Hemeroteca
O Nordeste
Janeiro de 1923 · 21 trechos transcritos
Manchetes desta página
- Ecos Realizou-se, ontem, às 10h30, uma reunião dos sócios da 'Associação dos Merceeiros', para resolverem acerca dos novos impostos de consumo. Presidiu a reunião o sr. João José Vieira Costa, ladeado pelo representante do 'O Nordeste', o sr. Álvaro de Castro Correia, dr. Gustavo Frota Braga, consultor jurídico da Associação, e demais membros da diretoria. Falou, primeiramente, o sr. Euclides Themóteo, que expôs os motivos da reunião. Em seguida, o sr. Leandro Lyra discursou sobre os impostos vexatórios. Mostrou o seu espanto e o da sociedade a respeito da compra, pelos industriais, dos selos de imposto com o abatimento de 80%. Mostrou, com dados de estatística, a diferença das rendas do Estado entre os anos de 1920 e 1921, devido, somente, aos impostos de consumo. Apresentou, enfim, à diretoria a ideia de uma reclamação ao governo, por parte da Associação, contra os novos impostos. Discursou, depois, o advogado da Associação, dr. Gustavo F. Braga. Afirmou que as leis de receita não foram feitas para tiranizar o povo, mas tão somente para dar ao Estado os meios de ocorrer às necessidades públicas. O orador disse não acreditar que o dr. Justiniano de Serpa, jurista de mérito, fosse conhecedor do novo imposto opressivo. S. Excia. era estranho, de certo, a tais taxações do orçamento da receita. A classe dos merceeiros devia protestar contra os impostos de consumo. A venda dos selos aos industriais, com abatimento de 80%, era como transformar a secretaria da Fazenda em simples balcão de bodega! Explicou, em seguida, o que era o imposto do consumo nas normas do direito. Ainda falaram diversos oradores. Ficou assentado afinal que, por iniciativa da Associação, todas as associações se reuniriam, quinta-feira próxima, às 13 horas, e iriam ao palácio do presidente, levando um memorial no governo sobre o assunto, pedir-lhe que interviesse pela redução dos impostos. Ao terminar a sessão, o sr. Euclides Themóteo propôs que fosse inserta na ata uma nota de louvor pela atitude tomada pelo 'O Nordeste', colocando-se ao lado dos merceeiros, nesta questão. Um nosso companheiro agradeceu as palavras de carinho que teve para com o nosso jornal o orador oficial da Associação. Quase às 22h30 foi encerrada a sessão.
- Os novos impostos de [...] recepção senador João [...] aos merceeiros Thomé
- Conforme era esperado, regressou, hoje, a bordo do 'Acre', da capital do país, o ilustre representante do Ceará no senado da República, senador João Thomé de Saboya e Silva, um dos altos expoentes da política situacionista em nosso Estado. S. Excia. foi recebido com muitas demonstrações de apreço por parte dos seus correligionários e amigos. A bordo, apresentou saudações de boas-vindas ao eminente cearense uma comissão de políticos, composta dos drs. Leiria de Andrade, Feliciano Ataíde e Rubens Monte. No ponto de desembarque, tocaram as bandas de música do 23º de Caçadores e do Regimento Policial do Estado. Foi organizado, então, um préstito de mais de trinta automóveis e oito bondes especiais. Durante o percurso, da ponte metálica ao palacete do dr. João Thomé, no Bem-fica, foram queimadas várias girândolas. Na 'Villa Angelita', o dr. Leonardo Motta, redator do 'Correio do Ceará' fez o discurso de saudação ao dr. João Thomé. Apresentamos ao ilustre itinerante cordiais cumprimentos de boas-vindas.
- A Bahia, porto sujo BAHIA, 26 – Os vapores vindos do norte estão proibidos de atracar no cais do porto, visto ter sido a Bahia considerado porto sujo, devido à irrupção da febre amarela.
- Morte repentina RECIFE, 26 – Faleceu, repentinamente, o negociante José de Castro Monteiro, que durante alguns anos residiu nesse Estado.
- Pediu reforma RIO, 25 – Pediu reforma o cel. Bernardo Floriano de Brito, do quadro de farmacêuticos.
- O sr. J. Lustosa, proprietário da 'Casa Lustosa', ofereceu-nos gentilmente, uma amostra de sal de Mossoró, produto de primeira qualidade, de que é agente nesta praça. O artigo é realmente finíssimo e digno da aceitação que tem encontrado em nosso mercado. Agradecemos a gentileza da oferta.
- FEBRE AMARELA Serviço de Saneamento e Profilaxia Rural Em obediência ao disposto na circular n. 1.238, do sr. Diretor de Saneamento e Profilaxia Rural, o Chefe do Serviço neste Estado comunica aos srs. cidadãos que todos os casos de febre amarela, confirmados ou suspeitos, devem-lhe ser notificados. Fortaleza, 27 de Janeiro de 1923.
- Na manhã de ontem, em sua residência, à rua General Sampaio, 90, faleceu o cidadão suíço sr. Adolph Büchler, engenheiro da 'Dwight P. Robinson & Co, Inc.', o qual foi vitimado de febre amarela. Esse estrangeiro que tinha 36 anos de idade, desde sábado que estava acamado. Foi seu médico assistente o dr. Eliezer Studart. O seu enterro realizou-se ontem, à tarde.
Anúncios, notas e expediente
- Nota social A segunda entrevista de Pompeu Filho sobre a febre amarela no Ceará. [...] para expor o seu juízo sobre a administração anterior. No número passado, em que combatemos o infantil protesto do 'Correio', igualmente fizemos referência a um artigo do dr. João Nogueira, que tratava sobre o mesmo assunto. Os colegas, tomados de satisfação, encontraram o cômodo ensejo para refutar, alviçareiramente, conceitos que não lhes atribuímos. É pena que, com a saída dos antigos redatores do 'Correio', que hoje trabalham no 'O Nordeste', não tenham os colegas conhecimento das coisas que se relacionam com o passado do jornal. Aliás, a colaboração do sr. A. M. foi sempre muito considerada e bem aceita pelo diretor daquele vespertino que, por vezes, pessoalmente a solicitava. A esse tempo trabalhava no [...] o desentendido atual redator. Mas, se o sr. A. M. não é mais conhecido lá, fica por isso mesmo... O amor do próximo não obra mal... Temos, ainda, a dizer aos colegas que, na época da administração João Thomé, o 'Correio' possuía um redator especial para o serviço de elogiar o governo. Não precisamos citar nomes. Se, por vezes, os atuais redatores do 'O Nordeste' tiveram de fazer referências lisonjeiras, nas colunas do 'Correio', a atos da administração de S. Excia., cumpriram apenas um dever de justiça, imposto pela profissão, mas não o fizeram com o propósito meramente de ser agradável a S. Excia., a quem respeitam e consideram, mas sem julgar. Estamos, felizmente, numa terra pequena, onde os caracteres são conhecidos, e ninguém, senão por muita maldade, nos apontará como cortejadores do poder, porque todos aqui sempre nos viram desembaraçados de negócios com o governo e voluntariamente afastados dos penetrais de Palácio. O que, porém, não nos parece senão que tencionem, à nossa voz impetuosa. Na redação desta folha não tem o senador, que hoje aportou, gloriosamente, às nossas plagas, adversários, como não tem adu- [...]. Produto da excitação dos afervorados confrades o julgarem que o sr. A. M. que mereceu guarida, para analisar atos do. Nossos confrades do 'Correio' continuam tomados de uma solfreguidão maior, à procura de encontrar alguém que não diga ser o dr. João Thomé um administrador de tino inimitável, caído do cio por descuido. Precisam dar a todo transe uma manifestação a mais de carinho, de muito afeto ao excelso político, em torno de cujo nome gira o problema da sucessão presidencial do Ceará. E, por certo, têm lá suas razões.
- Telegrama RELIGIÃO 4º DOMINGO DEPOIS DA EPIFANIA Epístola (São Paulo aos Romanos, cap. 13, v. 8). Irmãos, a ninguém deveis coisa alguma, senão o amor, com que vos ameis uns aos outros, porque aquele que ama ao próximo não cometerá adultério, não matará, não furtará, não dirá falso testemunho, não cobiçará e se há algum outro mandamento, todos eles vêm a resumir-se nesta palavra: 'Amarás o teu próximo como a ti mesmo'. O amor do próximo não obra mal. Logo, a Caridade é o complemento da Lei. Evangelho (São Mateus, cap. 8, v. 23-27). Naquele tempo, entrando Jesus numa barca, o seguiram seus Discípulos. E eis que sobreveio no mar uma grande tempestade, de modo que a barca se cobria das ondas, e entretanto Ele dormia. Então se chegaram a Ele seus Discípulos, e o acordaram, dizendo: Senhor, salvai-nos, que perecemos. E Jesus lhes disse: Por que temeis, homens de pouca Fé? E, levantando-se, pôs preceito ao mar e aos ventos, e logo se seguiu uma grande bonança. E os homens se admiraram, dizendo: Quem é este a quem os ventos e o mar obedecem?
- Anúncio VINHO DE AGRIÃO (Iodo fosfatado) Farmácia Pasteur 20(2
- Anúncio VINHO DE AGRIÃO - Contra tosse Farmácia Pasteur. 20|2
- Telegrama Telegramas DO PAÍS Aviadores a Recife RECIFE, 26 – Chegaram inesperadamente, hoje, às 11h50, os aviadores Hinton e Martins, sendo recebidos com extraordinárias festas. Foi indescritível o entusiasmo popular na recepção dos 'raiders'. O raid pedestre de Natal ao Rio RECIFE, 26 – Chegaram, pela manhã de hoje, a esta cidade, os escoteiros que fazem o 'raid' pedestre de Natal ao Rio. MATRÍCULA NA ESCOLA NORMAL RIO, 26 – O prefeito assinou um decreto, limitando a 250 o número de matrícula na Escola Normal.
- Anúncio LEITE DE COLÔNIA O melhor creme para o embelezamento da cutis. Torna a pele alva e acetinada, fixa muito bem o pó de arroz. Destrói sardas, as espinhas e os panos. Vende-se nas Perfumarias e Farmácias.
- Anúncio Óptico-oculista OPTOMETRISTA Com longa prática em consultórios de oculistas notáveis de New York, Paris e Barcelona
- Anúncio DR. CEBERINO Permanecerá nesta capital até o fim de Janeiro (3ª cab.) Especialista para corrigir todos os defeitos de refração dos olhos EX-EXAMINADOR Consultas no HOTEL BITU', das 8 da manhã às 5 horas da tarde
- Anúncio Cortinas de Rendas [...] na Alfaiataria Francozi Peixoto, 157.
- Anúncio Ferreira, Cezar & Cia. Agência de Comissões, Representações e Consignações ACEITAM-SE prédios para administrar; encarregam-se também de vender ou comprar, consertar etc. Recebem nas repartições federais ou estaduais, ORDENADOS de empregados ou contas de JUROS de apólices federais ou estaduais, bem assim, encarregam-se de FIANÇAS de coletores federais ou estaduais; dividendos de ações nos bancos ou companhias. Prestando contas mensalmente ou a QUALQUER MOMENTO que o constituinte quiser. Acha-se esta seção a cargo do Snr. JOSÉ PEDRO DE MELLO CEZAR, diretor aposentado da SECRETARIA DA FAZENDA, com longa prática do serviço. As procurações podem ser passadas à firma da seguinte forma: Nomeio meu bastante procurador os Srs. FERREIRA, CEZAR & Cia., negociantes, residentes à rua Major Facundo n. 234, no Ceará, etc. O resto dos dizeres são os de costume. Rua Major Facundo, 234 End. telegr.: REICEZAR
- Anúncio Grande e variado sortimento de fitas, penas, algarves, fivelas, flores e palhas para chapéus, miçangas, contas de aço, bicos de seda, alfinetes, chantilly, meias de seda de cores, sombrinhas, véus e chapéus para noivas, despachou a EIFFEL.
- Nota social Intransigências... (Tradução especial para 'O NORDESTE') Eram 9 horas da manhã, quando a senhora F. apareceu à porta da sacristia. Apesar da hora matinal, ela já estava 'sob as armas': rosto coberto de pó, manteau impecável, fisionomia bastante amável, mas sob a qual eu pressentia, vagarosamente, a adversária pronta a se revelar. — Sr. Vigário, venho falar a V. Revma. sobre uma pequena desinteligência, ocorrida ontem entre um dos seus auxiliares. — Note que a senhora talvez não tenha razão. — Ah! E por quê? — Porque os meus auxiliares são excelentes. A partir deste momento fechei os olhos para escutar o tema usual e que eu adivinhara. E eis, palavra por palavra, o diálogo que se passou entre nós. — Sr. Vigário, eu queria que meu filho não estudasse mais um ano de catecismo. — Que idade ele tem? — Quase dez anos. — Queira expor-me as suas razões. — É por causa de seus estudos que são absorventes. — O seu pequeno é talvez... Em latim se chama isso 'minus habens'... — O que quer dizer? — Que ele não tem lá essas facilidades extremas... — Absolutamente!! Absolutamente!! É precisamente o contrário! Meu rapaz é muito inteligente. Aprende tudo o que. Em um ano ele terá igualado e mesmo excedido todos os colegas que já cursaram um, dois, três anos de catecismo e que são evidentemente inferiores a ele. — Não digo isso; mas afirmo que em um ano meu filho saberá seu catecismo na ponta da língua. — Poderá mesmo aprendê-lo em um mês! — Oh! Certamente! — Então, bastarão talvez uns oito dias de catecismo? A dama fitou-me. — Sr. Vigário, parece-me que V. Revma. está... — Sim, minha senhora, um pouco— Um silêncio. — E por que o menino não frequentou as aulas de catecismo o ano passado? — Esteve doente. — O que não o impediu provavelmente de ir ao colégio. — Era necessário para que não chegasse atrasado. Aos dez anos o pequeno é acabrunhado de trabalhos. Foi a custo que introduzi as lições de piano, de inglês e de ginástica... Assim, quando vem a sobrecarga do catecismo, V. Revma. deve imaginar qual é o meu embaraço! —... A sobrecarga do catecismo!... E encarei essa mulher — essa mãe, que punha o catecismo depois do piano, depois do inglês, depois da ginástica. Havia uma tal distância entre o que ela era e o que devia ser que eu hesitei, quase, a começar. Entretanto ela tinha... devia ter uma alma! Então ensaiei fazer-lhe presente a situação. — Primeiramente, minha senhora, temos um regulamento oficial estabelecido pela autoridade diocesana. Por esse regulamento, que deve ser observado em todas as paróquias, a criança deve seguir o curso do catecismo durante dois anos. Se eu concedesse uma exceção à senhora, qual seria a minha situação perante os meus superiores e mesmo diante de outros pais, que me pedissem o mesmo? — A senhora queixa-se que seu filho está sobrecarregado. Mas qual é a sobrecarga...? Leva-o do principal, depois de tê-lo acabrunhado de acessórios. Pois pode ser-se um homem do bem sem saber piano, sem inglês e mesmo sem ginástica; mas é difícil sê-lo sem o catecismo. — E entretanto, sr. Vigário, conheço homens perfeitos que nunca estudaram — o catecismo! — É preciso nos entendermos sobre o que a senhora entende por 'perfeito'. O catecismo não é uma questão de memória; é uma educação. É o ato lento, progressivo, harmonioso, que suscita o cristão adormecido na criança. O seu filho foi chamado a viver numa época tormentosa: terá paixões a combater, a domar, deveres a cumprir. É o catecismo que ensina a razão suprema de tudo isso... razão que é Deus. ... Ora, para com Deus há também grandes deveres a cumprir. Como esta criança poderá compreendê-los em um curso breve, precipitado, que não poderá ser assimilado? O tempo não respeita o que é feito sem ele... Mas a dama não prestou lá grande atenção às minhas razões. Esperara, enervada, que eu acabasse, para me lançar seu último argumento, que eu conhecia (oh! quanto!), pois é sempre o que encerram as discussões. — Sr. Vigário, sinto muito, mas se meu filho precisa cursar os dois anos, previno a V. Revma. que seu pai não aceitará jamais esta tirânica decisão e que, por conseguinte, meu rapaz não fará sua primeira Comunhão. — Pobre menino... será ele quem pagará o pato... Aí, a senhora levantou-se, distendeu as dobras de seu manteau azulado e, com o olhar austero, tornou a calçar as luvas cuidadosamente. À última pressão, porém, ela sacudiu-me esta deixa, como um post-scriptum: — Eu o direi mais tarde, a meu filho!... Contar-lhe-ei as cenas desta manhã e a intransigência de V. Revma.! 'Meu filho, se não fizeste a tua primeira Comunhão, não foi por falta de tua pobre mãe! que tudo empenhou para que a fizesses. A culpa foi...' —... do sr. vigário! — Perfeitamente! E saiu com uma tal rapidez que precisei avisá-la com muita brandura! — Cuidado, minha senhora, a escada está muito encerada. Pierre l'Ermite