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Biografia

Fenelon Bomílcar da Cunha

1836–1884

Há outro cearense de mesmo nome no acervo Fenelon Bomílcar da CUNHA sem datas
4 min de leitura 795 palavras

Nasceu em Crato a 4 de Junho de 1836 e falleceu em Fortaleza a 7 de Junho de 1884.

Era casado com D.a Anna de Alencar B. da Cunha, filha de Reinero de Alencar, neta de D.a Ígnacia de Alencar, que foi irmã de D.a Barbara de Alencar, e é avó do Almirante Alexandrino. Deste consorcio houve Fenelon quatro filhos e quatro filhas, sendo estes Alfredo, Arthur, Alvaro (aos quaes já me referi) e Fenelon Bomílcar da Cunha, 1.° tenente do Exercito, professor do Collegio Militar e da Escola Normal do Rio de Janeiro, e genro do Coronel Alexandre Barreto (vide).

A família de Fenelon Bomílcar é toda de Fortaleza. Seu pae, João da Cunha Pereira, por alcunha João Branco, devido á alvura de sua tez, era filho de D.a Antónia da Cunha Pereira Couto, tia da mãe do Coronel Licinío Nunes (vide) e da mãe de Felino Barroso, pae do Dr. Gustavo Barroso (vide), todos descendentes dos famosos Cunha Pereiras, fidalgos portugueses estabelecidos no fim do século 17. no Boqueirão-de-baixo, Jaguaribe.

O cognome Bomilcar não tem nenhuma significação genealógica: foi adoptado arbitrariamente por Fenelon, consoante a moda do seu tempo.

Quando falleceu na Fortaleza, a “Gazeta do Norte”, da qual era redactor juntamente com Thomaz Pompeu, João Lopes e João Brigido, appareceu toda tarjada de luto e do artigo necrologico transcrevo os seguintes trechos:

O partido liberal soffreu um golpe profundo, perdendo este lidador incansável, fie! e paciente”.
Como nome de provinda era um dos mais notáveis da actualidade*.
... A “Gazeta do Norte” dá sua fé de que nenhuma penna das que honraram suas columnas prestou melho-x res serviços á causa liberal”.
Escrevia primorosamente e reunia a um estylo elegante e correctíssimo um aproposito admirável, bom senso e critério nunca desmentido. O fundo do seu caracter era a lealdade, a mansuetude ea abnegação, e nos seus es-criptos nunca falhou a verdade, o commedimento e a ordem que attestassem a serenidade e sanidade dos seus princípios”.

“Era de uma impassibilidade heróica”.

Em um artigo do “Unitário” de 13 de Setembro de 1910, a propósito de um membro da família Cunha, disse João Brigido:

Fenelon Bomílcar da Cunha foi intelligencía privilegiada que tudo sabia por intuição, tudo aprendia com escassa e rápida leitura. Fez-se advogado, publicista e orador”.

Iniciou-se no jornalismo collaborando para o “Araripe”, jornal do Crato. Alli alguns annos depois fundou “A Liberdade”, tendo sido por muito tempo o correspondente do “Cearense”, de Fortaleza.

Advogado pela Faculdade de Direito do Recife, foi promotor publico, presidente da Camara Municipal do Crato, deputado varias vezes á Assembléa Provincial, e na Fortaleza, para onde se transferiu em 1879, foi secretario do Presidente José Julio de Albuquerque Barros (vide), fallecendo como Secretario da Estrada de Ferro de Baturité.

Fenelon era grande cultor da língua latina; nos seus memoriaes encontram-se muitos assentamentos nessa língua. Sabia de cor paginas e paginas de Virgilio, Ovídio, Horácio e outros clássicos.

Foi homem sem vaidades, modesto e quasi um dispersivo. Produziu muito, mas nada colleccionava: versos, peças theatraes, modinhas (compondo elle mesmo a musica, pois que era também bom musico),artigos e discursos, tudo se perdeu ou anda na tradição no sul do Ceará. Dos Annaes da Assembléa Provincial vê-se que elle fallava quasi diariamente, mas sempre vem a nota : Snr. Fenelon—Não devolveu o seu discurso. Não se dava ao trabalho de rever discursos; que fizessem o effeito que collimava. Por alguns pareceres registrados nos Annaes é que se pode ajuisar dos seus conhecimentos legaes e da clareza do seu senso jurídico.

Cultivou as musas em sua mocidade, mas abandonou-as, como sempre acontece aos que são absorvidos pelos negócios públicos. No “Cearense” de Fevereiro de 1877, encontra-se, porem, uma poesia sua, que dá a medida da sua capacidade poética. É uma elegia ao poeta Xilderico de Faria, que se suicidou atirando-se ao mar. Transcrevo delia estas estrophes:

Fi-lo, o poeta, o vate peregrino,

Que ao mar foi segredar o seu destino

A fitar o horisonte; As sombras duvidosas do sol posto Lhe transmittem dúbia luz á tez, ao rosto,

Lhe annuviam a fronte.

Para que tanto capricho la do ceo? Que importam ameaças do escarceo

Ao cysne moribundo?

A quem morreram em flor as vagas crenças

E levou a recalcar dores immensas

Que importa, que vale o mundo?

E termina assim :

Que cruciantes dores o pungiam? Que miragens do ignoto o seduziam ?

Guardou em fundo sacrário... Ter o negro escarceo por cenotaphio, Ver o mar soletrar-lhe o epitaphio

Bibliografia1

  1. Eis o seu fadário.

    Tendo Fenelon trabalhado muito em sua curta vida e influído bastante no meio em que floresceu, depois de sua

    morte fez-se um grande silencio sobre seu nome. Isso. diz Macauley, referindo-se a John Hampden, “é uma prova de que nem o odio encontrou falhas em sua memoria”.