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Biografia

Joaquim de Souza

datas não informadas no verbete

Há 4 outros cearenses de mesmo nome no acervo Joaquim Bento de Souza Andrade 1835–1893 Joaquim José de Souza Sombra sem datas · S. Bernardo de Russas José Joaquim Pereira de Souza sem datas · Icó Manoel Joaquim de Souza Vasconcellos 1816
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Natural de Fortaleza, filho de Francisco José de Souza, marchante, por alcunha Pinta-Femea, e de D.a Maria Magdalena.

Estudou no Collegio Atheneu Cearense que deixou, conhecendo mais ou menos o Português e o Francês.

Talento privilegiado mas luctando com a adversidade, entregou-se á vida de typographo, sendo suas tendas de combate as typographias do Cearense, essa por pouco tempo, e do Pedro II, cujo administrador então era Paula Lima. que costumava chamai-o de meu filho. Alli explodia, attrahindo as geraes attenções, seu talento de poeta, da escola Byroniana, republicano e atheneu. Chamavam de o Byron da Canalha.

Mas foram o Zephiro e a Revolução os dois jornaes de Fortaleza em que mais abundante e brilhantemente deixou elle á admiração publica os productos de sua intelligencia peregrina. Os escriptos que se contem nos dois citados jornaes estiveram colleccionados em mão de José Lino de Paula Barros, que lhes deu destino ignorado.

Cansado da vida bohemia, que levava em Fortaleza, e sedento de um meio mais movimentado e que lhe imprimisse ao organismo vibrações novas e mais violentas, pensou um dia em ir á Capital do Império. Foi isso em Abril de 1876.

A fortuna ou o infortúnio sob o veu de cinco contos, que lhe deixara o pae, facilitou-lhe realisar os projectos que acalentava e condusiu-o a aquelle grande palco, que em sonhos de moço se lhe afigurava de seducções e glorias, mas aos poucos foram se exhaurindo os recursos naquelle viver de estróina descuidado e a realidade se lhe antolhou tétrica e inclemente.

Já se contentava com o humilde emprego de carteiro dos Correios do Ceará, mas nem isso mesmo alcançava da benignidade do Ministro, que tantas vezes solicitara. Afinal resolveu o grande problema e no oceano em calma da Bahia do Guanabara sepultou para sempre as tempestades de sua alma afflicta e revoltada.

Não foi meu coração que desvairou-se, No deserto perdido peregrino— Foi a sina fatal que consummou-se; Eu nasci já maldicto do destino”.

Encontrado o cadáver do poeta suicida acharam-se-lhe no bolso uma moeda de vintém, um retrato e essa bella gemma poética, que se intitula A' Minha Irmã e que foi seu canto de cysne. Triste espolio! Era o 7 de Setembro de 1876.

O A' Minha Irmã dizia assim:

Oh! mar oh! solidão eu te saúdo: No deserto soberbo em que tu rolas Passa a aza subtil da garça branca Como tênue vapor que se esvaece: Mas o verme brutal não vae rasteiro Sobre o leito da dor dormir impuro. Alta noite na tolda do navio, Com os olhos fitos nos celestes lumes, Ora plenos de luz, ou desmaiados, Luzes de festa ou cyrios de sepulchro, Eu lembrei-me de ti, oh! minha terra, E foi teu meu suspiro amargurado! Feliz quem sob o lar de sua infância Dormio sempre em risonha placidez, Quem nunca no no céo estrellas negras, Os demônios da dor lançando o crepe Sobre santos recessos de sua alma... Feliz quem dormio somno tranquillo

Junto a casta família, e o desvario Nunca arrojou ao pélago das aguas! Adeus, oh ! minha irmã, oh ! meus amores! Nunca mais unirei os teus cabellos Ao meu seio febril e palpitante; Adeus e nunca mais passe esta sombra, Que tanto te adorou, por teus sonhares; Morra o meu nome qual a espuma branca Que resvala subtil no mar em calma!

Os trabalhos literários de Joaquim de Souza dão para um grosso volume. Esse thesouro elle próprio o condusiu para o Rio. Não se sabe onde pára por ventura, mas algo falará do assumpto Raymundo Justiniano, depositário fiel ou infiel não sei dizer.

Ouvi contar depois que por iniciativa de Paula Lima as poesias de Joaquim de Souza haviam sido cclleccionadas e iam sahir a lume, mas a noticia nunca se realizou ou . . . nunca se realizirá por infelicidade das letras cearenses e do renome do autor.