esta Arquidiocese, e que o governador geral do Arcebispado está dirigindo, por nosso intermédio, aos seus jurisdicionados. Bem depressa compreendeu o coração generoso do cearense que é preciso concorrer para que se minorem os sofrimentos dos inocentes, que a mão impiedosa das revoluções sociais e das guerras atirou à mais negra e à mais dura das misérias. O primeiro que nos envia donativos para esse nobre fim é o sr. João Soares Ferreira, fundidor, que, comemorando o 2º aniversário de seu filhinho David, remeteu-nos 5$000 para as crianças que morrem à fome na Europa. Belo exemplo, que, estamos certos, será largamente imitado entre nós.
- A extinção da Escola de Agronomia Escrevem-nos: <Srs. redatores d'"O Nordeste" O toque de rebate do "Correio do Ceará" de 30 de maio passado despertou minha atenção, por se referir ao fechamento da Escola de Agronomia do Ceará, que sempre reputei um instituto muito útil. Na edição de ontem, o mesmo jornal ainda aludiu ao assunto, inserindo ampliando missiva firmada por K. F. Pois bem. Pretendo, tão somente, corrigir uma injustiça que se fez naquela carta. Citaram-se ilustres professores daquela casa de ensino, mas o missivista esquecera alguns que seria injustiça clamorosa deslembrar neste instante. Cremos, então, cumprir um dever, apelando também para os drs. Rompeu Filho (atual diretor), Heribaldo Couto e Raimundo Xavier, além de Carlos Ribeiro e Antônio Justa. Estes não podem ser esquecidos, se os outros são lembrados, tanto mais quanto entre os últimos se incluíram alguns que há dois anos não professam. Naturalmente o sr. E. F. não conhece a vida interna da Escola de Agronomia, como eu, que estou amplamente informado dela por pessoa fidedigna. Assim se explica o erro em que caiu, o que não se pode dar quando pretendeu estabelecer relações entre Campos de Sementeira e aquele instituto. O desamparar a Escola de Agronomia é, em verdade, um crime, e pensamos que o governo deveria examinar as suas condições de regular o eficiente funcionamento para protegê-la. Juntamos o nosso aos demais votos para que cessem as anormalidades na vida da Escola de Agronomia do Ceará. Vosso constante leitor D. M. Fortaleza, 4/6/1923.
- Publicações "A Escola" Com uma capa colorida, vê-se no centro, artisticamente emoldurado, o clichê do sr. Pimentel Júnior, apareceu-nos "A Escola", revista do grêmio "Padre Tabosa", fundado pelos alunos do Instituto S. Luís. Essa revista, com o décimo número, inicia, corajosa, uma fase nova de sua vida, em que se nota claramente o indefeso esforço do seu corpo redatorial, bela falange de moços de bom senso, inteligentes e pertinazes no estudo. É obra, portanto, da inteligência equilibrada de uma mocidade estudiosa que muito se interessa por nossa língua e pela verdade dos fatos históricos. Por aí vemos, com regozijo, que não se trata de uma publicação qualquer, repleta de "trapaças" e outras quinquilharias. "A Escola", de orientação segura, é o porta-voz do pensamento dos estudantes de um colégio, onde se forma religiosamente o caráter de seus alunos, ilustrando-se-lhes o espírito, com amor e solicitude. Sentimo-nos, pois, muito bem, registrando, em nossas colunas, a visita gentil que nos fez essa apreciada revista colegial. Com os nossos aplausos e a expressão sincera do nosso agradecimento.
- PELA MORALIDADE SOCIAL Tem visto a população de Fortaleza a repercussão que vai obtendo, no meio social, a campanha do "O Nordeste" em prol da moralização de costumes da cidade, que se vai deixando chegar a uma devassidão até hoje desconhecida entre nós. Numerosas têm sido as comunicações de aplausos e denúncias de fatos imorais, que temos recebido e a que temos dado publicidade. Nós esperamos continuar com o apoio e auxílio dos leitores, nesta campanha, em que não desfaleceremos, enquanto não virmos, dela, resultar algo de útil à sociedade ameaçada no seu patrimônio moral, pelo progresso e descaramento do meretrício, pelo desenvolvimento do consumo, da morfinomania e de outros vícios exóticos, para aqui trazidos por elementos estranhos. A quem quer que se sinta ofendido pela falta de decoro do meretrício, a quem quer que tenha notícia de fatos de gravame à moral pública, e os queira denunciar, nós franqueamos estas colunas. Esta campanha, que vimos fazendo, e que todo mundo reconhece absolutamente necessária, precisa, antes de tudo, do apoio decidido do elemento são da sociedade de Fortaleza. Precisamos fazer mover-se a polícia, levá-la a querer ver o que todo o mundo está vendo, corrigi-la pelos nossos reclamos, a fazê-la agir, como deve, a cumprir, inflexivelmente, o seu dever. A polícia, até agora, que é que fez? Nada, ou quase nada. São as autoridades policiais mesmas que nos informam, vagamente, haver tomado algumas providências. O delegado Adjunto acrescenta-nos que fez mudarem-se umas três meretrizes denunciadas. Mas as providências contra o grosso das mulheres de vida imoral, contra as mais perniciosas, porque o comércio por elas praticado está mais desenvolvido, contra as que, na frase enérgica e voraz de um nosso colaborador, são, realmente, as donas disto, essas não aparecem, essas não se iniciam. Que é que lhe tolhe a ação, ou não o medo de arcar contra o poder das rameiras? Mas, se a polícia, de fato, está agindo, que é que lhe cumpria? Comunicar à imprensa tudo quanto fizesse nesse sentido, para dar mais força à campanha iniciada. Por outro lado, é certo que as autoridades lutam, para a localização do meretrício, com graves dificuldades. É o caso que há muitos proprietários de pouco escrúpulo moral que preferem alugar suas casas a meretrizes, porque estas pagam um pouco mais que as famílias. Estas é que se veem, por isso, forçadas a suportar as indecências que aquelas praticam. Fazemos daqui um apelo aos locadores. Escolham muito favorável ganhar um pouco menos, por amor à moralidade de famílias iguais às suas próprias. Além disto, de acordo com a lei do inquilinato em vigor, é caso de despejo o do inquilino usar do prédio para suas ilícitas. Vamos; menos amor à vileza do dinheiro, ainda mais vil, quando tem origens viciosas, como essa. Recebemos, hoje, a seguinte carta: <Srs. Redatores. Leitor assíduo desse venerado jornal, que tão sabiamente tendes dirigido por uma vereda toda plena de virtudes de amor à verdade e à prática do bem, tenho-me deveras interessado pela bela e louvável iniciativa que acabais de encetar pela propagação do sereno intento moral de uma parte bem considerável do povo cearense. Tenho com o máximo interesse acompanhado essa campanha luminosa pelo saneamento moral de nossos costumes, e cumpre-me agora, como era meu intento, fazer uma ligeira referência a uma carta publicada por esse vespertino, apontando uns antros de perdição existentes no Boulevard Duque de Caxias, entre as ruas Barão do Rio Branco e Senador Pompeu. Sobre a acusação feita pela carta aludida, posso assegurar-vos ser verdadeira, acrescentando ainda que num dos locais há um espelho que reflete todas as cenas escandalosas, fazendo assim privar as famílias de chegarem às janelas, para não se depararem com quadros negros e indecorosos. O movimento de automóveis nesses bordéis é intenso, com o barulho ensurdecedor de suas buzinas, que chegam a incomodar a vizinhança. E o que causa maior pasmo, srs. redatores, o que mais nos repugna, é ver a indiferença de certos guardas civis que, encostados nos postos de iluminação pública, talvez se sintam felizes por terem encontrado momentos de distração nas horas de vigília pela tranquilidade e bem-estar da população. 4/6/1922 R. A. U.
- Pelo Foro Criminal Sob a presidência do sr. dr. Laurindo Belém, teve início, anteontem, o processo criminal, por denúncia, do ministério público desta cidade, contra Pedro Barroso Meireles e Pedro Rodrigues, por crime de furto de olhos de palhas de carnaúba em terra de propriedade e posse do capitão Antônio Joaquim de Carvalho, tendo terminado, ontem, com a qualificação dos réus demarcados. Foram advogados da parte acusadora o ilustre causídico Dr. Dolor Uchôa Barreira e dos denunciados o dr. Gomes Valente.
- A sra. Erotilde Viana, residente no Boulevard Visconde Cauípe, nº 710, procurou-nos hoje, para nos comunicar sua indignação recebida pelo "O Nordeste", acerca de um antro de jogatina existente no mesmo local. Trata-se, segundo esta senhora, daquele cavalheiro, amigo de família, entre outros irmãos, com foros de exploração ilícita.
Anúncios, notas e expediente
- Expediente Redação: drs. Andrade Furtado e José Martins Rodrigues Administração: A. Ildefonso de Araújo A ocupação mais séria da vida do cristão verdadeiro e fiel é procurar, constantemente, a perfeição de seu estado. — S. Francisco de Sales
- Expediente ANO I Fortaleza — Quarta-feira, 6 de Junho de 1923 NUM. 281
- Nota social Selos & Cupons Por motivo do seu aniversário natalício, a interessante Milena, querida filhinha do sr. Antônio Gentil Gomes e Maria Noêmia de Arruda Gomes, enviou-nos, para os Nobres de S. Vicente de Paulo, mil e cem cupons de bônus.
- Telegrama ECOS Recebemos o seguinte: «Senhor Redator. Assumindo a Chefia do Serviço de Saúde da Guarnição e da Enfermaria Hospital, tenho o prazer de comunicar-vos que fico ao vosso inteiro dispor nos misteres inerentes ao meu cargo, hipotecando-vos a minha estima e alta consideração.» Saúde e fraternidade. Dr. José Bonifácio Câmara 2º Tenente Médico.
- Telegrama Distinta senhora extraviou um pacote de fazendas, deixado por distração, numa loja de modas, desta praça. O respectivo dono pode procurar em nossa redação, fornecendo, antes, os verdadeiros sinais do pacote.
- Nota social Quantia enviada para os Nobres de S. Vicente de Paulo com cupons de bônus.