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Biografia

José Martiniano de Alencar

1829–1913

Conselheiro
Este nome aparece em 4 outros verbetes do acervo José Martiniano de Alencar 1794–1860 José Martiniano Peixoto de Alencar 1841 · Fortaleza José Martiniano de ALENCAR 1794 · Barbalha JOSÉ Martiniano Peixoto de ALENCAR 1841 · Fortaleza
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Este illustre Cearense, o creador do romance Brasileiro, dramaturgo, poeta, jurisconsulto, parlamentar, nasceu não em Fortaleza, como dizem o Nouveau Larousse illustre e a Grande Encyclopedie, mas em Mecejana a 1 de Maio de 1829. Foi seu pae o Senador José Martiniano de Alencar, e sua mãe D.a Anna Josephina de Alencar, fallecida no Rio de Janeiro a 3 de Fevereiro de 1867. Os dois eram primos.

Aos dezesete annos, e depois de haver feito os estudos preparatórios no collegio Januário Matheus Ferreira, matriculou-se na Faculdade de Direito de S. Paulo e fez a formatura em 1850, havendo, porem, estudado o 4.o anno em Pernambuco. Em 1848 fundou a Revista Ensaios Litterarios, de que foi redactor principal, e na qual, entre outros, publicou um trabalho sobre o indio Camarão.

Tendo mudado de residência em 1850 para a. Capital do Império, abriu ahi banca de advogado. Pouco depois recebeu a nomeação de professor de Direito Mercantil no Instituto Commercial.

De 1851 a 1855 fez parte do corpo redaccional do Correio Mercantil, sendo desse tempo seus notáveis folhetins sob o titulo Ao correr da penna.

Foi então egualmente collaborador do Jornal do Com-mercio.

Em Outubro de 1855 chamou a si a direcção e redacção do Diário do Rio de Janeiro em que se accentuaram seus méritos de jornalista.

Nas columnas do Diário appareceram suas celebres Cartas sobre a confederação dos Tamoyos, o conhecido poema de Gonçalves de Magalhães, Visconde de Araguaya. Assignava-os com Ig, as primeiras lettras do nome Iguassu, a heroina do poema.

As Cartas, que foram também tiradas em avulso, produsiram funda sensação. Não havendo quem viesse a campo para defeza do poema incriminado, o Imperador D. Pedro II, grande amigo e protector de Magalhães, conseguiu que Mont'Alverne tomasse-lhe o patrocínio. A discussão travada então entre o critico, cearense e o illustre franciscano manteve-se sempre em altura digna dos contendores. Finda a brilhante discussão, Mont’Alverne procurou e visitou a José de Alencar. Pela primeira vez se encontravam.

Em 1859 foi nomeado chefe de secção da Secretaria do Ministério da Justiça.

Em 1860 os Cearenses fizeram-o seu representante na Camara Geral, facto que por vezes, e mui merecidamente, se repetiu em 1869, 1872 e 1877.

Em 1868 subindo ao poder o partido conservador, o Marquez de Itaborahy, organisador do Ministério de 16 de Julho, convidou a José de Alencar para a pasta da Justiça. Divergências no seio do Gabinete forçaram-o a abandonar o posto a 10 de Janeiro de 1870 e a lançar-se no campo da opposição.

Quatro Cearenses mais foram ministros no 2.o Reinado, saber: Liberato Barroso, Araujo Lima, Domingos Jaguaribe Rodrigues Junior.

De 1869 a 1870 redigiu o Dezeseis de Julho. Por motivo de moléstias transportou-se a Europa em 1876, mas não logrando restabelecer-se voltou á pátria para fallecer no Rio de Janeiro a 12 de Dezembro 1877. Victimou-o uma affecção pulmonar.

Levou-o a morte quando estava a imprimir o seu poema Os filhos de Tupan, de que pretendia tirar uma pequena edição para distribuir entre os amigos.

São os seguintes os primeiros versos dessa sua notável producção :

I

Ao deserto, minlralma! Sobre os píncaros Da branca penedia, emquanto o vento Nos antros da montanha ulula e brame, Solte a rude pocema o canto fero

Dos filhos de Tupan. E ruja a inubia

Troando pela várzea os sons bravios.

II

Salve, Amazonas! Rei dos reis das aguas, Tamuy dos rios, filhos do diluvio! Mar, que do bojo golphas tantos mares, Fonte do abysmo que sorveu a America, E mais tarde,—quem sabe?—ha de sumil-a.

Salve, Amazonas! Como o sol és único, Gigante, que o maior dos oceanos Gerou nos flancos da maior montanha! Monstro vorace, o mundo tragarias Se Deus, te soffreando a fúria indómita, Não cavara em principio o vasto Atlântico, E só para conter-te a immensidade.

És origem do liquido elemento Que circumda o universo? És tu que pejas Do pélago sem fim as profundezas, Onde matam a sede o céo e a terra ? És pai das ondas, ou tyranno delias?

Colosso ingente, que fundiu em aguas

O verbo de um artista omnipotente,

A cabeça reclinas sobre os Andes

Ao céo rasgando as largas cataractas;

O dorso enorme resupino estendes,

Pela terra que verga com teu peso;

Os mil braços” que alongas pelas serras,

Abrangem tanto espaço que outros mundos

Couberam inda neste mundo novo,

Feito para teu berço. Com desprezo

Aos pés o collo esmagas do oceano,

Que mugindo se roja pelas praias;

Mas prostrado e vencido, não vassallo,

O mar soberbo ás vezes se revolta.

Alçada a fronte, a juba desgrenhada,

S'erriça e raiva e ruge e ronca e troa;

E a longa, immensa cauda, destorcendo

Te enlaça o corpo no imponente esforço.

Os filhos de Tupan está publicado nos primeiros vols da Revista da Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro Tem José de Alencar numa das praças da Capital Federal uma bella estatua, devida ao esculptor Rodolpho Bernardelli e inaugurada a 1 de Maio de 1897. Sobre tão justa homenagem ao grande cearense lea-se a Revista do Instituto do Ceará correspondente ao anno de 1897.

Quando o Ceará pagar-lhe-á egual tributo, honrando-se a si e ao filho, que tanto o celebrisa ?

Bibliografia41

  1. O Guarany, episódios da historia do Brasil nos tempos coloniaes, Rio de Janeiro, 1857, 4 volumes in 8.o. Ha 2.a edic, de Paris, 1868, em 2 volumes; 3.a e 4.” edic. também de Paris, 2 volumes in 8.o; 5.a edic. sahida no Rio de Janeiro em 1887. Ha ainda uma edic. com gravuras embora de pouco valor pertencente á Casa Editora de S. Paulo, 1906. Essa notável producção appareceu primitivamente em folhetins no Diário do Rio de Janeiro, 1856.

    Desse romance, que é o mais popular de tantos, que escreveu, ha traducções em francês, allemão, italiano e inglês. Ninguém ignora que do seu contexto fez o poeta Scalvini o libreto para a opera O Guarany, que immortalisou o maestro Carlos Gomes.

    Commemorando em 1883 o fallecimento do notável cearense, escreveu Capistrano de Abreu na Revista do Centro Litterario e Scientifico José de Alencar. “Niguem melhor que elle teve a intuição da vida colonial; ha paginas do Guarany e das Minas de Prata que valem por longas monographias. Foi também elle quem primeiro manifestou as tendências modernas, e o que ha de bom e natural no estylo dos es-criptores também actuaes é de seu exemplo que deriva”.

  2. O Marquez de Paraná, traços biographicos, Rio de Janeiro, 1856, in 16, de 35 pp. com retrato.
  3. Cinco minutos, A viuvinha, romance, Rio de Janeiro, 1856, 85 pp. in 8.o.
  4. O demônio familiar, comedia em 4 actos, Rio de Janeiro, 1857, in 8.o de 159 pp. É uma obra de propaganda contra a escravidão, como o,é também a Historia de uma moça rica, drama do Dr. Pinheiro Guimarães (1861) cujo protagonista foi Adelaide do Amaral, que acabou tão infeliz.
  5. Verso e Reverso, comedia em 2 actos, Rio de Janeiro, 1857, in 8.o de 78 pp.
  6. Carta que aos eleitores da província do Ceará dirige etc, Rio de Janeiro, 1860, 20 pp. in fol.
  7. A noite de S. João, comedia lyrica em 2 actos. Fez a musica o maestro Elias Lobo, Rio de Janeiro, 1860, in 8.” de 49 pp.
  8. As azas de um anjo, comedia em 1 prologo, 4 actos e 1 epilogo, Rio de Janeiro, 1860, in 8.o de 215 pp.

    As azas de um anjo subiu a scena no Gymnasio Dramático, Rio (première) a 30 de Maio de 1858 e teve os seguintes interpretes: Paiva (Luiz Vianna); Heller (Ribeiro); Graça (Araujo); Couto (Pinheiro); Pedro Joaquim (Menezes); Arêas (Antonio); Freitas (José); Adelaide Amaral (Carolina); Margarida (Noronha); Helena (Clotilde).

    Por causa dessa peça andou o autor desavindo com as autoridades policiaes.

  9. Lucíola, perfil de mulher. Paris, 1862, 194 pp. in 8.o. Teve 2.a, 3.a e 4.s edic, todas de Paris, e 5.a, do Rio de Janeiro. Era assignado com as iniciaes G M., o fez que se attribuisse algum tempo o livro a Gaspar Martins, o fogoso tribuno Rio-grandense.
  10. As Minas de prata, romance histórico, Rio de Janeiro 1862. Esta edição não ficou completa; seguiu-se-lhe uma outra, Rio de Janeiro, 1865, 6 vols. in. 8.o. Desse romance ha também uma edic. de Paris, 1877.

    O Visconde de Taunay (Reminiscências) considera as Minas de prata como seu livro de maior fôlego, e ajunta: Estabelecendo-se confronto com outras obras desse gênero e sobretudo de procedência portuguesa, das quaes a mais notável é sem duvida Os bandeirantes de Mendes Leal, podem Minas de prata ser tidas em conta de verdadeira obra prima.

  11. Diva, perfil de mulher, com 3 edições de Paris, 1861, m 8.0 de 164 pp., Paris, 1868, Paris, 1870.
  12. Iracema, lenda do Ceará, Rio de Janeiro, 1865, in 8.o. Lenda deliciosa de aroma, ensopada de poesia, magnificamente esplendida, bordada na vehemencia duma candidez scismadora, como diz Pereira de Sampaio no seu O Brazil Mental, p. 84.

    O editor David Corazzi, de Lisboa, incluiu a Iracema entre os volumes da Bibliotheca Universal, antiga e moderna.

    Alem da edic. de 1865 ha mais uma de 1870, outra, essa de Paris, de 1875. outra de 1896, outra de 1903, Rio. Jacintho Ribeiro dos Santos, editor, outra da Collecção Al-ves, Rio, 1909.

  13. Ao Imperador, cartas politicas de Erasmo, Rio de Janeiro, 1865, in 8.o de 92 pp. Com 2.a edic. em Paris, 1865, e 3.a no Rio de Janeiro, 1866. A 1.a dessas Cartas é de 17 de Novembro.
  14. Ao Imperador, novas cartas politicas de Erasmo, Rio de Janeiro, 1866, 82 pp.
  15. Ao Povo, cartas politicas de Erasmo. Ao Marquez de Olinda, ao Visconde de Itaborahy, Rio de Janeiro, 1866. São anonymas.
  16. Pagina da actualidade. Os Partidos, Rio de Janeiro, in 4.o de 32 pp.
  17. O juiso de Deus. Visão de Job, pamphleto politico, Rio de Janeiro, 1867.
  18. Uma these constitucional. A Princeza imperial e o principe consorte no conselho de Estado, Rio de Janeiro, 1867.
  19. 4 corte do leão, obra escripia por um asno, Rio de Janeiro, 1867, in 4.o de 16 pp.
  20. O Marquez de Caxias, biographia, Rio de Janeiro,
  21. A Expiação, comedia em 4 actos, Rio de Janeiro,
  22. O systema representativo, Rio de Janeiro, B. L. Garnier, 1868, in 8.o peq.
  23. Relatório do Ministério da Justiça apresentado á Assembléa Geral Legislativa, Rio de Janeiro, Typ. Progresso,
  24. Camara dos Deputados. Discussão do voto de graças. Discurso proferido na sessão de 9 de Agosto de 1869, Rio de Janeiro, Typ. de J. A. dcs Santos Cardoso, rua de Gonçalves Dias n. 60, 1869.
  25. O Gaúcho, romance brasileiro por Senio, Rio de Janeiro, 1870, 2 vols. In 8.o.
  26. A pata da gazela, romance brasileiro por Senio, Rio de Janeiro, 1870.
  27. O tronco do ipê, romance brasileiro por Senio, Rio de Janeiro, 1871, 2 vols. in 8.o.
  28. Sonhos de ouro, romance brasileiro por Senio, Rio de Janeiro, 1872, 2 vols. in 8.o.
  29. Guerra dos Mascates, chronica dos tempos coloniaes, por Senio, Rio de Janeiro, 1873, 2 vols. in 8.o.
  30. Alfarrábios, chronicas dos tempos coloniaes, Rio de Janeiro, 1873. São 2 vols. in 8.o, o 1.o dos quaes contem O garatuja, e o 2.o O ermitão da Gloria e a Alma de Lazaro.
  31. O Novo Cancioneiro, serie de cartas a um amigo,
  32. Ubirajara, lenda tupy, Rio de Janeiro, 1875, in 8.o de 208 pp.
  33. Til, romance brasileiro, Rio de Janeiro, 1875, 2 volumes in 8.o. Eslá tradusido em allemão por O. Th. Hoffmann.
  34. Discursos proferidos na Camara dos Deputados durante a sessão de 1874, Rio de Janeiro, Typ. de J. Villeneuve & O, 1874, in 8.o de 122 pp.
  35. Senhora, perfil de mulher, Rio de Janeiro, 1875, em 2 vols. in 3°. Essa obra, bem como Lucíola e Diva, estão assignadas por G. M. Rocha Lima publicou no Cearense, Julho de 1875, uma critica de Senhora.
  36. O Jesuíta, drama em 4 actos, Rio de Janeiro, 1875, in 8.o de 229 pp. Esse seu escripto deu occasião a uma violenta polemica com Joaquim Nabuco (Globo, folhetins Domingos).
  37. Encarnação, romance publicado nas columnas do Diário Popular, Rio, e cujo preço monetário foi applicado pelo autor ás victimas da secca de 1877. Já anteriormente o Guarany contribuirá com um conto de réis para a Santa Casa de Misericórdia de Fortaleza.
  38. Esboços Jurídicos, Rio de Janeiro, B. L. Garnier, Livreiro editor, 71 rua do Ouvidor, 1883, 239 pp. com uma introducção.
  39. A propriedade. Com uma prefação do Exm. Snr. Conselheiro Antonio Joaquim Ribas, Rio de Janeiro, B. L. Garnier, Livreiro editor, 71 rua do Ouvidor, 1883, 209 pp. e 12 capítulos. A prefação é de 12 pp.
  40. Como e porque sou romancista, editado por Mario de Alencar em Abril de 1893.
  41. O credito, comedia em 5 actos, publicada na Revista Brazileira, 1895 96. Foi escripta em 1857.

É a mais Brasileira das obras do autor, e é única no genero.

Da Iracema ha uma traducção ingleza, devida á penna de Burton.

1867, in 4.o.

1868, in 8.o. de 113 pp.

1869, 2 vols. in 4.o peq.

Nesse tempo J. de A. era Ministro e Secretario de Estado dos Negócios da Justiça.

1874.

Encarnação sahiu em livro em 1909, editor Garnier, com prefacio de Mario de Alencar, filho do autor e membro da Academia Brasileira de Letras.

Não conheço estudo sobre uma individualidade Brasileira que se avantaje ao de Araripe Júnior sobre Alencar (Literatura Brazileira, José de Alencar, 1.” edic. de 1882 e 2.a edic. de 1894, in 8.o de 204 pp).

Vê-se desse estudo que Alencar deixou iarga copia de trabalhos ainda inéditos. Chichorro da Gama (Através do Theatro Brasileiro) cita dous dramas não concluidos: Gabriella e O abbade.

Alem do citado trabalho de Araripe consultem-se sobre Alencar, o Fenimore Cooper do Brasil, como lhe chamou G. Pawlowki (Grande Encyclopedie);

Magalhães de Azeredo, José de Alencar, discurso pronunciado no Cassino Fluminense em 1894 — José Veríssimo, Estados Brazileiros, Rio de Janeiro, 1877-1885, e Estudos de Litteratura Brazileira, Rio de Janeiro, 1903.—Sylvio Roméro, A Litteratura Brazileira e a Crítica Moderna, Rio de Janeiro 1880.—Brandão Pinheiro, Estudos Litterarios e Biographicos, Rio de Janeiro, 1882.—Lopes Trovão, José de Alencar, o romancista, Rio de Janeiro, 1897, na Bibliotheca da Livraria do Povo.—Teixeira de Mello, Ephemerides Nacionaes.—Inno-cencio da Silva, Diccionario vol. V p. 60 e XIII p. 128.

O Ceará IIlustrado, anno l.o., n. 2, de 11 de Março de 1894, traz o seu retrato e biographia.

“A José de Alencar, que é também um abalisado jurisconsulto e valente tribuno politico, bastam as glorias litterarias para que o seu nome brilhe perdurável, em lettras de ouro, no grande livro da patria”.

José de Alencar era casado com D.a Georgiana Cochrane, neta do Almirante desse nome. Uma ironia do destino, pois José de Alencar era sobrinho de Tristão Gonçalves (Vide esse nome).

O Demônio Familiar e Verso e Reverso tiveram 2.a edição em 1864, Rio de Janeiro.

Sua mulher D.a Georgiana Cochrane falleceu no Rio de Janeiro a 17 de Março de 1913.