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O Nordeste
Junho de 1923 · 6 trechos transcritos
Manchetes desta página
- Aviso Eclesiástico Crianças que morrem de fome! A contribuição destes últimos, prescindindo da entidade material da oferta, reveste, fora de dúvida, um significado de uma importância e de uma delicadeza toda especial. Possui em verdade um alto valor educativo a esmola recolhida na pequeníssima mão de uma criança que sabe que o seu minúsculo óbolo é destinado a passar para a mão descarnada de seu irmãozinho, além-mar, por meio do Pai Comum, o Papa. Revdmos. srs. vigários desta Arquidiocese. Laudetur J. Christus. O nosso Santo Padre acaba de escrever uma Circular ao Ilustríssimo Episcopado Brasileiro, pedindo auxílios para as crianças que morrem de inanição em diversos países da Europa Central e no Oriente. O Exmo. sr. Arcebispo de Fortaleza determinou que levasse ao conhecimento de V. Revdmos. o justo apelo que a Santa Sé nos fez, pedindo-lhes obterem no seio dos seus paroquianos alguns auxílios para tão piedoso fim. Aproveito gostosamente o ensejo para renovar a V. Exa. os sentimentos de minha mais distinta consideração. - Henrique Gasparri, arcebispo de Sebaste, núncio apostólico no Brasil. A Circular alvitra que se promova esta grande obra no seio das crianças, para que se habitue o homem desde a infância a se compadecer dos seus semelhantes. Poderão fazer muito a favor desta causa no seio dos seus alunos, os ilustres diretores de colégios e as Exmas. sras. professoras. Angariados os donativos, sejam logo enviados a esta Secretaria, que se trata de necessidades urgentes e dolorosas. Peço que sejam lidas na Missa Conventual esta e a Circular da Nunciatura. Câmara Eclesiástica, 2 de Junho de 1923. Padre Antonio Tabosa Braga Governador do Arcebispado CIRCULAR DA NUNCIATURA Exmo. sr. — Não parecem encontrar por agora termo as gravíssimas dificuldades e indizíveis sofrimentos em que se debatem, há já alguns anos, a Europa Central, a Rússia e o Oriente. Entre os muitos que definham nas cidades e nos campos daqueles infelicíssimos países, os que mais de perto sofrem as consequências da terrível guerra são as pobres criancinhas. Precisamente a infância, a qual Jesus mostrou sempre carinhos especiais, é a que mais sofre, não podendo, por isso mesmo, senão comover aquele que é o Vigário de Jesus Cristo nesta terra. As lágrimas de vítimas tão pequeninas ainda impulsionando mais uma vez o Sumo Pontífice a apelar para os sentimentos cristãos de todos os que, na infância, veem um raio de poesia que alegra a vida e, sobretudo, um tesouro inestimável de inocência. O Brasil, cuja alma generosa foi sempre inflamada pela caridade, já mostrou, no ano passado, que não era insensível à voz de quem, no seu ministério do amor, leva o conforto onde quer que haja lágrimas e sofrimentos, sem fazer distinção de crenças ou de raças. É, por conseguinte, fora de dúvida que o Brasil também no presente ano acolherá o apelo do Papa, satisfeito em realizar uma obra de caridade, dando graças à Providência que o coloca na prosperidade de quem sabe dar e não entre as amarguras de quem necessita de ser socorrido. Estou certo que V. Exa. secundará em suas intenções e desejos paternais, dirigindo-se também às corporações eclesiásticas e, sobretudo, aos colégios.
- PELA MORALIDADE SOCIAL [...] parte quase todos os países do Continente europeu e da América do Norte, tendo-se o Brasil representado por seu ministro na França, dr. Gabriel de Pisa. Já no antigo direito português, o crime de alcaiotaria, correspondente ao lenocínio dos romanos, por uma lei de D. Afonso IV, era punido com as penas de açoites e perda de bens. D. João I agravou a penalidade, chegando a impor pena de morte, o que foi confirmado pela Ord. Afonsina, que aplicava também aos rufiões açoites e degredos para a África. Relativamente ao nosso Código Penal, o eminente jurista dr. Viveiros de Castro, explicando a última parte do art. 278, diz: «A segunda modalidade do lenocínio consiste na prestação por conta própria, ou de outrem, sob sua ou alheia responsabilidade, de assistência, habitação e auxílios a mulheres que se empregam no tráfico da prostituição para desta especulação auferir lucros diretos ou indiretos». «Estão aí compreendidos os proprietários de hotéis e hospedarias que alugam quartos por horas, os indivíduos que alugam prédios, mobiliam os aposentos, dividem compartimentos com o intuito preconcebido de sublocar a prostitutas; as proprietárias de bordéis, lupanares, etc». Trata-se, pois, de uma figura criminal prevista pelo Código Penal, e a autoridade, amparada na lei, [...] casas. Porque a nossa polícia não experimenta a medida posta em prática pela sua congênere mineira? Para conseguir esse feliz desideratum não lhe faltarão meios. Faz-se mister que o ilustre redator saiba que não falo por despeito e sim como pai de família que pugna pelo bem-estar da nossa sociedade. Voltarei. Vosso atento amigo e leitor A nossa campanha de moralização social continua a encontrar o mais decidido apoio na população de Fortaleza. Ainda hoje, abrimos nossas colunas a um artigo, otimamente lançado, em que se demonstra, com abundância de argumento jurídico, que a polícia pode amparar-se no Código Penal para perseguir o lenocínio e o cafetismo, para que a escória humana não continue a tripudiar abusivamente sobre a moralidade e a lei. Se não age, é porque não o [...] e pouco lhe faz que a moralidade de Fortaleza se veja, diariamente, afrontada. Em o artigo aludido: «Merece toda a sorte de aplausos a atitude decidida dessa folha. [...] da vida que residem nos altos do Café Riche, quartos do Hotel Central. Essas rameiras não respeitam, do modo nenhum, o decoro público e se ostentam, nas janelas de seus quartos, pela manhã, com [...] pudicícia e menosprezo da [...] dos que por ali transitam. Devemos já ao O NORDESTE a quase extinção das casas de vadiagem, sorvedouros insondáveis dos patrimônios das famílias. O jogo é o culto de uma divindade ímpia que primeiro pede dinheiro, depois a honra, após a vida e finalmente a própria alma. É o círculo vicioso da esperança, o infinito da cobiça, onde se consomem os dotes dos filhos, as joias das esposas, o sossego do espírito e a paz doméstica. Combater o jogo é, pois, um dos maiores serviços que se pode prestar à humanidade. Vitorioso nessa primeira batalha, temos as mais fundadas esperanças que o vosso jornal saberá empregar o mesmo denodado esforço e perseverança contra o lenocínio, coisa hedionda que ultraja e envergonha a nossa civilização. Recebemos, mais, o seguinte, a respeito da nossa campanha: «Caro amigo Sr. Redator d'«O Nordeste» Saudações Ao que parece a polícia, até o presente, não deu um só passo para dar providências às justas reclamações feitas por esse jornal relativamente à localização do meretrício. Em minha correspondência passada, deixei de citar mais uma [...] existente à rua do Chafariz, de propriedade de «madame» Marleta Birros. Também deixei de frisar que a pensão à rua Major Facundo está situada nos altos da casa «Africana», local dos mais centrais da cidade, por ali dizer, o coração do nosso comércio. Em Milão, Gênova, onde existe uma polícia de costumes, o número de [...] casas foi reduzido, enquanto, e, no futuro, para felicidade daquele povo, desaparecerão, totalmente, essas funestas [...] E lamentável que, quando a autoridade policial, manda intimar [...] prostíbulo para retirar-se da Divina vizinhança das famílias, haja alguém que tenha a coragem inaudita, a desfaçatez de censurá-la, fazendo avisos extemporâneos ao [...] delegado de Polícia, apontando a norma de combate a se- [...] Note-se que o Hotel Central fica em plena Praça do Ferreira, centro de todo o movimento da cidade, e pasmar-se-á da afoiteza com que, nesta capital, o elemento [...] da sociedade ofende o decoro das famílias e a gravidade de costumes que tínhamos o estrito dever de conservar. Neste ponto, é provável que não haja cidade alguma no Brasil, de mediana civilização, que esteja tão relaxada quanto a nossa. E a polícia?
- O “caso” gaúcho Se o noticiário telegráfico da imprensa, as tendências de acordo em torno do agitado caso do Rio Grande do Sul. A revolução é evidente que tem progredido, apesar das constantes derrotas e derrotas que anuncia o borgismo. Este, por seu lado, na insânia de se manter no poder, custe o que custar (conceito que apreendeu do sr. Nilo), tudo tem feito, de todos os recursos tem lançado mão, levando o Estado, pelo delírio dos gastos militares à bancarrota e à ruína. Entre essas duas encarniçadas forças adversárias a opinião nacional quase que não se divide, quase que toda ela ampara, moralmente, os denodados pioneiros da libertação do Rio Grande de um jugo ditatorial de mais de 20 anos. Mas, na verdade, se quase todos desejam a queda do sr. Borges de Medeiros, é unânime a aspiração de que se venha a pacificar a terra gaúcha, entregue a toda sorte de intranquilidades e desordens e (o que é mais grave ainda), pelo egoísmo do seu presidente, que só enxerga a necessidade de sua conservação, exposta à invasão, ultrajante para a dignidade nacional, de caudilhos e masorqueiros dos países vizinhos, comprados e pagos, regularmente, pelo dinheiro do Estado. É pela força exercida por aspiração unânime do País que os altos homens da política estão envidando esforços ingentes por chegar a um acordo entre os contendores. O presidente da República enviou, já, àquele Estado, um emissário incumbido de examinar a situação, e verificar as bases em que a solução se poderia propor. Mas surgem dificuldades de monta a esses tentamentos. O sr. Borges, que desadora o apostolado das revoluções, (depois que falhou a sedição de julho e se engrossa a que o quer apear do poder) é intransigente em não aceitar acordo, cuja base não seja a sua permanência no governo. Neste sentido são as irrisórias condições que, há pouco, propôs aos adversários: — dar-lhes um terço das representações federais e estaduais; executar a lei eleitoral federal; e perdoar aos revolucionários (!). Dar um terço das representações, como se respeitar os direitos da minoria não fosse já uma obrigação indefectível imposta pela Constituição da República. E as outras duas, especialmente perdoar aos que o combatem, como concessões sérias para um acordo, são dignas de riso. No entanto, quisesse o sr. Borges verdadeiramente desapegar do poder, cumprindo o seu predominado altruísmo contestado, o sr. Soares dos Santos, senador pelo Rio Grande, estava disposto a ceder-lhe a cadeira na Câmara Alta. Por seu turno, os revolucionários que lutam por [...] não podem negociar com o sr. Borges, senão nestas condições — renúncia do chefe gaúcho, reforma da constituição estadual que está fora dos moldes da Magna Carta nacional, e eleição de um candidato qualquer, até mesmo dentre os adversários. Chegará o governo da República a uma solução? Custe o que custar, seja pela sua intervenção amigável ou pela intervenção militar, para repor o Estado dentro da lei, o governo federal tem a obrigação de fazer cessar aquela luta inútil. Todos os [...] estão clamando pela [...] imediata: o honor [...] que ali se pratica [...] do país no estrangeiro, a [...] deprimente de [...] e a [...] do [...] latifundiário [...] [...] derrama o sangue [...] [...]
Anúncios, notas e expediente
- Expediente Redação: drs. Andrade Furtado e José Martins Rodrigues Administração: A. Ildefonso de Araújo Dentre todas as misérias humanas, a maior é a do homem sem Deus: ela resume todas as mais e as agrava, porque encerra alguma coisa de infinito.—p. Didon. Ano I Fortaleza-Quinta-feira, 7 de Junho de 1923 Num. 282
- Nota social Ideal inatingível Contra a Virtude insurgem-se os profanos, Zombam do Cristo, profanando altares. Almas de lobo! Corações tiranos! Campeia o Crime em todos os lugares. Os homens, cada vez mais desumanos, Vão revivendo os ódios seculares. Tantos horrores! Tantos desenganos! Tanta miséria enoitecendo os lares! Onde o sorriso da Fraternidade? Referve das paixões o mar profundo. Nunca será, de certo, uma verdade A Paz universal, que o belo encerra. Enquanto a inveja dominar o mundo E não houver justiça sobre a terra. Ramos NETTO
- Telegrama Outra vista da situação alemã atual Escreve-nos um francófilo: «O Nordeste» mostrou estes últimos dias a situação atual alemã, como aparece a olhos alemães. Não assim, porém, aparece ela a todo o mundo e nem tampouco se impõe aos brasileiros o ponto de vista exclusivamente germânico. Pretende, por exemplo, o aludido artigo que a razão verdadeira da invasão do Ruhr, não é, como se tem dito, a má vontade da Alemanha em cumprir as imposições do tratado de Versalhes, mas sim a intenção manifesta do governo francês de conquistar aquelas regiões e incorporá-las ao território da França. Para provar esta tese com argumentos irrespondíveis, citam-nos pretensas palavras do próprio Poincaré, reproduzidas por dois jornais, qualificados ali de genuinamente franceses e insuspeitíssimos, a saber: «Le Radical» e «Le Populaire». Acrescenta-se que tais palavras nunca foram desmentidas. Quem conhece esses jornais, sabe que um católico nem os compra nem os lê, pois são ambos anticlericais rubros. «Jornais genuinamente franceses» dizem-nos, quando um «Le Populaire» é socialista-comunista e antipatriota, enquanto o outro, «Le Radical», é o jornal do partido homônimo, isto é, do partido maçônico, que promoveu, sustentou e procura reacender a guerra antirreligiosa na França. «Jornais insuspeitíssimos» dizem, quando não poderiam ser mais suspeitos. Pois ambos são adversários de Poincaré e do governo francês atual, cuja política, não só externa, mas ainda interna de paz religiosa combateu, encarniçadamente. «Jornais que não foram desmentidos», quando é notório que dez comunistas foram encarcerados por terem auxiliado os alemães na resistência do Ruhr e que o deputado francês Cachiy, do «Populaire», está sendo processado por suas calúnias contra o atual governo, na mesma questão do Ruhr. São tão insuspeitos aqueles jornais como quaisquer jornais políticos de oposição. Entretanto, vejamos as palavras que se atribuem a Poincaré: «Lamentaria, teria dito o ministro francês, que a Alemanha pagasse, porque assim teríamos que evacuar a Renânia, perdendo dessa maneira o proveito das nossas medidas, que visam conquistar, pacificamente, mas com as armas nas mãos, a população da margem daquele no divisor.» Se a Alemanha cumprisse as obrigações contraídas em Versalhes, seria isso o fim de nosso exército, porque teríamos que o desarmar». Pois bem! Tais palavras são absolutamente inverossímeis. Que vantagem tem um país qualquer, esmagado de impostos, em sustentar um exército numeroso, desde que este se torna desnecessário? Onde e em presença de quem teve Poincaré aquelas efusões sobre sua política, em desacordo com todas as suas declarações públicas? Certamente não foi a seus inimigos do «Populaire», nem do «Radical», que fez tais confidências. Além disto, se a França tinha tanta vantagem em não ser paga e a Alemanha tanto interesse em pagar, porque não fez a Alemanha o esforço relativamente diminuto, mas necessário para reunir os 3% apenas que, dizem, faltavam de carvão e de madeira a serem entregues? Foi porque não pôde? Consta que podia e não quis fazê-lo. Eis o que afirmou publicamente o ministro Poincaré, no discurso pronunciado em Dunkerque: «A Alemanha podia entregar-nos o carvão que não negou, pois agora ela se tem arranjado sem o carvão do Ruhr... Podia pagar-nos em valores estrangeiros, pois agora emprega esses valores em grande quantidade para fazer compras fora de seu território. Nós tomamos garantias, garantias que temos e seguramos com firmeza e que não havemos de largar em troca de meras promessas. Não sairemos dos territórios ocupados senão à medida e em proporção dos pagamentos efetuados. Não cogitamos de estrangular a ninguém, não temos outra ambição, senão ser pagos e precaver-nos contra um desastre financeiro.» Terminou seu discurso, rejeitando com desprezo as insânias daqueles que atribuem à França a louca situação de submeter à sua autoridade populações estrangeiras e apropriar-se de territórios. Eis porque, sem se deixar comover pelas manifestações socialistas e os apelos dos radicais, a massa da opinião pública reconhece cada vez mais a necessidade atual da política franco-belga do Ruhr. Que aos alemães custe reconhecer essa necessidade, compreende-se; mas aos brasileiros não assistem as mesmas razões. Assim, escutando as duas vozes — de Berlim e de Paris —, não será tão difícil proferir um juízo imparcial, reconhecendo que não se impõe a tese germânica.