Filho de Francisco Gomes de Mattos e D.a Maria Cândida de Mattos, 14.o filho dos 17 que teve o casal, nasceu em Icó a 7 de Fevereiro de 1853.
Francisco Gomes de Mattos, casado 2 vezes, teve 17 filhos do 1.° leito e 1 do 2.a, dos quaes os 15 l.os cearenses. D'estes existem em 1915 Manoel (Bacharel), Francisco Antonio, D.a Ignacia e Rufino, tendo fallecido depois de constituírem familias numerosas os de nome João (Bacharel), Antonio e Maria.
Destinado á carreira de Medicina por seu pae (sua mãe fallecerá em 1862), teve uma pneumonia aos 12 annos o que concorreu para que, a conselhos médicos, abandonasse os estudos, entregando-se ao commercio e limitando-se a obter algumas ligeiras noções de português, arithmetica, francês e geographia.
Occupou o logar de Inspector Escolar no Icó, para onde se mudara seu pae, e tendo confeccionado um trabalho sobre Instrucção Publica e não conseguindo ver realizados os melhoramentos que tinha em vista no ensino, apresentou sua demissão ao então Presidente da Provincia, Oliveira Maciel.
Casou-se a 16 de Abril de 1876 no Aracaty com D.a Maria Euthalia Caminha Mattos, filha do Coronel Silvestre Caminha e D.a Isabel F. Caminha, tendo tido 13 filhos, dos quaes 5 são vivos.
Achava-se alli dirigindo a casa commercial de Gomes de Mattos & C.a, quando em Agosto de 1875 teve uma hemoptyse que lhe aggravou a sua constituição demasiadamente débil, sobrevindo-lhe uma tuberculose, que o tem arrastado por diversas vezes ás portas da morte.
Vendo-se sem recursos médicos no Aracaty, veio á Fortaleza, em Dezembro de 1879 contra a opinião dos médicos que impugnaram a viagem, considerando-a fatal. Depois de ter passado um mez em Arronches (Parangaba) sem experimenta melhoras e tendo ficado muito satisfeito com a experiencia da viagem resolveu consultar os médicos no Recife, embarcando para alli em Fevereiro de 1880. Foram ouvidas as opiniões dos médicos Mello e Adriano e este, achando o doente em estado desesperador, manifestou entretanto que seria possível, com quanto não provável, restabelecer-se, caso podesse sugeitar-se á medicação prescripta, tendo por base o tratamento alcoólico, e foi este o prognostico mais favorável que obteve.
Não querendo sugeitar-se a voltar então para o Ceará, nem a procurar o clima do interior de Pernambuco, sem conduzir a família, conforme lhe aconselhara seu medico, dirigiu-se no dia 19 de Março para S. Bento, 50 léguas do Recife e umas 25 de Palmares, ponto terminal da linha férrea, conduzindo cargas de generos alimentícios e um caixão de medicamentos.
O inverno era rigoroso e teve de fazer a viagem em liteira, chegando a S. Bento em tal estado de magreza e abatimento que o coveiro da localidade indignou-se da audácia pretenciosa de vir pedir prolongação de dias aos ares de sua terra quem não disporia talvez de mais de 4.
Depois de 40 dias de febre, examinados diariamente ao thermometro, entrou em convalescença apenas retrahida por novos accessos hemoptoicos reproduzidos de mezes em mezes, mais ou menos intensos, conforme eram ou não febris, durante os 4 annor. em que alli esteve. Aproveitando a epocha de suas melhoras, fundou um Club, Litterario em que produzia poesias e discursos, fez uma serie de Conferencias abolicionistas e endereçou missivas (chronicas) para o Diário de Pernambuco.
Por ter trazido medicamentos para ir combatendo a sua moléstia e estar munido do Formulário e Diccionario de Chernoviz, teve de partilhal-os com alguns collegas de mal, e mais tarde attendendo aos seus instantes pedidos para medical-os, foi obrigado a transformar sua pequena ambulância em uma modesta pharmaeia auxiliando-o um pratico que lhe deu algumas lições de manipulação dos medicamentos. Entrando aos poucos de novo na vida commercial, a que o forçava a falta de recursos para sua manutenção, alargou o seu commercio com fazendas, miudezas, &, mas tendo sido mau o resultado e parecendo-lhe que a doença estacionara, resolveu voltar então para o Ceará, o que realizou em 1884, indo residir em Quixadá até 1890. Alli pela pratica que já tinha de phannacia e por não ter podido dispor da que tinha, tentou abril-a, mas tendo encontrado obstáculos de um pharmaceutico da localidade obteve com attestado de tres médicos ser licenciado.
Tendo se collocado em favor dos engenheiros revoltados contra o Chefe da Commissão do Reservatório, Dr. J. Jules Revy, e tendo sido este dispensado, logo que assumiu o Governo a dictadura de Novembro de 1889, estava naturalmente indicado para exercer um logar na referida commissão que passou a ser chefiada pelo Dr. Ulrico Mursa, que muito apreciava-o. Esse cargo foi o de almoxarife que exerceu por 9 mezes, occupando por algumas vezes o logar de pagador interino. Republicano d'esde 1868, foi escolhido para fazer parte da Camara Municipal, cargo de que foi exonerado poucos mezes depois, por ter divergido do programma do partido republicano, mandado organizar nas localidades. Esta sua orientação e a sua attitude fazendo parte do partido catholico levaram-n'o na eleição em 1890 para deputados federaes a interessar-se pelo pleito e tendo desapparecido, nas vésperas d'elle, o seu titulo de eleitor que possuia desde 1881 e de que só se utilisara por duas vezes (uma d'ellas na campanha abolicionista do gabinete Dantas), julgou-se na obrigação de mandar inserir na acta a declaração de que se estivesse na posse de seu titulo estaria pela chapa do partido catholico. Esta declaração, açu-lando as indisposições do director da politica na localidade que exigia a sua demissão, fez com que o chefe da Commissão, não obstante contal-o como um dos seus melhores empregados, conforme dizia, não tivesse duvida em exoneral-o, accedendo assim ás exigências do chefe da localidade e do governo do Estado.
Ficando adstricto á sua pharmacia que pouco lhe deixava, resolveu vir para Fortaleza onde esteve por mais de um anno na redacção d'A Verdade, órgão catholico, cargo que exerceu com tanto afan que sobreveio-lhe uma terrível hemoptyse em Agosto de 1902. Sendo a estação então muito aprasivel na Serra de Baturité, entendeu dever convalescer em Pacoty, mas lá sobreveio-lhe no dia seguinte N.ima congestão pulmonar, após a qual foi residir cm Quixeramobim onde abriu casa commercial até que por motivo de repetidos escassos annos de inverno foi obrigado a liquidal-a perdendo o pouco que ganhara.
Voltou então a residir em Fortaleza em 1905 e até princípios de 1915, quando transferiu-se para o Estado da Parahyba, applicou sua actividade ás obras mantidas pela Sociedade de S. Vicente de Paulo e á imprensa Catholica tendo sido por 8 annos redactor-chefe do Cruzeiro do Norte, jornal francamente catholico, apparecido em Fortaleza a 8 de Dezembro de 1906, até seu desapparecimento a 8 de Dezembro de 1914.
Bibliografia1
- Notas sobre o Município de Quixada, publicadas na “Revista do Instituto do Ceará”, 2.o, 3.o e 4.o trimestres de 1892.